MISSÃO E MINISTÉRIOS
DOS LEIGOS E
LEIGAS CRISTÃOS
O SERVIÇO À
VIDA E À ESPERANÇA
APRESENTAÇÃO
Ressoa ainda em nossos ouvidos a palavra de
Jesus proclamada na liturgia do 2º Domingo da Páscoa e na Festa
de Pentecostes: "A paz esteja convosco! Como o Pai me
enviou, também eu vos envio!" (Jo 20,21). Palavra
acompanhada pelo Dom do Espírito: "Recebei o Espírito
Santo!" (Jo 20, 22).
Neste ano em que a atenção de toda a Igreja
se volta para o Espírito do Senhor, verdadeiro protagonista da
missão da Igreja, retomamos a nossa reflexão sobre a
responsabilidade de todos os discípulos e discípulas de Cristo
na missão de evangelizar. Fazemos isto dando continuidade
aos esforços anteriores, que se concretizaram nos
documentos-chave da evangelização para a Igreja no Brasil: as
"Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora"
(1995-1998) e o Projeto de Evangelização "Rumo ao Novo
Milênio", nascido em resposta ao apelo do Santo Padre João
Paulo II para a grande conversão e renovação missionária, que
deve preparar a celebração dos 2000 anos de cristianismo.
A nossa reflexão se dirige especialmente aos
cristãos leigos e leigas. "Missão e ministérios dos
leigos" foi o tema central da nossa 36a.
Assembléia Geral, reunida em Itaici de 22 de abril a 1º de
maio. O tema abrange dois aspectos: a missão do leigo cristão
na sociedade e os ministérios que leigos e leigas podem assumir
e de fato assumem generosamente na comunidade eclesial. Trata-se
de dois temas distintos, que geralmente são enfocados a partir
de perspectivas teológicas diferentes. Mais: são duas
diferentes áreas de atuação dos cristãos leigos, entre as
quais existe às vezes distância e até pouca compreensão
recíproca.
Abordando juntamente os dois temas, quisemos
mostrar sua unidade na distinção, sua complementaridade, sua
profícua articulação. Toda a Igreja é missionária e
ministerial. A comunidade evangelizadora, guiada pelo Espírito
de Cristo, é o fundamento comum da missão na sociedade e dos
serviços internos das comunidades eclesiais.
O documento de estudo, que estamos
apresentando, foi elaborado num prazo relativamente curto, o que
dificultou a consulta a um maior número de pessoas e organismos.
A reunião do Sínodo para a América em Roma (16.11
12.12.1997) adiou os trabalhos da Comissão de redação, ao
mesmo tempo que permitiu aos Bispos brasileiros renovar sua
sintonia com o Santo Padre e o episcopado do Continente e ampliar
a consciência da conjuntura em que vivemos.
Com os trabalhos da nossa Assembléia, o
documento de estudo alcançou clareza e consistência, que o
tornam uma boa base de diálogo com todas as pessoas, comunidades
e instituições interessadas no tema. De fato, já recebemos
diversas solicitações, sobretudo de Conselhos de Leigos
nacional, regionais e diocesanos para que acolhamos
sugestões e ponderações daqueles cristãos e cristãs que
estão ardorosamente empenhados na evangelização, segundo
diversas vocações e nos mais diversos campos.
Por isso, estamos enviando agora este
documento, para que em todos os lugares e níveis onde for
possível, seja estudado, verificando a pertinência das
análises, a correta interpretação da fundamentação
teológica, enriquecendo a partir da experiência vivida
as diretrizes práticas.
Os frutos desse estudo, na forma de sugestões
e emendas ao documento, poderão ser enviados diretamente ao
Secretariado Geral da CNBB até 15 de outubro de 1998.
Mesmo após desta data, o documento
permanecerá como um subsídio precioso para o estudo do tema e
para preparar a recepção do futuro documento conclusivo, fruto
do "mutirão" que estamos agora promovendo.
Suplicamos a Deus nosso Pai, por Cristo e no
Espírito Santo, que não somente abençoe este momento de estudo
e reflexão, mas também faça dele a oportunidade de um renovado
empenho dos leigos e de todos nós na missão do serviço à vida
e à esperança.
Encorajamos todos os cristãos, leigos e
leigas, de nossas paróquias, comunidades, associações,
movimentos e organizações pastorais, bem como àqueles que
aparentemente sozinhos, mas sempre sustentados pelo
Espírito de Deus e a oração da Igreja testemunham sua
fé e sua solidariedade em situações de fronteira, no coração
do mundo, lá onde só eles podem levar a presença viva do
Cristo Ressuscitado, para que prossigam em sua admirável
dedicação. Manifestamo-lhes nossa alegria e imensa gratidão.
Que todos, como Maria Santíssima e os
discípulos na manhã da Ressurreição, possam estar
"cheios de alegria" por verem e ouvirem o Senhor!
Dom Marcelo Pinto Carvalheira Responsável pelo
Setor "Leigos" na Comissão Episcopal de Pastoral
Dom Angélico Sândalo Bernardino Responsável
pelo Setor "Vocações e Ministérios" na Comissão
Episcopal de Pastoral
INTRODUÇÃO
- Os homens e as mulheres de hoje se parecem
com os caminhantes que iam, na tarde da Páscoa, para
Emaús. Decepcionados, conversavam entre si sobre seus
desenganos, sobre as esperanças frustradas. É a mesma
conversa do povo hoje: esperava por um progresso
econômico, e vê a situação pessoal piorar; esperava
por saúde, e vê voltarem antigas doenças dadas
como debeladas para sempre; esperava por paz e
convivência fraterna, e é atingido pela violência que
não escolhe suas vítimas e torna todos inseguros;
esperava por uma administração pública eficiente e
honesta, atenta às necessidades do povo, como lhe foi
prometido, e desconfia de que na política prevaleçam os
interesses de poucos, dos que querem aumentar ainda mais
seu patrimônio, a preço da exclusão de muitos;
esperava por cristãos mais fiéis ao Evangelho, mais
empenhados no serviço aos irmãos, mais abertos ao
diálogo, e encontra frieza e pouca fé... Desconfiam,
às vezes, até de Deus, como o salmista: "Meu Deus,
meu Deus, por que me abandonaste?" Como pode Deus
permitir a crucifixão de tantos irmãos?
- Não faltam esperanças, ou ao
menos expectativas, por exemplo, nos avanços da ciência
e da tecnologia. Mas eles também parecem ser de proveito
para poucos. E tornam ainda mais absurdo que continuem
fenômenos como fome, doenças, miséria, desemprego, que
uma melhor distribuição dos recursos poderia eliminar
no Brasil e no mundo.
- O povo a caminho procura muitas
vezes esquecer seus dramas na diversão, no
entretenimento oferecido pela mídia eletrônica, no
jogo, no álcool, nas drogas... Mas também, com maior
empenho nos últimos anos, as pessoas procuram resposta e
caminho na filosofia, nas religiões, em diversas formas
de espiritualidade. Nós, cristãos, redescobrimos de
maneira nova a Palavra de Deus e a presença viva de
Cristo. Percebemos que as muitas ideologias alternativas
ao cristianismo, que inspiraram projetos nobres, mas
também conduziram às piores tragédias da história em
nosso século, deixaram ainda mais claro que Cristo é,
para a humanidade de hoje, o Caminho, a Verdade e a Vida.
- Diferentemente de filosofias e
outras religiões, o cristianismo não propõe uma
verdade abstrata, uma mera doutrina, mas acredita na
presença de Alguém que caminha conosco, mesmo que às
vezes nossos olhos não o reconheçam. Nossos olhos se
abrem, quando o reconhecemos no "menor dos
irmãos" que nos pede pão, água, roupa, casa,
assistência médica, justiça ou, simplesmente, uma
atenção, uma visita. É quando os caminhantes de Emaús
convidam o desconhecido a sentar-se à mesa com eles, a
partilhar a ceia, que seus olhos se abrem. O mesmo
acontece hoje, quando esta ceia é celebrada como
Eucaristia, agradecendo ao Pai pela entrega do próprio
Cristo Jesus, que se oferece por nós e nos alimenta, na
jornada, com o dom do Pão e do Vinho.
- Quando a humanidade descobre e
pratica a solidariedade e a partilha, já está movida
pelo Espírito de Jesus. Já reencontrou a esperança.
Já está acolhendo o "reino de Deus" e
começando a superar as decepções e suas causas.
- No meio da humanidade,
solidários com ela, estão os discípulos e as
discípulas de Cristo. São aqueles que, tendo
reconhecido o Cristo caminhando ao seu lado, correm para
anunciar aos irmãos e irmãs que o Cristo ressuscitado
está vivo no meio de nós.
- Os cristãos, portanto, são no
mundo portadores da esperança: de que a morte do Justo
não é a última palavra da história, pois o amor do
Pai o ressuscitou; de que Deus há de ressuscitar
"nossos pobres corpos mortais"; de que o nosso
futuro está no reino de Deus, na afirmação do seu
governo na história do mundo, enfim purificada de todo o
mal. Esperança que o livro da Revelação descreve com
as imagens da cidade maravilhosa, que não precisa
de sol ou lua, porque "é a glória de Deus que a
ilumina", e da renovação total, dos
"novos céus e nova terra":
"Deus habitará com
eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu
Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais
haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor... Sim! As coisas
antigas se foram!".
- A esperança, porém, não aliena os
cristãos dos outros homens e mulheres. Ao contrário,
torna-os ainda mais solidários. "As alegrias
e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens
de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem,
são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e
as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra
nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no
coração". "A esperança de uma nova terra,
longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude
pelo aperfeiçoamento desta terra. O progresso terreno...
é de grande interesse para o Reino de Deus".
- Por isso, o cristão
"levanta a cabeça" e olha para a libertação
que se aproxima, mas não deixa de "pôr as mãos no
arado" ou na foice, não pára de trabalhar para
alimentar a família humana, nem deixa de ser o
"administrador fiel" dos bens que Deus lhe
confiou, a serviço de irmãos e irmãs. O cristão eleva
seu coração a Deus na oração, de onde haure luz para
discernir os caminhos da justiça e da paz no mundo
humano.
I. DESAFIOS E SINAIS DOS
TEMPOS
- O cristão olha para o mundo com realismo
e com esperança. Procura reconhecer nele os sinais da
vontade de Deus e os caminhos que apontam para o Reino,
assim como distinguir os obstáculos e as forças do mal
que impedem a sociedade humana de avançar na direção
da justiça e da paz.
- Neste momento histórico,
estamos diante de uma realidade particularmente complexa
e, ao mesmo tempo, contraditória e fragmentada.
Torna-se, portanto, difícil compreender os rumos da
história atual ou fazer julgamentos corretos. Nasce, em
muitos, a sensação de incerteza, muitas vezes de
desorientação, da qual procuram fugir,
"simplificando" a realidade, considerando
apenas alguns aspectos dela, criando esquemas ou imagens
simplistas do que está acontecendo. Mesmo assim, é
necessário esforço para situar nosso contexto, dentro
de um quadro mais amplo, visto que a
"globalização" aumenta sempre mais as
influências externas sobre a realidade em que vivemos.
- Cientes dessas dificuldades,
queremos aqui apenas destacar rapidamente alguns traços
da situação atual, que são relevantes para a
consciência cristã e a missão do evangelizador.
Constituem verdadeiros desafios para hoje e para o futuro
próximo. Cabe a cada cristão dentro de sua
comunidade, organização ou movimento fazer um
discernimento mais profundo e concreto desses desafios,
percebendo as luzes e as sombras, os sinais da graça e
as seqüelas do pecado. Todos temos a obrigação de nos
esforçar, iluminados pela fé, para compreender a
realidade e buscar caminhos.
- DESAFIOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E
POLÍTICOS
- A economia exerce grande influência sobre
a nossa sociedade. As mudanças no mercado são mais
rápidas do que no passado, conseqüência dos avanços
da tecnologia e de maior interdependência das
economias nacionais (fenômeno da
"globalização"). Ao lado de alguns aspectos
positivos - intercâmbio de informações, produtos,
serviços e relacionamentos em escala global - a
globalização tem acarretado graves preocupações,
porque orientada, de fato, pela ideologia do mercado, que
tem diminuído a autonomia dos Estados nacionais e
concentrado ulteriormente a renda. Este fenômeno cria
novas e imprevistas situações de pobreza, aumenta o
desemprego, força a migração em busca de trabalho mal
remunerado, enfraquece a política social, causa a
exclusão de multidões. Isso acontece sobretudo onde tem
sido adotada sem restrições a política econômica
"neoliberal". Na opinião de muitos, essa
política poderá favorecer apenas uma pequena parte da
humanidade, excluindo, de fato, a maioria da população
dos benefícios conseguidos.
- Na encíclica para "O
Centenário da Rerum novarum" (1991), o papa
João Paulo II reconhecia que "o livre mercado
parece ser o instrumento mais eficaz para dinamizar os
recursos e corresponder eficazmente às
necessidades". Mas acrescentava: "Contudo,
existem numerosas carências humanas sem acesso ao
mercado. É estrito dever de justiça e verdade impedir
que as necessidades humanas fundamentais permaneçam
insatisfeitas e pereçam os homens por elas
oprimidos...Abre-se aqui um grande e fecundo campo de
empenho e de luta, em nome da justiça... É correto
falar de luta contra um sistema econômico, visto como
instrumento que assegura a prevalência absoluta do
capital, da posse dos meios de produção e da
terra".
- Nesse contexto, tem crescido a dívida
externa dos Países em desenvolvimento e a dívida
social para com a maioria dos seus próprios
cidadãos, cujo trabalho é mal remunerado e aos quais
são negadas as condições básicas de alimentação,
moradia, educação e saúde. Dessa forma se enfraquece
ou se esvazia a própria democracia. Os grandes
interesses financeiros condicionam unilateralmente o
Estado e lhe impedem o cuidado do bem comum de todos os
cidadãos.
- O Brasil depende hoje
fortemente do sistema financeiro internacional. Seus
problemas são agravados pela desigualdade social muito
acentuada, entre as maiores do mundo, que comporta
imensa massa de deserdados e sofredores, além do mais,
provados pela crescente onda de desemprego e a
lentidão da Reforma Agrária.
- Nisso tudo se manifesta a
tendência mais geral da sociedade moderna, que subtrai
a política e a economia a considerações éticas,
tais como o respeito dos direitos básicos de toda pessoa
humana, a primazia do trabalho, a solidariedade. Como
cristãos, devemos avaliar em profundidade as
conseqüências dessa inversão de valores,
principalmente no que diz respeito ao grave problema da
deformação das consciências. Nossa sociedade vai se
habituando a conviver com contravalores e perdendo a
capacidade de distinguir o justo do injusto, o verdadeiro
do falso. Aquilo que é desprovido de todo e qualquer
caráter ético, começa a se impor como legítimo. A
conseqüência é o crescimento descontrolado da
corrupção, do abuso do poder, da exploração
institucionalizada, favorecidos pela impunidade.
- A camada social que certamente
sai mais prejudicada por tal deformação das
consciências é a juventude. A nova geração
vive o momento presente numa visão imediatista, pois a
sociedade a priva de passado e de futuro. Dá-se um
rompimento com a juventude de ontem, que se empolgava na
luta por uma sociedade justa e fraterna. Por outro lado,
o futuro torna-se muito incerto. Desestimula projetos,
cria insegurança, induz à acomodação. A sociedade
exalta a juventude e oferece-lhe muitas ilusões de
consumo e de realização pessoal. Parece apresentar
muitas oportunidades, mas efetivamente oferece aos jovens
poucos empregos e remuneração injusta. Mesmo assim, há
jovens que apostam na qualificação profissional, outros
que ainda buscam a solidariedade e os valores espirituais
ou reagem indignados à falta de honestidade na vida
pública. Mas há também muitos que se refugiam numa
vida sem maiores perspectivas ou caem no ceticismo ou no
cinismo, nada dispostos a sacrificar algo do presente
para construir um futuro melhor. Outros ainda se deixam
seduzir pelas drogas e pela violência, vítimas da
organização criminal do narcotráfico.
- Por outro lado, face aos
efeitos perversos da globalização, surgem sinais
nítidos e claros de reação da parte de
indivíduos, grupos e povos. Aumentam as dúvidas sobre a
própria viabilidade, a médio e longo prazo, do atual
modelo capitalista e temem-se suas desastrosas
conseqüências para o meio-ambiente. Em vários países,
adotam-se medidas econômicas e sociais alternativas ao
neo-liberalismo. Multiplicam-se também as iniciativas em
defesa da própria tradição cultural, étnica ou
nacional em face do nivelamento provocado pela
globalização. Em nosso País, os que não têm terra,
casa, emprego e alimento organizam-se para lutar pela
sobrevivência e contestar as leis que favorecem, ainda
mais, os abastados. Mulheres, índios, negros e grupos
marginalizados reivindicam seus direitos ao pleno
exercício da cidadania e à expressão das diferenças.
- Diante deste modelo social, que
incentiva o egoísmo e reduz a pessoa a mero consumidor,
impõe-se o revigoramento da solidariedade entre
todos os cidadãos. Ela deve sustentar iniciativas
voluntárias de ajuda aos mais carentes e exigir
decisões políticas e medidas legislativas em prol de
uma autêntica justiça social, garantindo a igualdade de
oportunidades. A Igreja não pode deixar de exercer uma crítica
rigorosa à ideologia que despreza os valores
éticos fundamentais e de apoiar com todos os meios ao
seu alcance a construção de uma sociedade solidária.
Ao mesmo tempo precisa fazer um exame de consciência,
"interrogando-se sobre as responsabilidades que lhe
cabem nos males do nosso tempo", particularmente em
formas graves de injustiça e marginalização social.
2. DESAFIOS CULTURAIS E RELIGIOSOS
- O predomínio da economia na sociedade
atual está vinculado a opções éticas e culturais. É
impossível compreender o comportamento de pessoas e
grupos, sem levar em conta as motivações culturais que
o impulsionam. Análises das estruturas econômicas e
políticas são insuficientes para compreender as
tendências da sociedade atual, particularmente complexa.
- As mudanças recentes dependem
também da cultura. Em lugar da cultura tradicional,
difundiu-se a cultura da modernidade, caracterizada pela
crítica do passado e a oferta de diferentes modelos de
vida. Em outras palavras, no Brasil como nas sociedades
modernas, predomina hoje o pluralismo cultural, que,
a partir dos centros urbanos, se alastra por todo o
território nacional. O pluralismo é, em si, um fator
positivo, quando proporciona diálogo e respeito mútuo
entre as diversas culturas. Mas, de fato, ele é limitado
e ameaçado pela poderosa influência dos meios de
comunicação de massa, transmissores da "cultura
global", regida pelas leis do mercado,
desprovida de preocupações éticas, manipuladora das
consciências. A essa "cultura de massa"
resistem, com dificuldades, seja a cultura popular,
com sólidas raízes no mundo rural, seja a cultura
erudita e científica..
- No bojo da cultura moderna,
favorecida pelo pluralismo, acontece a mudança da
atitude do indivíduo perante a questão da sua
identidade. Simplificando, pode-se dizer que a
questão da identidade tornou-se uma questão privada,
pessoal. Na sociedade tradicional, a cultura determinava
em grande parte a identidade de cada indivíduo e lhe
atribuía um papel determinado na sociedade. Na sociedade
"moderna", o indivíduo tende a considerar a
cultura como o supermercado, onde pode escolher e
adquirir elementos para construir a sua visão do mundo e
suas múltiplas relações. Tudo isso contribui para
enfraquecer os laços comunitários, que pressupõem uma
tradição ou cultura comum, para substituí-los por
relações criadas a partir das escolhas pessoais. Esse
fato não é, em si, negativo e o cristianismo contribuiu
para acelerar o processo de valorização da pessoa. Mas,
atualmente, em muitos casos, especialmente no mundo
urbano, as antigas relações comunitárias não foram
substituídas por novas relações sociais adequadas,
capazes de garantir a liberdade e segurança das pessoas.
- Uma concepção relativista da
verdade e extremamente individualista da liberdade leva
à aceitação de práticas como aborto,
eutanásia, uso das drogas que desprezam o valor
da vida humana. Na encíclica "O Evangelho da
Vida", João Paulo II fala de "um combate
gigantesco e dramático entre o mal e o bem, a morte e a
vida, a "cultura da morte" e a "cultura da
vida". Encontramo-nos não só "diante",
mas necessariamente "no meio" de tal conflito:
todos estamos implicados e tomamos parte nele, com a
responsabilidade iniludível de decidir
incondicionalmente a favor da vida".
- A mudança na formação da
identidade individual, decisiva na configuração da
modernidade, gera conseqüências explosivas em
todos os campos, inclusive no campo religioso. É
importante observar que essa situação tem provocado um novo
interesse pela religião, que foi chamado - de forma
pouco apropriada - a "revanche de Deus". Outros
falam de "retorno do religioso" ou de
"sedução do sagrado". Na realidade, não se
trata de um retorno, porque muitos são os aspectos
novos, que não figuravam na religião tradicional. Em
linhas gerais, as novas atitudes religiosas - mais que se
voltar para a revelação de Deus - buscam a solução de
problemas pessoais. As estruturas paroquiais da Igreja
Católica, especialmente no meio urbano, ainda não
conseguiram adaptar-se adequadamente às novas
exigências. A religião é muito procurada, porque
consola, cura e ajuda a dar um sentido à própria
existência. De que forma?
- Uma primeira tendência -
evidente no Brasil dos anos recentes - é a de reconsiderar
a própria escolha. Conseqüentemente temos assistido
à passagem de muitas pessoas de uma religião (ou
igreja) a outra. Havendo um grande número de católicos,
muitos deles sem adesão pessoal e viva a Jesus Cristo e
ligados apenas por laços fracos à comunidade eclesial,
é natural que vários tenham mudado de religião. Outros
católicos não conseguem fazer uma experiência
religiosa emocionalmente envolvente em sua comunidade de
origem e saem em busca de outras experiências. Não se
trata, geralmente, de uma "conversão" no
sentido forte da palavra, que implique decidida mudança
ou ruptura. Predomina a concepção de que as várias
igrejas ou religiões são igualmente boas.
"Experimenta-se" outra religião, às vezes por
breve período, em busca daquela que satisfaça o gosto
de cada um. Esses fenômenos se tornam mais freqüentes
no Brasil, quer porque aqui elementos das religiões
indígenas e africanas se misturaram com elementos da
religião católica, quer pela rápida urbanização, que
pôs em contato populações de origem rural com um
ambiente "pós-moderno", dinâmico, sem
referências claras, que é a cidade. Há também casos
de múltipla pertença, nos quais a pessoa justapõe
práticas de diversas religiões, e casos de adesão a
uma religiosidade de contornos indefinidos, sincretista,
como a da "Nova Era".
- A religião, como questão
de escolha, é fato julgado positivamente pela nossa
sociedade. Também o cristianismo assume esta
possibilidade como uma condição de liberdade, melhor do
que aquela em que os regimes absolutistas impunham a
religião oficial. Essa nova situação, porém, exige
que cada pessoa faça sua opção. E as possibilidades
são diversas. Alguns optam por uma religião
individual, interior, tão pessoal que abandona as
práticas comunitárias e se torna uma "religião
invisível", feita apenas de algumas crenças. Em
casos extremos, chega-se a dizer "minha religião
sou eu" ou a conceber a Deus como a realidade que
cada um encontra no mais íntimo de si mesmo. Em geral,
como já vimos, a religião é concebida como busca de
felicidade imediata, próxima do hedonismo, e não mais
como docilidade à vontade do Senhor e Criador.
- Outros, ao contrário, recusam
o individualismo e subjetivismo. Preferem, talvez com
certa nostalgia, tentar reencontrar a situação
tradicional, em que havia uma só religião e todos
acreditavam nela. Aderem, por isso, a igrejas ou
movimentos "fundamentalistas", que
pretendem apresentar a verdade em seus fundamentos ou
origens. Geralmente trata-se de grupos fechados e
autoritários, que não admitem discussões sobre sua
doutrina e disciplina interna, mas, em troca, oferecem
certeza, segurança e apoio a seus membros.
- Outros ainda se voltam para
formas espontâneas de busca e manifestação do sagrado
ou para o esoterismo, o ocultismo, a magia, a crença na
reencarnação. Rejeitam não somente as formas
institucionalizadas das grandes religiões, como também
a racionalidade científica. Tal fenômeno não acontece
apenas nas populações com pouca ou nenhuma instrução
escolar, mas até mesmo entre cientistas e professores
universitários.
- Finalmente, a maioria
continua ainda aderindo à religião tradicional (no
Brasil, ao catolicismo). Esta adesão, porém, diminui,
em parte, por restrições subjetivas ("aceito isso,
mas não aceito aquilo"): é o caso das chamadas
"adesões parciais". Ou esta adesão pode
assumir traços do fundamentalismo: sou católico, mas
segundo uma interpretação literal da Bíblia e da
doutrina.
- Para o católico, a melhor
resposta a esta situação não é simplesmente conservar
a religião tradicional, mas renovar sua adesão ao
catolicismo, tornando-a mais consciente e
responsável, enraizada na profunda experiência de Deus,
iluminada por sua Palavra e partilhada na vivência
comunitária e sacramental, atenta ao magistério da
Igreja. Isto, de fato, já acontece em grande escala em
paróquias, comunidades de base e movimentos. Mas é
necessário tomar consciência de que - na sociedade
atual e sempre mais no futuro - a fé católica será
profundamente personalizada, assumida, enraizada na
experiência de Deus, ou não... será.
- FORÇA E FRAQUEZAS DOS CRISTÃOS
- Nos últimos dez anos, após a
publicação da Exortação do Papa sobre "Vocação
e missão dos leigos", que concluiu o Sínodo dos
Bispos de 1987, alguns fatos têm marcado a situação
dos cristãos entre nós, e especificamente dos
católicos. Antes de tudo, constatamos uma intensa busca
de espiritualidade, mesmo se algumas de suas expressões
pareçam mais reação de desencanto com a sociedade e
procura de consolo do que experiências religiosas
profundas. Essa busca manifesta-se tanto no mundo
católico como fora dele. Ela é caracterizada, como já
notamos, por um evidente pluralismo e, freqüentemente,
pelo subjetivismo típico da cultura moderna. O resultado
é que o próprio mundo católico se tem diferenciado
ainda mais. Multiplicaram-se os novos movimentos e
retomaram vigor as antigas associações e as tradições
religiosas populares. Surgiram muitas iniciativas
pastorais inéditas, solicitadas pela diferenciação da
sociedade brasileira e o aparecimento de múltiplas
carências e aspirações. Também aumentou
significativamente a busca de formação teológica,
inclusive de nível superior, por parte de leigos e
leigas.
- Cresce igualmente um clima
favorável ao ecumenismo e ao diálogo entre as
religiões, embora com grandes resistências de grupos
radicais, por um lado, e tendências de nivelar e
confundir toda e qualquer experiência religiosa, por
outro lado. Os não católicos representam hoje, no meio
urbano, ao menos 20% da população, o que significa
também que muito mais freqüentemente nossos fiéis se
encontram e dialogam com pessoas de outros credos, sendo
às vezes questionados em sua própria fé. O diálogo
ecumênico e inter-religioso deixa de ser um assunto de
poucos, para tornar-se uma experiência cotidiana e
permanente de muitos.
- A presença dos católicos
militantes na sociedade passou também por
transformações significativas, sobretudo depois de
1985, com a redemocratização do País, e da
Constituição Federal de 1988. Muitos deixaram
comunidades eclesiais e organizações pastorais para
ingressar na luta política através dos partidos. Por
outro lado, os que permaneceram nas CEBs, nas pastorais
sociais e nos movimentos populares assumiram uma atitude
mais crítica em face da prática política,
freqüentemente distorcida pelo clientelismo e a
corrupção, procurando novamente desenvolver uma
atuação mais autônoma e crítica da sociedade civil e
mesmo promovendo muitas iniciativas alternativas de
organização do povo, em favor de seus direitos e mesmo
de sua saúde, educação e sobrevivência. Outros
participam ativamente da construção da cidadania,
atuando nos Conselhos Municipais, tutelando crianças e
adolescentes e promovendo os direitos humanos. Numa
sociedade em que as estruturas econômicas e políticas
são sempre mais secularizadas e sem referência ética,
os cristãos empenhados nela estão necessitando e muitas
vezes exigindo apoio espiritual e solidariedade mais
efetiva por parte da comunidade eclesial.
- Fenômeno importante é o crescimento dos
movimentos eclesiais, quer originários de outros
países, quer nascidos entre nós. Eles levaram muitas
pessoas à experiência de Deus, ao encontro pessoal com
Cristo, à opção de fé e à volta à Igreja. Conseguem
ter uma grande força convocatória e aglutinadora. E
muitas pessoas, a partir dessa experiência de
conversão, reencontram o amor à Igreja e o engajamento
nas pastorais. O entusiasmo e a descoberta faz com que
muitos vejam a Igreja sob o prisma do movimento e tenham
dificuldade de integrar-se nas comunidades eclesiais.
Surgem tensões e até conflitos. O Papa e os Bispos
desejam que os movimentos possam, no diálogo e na
caridade, enriquecer as comunidades e não
prejudicá-las.
- As paróquias, especialmente no
meio urbano, viram nos últimos anos multiplicar-se suas
atividades, para atender ao crescente número de fiéis
e, sobretudo, à demanda mais exigente tanto de
orientação espiritual como de serviços de obras
sociais. Daí resulta a sobrecarga dos párocos,
especialmente quando não há por parte deles a
disposição de delegar responsabilidades e
descentralizar serviços. A multiplicidade de expressões
comunitárias e de grupos, associações, movimentos e
pastorais expressa a vitalidade de muitas paróquias, mas
também provoca certa fragmentação da pastoral e falta
de harmonia. A tendência de descentralizar a paróquia,
para torná-la uma "rede de comunidades", está
presente em várias dioceses. Em geral, continuam muito
numerosas e ativas as CEBs, que estão procurando com
mais empenho compreender e valorizar a religiosidade
popular e abrir-se mais intensamente à dimensão
missionária.
- Na ausência de estatísticas
mais completas, é difícil dizer se o número dos
agentes de pastoral aumentou na última década. Pode-se,
porém, estimar em 70.000 (setenta mil) o número das
comunidades que realizam aos domingos a celebração da
Palavra, na ausência do padre, que aí celebra a
Eucaristia somente algumas vezes por ano. O número dos e
das catequistas se situa entre 300.000 e 350.000. Um
contingente ainda maior de leigos e leigas assumem outros
ministérios, como a animação da comunidade e da
liturgia, a pastoral do batismo e do casamento, as
pastorais sociais. Em média, atualmente, para cada
presbítero, as comunidades dispõem de mais de 50
(cinqüenta) leigos, exercendo tarefas ou ministérios
pastorais.
- Entre eles, destaca-se a
presença e atuação das mulheres, sendo o contingente
maior. Elas participam em todos os setores da vida e da
missão da Igreja e estão esboçando um traço novo no
rosto eclesial através da maneira generosa e
entusiasmada com que vivem a fé e o amor, buscando
transmitir os valores cristãos. Elas constituem a grande
maioria dos catequistas; assumem responsabilidades nas
comunidades, na animação, coordenação e entre-ajuda;
coordenam setores pastorais; estão presentes nos
conselhos e nos movimentos, inclusive participando das
decisões . Nos últimos anos começaram a
exercer o aconselhamento espiritual, bem como o ensino da
teologia..
- Quanto ao número de
presbíteros, os últimos tempos foram marcados pelo
aumento do clero diocesano (cerca de 4.500 ordenações
nos últimos quinze anos), o que permitiu alcançar o
número de 16.000 padres: um para cada 10.000 habitantes.
Esta relação se mantém estável nos anos 90. Mas
ela é consideravelmente mais grave que a relação
padre/habitantes de 1960 (1 padre para 6.284 habitantes).
O número dos presbíteros não acompanhou o aumento da
população nas décadas de 60, 70 e
80, também em decorrência da diminuição do
número de missionários, que em 1960 representavam 42%
do clero e hoje, apenas 22%. Assim, em geral, o
presbítero se acha, por um lado, solicitado a assumir
novas tarefas; por outro, é mais sobrecarregado em sua
rotina e tem menos tempo para dedicar às pessoas. É
urgente repensar as prioridades do ministério
presbiteral, tendo em vista a corresponsabilidade de
todos os cristãos na ação evangelizadora e uma melhor
adequação do padre às exigências da comunidade
eclesial e da sociedade.
- Finalmente, alegramo-nos porque
o Projeto de Evangelização "Rumo ao Novo
Milênio", com que procuramos responder ao apelo da
Carta apostólica de João Paulo II sobre "O Advento
do Terceiro Milênio" e preparar o Grande Jubileu do
Ano 2000 e a celebração dos 500 anos da Evangelização
do Brasil, tem encontrado adesão pronta e generosa
especialmente no laicato, revelando novas possibilidades
de ação pastoral e grande criatividade na
evangelização.
- Todas essas situações, ricas
de promessas e potencialidades, mas também necessitadas
de um discernimento melhor e de novas orientações,
solicitam-nos a recordar alguns fundamentos teológicos,
especialmente a partir do Concílio Vaticano II, e a
traçar algumas diretrizes práticas. É o que desejamos
oferecer às comunidades eclesiais e aos cristãos e
cristãs, para que, em espírito de diálogo com os
pastores, continuemos juntos a procurar respostas
corajosas, livres e criativas aos apelos de Deus e dos
irmãos.
II A MISSÃO DO POVO DE
DEUS - Fundamentos
teológicos
1. A MISSÃO
- A Igreja é chamada por Deus a realizar
uma missão no mundo. Tal missão, prosseguimento
da prática de Jesus Cristo, que "não veio para ser
servido, mas para servir e dar a vida em resgate de
muitos", é o serviço que ela deve prestar. A compreensão
da missão da Igreja vai se aprofundando na medida em
que a Igreja presta atenção aos "sinais dos
tempos" e às mudanças na história humana. Podemos
medir os passos dados pela Igreja na compreensão de si
mesma e da sua missão, se considerarmos os avanços do
Magistério e da reflexão eclesial desde o Concílio
Vaticano II até hoje.
A MISSÃO, OBRA DE DEUS
- O Concílio Vaticano II proferiu diversas
afirmações importantes sobre a missão da Igreja. A
constituição Lumen Gentium declara: "a
Igreja é em Cristo como que sacramento, isto é,
sinal e instrumento, da união íntima com Deus e da
unidade de todo o gênero humano" . A
constituição Gaudium et Spes acrescenta que
"a Igreja é o sacramento universal da
salvação, manifestando e atuando simultaneamente
o mistério do amor de Deus pelos homens"; ou seja,
não é apenas sinal, mas é já, de algum modo, realização
do Reino de Deus.
- Para explicar a identidade da
Igreja, a Lumen Gentium, no capítulo I, mostra a
Igreja como fruto da missão do Filho e do Espírito
Santo, enviados pelo Pai Está aí um elemento
fundamental da teologia da missão! A
missão não é, antes de tudo, obra da Igreja, mas
ação de Deus. O Pai é fonte da missão e atua no mundo
através de suas duas "mãos", o Filho e o
Espírito Santo. Neste tempo, que intercorre entre a
primeira vinda de Cristo e seu retorno glorioso, protagonista
da missão é o Espírito Santo.
A MISSÃO, SERVIÇO DO REINO
- Em relação à missão, outra afirmação
importante do Concílio Vaticano II é que "toda
a Igreja é missionária e a obra da evangelização é
um dever fundamental do povo de Deus".
Mas o próprio Concílio, sob a influência da teologia
que o precedeu, acentuou a concepção da missão como "implantação
da Igreja". Ora, exatamente naqueles anos, a
realidade das "missões", especialmente nos
Países do chamado "Terceiro Mundo", e a
reflexão teológica passavam por mudanças rápidas e
profundas. Após o Concílio, a teologia cristã insistiu
de forma enfática sobre a necessidade de assumir a
missão não só como "implantação da
Igreja", mas como "serviço ao mundo",
ou, mais propriamente, ao Reino de Deus e à
"Paz" (shalom) que este traz à
humanidade. Tal concepção encontrou ampla receptividade
também na América Latina, onde foi destacado o empenho
dos cristãos na luta pela justiça e pela libertação
humana, o que aliás tinha sido reconhecido pelos
Sínodos de 1971 e 1974.
MISSÃO E DIÁLOGO
- Outro aspecto que, a partir do Sínodo de
1974, teve ampla repercussão na reflexão sobre a
missão foi o diálogo inter-religioso. O
Concílio Vaticano II e o Papa Paulo VI já haviam
insistido sobre a necessidade do diálogo com a sociedade
contemporânea e com as outras igrejas cristãs. Em
particular, no contexto do tema da liberdade religiosa, o
Concílio afirma: "A verdade deve ser buscada pelo
modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua
natureza social, isto é, por meio de uma busca livre,
com a ajuda do magistério ou do ensino, da comunicação
e do diálogo, com os quais os homens dão a
conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou
julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem
mutuamente". "O diálogo não nasce de táticos
interesses, mas é uma atividade que apresenta
motivações, exigências, dignidade própria: é exigido
pelo profundo respeito por tudo o que o Espírito, que
sopra onde quer, operou em cada homem. Por ele, a Igreja
pretende descobrir as sementes do Verbo", os
"fulgores daquela realidade que ilumina todos os
homens" sementes e fulgores que se abrigam
nas pessoas e nas tradições religiosas da
humanidade"
MISSÃO É EVANGELIZAÇÃO
- O progresso da reflexão no Magistério e
na consciência da Igreja levou a destacar o tema da evangelização,
como o que melhor exprimia a própria missão da
Igreja, mas ao mesmo tempo a sublinhar como ela é uma
"realidade rica, complexa e dinâmica", que
não pode ser definida apenas a partir de um ou outro de
seus aspectos, sem correr o risco de a empobrecer e até
mesmo a mutilar. A Evangelii Nuntiandi procura
exatamente expor os aspectos essenciais da
evangelização, que julga em continuidade com o Vaticano
II.
- Após a Evangelii Nuntiandi
a reflexão prosseguiu nas Conferências Episcopais
Latino-Americanas de Puebla (1979) e Santo Domingo
(1992), na Encíclica sobre "A Validade
Permanente do Mandato Missionário" (1990) e em
outros eventos e documentos. Não deve surpreender que
esta reflexão possa e deva prosseguir, descobrindo novos
aspectos da missão da Igreja. Pois esta não consiste
apenas em anunciar uma mensagem do passado, mas em
reconhecer os "sinais dos tempos" e em
"interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim
(a Igreja) possa responder, de modo adaptado a cada
geração, às eternas perguntas dos homens acerca do
sentido da vida presente e da futura, e da relação
entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e
compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e
aspirações, e o seu caráter tantas vezes
dramático". O que o Vaticano II procurou fazer em
seu tempo, a Igreja deve realizá-lo permanentemente,
atenta à "agenda" de problemas e anseios da
humanidade.
A NOVA EVANGELIZAÇÃO
- Alguns problemas suscitados pela teologia
da missão após o Concílio são examinados criticamente
pelo Papa João Paulo II na encíclica sobre "A
Validade permanente do Mandato missionário". Desta
Encíclica, é particularmente importante para nós
destacar o que ela diz sobre a "nova
evangelização". Já Paulo VI considerava
necessário retomar a evangelização para superar a
ruptura entre o evangelho e a cultura, a fé e a vida. O
Papa a julga necessária nos Países "onde grupos
inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé,
não se reconhecendo já como membros da Igreja e
conduzindo uma vida distante de Cristo e de seu
Evangelho". Em nosso País, como em geral na
América Latina, embora haja situações muito
diversificadas, não há dúvidas de que uma "nova
evangelização" é imprescindível. Ela será
inspirada pela consciência das exigências da
evangelização que a Igreja e seu Magistério adquiriram
nas últimas décadas, mas também deverá continuamente
prestar atenção às mudanças que vão acontecendo e
aos novos desafios que surgem.
A EVANGELIZAÇÃO NAS DIRETRIZES DA IGREJA NO
BRASIL
- Como referência, no Brasil, temos a
visão da evangelização amplamente desenvolvida nas
"Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora",
fruto da Assembléia da CNBB de 1995. Salienta quatro
aspectos fundamentais para a evangelização inculturada:
serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão,
que correspondem a quatro termos-chave do Novo
Testamento: diakonia, diálogos, kerygma, koinonia.
- A Igreja é chamada a anunciar
a salvação em Cristo e o Reino de Deus, mas não pode
fazê-lo sem deixar de mostrar sua solidariedade e sua
disposição de serviço para com toda a
humanidade, sua atitude de diálogo na busca da
verdade, e sua capacidade de gerar comunidades onde já
se vive de algum modo aquela comunhão com Deus e
com os irmãos, que é realização germinal do Reino de
Deus.
- Urge compreender e frisar como esses
diversos aspectos se interligam um ao outro e são
expressões necessárias da única missão. Não seria
autêntica uma evangelização que se limitasse a
promover a libertação humana, sem anunciar o Reino de
Deus e a salvação em Cristo. E, vice-versa, não seria
autêntico um anúncio do Reino que não mostrasse de
algum modo os sinais da libertação do ser humano face
aos males que o oprimem (cf. Mt 11,5; Lc 4,18-19).
ANÚNCIO DO EVANGELHO E SINAIS DE SOLIDARIEDADE
- A Igreja deve, como Jesus, anunciar o
Reino de Deus e chamar para a conversão, mas deve
também, como Jesus, realizar aquelas obras ou
"sinais", que revelam o amor de Deus pela
humanidade através do poder do Espírito. Uma
outra formulação, muito densa e bela, da missão da
Igreja foi-nos oferecida pelo Papa João Paulo II na
Encíclica sobre "O Valor e a Inviolabilidade da
Vida Humana". Dizendo "O Evangelho do amor de
Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da pessoa e o
Evangelho da vida são um único e indivisível
Evangelho", o Papa une o anúncio de Cristo (o
amor de Deus pelo homem) com o empenho da Igreja pela
vida humana em todas as suas dimensões. Cristo,
nossa esperança, é a vida em plenitude: este é o
coração da mensagem evangélica e o conteúdo
fundamental da missão da Igreja, do serviço que ela
presta à humanidade.
- As mesmas preocupações
estavam evidentes no tema, escolhido pelo Papa, e nos
documentos preparatórios do recente Sínodo dos Bispos
para a América (Roma, 16.11 12.12.1997). O
Sínodo convoca os povos da América para o encontro
com Jesus Cristo vivo. Por outro, o Sínodo demonstra
a solidariedade dos cristãos com todos os
cidadãos, particularmente com os mais sofridos.
Condição para realizar esta missão da Igreja, é a comunhão
eclesial, testemunho de unidade dos cristãos
entre si e com o próprio Cristo.
- Especialmente face ao
"mundo" e aos que estão distantes de Cristo e
do seu Evangelho, a solidariedade da Igreja com todos os
seres humanos, sem discriminação, e os serviços que
ela presta são os "sinais" hoje
indispensáveis. A Igreja não confia essas tarefas
unicamente aos cristãos leigos. A presença animadora e
esclarecedora dos presbíteros é importante, às vezes
decisiva, para muitos que têm dificuldade de ver a
dimensão da fé e da caridade no social, no político e
na luta pela justiça. A própria Santa Sé, através dos
Conselhos "Justitia et Pax" (Justiça e Paz) e
"Cor Unum" (Um só coração), busca promover o
diálogo entre povos em conflito, a reconciliação entre
nações e etnias divididas por antigos rancores,
promover o desenvolvimento social, defender os direitos
dos mais fracos, socorrer as populações em perigo. O
Santo Padre pessoalmente, com suas homilias e suas
viagens, tem procurado levar, junto com a palavra do
Evangelho, um forte apelo à justiça e à paz.
A COMPETÊNCIA DOS LEIGOS
- Não há dúvida de que a tarefa de
promover a justiça e a paz, de efetivamente prestar
solidariedade e serviço aos irmãos, especialmente aos
mais necessitados, é uma responsabilidade dos cristãos
empenhados na economia, na política, nas relações
internacionais, no sindicato, nas organizações
assistenciais, nos movimentos populares, nas pastorais
sociais. O Concílio tinha consciência disto. Na
constituição Lumen Gentium afirma que na tarefa
de impregnar do espírito de Cristo o mundo e fazer que
"atinja mais eficazmente o seu fim na justiça, na
caridade e na paz, [...] compete aos leigos a
principal responsabilidade". E reconhece que
"os leigos são chamados de modo especial a tornar
presente e operante a Igreja naqueles lugares e
circunstâncias, onde ela só por meio deles pode
vir a ser sal da terra".
- Em nosso País, muitas vezes de
forma humilde e escondida, outras vezes através de uma
atuação pública e destemida, muitos leigos e leigas
cristãos lutaram e lutam pela justiça e a paz, dando
corajoso testemunho evangélico e contribuindo para o
serviço do mundo, cuja responsabilidade última cabe a
todo o povo de Deus.
2. O POVO DE DEUS
IGREJA DA TRINDADE SANTA
- A Igreja tem consciência de ser uma
presença diferente no mundo. Ela sabe que está no
mundo, mas não é do mundo. Sua raiz última é o
mistério insondável do Pai, que, por Cristo e no
Espírito, quer que todos os homens e mulheres participem
de sua vida de infinita e eterna comunhão, na liberdade
e no amor, vivendo como filhos e filhas, irmãos e
irmãs. Por isso, o Concílio nos ensina que a Igreja
não é simplesmente uma sociedade ao lado de outras, mas
um mistério de comunhão. A Igreja toda aparece como "o
povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito
Santo".
COMUNHÃO EM POVO DE DEUS
- Nunca é demais, portanto, recordar e
insistir que a Igreja é, em primeiro lugar, um
mistério de comunhão, que reflete, com as
limitações de seus membros e os limites do tempo e do
espaço, o mistério da comunhão trinitária. A
comunhão trinitária torna-se, então, fonte da vida e
da missão da Igreja, modelo de suas relações e meta
última de sua peregrinação.
- O Vaticano II ensinou-nos
também que a Igreja é o Povo de Deus. Esta
expressão - com razão considerada por muitos a marca
registrada da eclesiologia do Concílio - evoca
diferentes aspectos da complexa realidade que é a
Igreja.
POVO LIVRE E FRATERNO
- Antes de tudo, a expressão Povo de Deus
faz-nos remontar a um momento decisivo das buscas
religiosas da humanidade, quando o anseio humano do
Absoluto vê-se inesperadamente surpreendido e superado
pelo advento gratuito da divina revelação: a
revelação do nome de Javé a Moisés e a
experiência do Êxodo, cujo resultado é, através
da celebração da Aliança, a constituição de
Israel em povo de Deus. À exigência de uma adesão
incondicional e exclusiva a Javé - "não terás
outro deus além de mim" - corresponde o amor ao
próximo. A expressão concreta deste preceito central é
a solidariedade com o pobre . Com efeito, Javé, como
não se cansarão de repetir os profetas, é o Deus dos
pobres! Justamente por isso, o significado do Êxodo e da
Aliança é ao mesmo tempo religioso (revela o rosto de
Deus como sumamente próximo e soberanamente
transcendente) e social (revela e tutela a dignidade de
todo ser humano, sobretudo dos pobres, propondo o
estatuto ideal de um povo livre e solidário). A posse da
terra - dom de Deus aos seus filhos - devia ser o
"sacramento" a garantir a liberdade, a
dignidade e a segurança conquistadas através do Êxodo.
O Êxodo tinha por meta a liberdade e a fraternidade
perfeitas entre os israelitas, filhos e filhas do Deus da
vida! A nova e perfeita Aliança, porém, só se dará
em Cristo: "Foi Cristo quem instituiu a nova
Aliança (...) no seu sangue (1 Cor 11,25), chamando um
povo que junto crescesse para a unidade, não segundo a
carne, mas no Espírito, e fosse o novo Povo de Deus
(...) Este povo messiânico tem por cabeça Cristo (...).
Tem por condição a dignidade e a liberdade dos filhos
de Deus, em cujos corações habita o Espírito Santo
como num templo. Sua lei é o mandamento novo de amar
(...). Sua meta é o Reino de Deus (...)" .
POVO QUE ABRE CAMINHOS PARA O SERVIÇO
- Em segundo lugar, a expressão Povo de
Deus recorda que a Igreja é uma realidade histórica,
fruto da livre iniciativa de Deus e da livre resposta
dos seres humanos. Por isso, ela não pode furtar-se, em
nenhuma circunstância, sobretudo nas grandes crises
históricas - aquelas que marcam as viradas de
civilização e de cultura, como a que estamos vivendo
hoje - ao dever de fazer escolhas e de abrir caminhos.
- Situada, na verdade, entre a
primeira parusia do Senhor Jesus em nossa carne mortal e
sua segunda parusia em sua glória imortal, a Igreja
participa, de um lado, da transitoriedade deste
mundo, cuja "figura passa", e, de outro lado,
da definitividade de Deus, que um dia será "tudo em
todos". Os discípulos que outrora o acolheram na
carne humilde e pobre de Jesus de Nazaré através da fé,
precisam agora acolhê-lo através do amor na
carne desprezada e descartada dos famintos, sedentos,
migrantes, despojados, doentes e encarcerados ,
"esperando contra toda esperança". O
peregrinar da Igreja entre a Ascensão e a Parusia
percorre, na força do Espírito, os passos de Jesus, que
foi ungido pelo Espírito para "evangelizar os
pobres, proclamar a remissão aos presos e aos cegos a
recuperação da vista, para restituir a liberdade aos
oprimidos e para proclamar um ano de graça do
Senhor". A Igreja não pode perder de vista o
serviço à vida e à esperança, no amor e na liberdade,
que é, neste mundo, seu horizonte maior!
O MAIS IMPORTANTE É O QUE NOS UNE: A
CONDIÇÃO CRISTÃ
- A expressão Povo de Deus indica ainda a
Igreja "em sua totalidade", ou seja,
naquilo que é comum a todos os seus membros. Esta
foi, sem dúvida, uma das maiores aquisições do
Vaticano II e deve fazer valer todo o seu peso quando se
trata de refletir sobre missão e ministérios. Ao
colocar, na Lumen Gentium, antes dos capítulos
sobre a hierarquia (cap. III) e o laicato (cap. IV), o
capítulo sobre o Povo de Deus (cap. II) onde se
sublinha tudo o que é comum a todos os membros da Igreja
- o Vaticano superou a concepção de Igreja como
"sociedade desigual", que condensava e
consagrava aquela antievangélica distância entre
hierarquia e laicato, tão perniciosa para o testemunho
cristão no mundo.
- A noção de Povo de Deus, com
efeito, exprime a profunda unidade, a comum dignidade
e fundamental habilitação de todos os membros da Igreja
à participação na vida da Igreja e à
corresponsabilidade na missão. Antes e além de toda
e qualquer diferenciação carismática e ministerial,
está a condição cristã, que é comum a
todos os membros da Igreja. O texto que exprime com maior
eficácia esta profunda unidade e comum dignidade de
todos os membros do Povo de Deus está situado justamente
no capítulo da Lumen Gentium dedicado aos leigos:
"Um é pois o povo eleito de Deus: "um só
Senhor, uma só fé, um só batismo". Comum a
dignidade dos membros pela regeneração em Cristo. Comum
a graça de filhos. Comum a vocação à perfeição. Uma
só a salvação, uma só a esperança e indivisa a
caridade. Não há, pois, em Cristo e na Igreja, nenhuma
desigualdade em vista de raça ou nação, condição
social ou sexo, porquanto não há judeu ou grego,
não há servo ou livre, não há varão ou mulher,
porque todos vós sois um em Cristo Jesus".
SACERDÓCIO COMUM - UM SACERDÓCIO EXISTENCIAL
- Faz parte desta condição comum - criada
pela fé e pelo batismo, pela esperança e pela crisma,
pela caridade e pela eucaristia - além do sentido da fé
de todos os fiéis, o sacerdócio comum de todos os
fiéis.
- Há um único e indivisível
sacerdócio: o de Jesus Cristo. Seu sacerdócio não é
um sacerdócio ritual, nos moldes do Antigo Testamento.
Jesus não pertencia à tribo de Judá; sua atividade se
assemelhava mais à dos antigos profetas que à dos
sacerdotes judeus; as esperanças messiânicas suscitadas
por Sua pessoa e atividade são interpretadas mais na
linha de um messianismo real do que de um messianismo
sacerdotal; Ele morre fora do espaço sagrado da Cidade e
do Templo... Seu sacerdócio segundo a Carta aos
Hebreus - é um sacerdócio existencial e
consiste, fundamentalmente, na entrega de todo o seu ser
e existência ao Pai, no Espírito, e aos irmãos,
reconciliando-os com o Pai e entre si, realizando, assim,
uma vez por todas, a perfeita e insuperável mediação
entre Deus e os homens.
- "Aderindo a Cristo
sacerdote por meio da fé, deixando-se purificar por Seu
sangue e santificar pela oferta do Seu corpo, entrando no
movimento do seu sacrifício, os cristãos são tornados
capazes de dar a Deus um culto autêntico, que consiste
na transformação de sua existência pela caridade
divina". Por sua participação - pela fé e
pelo batismo, pela esperança e pela crisma, pela
caridade e pela eucaristia no único sacerdócio
de Cristo, o Povo de Deus da Nova Aliança é
conjuntamente sacerdotal". Com efeito, todos os
cristãos são chamados a "oferecer sacrifícios
espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus
Cristo", a "elevar incessantemente a Deus, por
meio de Jesus Cristo, um sacrifício de louvor" e a
"não se esquecer de fazer o bem e de praticar a
mútua ajuda comunitária, pois estes são os
sacrifícios que agradam a Deus"; por isso, devem
"eles próprios apresentar-se a Deus em sacrifício
vivo e santo que lhe seja agradável". A vocação
dos cristãos não os leva "a pôr sua confiança em
ritos exteriores, mas a passar pelo sacrifício
existencial de Cristo e valer-se, assim, de sua
mediação sacerdotal". O Catecismo Tridentino
explica esta realidade do sacerdócio comum dos fiéis
num texto particularmente iluminante: "No que diz
respeito ao sacerdócio interior, todos os fiéis, após
terem sido purificados pela água salutar, são chamados
sacerdotes; sobretudo, porém, os justos que têm o
Espírito de Deus e, que pelo dom da graça de Deus,
foram feitos membros vivos de Jesus Cristo Sumo
Sacerdote. Estes, de fato, graças à fé tornada ardente
pela caridade, imolam a Deus vítimas espirituais no
altar do próprio coração; neste gênero devem ser
consideradas todas as ações boas e honestas, que se
endereçam à glória de Deus". O sacerdócio comum
é, pois, um sacerdócio comum a todos os fiéis,
isto é, a todos os batizados enquanto vivem a fé. Neste
sentido, não é nenhum ministério, mas "o culto
cristão existencial, que consiste na transformação
da totalidade da vida por meio da caridade divina".
É, portanto, a própria vida cristã, feita de fé, de
esperança e de caridade. É a vivência, suscitada e
sustentada pelo Espírito, da vocação universal à
santidade!
COM TRÊS DIMENSÕES INSEPARÁVEIS
- Este sacerdócio tem uma tríplice
dimensão: a palavra, o culto e o serviço. A
"palavra" é uma participação na função
profética de Cristo e no seu testemunho. O
"culto" é o culto existencial e a adoração
em espírito e verdade, que, depois, se ritualizam na
visibilidade litúrgica. O "serviço" exprime a
liberdade dos filhos de Deus em relação a si mesmos,
aos outros e aos bens deste mundo, o que os torna capazes
de amar e servir, sobretudo aos pobres e pequenos,
colocando-se a serviço de Deus e de seu Reino.
MINISTÉRIO ORDENADO - UM SERVIÇO À COMUNHÃO
E À MISSÃO
- É notável que esta trilogia - palavra,
culto, serviço (ou realeza) - seja utilizada pelo
Concílio quer para todos os batizados, quer para os
ministros ordenados. Pode-se pensar que isto gere
confusão, e, por isso, é preciso distinguir entre o
sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial
(ou ministério ordenado). O Concílio o faz,
mostrando que o "sacerdócio comum dos fiéis"
e o "sacerdócio ministerial ou hierárquico"
"diferem entre si segundo a essência, e não
somente em grau", e são "ordenados um ao
outro, porque um e outro participam, cada qual de uma
maneira particular, do único sacerdócio do
Cristo".
- O que é importante entender
aqui é que existem duas participações no único
sacerdócio de Cristo: uma existencial (comum a todos os
batizados), outra ministerial (específica dos ministros
ordenados). A finalidade do segundo é permitir a cada
batizado viver a vida cristã como um dom
recebido. A Palavra vem de Deus; os Sacramentos vêm
de Deus; a Graça vem de Deus; a Fé, a Esperança e a
Caridade vêm de Deus; os Carismas vêm de Deus. O
ministro ordenado é o sinal colocado na comunidade,
mas também à sua frente, para significar que ela
é constantemente suscitada e gerada não por suas
próprias forças, mas por Aquele que a amou e se
entregou por ela!
- Eles não se diferenciam entre
si "por grau", como se na Igreja houvesse
superioridade de um sobre o outro, mas "por
essência", no sentido em que - além daquilo que é
comum aos dois - estão numa relação diversa com Cristo
e com a comunidade. O ministério ordenado representa
Cristo enquanto Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja:
Cristo profeta, sacerdote e pastor no Seu
ministério de mediação entre Deus e a humanidade e no
Seu ministério de unidade entre os membros do Seu corpo
eclesial. Agindo "na pessoa de Cristo
Cabeça", o ministro ordenado serve à unidade do
povo de Deus através do anúncio da palavra (dimensão
profética), da celebração dos sacramentos (dimensão
sacerdotal) e da animação e coordenação das
comunidades (dimensão pastoral).
- O ministério ordenado,
portanto, não detém o monopólio de toda a
ministerialidade da Igreja. Não é a
"síntese dos ministérios", mas o
"ministério da síntese. Seu carisma é
o da presidência da comunidade e, portanto, da
animação, coordenação e discernimento final dos
carismas. Fruto de um dom do Espírito, que se reconhece
e comunica poderosamente no ato sacramental da
ordenação, o ministro ordenado - bispo, presbítero,
diácono - está a serviço do Espírito, que deve ser
sempre de novo reconhecido e acolhido, na Igreja e no
mundo.
UMA SÓ MISSÃO ASSUMIDA POR TODOS
- Neste contexto, é importante ressaltar
que a missão da Igreja não é
responsabilidade de alguns, mas de todos. Todo
o Povo de Deus não só é responsável pela vida, mas
também pela missão da Igreja na Igreja e no mundo. A Lumen
Gentium o diz claramente: "Os sagrados pastores
conhecem, com efeito, perfeitamente quanto os leigos
contribuem para o bem de toda a Igreja. Pois eles
próprios sabem que não foram instituídos por Jesus
Cristo para se encarregarem por si sós de toda a missão
salvadora da Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo
sublime consiste em pastorear de tal modo os fiéis e de
tal modo reconhecer os seus serviços e carismas, que
todos, cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na
obra comum". É neste sentido que se pode falar de
uma "Igreja toda ministerial", de uma
"corresponsabilidade diferenciada", de
"todos responsáveis na Igreja", de uma
"Igreja de responsabilidades apostólicas
compartilhadas", de "Igreja toda em
serviço", de "comunidade enviada de
serviço", de "comunhão e participação"
(Puebla) ou de "comunhão e missão" (CNBB)!
COM DIFERENTES CARISMAS E MINISTÉRIOS
- Finalmente, a expressão Povo de Deus
evoca a variedade de carismas, serviços e
ministérios que o Senhor reparte entre os fiéis em
vista da vida e da missão da Igreja. Com efeito, a comum
incorporação a Cristo e à Igreja - realizada pelos
sacramentos de iniciação - é constantemente
enriquecida por uma inesgotável pluralidade de carismas,
serviços e ministérios.
- Em função de suas
necessidades internas e dos desafios da missão no mundo,
a Igreja, dócil às indicações do Espírito Santo, vai
se estruturando e organizando. O Novo Testamento nos
mostra este processo em curso. Ele não oferece um modelo
único do modo de se estruturar a Igreja. Mostra, isso
sim, diversos exemplos, respondendo às demandas dos
diferentes contextos históricos e culturais. Também
encontramos no Novo Testamento informações referentes a
épocas distintas. Estes testemunhos são diversificados:
nenhum deles pode ser considerado exclusivo e excludente
dos demais.
CARISMA E MINISTÉRIO: DISTINGUINDO E UNINDO
- Dois elementos estão subjacentes a todo
este processo: a atuação do Espírito Santo na
comunidade dos fiéis e a busca humana das melhores
alternativas "para aperfeiçoar os santos em
vista do ministério, para a edificação do Corpo de
Cristo, até que alcancemos todos a unidade da fé e do
conhecimento do Filho de Deus, o estado de homem perfeito
à medida da estatura da plenitude de Cristo". O
exemplo mais claro desta busca ativa e criativa no
Espírito está documentado em At 6,1-6: quando surge o
primeiro conflito na comunidade de Jerusalém (6,1), são
os Apóstolos que "convocam a assembléia dos
discípulos" (6,2), conduzem o discernimento e
indicam uma solução (6,2-3), mas é a assembléia que
aprova a proposta dos apóstolos e escolhe os ministros
(6,4-5), que, uma vez apresentados aos apóstolos,
recebem deles a imposição das mãos (6,6).
- Alguns textos do Novo
Testamento apontam para uma íntima relação entre
carisma e serviço/ministério. Os mais conhecidos
são 1 Cor 12,4-11.28-30; Rm 12,4-8; Ef 4,10-13; 1 Pd
4,10; 2 Tm 1,6. Mais especificamente: "Há
diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo;
diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo;
diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza
tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o
Espírito para a utilidade de todos. A um o Espírito
dá...". "Tendo, porém, dons diferentes,
segundo a graça que nos foi dada, (...)". "É
ele que concedeu a uns ser apóstolos, outros profetas,
outros evangelistas, outros pastores e mestres...".
"Todos vós, conforme o dom que cada um recebeu,
consagrai-vos ao serviço uns dos outros, como bons
dispenseiros da multiforme graça de Deus". "Eu
te exorto a reavivar o dom de Deus, que há em ti pela
imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu um
espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e
de sobriedade"!
QUE SE ENTENDE POR MINISTÉRIO?
- Por isso, há uma forte tendência, hoje,
na teologia e na prática pastoral, de considerar
ministério, fundamentalmente, o carisma que assume a
forma de serviço à comunidade a à sua missão e que
por esta é como tal acolhido e reconhecido.
- Ministério é, antes de tudo, um
carisma, ou seja, um dom do Alto, do Pai, pelo
Filho, no Espírito (= dimensão transcendente), que
torna seu portador apto a desempenhar determinadas
atividades, serviços e ministérios em ordem à
salvação. Numa perspectiva trinitária, é preciso
ressaltar aqui a unidade na variedade e a variedade na
unidade. Ao se falar de carismas, não se deveria
privilegiar os mais extraordinários e espetaculares
(como o dom das línguas, o dom das curas e milagres),
mas os que sustentam a fé e ajudam-na a encarnar-se
(como a sabedoria, a ciência, a profecia, o ensinamento
dos doutores). Ao lado da capacidade de operar milagres,
Paulo recorda o carisma da assistência e do governo da
comunidade. Diante da tentação de excluir da lista dos
carismas os serviços mais humildes e estáveis, Paulo
afirma o valor destes serviços, como no corpo humano,
onde os membros menos nobres são os mais necessários.
Não se pode esquecer que a função de Apóstolos - aos
quais, de alguma forma, sucedem, na Igreja, os ministros
ordenados - situa-se também no conjunto dos carismas e,
em Paulo, vem em primeiro lugar. Na verdade, todos os
carismas, serviços e ministérios de que a Igreja é
dotada pelo Espírito para cumprir a sua missão se
complementam, cooperam uns com os outros e se integram,
como os membros de um corpo. Atenção especial merece o
princípio de subsidiariedade.
- Nem todo carisma, porém, é
ministério. A dimensão de serviço deve caracterizar
todo carisma e seu portador deve aspirar ao dom maior,
que é o amor. Mas só pode ser considerado
ministério o carisma que, na comunidade e em vista da
missão, assume a forma de um serviço bem determinado,
envolvendo um conjunto mais ou menos amplo de funções,
que responda a exigências mais permanentes da comunidade
e da missão, seja assumido com estabilidade, comporte
uma verdadeira responsabilidade e seja acolhido e
reconhecido pela comunidade eclesial (= dimensão
imanente).
- A recepção ou
reconhecimento do ministério pela comunidade eclesial
é essencial ao ministério, porque o ministério é uma
atuação pública e oficial da Igreja, tornando seu
portador, num nível maior ou menor, seu representante.
Esta "recepção" ou
"reconhecimento" dos ministérios tem
modalidades e graus diversos, dependendo da natureza
da função, ou seja, da sua relação com a identidade e
a missão da Igreja.
TIPOLOGIA DOS MINISTÉRIOS
- Na reflexão teológica e pastoral,
têm-se distinguido os seguintes grupos de
ministérios: a) ministérios simplesmente "reconhecidos"
(às vezes, impropriamente, chamados ministérios
"de fato"), quando ligados a um serviço
significativo para a comunidade, mas não tão
permanente, podendo vir a desaparecer ao variarem as
circunstâncias; b) ministérios "confiados",
quando conferidos ao seu portador por algum gesto
litúrgico simples ou alguma forma canônica; c)
ministérios "instituídos", quando o
carisma, embora não ligado a uma consagração
sacramental, é orientado a um serviço preciso,
permanentemente exigido pela comunidade, com verdadeira
responsabilidade, e é conferido pela Igreja através de
um rito litúrgico chamado "instituição"; d)
ministérios "ordenados" (também
chamados apostólicos ou pastorais), quando o
carisma é, ao mesmo tempo, reconhecido e conferido ao
seu portador através de um sacramento específico, o
sacramento da Ordem, que visa a constituir os ministros
da unidade da Igreja na fé e na caridade, de modo que a
Igreja se mantenha na tradição dos Apóstolos e,
através deles, fiel a Jesus, ao seu Evangelho e à sua
missão. Os ministérios "reconhecidos",
"confiados" e "instituídos"
tomados em conjunto formam os ministérios
não-ordenados, isto é, que não exigem a ordenação.
"HIERARQUIA
E LAICATO" OU
"COMUNIDADE-CARISMAS
E MINISTÉRIOS"?
- O Concílio Vaticano II pensou a
estrutura social da Igreja em termos de hierarquia
(realizando sua missão basicamente na Igreja) e laicato
(realizando sua missão basicamente no mundo). É,
com efeito, herdeiro da situação eclesial e da teologia
que o precederam e prepararam. Tanto uma como outra
esforçaram-se por resgatar, na prática e na teoria, a
dignidade e a missão dos leigos e leigas. De forma
densa, Lumen Gentium descreve - não faz uma
definição, na verdade impossível - o leigo no nº 31,
ressaltando sua condição cristã e eclesial, sua
diferença em relação à hierarquia e aos religiosos, e
enfatizando sua "índole secular". Assim se
expressa o Concílio: "Pelo nome de leigos
aqui são compreendidos todos os cristãos, exceto
os membros de ordem sacra e do estado religioso aprovado
na Igreja. Estes fiéis pelo batismo foram incorporados a
Cristo, constituídos no povo de Deus e a seu modo feitos
partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de
Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo o
povo cristão na Igreja e no mundo. A índole secular
caracteriza especialmente os leigos. (...). É porém
específico dos leigos, por sua própria vocação,
procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e
ordenando-as segundo Deus. Vivem no século, isto é, em
todos e em cada um dos ofícios e trabalhos do mundo.
Vivem nas condições ordinárias da vida familiar e
social, pelas quais sua existência é como que tecida.
Lá são chamados por Deus para que, exercendo seu
próprio ofício guiados pelo espírito evangélico, a
modo de fermento, de dentro, contribuam para a
santificação do mundo. E assim manifestam Cristo aos
outros, especialmente pelo testemunho de sua vida
resplandecente em fé, esperança e caridade. A eles,
portanto, cabe de maneira especial iluminar e ordenar de
tal modo as coisas temporais, às quais estão
intimamente unidos, que elas continuamente se façam e
cresçam segundo Cristo, para louvor do Criador e
Redentor".
- Neste sentido, o Concílio,
embora tenha lançado as bases para uma compreensão
comunional da estrutura social da Igreja, essa
estrutura continua ainda sendo pensada dentro do binômio
clássico "hierarquia e laicato". É
sabido, porém, que esse binômio que condiciona
fortemente o nosso modo de entender e de viver a
realidade eclesial e a missão não é suficiente.
De um lado, distingue muito; de outro lado, distingue
muito pouco! Expliquemo-nos. O binômio distingue
muito a hierarquia do laicato e vice-versa porque
não realça suficientemente a unidade batismal, crismal
e eucarística que liga no mesmo e único Espírito os
leigos e os ministros ordenados. Deixa na sombra o que
há de comum entre ambos (exatamente a "condição
cristã"!) e o que mais os distingue em relação ao
mundo (também a "condição cristã"!), e que,
na verdade, é o mais importante! Vale aqui lembrar Santo
Agostinho: "Atemoriza-me o que sou para vós;
consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou
bispo, convosco sou cristão. Aquilo é um dever,
isto uma graça. O primeiro é um perigo, o
segundo salvação". Ao distinguir
tão claramente hierarquia e laicato, como faz LG 31,
dá-se a impressão, ao limite, que hierarquia e laicato
não pertençam à mesma comunhão eclesial, que é toda
ela "sacramento de salvação" no mundo e para
o mundo! De outro lado, distingue muito pouco,
porque, no interior da comunhão eclesial, destaca apenas
estas duas realidades - a hierarquia e o laicato
deixando na sombra a imensa variedade de carismas,
serviços e ministérios que o único Espírito
suscita para a vida e a missão da Igreja!
- Por isso, desenvolvendo
perspectivas já presentes no Concílio, mas ainda não
explicitadas, vários teólogos - a começar por Congar -
têm proposto pensar-se a estrutura social da Igreja em
termos de "comunidade - carismas e
ministérios". O primeiro termo,
"comunidade" (ou o teologicamente mais denso
"comunhão"), inclui tudo o que há de comum a
todos os membros da Igreja; e a dupla "carismas e
ministérios" inclui tudo o que positivamente os
distingue. É esta, aliás, a perspectiva do Novo
Testamento, onde nunca aparece o termo
"leigo" ou "leiga", mas sublinham-se
os elementos comuns a todos os cristãos e, ao mesmo
tempo, valorizam-se as diferenças carismáticas,
ministeriais e de serviço. Neste sentido, os termos que
designam os membros do Povo de Deus acentuam a condição
comum a todos os regenerados pela água e pelo Espírito:
"santos", "eleitos",
"discípulos", "irmãos". À
variedade de carismas e ministérios no Novo Testamento
já se aludiu em outras partes deste texto.
- Logo se levantam objeções:
onde fica a relação com o mundo? o que é feito da
índole secular não específica, mas "própria e
peculiar" aos leigos? que valor tem ainda o mundo? A
estas objeções se responde reinterpretando
exatamente a "índole secular", que, no
pensamento do Concílio, não é específica e
exclusiva dos leigos, mas atenção para os
termos cuidadosamente escolhidos pelo Concílio
"própria e peculiar". Tanto assim que,
logo em seguida, o texto diz: "Pois os que receberam
a ordem sacra, embora algumas vezes possam ocupar-se em
assuntos seculares, exercendo até profissão secular, em
razão de sua vocação particular destinam-se
principalmente e ex-professo ao sagrado ministério. E os
religiosos por seu estado dão brilhante e exímio
testemunho de que não é possível transfigurar o mundo
e oferecê-lo a Deus sem o espírito das
bem-aventuranças". Na verdade, a partir de uma
"eclesiologia de totalidade" ou de uma
"eclesiologia total", é a Igreja toda -
portanto, pastores e leigos, religiosos e não religiosos
- que está no mundo e que é sacramento de
salvação no mundo. Cada um, porém, realiza a
missão da Igreja na Igreja e no mundo a partir do(s)
carisma(s) e, eventualmente, do(s) serviços ou
ministérios que exerce.
- Na verdade, a "índole
secular" (ou secularidade ou laicidade,
como alguns preferem) pode ser considerada em quatro
sentidos. Há, em primeiro lugar, uma "laicidade"
do próprio mundo. É a sua consistência própria, a
sua autonomia em relação à Igreja, a sua busca de
formas de organizar a convivência humana - com
critérios e por caminhos que a sociedade civil vai
elaborando e compondo em consensos mais ou menos
parciais: "as coisas criadas e as mesmas sociedades
gozam de leis e valores próprios, a serem conhecidos,
usados e ordenados gradativamente pelo homem". Há,
em segundo lugar, uma "laicidade" da
própria Igreja. Afinal, a Igreja toda - e não só
os leigos e leigas - estão no mundo e participam de suas
atividades em todos os campos, embora sejam bastante
diversificadas as relações dos membros da Igreja com as
atividades familiares, econômicas, sociais, políticas,
culturais e religiosas que tecem a sociedade humana.
Evidentemente, há uma "índole secular"
própria e peculiar dos leigos e leigas, como LG 31
descreve com bastante propriedade. É neste sentido que
com muito realismo o Concílio liga a vocação dos
cristãos "especialmente" com o mundo:
"Os leigos, porém, são especialmente chamados para
tornarem a Igreja presente e operosa naqueles lugares e
circunstâncias onde apenas através deles ela pode
chegar como sal da terra. Assim, todo leigo, em virtude
dos próprios dons que lhe foram conferidos, é ao mesmo
tempo testemunha e instrumento vivo da própria missão
da Igreja". A Exortação Evangelii Nuntiandi é
mais detalhada ao apresentar a missão do leigo no mundo:
"O campo próprio de sua atividade evangelizadora é
o mesmo mundo vasto e complicado da política, da
realidade social e da economia, como também o da
cultura, das ciências e das artes, da vida
internacional, dos "mas media" e, ainda, outras
realidades abertas para a evangelização, como sejam o
amor, a família, a educacão das crianças e dos
adolescentes, o trabalho profissional e o
sofrimento". E deve haver - se quisermos ser
coerentes com a mensagem cristã e dignos de crédito na
sociedade moderna e pluralista - uma "laicidade
na Igreja", que consiste em viver na Igreja
aqueles valores (chamados de "laicos" no
Ocidente) que são a referência ideal da convivência na
sociedade civil (liberdade, fraternidade, solidariedade,
igualdade) e que são pregados pela Igreja, mas nem
sempre têm plena cidadania na vida e nas relações
intraeclesiais.
- As duas impostações acima
descritas fazem-nos perceber a realidade eclesial a
partir de ângulos diferentes, que podem se complementar,
cuidando-se de evitar compreensões parciais de ambas.
- No uso do termo
"leigo", não se deve esquecer de que o (a)
leigo (a) é, antes de tudo, um cristão e um membro da
Igreja, a pleno título, mesmo que não faça parte da
hierarquia. Será que, sobretudo em nossas relações com
a sociedade civil, não poderíamos evitar o termo
"leigo" - com uma carga semântica negativa - e
ter a coragem de usar o termo "cristão" ou
"católico", sem o excesso de zelo de afirmar
sempre e em todo lugar - mesmo aos "de fora" -
a diferença em relação à hierarquia?
- Assumindo o binômio
"comunidade - carismas e ministérios", não se
poderia esquecer a "laicidade" do mundo, a
"laicidade" da e na Igreja e a "índole
secular própria e peculiar" dos leigos e leigas,
nos sentidos explicados acima. É claro, neste nível,
que a grande maioria do laicato e a grande maioria do
clero - sociologicamente falando - se enquadram na
descrição de LG 31. Talvez por isso, sobretudo os
leigos militantes em associações, nos sindicatos, na
política tenham mais conaturalidade com o esquema
"hierarquia-laicato" do que com o esquema
"comunidade - carismas e ministérios".
III - COMUNIDADE EM MISSÃO
Diretrizes para a
evangelização
- A participação diversificada na única
missão do Povo de Deus, que tem como fim a construção
da sociedade justa e fraterna e a edificação da Igreja
como sinal do Reino, une a todos os cristãos. Na
perspectiva da solidariedade e da complementaridade, eles
se reforçam mutuamente e descobrem sua missão e seus
carismas, que põem a serviço da comunidade e do mundo
como frutos da multiforme graça de Deus recebida no
Batismo, enriquecida e fortalecida na Crisma em vista da
missão testemunhal.
- Nesta terceira parte,
apontaremos algumas diretrizes práticas, que
deverão ser aplicadas às situações específicas com
criatividade e enriquecidas em cada Igreja particular,
paróquia, comunidade, movimento ou pastoral.
- Partimos da concepção de que
toda a Igreja é missionária e ministerial e que a base
sobre a qual se fundamentam todos os ministérios é a
comunidade evangelizadora. Sob o impulso do Espírito
Santo, protagonista da missão, a comunidade, enriquecida
pela variedade de carismas que o mesmo Espírito confere
a todos os cristãos, forma seus ministros e lhes confia
a missão para, em seu nome, anunciar a Boa Nova de Jesus
através do serviço e participação na transformação
da sociedade pelo bem dos pobres, do diálogo com as
culturas e outras religiões, do anúncio do Evangelho e
da vivência e testemunho da comunhão eclesial.
1. POR UMA COMUNIDADE
PROFÉTICA, MISSIONÁRIA,
ACOLHEDORA, PARTICIPATIVA E
MISERICORDIOSA
- "Aprouve, no entanto, a Deus
santificar e salvar os homens, não individualmente,
excluindo toda a relação entre os mesmos, mas formando
com eles um povo, que o conhecesse na verdade e o
servisse em santidade". "O múnus de Pastor
não se limita ao cuidado singular dos fiéis, mas
estende-se propriamente à formação da genuína
comunidade cristã". Essas declarações do
Concílio lembram o que o Novo Testamento afirma com
insistência. O apostolado individual é importante para
a evangelização, mas ele deve estar integrado na comunidade
cristã, que, por sua vez, é missionária e ativa
no serviço do Reino de Deus.
- Para que possam ser aquele
sinal de unidade e paz que o mundo procura, as
comunidades precisam cultivar as dimensões da acolhida,
da misericórdia e da profecia. Numa sociedade em que
cresce o número dos excluídos e descartáveis; onde a
concorrência desenfreada e anti-ética dificulta a
fraternidade e a paz; onde a injustiça e a corrupção
tentam impor-se como normais, as comunidades deverão
destacar-se como um referencial de vida e esperança,
sobretudo para os mais pobres.
- As comunidades sejam
realmente fraternas, de tal forma que a igual
dignidade de todos os fiéis seja evidenciada e seja
estimulada a participação ativa de todos. As
celebrações litúrgicas, respeitada a diversidade de
funções e o papel específico dos ministros ordenados
(bispos, padres, diáconos), coloquem em relevo a
comunhão fraterna entre todos, de tal forma que o
estranho possa nelas reconhecer um sinal da presença de
Deus.
- As paróquias, capelas, CEBs,
pastorais, grupos cultivem uma particular solicitude para
receber e introduzir na vida comunitária as pessoas que
chegam de outros lugares ou que se reaproximam da vida
eclesial. Sejam realmente acolhedoras, mais
semelhantes a uma família do que a um aparato
burocrático. Afastem formas de autoritarismo e
mecanismos de exclusão. São freqüentes as queixas de
que agentes de pastoral, padres e leigos, bem
intencionados, exercem um controle demasiadamente
rigoroso sobre a participação de novos membros,
desencorajando-os ou afastando-os. É preciso superar
estas atitudes e ter mais respeito e paciência para com
os novatos na comunidade.
- Mais cuidado ainda exige o acolhimento
daqueles que são "diferentes" e procedem
de outra religião ou de uma situação de vida e de
cultura estranhas às comunidades eclesiais. Nesses
casos, lembre-se a atitude das primeiras comunidades
cristãs, que não discriminavam raça ou povo, gênero
ou classe: "Não há mais judeu nem grego; não há
mais escravo nem livre; não há mais homem nem mulher,
porque todos vós sois um em Cristo Jesus".
- Uma categoria de pessoas que merece
particular atenção e condescendência é a
daquelas que estavam afastadas da Igreja ou até
permanecem numa situação canônica irregular, mas
manifestam o desejo de reaproximação. É preciso seguir
o exemplo de Jesus: compreensão, respeito e
misericórdia para com aqueles que o Senhor, no
Evangelho, chama de "doentes" ou
"pequenos".
- Muitas vezes, nossas
comunidades mal merecem esse nome, porque são
demasiadamente grandes, massificadas, impessoais. Devemos
continuar o nosso esforço de estimular a formação
de comunidades menores ou de grupos, que facilitem um
relacionamento direto e pessoal. No ambiente urbano,
será mais difícil estabelecer comunidades e grupos com
a mesma estabilidade e de maneira homogênea como
acontecia na sociedade tradicional. Porém, grupos ou
comunidades ambientais (trabalhadores de uma empresa,
profissionais da saúde, professores...) podem trazer
bons resultados. Em todo caso, é importante multiplicar
diversas formas de relacionamento, aproveitando as
múltiplas possibilidades da comunicação de hoje:
rádio, TV, impressos, telefone, fax, Internet, contatos
pessoais, além da participação na liturgia dominical e
em alguns encontros, cuja densidade espiritual deveria
ser muito bem cuidada. Pessoas, grupos e comunidades
podem permanecer em comunicação entre si, como numa
"rede" de troca de informações e
experiências, que lhes permita se alimentar da riqueza
da vida cristã de outros grupos ou movimentos, da
paróquia, da diocese, da Igreja que atua em nível
regional, nacional e mundial.
- É preciso dar continuidade e
novo vigor à nossa orientação de 1981, que pedia:
"fazer com que todos os fiéis, diretamente
ou através de representantes eleitos, participem quanto
possível não só da execução, mas também do
planejamento e das decisões relativas à vida
eclesial e à ação pastoral; para isso podem
promover-se periodicamente assembléias e sínodos do
povo de Deus, devendo-se manter, em todos os níveis, conselhos
pastorais, como recomenda o Concílio e Puebla o
reafirma". Haja o cuidado, nos Conselhos, de não
buscar simplesmente a vontade da maioria, mas quando
possível o consenso de todos ou soluções que conciliem
direitos e interesses da maioria e dos grupos
minoritários. Diante do consenso do Conselho, o Pároco
assuma sem hesitar a decisão, a não ser que motivos
gravíssimos de consciência lhe imponham um momento de
reflexão ou consulta ao Bispo diocesano, para voltar
novamente a dialogar com o Conselho.
- Para que a participação
possa ser efetiva, tenham os fiéis oportunidades
reais tanto de informação sobre a vida eclesial quanto
de formação cristã, sem o que dificilmente
poderão participar consciente e responsavelmente da
missão. Com o Projeto "Rumo ao Novo Milênio"
a Conferência Episcopal está incentivando um esforço
amplo e constante de formação de jovens e adultos,
que necessitará maior apoio e continuidade. Esse
esforço abre ao povo cristão as riquezas da Palavra de
Deus e contribui para formar um espírito crítico face
à cultura de massa, pobre de valores éticos,
individualista e consumista.
- Num País profundamente
marcado por formas graves de injustiça e de
marginalização social, nossas comunidades precisam
aprofundar o conhecimento e a prática da
doutrina social da Igreja e, a exemplo de Jesus e dos
profetas, denunciar com firmeza, tudo aquilo que se opõe
ao Evangelho e contraria aos princípios éticos de uma
sadia convivência humana. Atentas aos sinais dos tempos,
as comunidades terão os olhos voltados para o futuro,
confiantes de que o Senhor nos precede na história e na
missão, sustentando-nos na caminhada. As comunidades
cristãs, em parceria com outros construtores da
sociedade pluralista, esforcem-se para serem portadoras
da memória e profecia do Espírito.
- A comunidade cristã contribuirá
para a evangelização pelo testemunho de suas
atitudes evangélicas, inspiradas na prática de Jesus,
como o acolhimento, a fraternidade, a compreensão e
misericórdia, a atenção às pessoas através de
pequenos grupos, participação e corresponsabilidade nas
decisões. Promoverá, além disso, atividades
específicas, evangelizadoras ou missionárias, seja no
próprio ambiente, seja em realidades aparentemente
impermeáveis ao Evangelho, seja nas missões "além
fronteiras". Não há dúvida de que a hora presente
exige que toda comunidade eclesial seja missionária, a
serviço da nova evangelização. Portanto, ela deverá
rever sua vida e atuação para adequá-las às
exigências da missão atual. Bispos e padres, leigos e
leigas, religiosos e religiosas, todos deverão dispor-se
com novo ardor para assumir sua responsabilidade
missionária.
- Do seio dessas comunidades que
surgirão os leigos capazes de levarem à frente a obra
de Jesus, o serviço do Reino, através da
evangelização inculturada, que "significa a
íntima transformação dos valores culturais
autênticos, pela sua integração no cristianismo e o
enraizamento do cristianismo nas várias culturas".
A evangelização inculturada é uma realidade complexa,
feita de diversos aspectos ou dimensões, embora
profundamente conexos entre si. Explicita-se mais
claramente nas suas exigências constitutivas de
serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão.
2. SERVIÇO E PARTICIPAÇÃO
NA TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE PELO BEM DOS POBRES
- Aos cristãos leigos compete uma atuação
insubstituível na construção da sociedade justa e
fraterna, a partir de sua condição e ambiente
próprios. Aí eles enfrentam, particularmente, dois
desafios básicos: a luta contra a pobreza e a defesa
intransigente da ética pública. O Concílio exorta os
leigos a que se empenhem generosamente no desempenho do
seu papel de evangelizadores, capazes de opor, uma visão
cristã dos problemas de hoje às gravíssimas ameaças
à ética e à religião. "O apostolado no meio
social, a saber, o esforço de dar, pelo espírito
cristão, nova forma à mentalidade e aos costumes, às
leis e às estruturas da comunidade em que vivem, a tal
ponto é dever dos leigos, que por outros nunca poderiam
ser devidamente realizados" .
- Após o Concílio, a reflexão
desenvolvida pelos Sínodos e Episcopados destacou a
conexão entre evangelização e animação cristã das
realidades terrestres, ou, em outras palavras, entre
evangelização e libertação, promoção humana,
desenvolvimento. Apareceu mais claro que a
"animação cristã das realidades terrestres"
exigia uma profunda transformação da sociedade e
implicava uma luta difícil contra estruturas injustas,
contra um verdadeiro "pecado social". O Papa
João Paulo II, na Exortação após o Sínodo de 1987,
descrevendo a missão dos leigos, articula estreitamente
o anúncio do Evangelho e o serviço da pessoa e da
sociedade.
- Vemos com alegria e esperança
a atuação de inúmeros leigos que, com consciência
crítica, testemunham o Evangelho no seu ambiente
familiar, no trabalho, na política e na participação
firme e eficaz nos mais diversos setores da sociedade
civil. Persistem, porém, parcelas significativas do Povo
de Deus marcadas, ainda, pela dicotomia entre fé e vida
e que se deixam facilmente influenciar pelo ambiente e
cultura dominantes.
- A experiência no mundo da
política tem se revelado aos leigos cristãos ser bem
mais difícil do que se imagina à primeira vista. Devido
ao senso comum que considera a política como algo sujo,
as comunidades cristãs nem sempre confiam naqueles que,
mesmo saindo de seu meio, assumem esta tarefa na
sociedade civil. Muitos se queixam de que depois de terem
assumido um mandato político se sentem abandonados pela
comunidade cristã de origem. No entanto, há os que
assumem esta tarefa conscientes de que são portadores de
uma radicalidade evangélica que não pode ser
instrumentalizada, submetida, anulada. Cabe às
comunidades cultivarem atitudes concretas de apoio,
acompanhamento e formação permanente aos que despertam
para essa vocação. Convém destacar aqui algumas
iniciativas já bem sucedidas, tais como Comissão de
Justiça e Paz, Centros de Defesa de Direitos Humanos,
Escolas de Fé e Política, Comissões de acompanhamento
das sessões das Câmaras Municipais e outras.
- A exigência da solidariedade
e do serviço aos mais pobres tem levado a renovar as práticas
de caridade e assistência social. Novas situações
de pobreza e de sofrimento solicitam novas atitudes por
parte dos cristãos caridosos, empenhados numa ação
social, que procura ir além da mera assistência, para
criar iniciativas de economia solidária, de auto-ajuda,
de promoção e transformação social. Formas novas de
atuação pastoral têm suscitado um extraordinário
número de agentes voluntários, como por exemplo,
pastoral da criança, pastoral do menor, pastoral da
saúde, pastoral carcerária, recuperação de
dependentes químicos e marginalizados. Freqüentemente
também são promovidas campanhas de solidariedade, que
mobilizam jovens e adultos. Além disso, continua a
generosa dedicação das muitas pessoas, homens e
mulheres, que cuidam das obras sociais. Sem fechar-se
sobre si mesma, toda comunidade se empenhe para que não
haja nela nenhum necessitado.
- A missão do leigo na
sociedade apresenta-se hoje à consciência cristã como
uma forma de evangelização, em que aspectos diversos
podem ser acentuados, conforme o apelo das
circunstâncias e a vocação pessoal de cada um: desde a
transformação das realidades terrestres, pela ação
social e política, até o anúncio da mensagem
evangélica pela palavra, pelo testemunho de vida e pelo
diálogo, sempre em atitude de serviço inspirada pelo
Cristo que veio para servir.
3. DIÁLOGO COM AS CULTURAS E
OUTRAS RELIGIÕES
- A certeza de que o Espírito Santo está
presente nas mais diversas religiões e culturas leva a
comunidade eclesial a buscar no diálogo com elas o
conhecimento mútuo, o aprofundamento da verdade e a
parceria na construção de uma nova sociedade, que
supere todas as discriminações e dominações.
Destaca-se aqui a grande responsabilidade do cristão
leigo, por estar em permanente relação com pessoas de
diferentes religiões e culturas. Constata-se, porém,
que no campo do diálogo com a cultura moderna e com as
outras religiões, estamos apenas começando e temos
longo caminho a percorrer.
- Por outro lado, evidencia-se
para todos a existência de uma sociedade profundamente
marcada pelo pluralismo cultural e religioso. Esse
fenômeno pode ser localizado, com freqüência, até
mesmo no seio das famílias católicas, onde os costumes
e a religião dos pais já não são transmitidos
tranqüilamente para os filhos. Desse contexto emerge o
imperativo do diálogo como condição para o anúncio
autêntico e eficaz do Evangelho.
- Cresce, por isso, a
consciência da necessidade de um acompanhamento sério
dos cristãos, no sentido de ajudá-los a desenvolver
aquelas disposições que tornam o diálogo autêntico e
proveitoso: "equilíbrio, que une abertura e
realismo; convicção, que permite expressar com
sinceridade e integridade a própria fé; busca do
aprofundamento da verdade, inclusive da compreensão mais
completa da própria fé; disposição para acolher com
gratidão os dons de Deus e os frutos do próprio
diálogo".
- No diálogo com os homens e
mulheres de boa vontade, o leigo católico
esforçar-se-á por perceber, compreender ou interpretar as
interrogações e os anseios dos que buscam a Verdade e o
encontro com Deus. Aqui também os caminhos ou as
mediações são importantes, num mundo em que às vezes
a pessoa do Cristo vivo e a mensagem cristã estão
obscurecidas pelos pecados dos próprios cristãos, por
suas violências e crimes históricos.
- Ganham corpo também junto aos
leigos algumas experiências concretas de ecumenismo no
campo de cursos, seminários e sobretudo de atuação em
áreas de necessidades fundamentais no resgate da
cidadania. Crescente adesão tem recebido a "Semana
de Oração pela Unidade dos Cristãos".
- O Papa João Paulo II é o
grande promotor da aproximação dos cristãos e dos
povos, no afã de favorecer, em nível mundial, a
superação definitiva do espírito bélico e a vivência
efetiva da paz. Na Tertio Millennio Adveniente, o
Santo Padre propõe como meta do Grande Jubileu a união
dos cristãos ou, pelo menos, uma maior aproximação
entre eles. No Brasil, estamos nos empenhando em
organizar, para o ano 2000, uma Campanha da Fraternidade
ecumênica.
- Nessas e noutras iniciativas
procuraremos agir, não sozinhos, mas sempre em diálogo
e comunhão com os irmãos de outras Igrejas. Já nos
valemos da experiência do Conselho Nacional de Igrejas
Cristãs (CONIC) para ampliar a consciência e o
movimento ecumênico em nosso País.
- Tudo isso torna, cada vez mais
urgente, a boa formação de cristãos leigos aptos para
o diálogo com a cultura moderna e para o testemunho da
fé numa sociedade que se apresenta sempre mais
pluralista e, em muitos casos, indiferente ao Evangelho.
4. ANÚNCIO DO EVANGELHO
- O maior desafio missionário, no Brasil
hoje, é a nova evangelização. A grande maioria dos
brasileiros recebeu o batismo e um anúncio, pelo menos
elementar, do Evangelho. Apesar disso, percebe-se que
não estão vivendo a fé com tal convicção que
influencie seu modo de vida. Com acerto, as Diretrizes
Gerais da Ação Evangelizadora afirmam que "os
católicos não praticantes constituem o maior desafio
missionário ... ao menos do ponto de vista
quantitativo". Essa situação origina-se
principalmente do fato que as famílias e o ambiente
sócio-cultural não conseguem mais comunicar a fé às
novas gerações, que portanto precisam ser novamente
evangelizadas, a partir agora do contexto moderno e
urbano, diferente do contexto rural e tradicional, que
antigamente conservava a fé.
- Tempos atrás, as missões se
impuseram, em todo o País, como necessárias para avivar
a fé do povo, que vivia isolado, e para renovar as
convicções, que davam sentido à sua vida e orientavam
a sua caminhada. Hoje ainda persistem algumas situações
semelhantes às de ontem. Em geral, porém, a
situação mudou. As pessoas não vivem isoladas, mas
no meio da multidão, na cidade, ou em contato com o
mundo inteiro, através da televisão. O que escutam e
vêem, o mais das vezes, é um incentivo a pensar em si
mesmas, a desejar um pouco de tudo - principalmente os
bens materiais, o bem-estar, "a felicidade de
ter" isto ou aquilo - e a se esquecer dos outros,
talvez até de Deus. Dizem que nunca houve tanta
informação como hoje e tão pouca comunicação entre
as pessoas. Essa situação provoca a busca de novos
métodos na evangelização que ajudem o povo a resgatar
o sentido mais profundo de sua vida e a razão de sua
fé.
- A consciência da necessidade
de uma nova evangelização mais ardorosa e mais
inculturada, sustentada pelo Projeto Rumo ao Novo
Milênio, tem suscitado um significativo movimento
missionário, que vai desde a realização de
missões em áreas pouco atendidas pastoralmente até à
difusão de experiências comunitárias, à pregação
itinerante, à fundação de círculos bíblicos ou de
"grupos de rua", às missões populares de
avivamento da fé no meio da massa dos fiéis.
- Por todo o País
multiplicam-se as experiências das missões populares.
Através delas tem se conseguido revalorizar e purificar
a religiosidade popular e, ao mesmo tempo, articular
melhor fé e vida. O PRNM, em comunhão com organismos
missionários, vem desenvolvendo novas práticas no
âmbito da formação de evangelizadores e incentivando
as Igrejas particulares a exercitarem a criatividade na
implantação das mais diversas formas de missão, tanto
na zona rural quanto nas áreas urbanas.
- A dimensão do anúncio da Boa
Nova tem encontrado, nas comunidades, movimentos e
pastorais uma significativa e crescente receptividade.
Papel significativo têm desempenhado os santuários, que
reforçam a fé e a esperança dos romeiros, ajudando-os
a articular fé e vida e remetendo-os ao engajamento nas
comunidades de origem.
- O ministério da
visitação está produzindo muitos frutos nas
comunidades. Os agentes de pastoral visitam as
famílias e encontram as pessoas onde elas vivem,
trabalham, mesmo aquelas que não procuram
espontaneamente a comunidade eclesial.
- Esse ministério é completado
pela prática do aconselhamento. Pessoas com
habilidade e preparo procuram escutar, compreender,
apoiar, orientar e consolar as pessoas que se encontram
na dúvida ou em dificuldades afetivas, espirituais e
materiais. Algumas dessas práticas foram realizadas
pioneiramente por movimentos que hoje apontam para todos
este caminho, essencial para tornar a nossa Igreja
acolhedora e misericordiosa.
- Têm também um papel
missionário marcante as iniciativas comunitárias e os movimentos
que possibilitam uma autêntica experiência religiosa,
de encontro com o Cristo Vivo, às pessoas que estão
afastadas das comunidades eclesiais. Toda comunidade deve
hoje cuidar de um modo muito particular de que suas
celebrações e reuniões se constituam em lugar da
experiência de Deus, como Paulo pedia aos Coríntios.
- Constata-se também que há um
número sempre crescente de leigos e leigas assumindo
missões em áreas longínquas e até mesmo além das
fronteiras do nosso País. No espírito do Jubileu, que
nos convida a cancelar as dívidas, as comunidades
eclesiais no Brasil são chamadas a repartir melhor seus
recursos humanos e materiais com as comunidades mais
carentes, em particular, partilhando o esforço
missionário com a Igreja da Amazônia. Nesta partilha
entre irmãos, tanto se beneficia quem recebe quanto
aquele que dá.
- Permanecem, porém, desafios
missionários mais amplos e árduos. No momento atual, a
grande procura de religiosidade não pode esconder o fato
que ela, em grande parte, não ultrapassa a esfera da
vida privada. Os meios econômico, político,
científico, profissional são, ao contrário, fortemente
secularizados. Eles prescindem da dimensão religiosa da
vida, pois a consideram irrelevante para suas
finalidades. Os cristãos que atuam nesses meios vivem o
drama do conflito de consciências entre as exigências
do sistema econômico, político e profissional, e as
convicções éticas de inspiração cristã. Por outro
lado, o sistema econômico-político exerce poderosa
influência, através dos meios de comunicação de
massa, sobre a cultura e a mentalidade do povo. Eles
constituem um "moderno areópago", onde é
urgente a presença de apóstolos competentes e
corajosos.
5. VIVÊNCIA E TESTEMUNHO DA
COMUNHÃO ECLESIAL
- A comunidade eclesial é missionária,
pela sua própria existência. Ela deve dar testemunho
de comunhão fraterna e daquela unidade com o Pai,
pelo Filho e no Espírito, que é necessária "para
que o mundo creia". Para isso, ela se alimenta
permanentemente na Liturgia e na Palavra de
Deus. O Concílio Vaticano II reconheceu o valor
central dessas duas fontes de vida cristã e a elas
dedicou as constituições Sacrosanctum Concilium e
Dei Verbum. Contribuiu assim para a profunda
renovação da liturgia e a ampla divulgação e leitura
da Bíblia entre os católicos. Aspecto importante dessa
renovação foi a revalorização dos carismas e a nova
repartição das tarefas e ministérios destinados a
tornar mais acessível à comunidade as riquezas da
Liturgia e da Palavra.
- O Concílio Vaticano II ajudou
a Igreja latina a redescobrir a presença do Espírito
Santo, quer valorizando os carismas, quer
ressaltando sua atuação na origem e na missão da
Igreja. O sacramento da Confirmação é como que o
"pentecostes" do cristão batizado que o
consagra permanentemente para a missão no seio do povo
de Deus. "Pelo sacramento da Confirmação são
vinculados mais perfeitamente à Igreja, enriquecidos de
especial força do Espirito Santo e assim mais
estreitamente obrigados à fé que, como verdadeiras
testemunhas de Cristo, devem difundir e defender tanto
por palavras como por obras". Para um laicato
consciente é de capital importância a convicção de
ter sido marcado, com um caráter indelével, pelo selo
do Espírito, enviado por Cristo de junto do Pai, e
derramado sobre a sua Igreja, para ficar com ela até o
fim dos séculos. Sem essa mística, torna-se difícil
para os leigos dar à ação pastoral "um novo
impulso, capaz de suscitar, numa Igreja ainda mais
arraigada na força e na potência imorredouras de
Pentecostes, tempos novos de evangelização".
- O Concílio Vaticano II abriu
oportunas perspectivas no campo dos ministérios,
estabelecendo que "a hierarquia confia aos leigos
algumas funções que estão mais intimamente ligadas aos
deveres dos pastores, como no ensino da doutrina cristã,
nalguns atos litúrgicos e na cura de almas". Já em
1975 o Papa Paulo VI podia manifestar "uma grande
alegria" por ver o florescimento de ministérios
não-ordenados e encorajava a abertura "para
ministérios eclesiais susceptíveis de rejuvenescer e de
reforçar o dinamismo evangelizador" da Igreja. O
Papa João Paulo II reafirma que, "quando a
necessidade ou a utilidade da Igreja o requer, os
pastores podem, segundo as normas estabelecidas pelo
direito universal, confiar aos fiéis leigos certos
ofícios e funções que, embora ligados ao seu próprio
ministério de pastores, não exigem, contudo, o
sacramento da Ordem".
- O Código de Direito Canônico
prevê, no cânon 517, § 2, em casos excepcionais, a
nomeação de leigos para participar do cuidado
pastoral de uma paróquia, que porém continua
confiada ao governo de um presbítero como pároco.
Leigos e leigas podem integrar uma equipe pastoral que
ajude o pároco no desempenho de suas responsabilidades.
Entre nós, leigos e leigas assumem, em grande escala, o
serviço de animação das pequenas comunidades ou
comunidades eclesiais de base, em que se articulam muitas
das paróquias, especialmente nas regiões rurais e nas
periferias urbanas.
- Na tradição cristã, o ministério
da Palavra é o primeiro ministério pois é chamado
a suscitar a fé e a educá-la. Em nosso
país, são particularmente numerosas as celebrações
dominicais da Palavra, presididas por leigos e
leigas, que se esforçam por desempenhar esta função na
fidelidade ao Evangelho e atendendo as orientações da
Igreja e do bispo diocesano.
- Muitos outros leigos e leigas,
especialmente os catequistas, cuidam da educação da fé
de crianças, jovens e adultos, desempenhando o
ministério da catequese, com o apoio da paróquia
e da diocese. Hoje, a catequese supre muitas vezes a
falta de educação da fé por parte da família. A
catequese não conta mais com o apoio de um ambiente
cristão e se vê desafiada pela cultura atual. Por isso,
é tanto mais necessária uma boa formação dos
catequistas. Mais freqüentes se tornam também os
pedidos de catequese de adultos, para os quais é
necessário descobrir um itinerário de fé adequado às
circunstâncias atuais. Não esqueçam, porém, os leigos
que, acima de tudo, podem e devem exercer a vocação
profética recebida no batismo, pelo exemplo e a palavra,
em sua vida quotidiana e onde o Espírito os chamar.
- Os leigos participem dos conselhos
pastorais e econômicos, em nível diocesano,
paroquial e comunitário. Reiteramos o convite a dioceses
e paróquias que, porventura, ainda não tenham
instituído esses conselhos, para que os convoquem e os
promovam, como eficiente instrumento de participação do
povo de Deus. Cuide-se, outrossim, para que eles sejam
realmente representativos da comunidade.
- Continue-se a experiência já
bastante difundida e proveitosa em nosso País dos ministros
extraordinários da Sagrada Comunhão, seja
temporários, seja estáveis. No exercício deste
ministério, prestem preciosa colaboração na assistência
espiritual aos enfermos e idosos. Esse serviço
laical torna-se ainda mais necessário e urgente se
considerarmos que uma parcela significativa do povo morre
sem o conforto do sacramento da Unção dos Enfermos.
Cuide-se também de oferecer a esses ministros formação
e acompanhamento adequados.
- A prática, em muitos lugares,
de se confiar a fiéis leigos o ministério
extraordinário do Batismo tem-se revelado
pastoralmente valiosa. Ela poderia ser estendida a outras
comunidades, com autorização do bispo diocesano.
Incentivamos as comunidades a cuidar com particular zelo
da pastoral do batismo, sacramento que todos os pais
católicos procuram para seus filhos e que é portanto,
uma ocasião preciosa de contato com todas as famílias,
mesmo aquelas que não freqüentam assiduamente a
Eucaristia ou outros sacramentos.
- Em algumas regiões do País,
verifica-se a atuação de fiéis leigos como testemunhas
qualificadas do sacramento do Matrimônio. Este
ministério pode ser pastoralmente mais proveitoso quando
inserido num processo de pastoral familiar, que prepare e
acompanhe os casais. E é tanto mais necessário quanto
mais difícil for a situação pastoral.
- As exéquias
constituem-se num momento pastoral privilegiado, porque
todos são, nesta hora, mais abertos à mensagem da fé.
Sua celebração pode ser confiada a ministros não
ordenados que, em nome da Igreja dão, nesta ocasião, um
testemunho de esperança, de solidariedade e de conforto.
- Os ministérios até aqui
citados estão regulados por normas da Igreja universal e
possuem muitas vezes uma longa tradição. Mas as
mudanças recentes nas situações sociais e culturais de
nosso País, além de situações particulares ou
regionais, têm favorecido a criação e ainda poderão
suscitar outros tipos de serviços pastorais, que
respondam às necessidades das pessoas e comunidades.
- A grande mobilidade de pessoas
e famílias e, por outro lado, a solidão e o isolamento
de que sofrem muitas pessoas no meio urbano têm
incentivado recentemente as comunidades a criar e
valorizar o ministério da acolhida, que visa a
receber pessoas novas na comunidade ou a oferecer
oportunidades de escuta e de aconselhamento para as
pessoas que se sentem sozinhas ou desorientadas.
- A crescente busca de
espiritualidade e de oportunidades de oração
comunitária suscita a procura e a formação de animadores
de grupos de oração, de cantos religiosos, de
círculos bíblicos e de grupos de reflexão, de
celebrações de louvor ou penitenciais (não
sacramentais), de reza do terço, de animação da
música e do canto religioso. Além dos ministérios
litúrgicos já citados acima, é notável a difusão das
equipes que cuidam da preparação da missa dominical e
da celebração dos diversos sacramentos, favorecendo uma
participação viva do povo e celebrações de cunho mais
pastoral e catequético.
- Constata-se, com alegria, que
cresce na Igreja do Brasil o número de teólogas e
teólogos leigos que assumem a missão da assessoria
teológica junto às comunidades, da reflexão
sistemática da fé e do ensino nas mais diversas escolas
teológicas do País. Multiplicam-se inúmeros cursos de
teologia para leigos, distintos na duração e no nível,
mas todos procurando dar uma formação mais
aperfeiçoada do que a catequese costumeira. É
necessário, portanto, investir mais recursos na
formação dos leigos, seja através de bolsas de estudo,
seja remunerando convenientemente as atividades de ensino
e pesquisa.
- As difíceis condições
econômicas do povo têm gerado uma preocupação de
administrar com eficiência os escassos recursos das
comunidades, para assegurar da melhor forma possível a
construção de igrejas, capelas e centros comunitários,
a sustentação dos ministros, a dignidade do culto e
assistência aos pobres. Neste serviço de
administração, destacam-se muitos leigos e leigas
que zelam pelo bem da comunidade. Outros profissionais
prestam, gratuitamente, serviços de assessoria
administrativa e jurídica ou no campo da comunicação
social, auxiliando pastorais e organismos eclesiais,
paroquiais ou diocesanos. Todos esses serviços merecem
apoio para o seu desenvolvimento.
- Outra prática que vem se
tornando comum em nossas comunidades é a de substituir
as espórtulas por uma pastoral do Dízimo, que
organiza a sustentação financeira dos ministros e das
atividades pastorais, desvencilhando-a de uma
vinculação demasiadamente estreita com os sacramentos.
Recomenda-se fundamentar biblicamente a prática do
dízimo e destinar sua arrecadação prioritariamente às
pessoas e atividades pastorais.
- É importante que jovens e
adultos continuem a assumir a iniciativa de reunir grupos
de jovens e de lhes proporcionar oportunidades de
formação, crescimento, opção vocacional e
engajamento. Incentive-se, ainda, a criação de grupos
de adolescência e infância missionárias. Esta tarefa
exige paciência e perseverança, porque os grupos se
renovam e mudam muito rapidamente. Outros devem
dedicar-se a tarefas mais especializadas no campo da
educação da fé ou do ensino religioso.
- Finalmente, leigos e leigas
assumem, a pedido das comunidades ou dos respectivos
organismos pastorais, as funções de participação e
de animação nos mais diversos níveis de coordenação
eclesial. Os conselhos ou coordenações paroquiais e
diocesanas são espaço para essa representatividade.
Cabe a eles zelar para que os diversos serviços
trabalhem em harmonia e não falte à comunidade ou
organização nada daquilo de que precisa. Funções de
coordenação podem ser requeridas também em nível
paroquial, de setor, de diocese, exigindo uma dedicação
maior, às vezes até a dedicação em tempo integral. A
criação de coordenadores pastorais, em diversos
níveis, tem sido uma condição imprescindível de
êxito do planejamento que caracteriza a ação pastoral
no Brasil desde os anos sessenta.
6. FORMAÇÃO,
ESPIRITUALIDADE E ORGANIZAÇÃO
- A eficaz atuação dos leigos na
evangelização exige uma profunda e séria preparação,
coa finalidade de favorecer o amadurecimento e o
exercício da liberdade e dos carismas. O leigo
necessita, igualmente, uma vida interior de consciência
e espírito de responsabilidade. Isso supõe uma formação
espiritual, adequada, tanto mais que o ambiente
cultural da sociedade atual freqüentemente é orientado
em sentido contrário aos valores cristãos. É portanto
necessário criar condições para que os leigos
católicos encontrem mais facilmente os caminhos da
descoberta e do aprofundamento de uma espiritualidade
laical, baseada na oração pessoal e comunitária e
na vida sacramental, capaz de sustentá-los em sua
atuação no mundo - na realidade da família, da
educação, do trabalho, da ciência, da cultura, da
política, dos compromissos sociais e civis... - seja
para testemunhar o Evangelho, seja para transformar a
sociedade.
ESPIRITUALIDADE DO CRISTÃO
- A espiritualidade de leigos e leigas é,
antes de tudo, o caminhar nas estradas da vida, com
Cristo, no vigor do Espírito Santo, ao encontro do Pai,
construindo seu Reino. Os discípulos e discípulas de
Jesus hoje são como os discípulos de Emaús: pessoas a
caminho, desalentadas, mas que encontraram um
desconhecido que as acompanha e faz arder seus
corações, enquanto lhes fala das Escrituras. Quando
solicitam que permaneça com eles, finalmente o
reconhecem no gesto de partir o pão. Depois deste
reconhecimento, voltam para anunciar aos demais:
"Aquele que morreu está vivo!".
- Hoje, como naquele tempo, as
pessoas que se sentem chamadas, "vocacionadas"
ao seguimento de Jesus, desinstalam-se, entram na
caminhada, para fazerem a experiência de sua presença e
permanecerem unidos a Ele, à sua palavra, ao seu amor e,
então, partirem para anunciá-lo ao mundo. Por isso, a
espiritualidade do seguimento é fundamental para a
vivência cristã. O Espírito que sopra onde quer
ensina-nos o verdadeiro seguimento de Jesus, suscita hoje
uma espiritualidade mais integrada onde todas as
dimensões humanas são contempladas: a afetividade, a
emoção, a racionalidade, a criatividade, a
corporeidade.
- Os discípulos de Emaús
caminharam junto com Jesus, experimentaram sua presença
e regressaram à comunidade, animados e encorajados. Esse
encontro com Jesus é experiência do Mistério que nos
circunda e envolve, que aquece os corações, que seduz
as pessoas, proporcionando um sentido novo às nossas
vidas. A paixão por Jesus nos leva a viver a compaixão,
a solidariedade e a fazer da partilha fraterna nosso
estilo de vida.
- A convivência cotidiana em
família é o espaço primeiro para viver esta
espiritualidade, procurando confrontar a própria vida
com a vida e as opções de Jesus de Nazaré, que
"passou fazendo o bem", numa atitude de total
abertura ao Pai e aos irmãos. Certamente, a experiência
da família embebida desta espiritualidade será
diferente. A vivência de relações igualitárias,
promotoras de respeito à dignidade e às diferenças,
possibilitará um real diálogo e participação de todos
os membros, criando desta forma possibilidades para uma
inserção criativa e crítica na sociedade.
- O Vaticano II denuncia a
gravidade da ruptura entre fé e vida, entre evangelho e
cultura. João Paulo II convida os leigos e leigas a
estabelecer a unidade de vida sustentada pela
espiritualidade. "Não pode haver na sua existência
duas vidas paralelas: por um lado, a vida chamada
espiritual, com seus valores e exigências;
e, por outro, a chamada vida secular, ou
seja, a vida da família, do trabalho, das relações
sociais, do empenho político e da cultura. [...] Toda
atividade, toda situação, todo compromisso - como, por
exemplo, a competência e a solidariedade no trabalho, o
amor e a dedicação na família e na educação dos
filhos, o serviço social e político, a proposta da
verdade na esfera da cultura - são ocasiões
providenciais de um contínuo exercício da fé, da
esperança e da caridade". Leigos e leigas fazem do
fogão, do torno, da cátedra, da enxada, do bisturí...
verdadeiro altar. Imersos no mundo do trabalho, encontram
inspiração no testemunho de Jesus de Nazaré, o filho
do carpinteiro; em Maria servindo a prima Isabel... )
- Maria, "a primeira entre
os humildes e os pobres do Senhor", a primeira
discípula de Jesus nos orienta no seguimento de seu
Filho, integrando a docilidade ao Espírito e o serviço
generoso às irmãs e irmãos. Os acontecimentos eram,
por ela, considerados à luz da própria experiência, da
Palavra de Deus, da atenção à vida e à história.
Exemplo disso é o Magnificat onde louva e bendiz a Deus
pelas maravilhas que Ele realizou na sua vida, na vida do
seu Filho e na vida do seu povo. Discípulos e
discípulas hoje, reconhecerão que Maria é modelo de
reflexão da vida à luz da fé. Mulher corajosa, que
disse sim a Deus e não às injustiças, ao proclamar:
que Deus é vingador dos humildes e dos oprimidos e
derruba do trono os poderosos. Mulher forte "que
conheceu de perto a pobreza, o sofrimento, a fuga e o
exílio - situações estas, que não podem escapar à
atenção de quem quiser secundar com espírito
evangélico, as energias libertadoras do homem e da
sociedade".
- A espiritualidade do
seguimento de Jesus, vivida por suas testemunhas - leigos
como Frederico Ozanam e Santa Catarina de Sena, ou
místicos como São Francisco e Santo Inácio, São João
da Cruz e Santa Teresa de Ávila ou, mais perto de nós,
os mártires latino-americanos - impressiona e inspira a
vida e a prática de muitos cristãos e cristãs, que
buscam ser presença solidária com a dor dos mais
sofridos(as) e procuram estar atentos aos sinais dos
tempos, que desafiam a uma presença qualitativamente
distinta na sociedade.
- Nessa perspectiva,
valorizem-se as experiências já adquiridas, promova-se
o intercâmbio entre pessoas e grupos que estão em busca
de uma nova espiritualidade, facilite-se o acesso às
fontes da grande tradição espiritual cristã, criem-se
ou se adaptem centros de estudo e de vivência
espiritual.
FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO
- A formação de que o leigo católico
precisa para atuar conforme sua vocação, desenvolvendo
a riqueza dos dons e talentos recebidos, não é apenas
uma formação espiritual. É uma formação integral,
que ajuda a desenvolver a dimensão humano-afetiva, a
capacidade de comunicação e relacionamento com os
outros, a capacidade de compreender, discernir e avaliar,
a perseverança no compromisso e a fidelidade aos
valores.
- As "Diretrizes Gerais da
Ação Evangelizadora" de 1995-1998 traçam as
seguintes orientações para a formação dos leigos:
- seja programada e sistemática;
articule o aspecto antropológico e o
teológico;
- seja integrada e tenha como ponto de
partida os problemas e perguntas dos leigos,
oferecendo-lhes respostas para uma presença cristã no
mundo;
- seja orientada predominantemente para
a atuação nas transformações sociais, onde o
testemunho dos leigos é especialmente qualificado;
- desenvolva eficazmente a capacidade
de comunicação e diálogo, aprimorando o relacionamento
humano;
- seja diversificada e, nos seus
métodos, tempos e conteúdos seja adaptada à
diversidade de situações e tarefas dos cristãos
leigos;
- dê especial atenção e formação
aos cristãos que atuam no campo da vida pública e
política.
- Na formação e nas atividades permanentes
dos leigos merece destaque a dimensão ética. Recordamos
como atual a indicação de Puebla, que solicita a
participação dos leigos "construtores da sociedade
pluralista" na elaboração de uma ética social
à altura das questões contemporâneas: "A
comunidade cristã conduzida pelo bispo estabelecerá a
ponte de contato e diálogo com os construtores da
sociedade temporal, a fim de iluminá-los com a visão
cristã, estimulá-los com gestos significativos e
acompanhá-los com atuações eficazes". "Neste
contato e diálogo deve circular, numa atitude de escuta
sincera e acolhedora, a problemática trazida por eles do
seu próprio ambiente. Assim poderemos descobrir os
critérios, normas e caminhos por onde aprofundar e
atualizar a Doutrina Social da Igreja, no sentido da
elaboração duma ética social capaz de formular as
respostas cristãs aos grandes problemas da cultura
contemporânea".
- Da parte da hierarquia e
particularmente dos presbíteros, espera-se efetiva disposição
de acompanhar os leigos e leigas que atuam nos
diferentes campos de evangelização. Muitas vezes os
leigos reclamam um apoio espiritual e orientação, que
lhes faltam. Os Bispos e presbíteros sintam-se
convocados pela Igreja a acolher a participação dos
leigos/as em toda a vida de comunidade, respeitando sua
missão específica, incentivando sua formação integral
e apoiando seu crescimento. Além disso, cabe de modo
especial aos Bispos a onerosa escolha de assessores
eclesiásticos e diretores espirituais para os movimentos
e organizações laicais, que sejam realmente idôneos e
bem formados, para representarem dignamente a hierarquia,
mantendo os fiéis na sã doutrina do magistério
eclesiástico, alimentando sua espiritualidade
tipicamente laical, aconselhando, estimulando, dialogando
e promovendo a unidade eclesial. Por outro lado, como
lembrava o Concílio, os leigos "não pensem que
seus pastores estão sempre de tal modo preparados que
tenham uma solução pronta para qualquer questão".
Em todo caso, leigos e pastores procurem sempre o
diálogo sincero e a complementação de suas vocações
e ações a serviço da evangelização.
- "O protagonismo do
cristão leigo requer profundas mudanças no estilo do
governo e no exercício da autoridade por parte da
hierarquia, para permitir e encorajar comunhão, a
participação e a co-responsabilidade dos leigos na
tomada de decisões pastorais, valorizando o voto dos
conselhos pastorais e a presença ativa dos fiéis em
Sínodos e Concílios particulares, conforme está
previsto por documentos oficiais da Igreja". A Christifideles
laici encoraja e afirma que "a participação
dos fiéis leigos nesses conselhos (pastorais diocesanos)
poderia aumentar o recurso à consulta, e o princípio de
colaboração - que em determinados casos também é de
decisão - e encontrará uma aplicação mais vasta e
mais incisiva".
- É desejável que em sua
missão os cristãos leigos, superando divisões e
preconceitos, busquem o diálogo entre si, o
intercâmbio fecundo da experiência e da reflexão, a
articulação eficaz das iniciativas das pastorais,
organismos e movimentos. Tanto mais que a multiplicação
dos meios de comunicação rápidos entre as pessoas
torna essa tarefa fácil e necessária.
- Finalmente, dioceses e
paróquias favoreçam a organização dos leigos
não somente dos que atuam em tarefas intra-eclesiais,
mas também dos que se dedicam à transformação da
sociedade. Criem espaços onde os leigos, com a
necessária autonomia, possam realizar o intercâmbio de
reflexão e de experiências e planejar ações comuns.
Em particular, ponham em prática a diretriz de Santo
Domingo, assumida também nas DGAE: "promover os conselhos
de leigos, em plena comunhão com os pastores e
adequada autonomia, como lugares de encontro, diálogo e
serviço, que contribuam para o fortalecimento da
unidade, da espiritualidade e da organização do
laicato. Estes conselhos de leigos também são espaço
de formação e podem estabelecer-se em cada diocese e
abarcar tanto movimentos de apostolado como os leigos
que, estando comprometidos com a evangelização, não
estão integrados em grupos apostólicos". Várias
dioceses no Brasil possuem os Conselhos Diocesanos de
Leigos, que contribuem com o desenvolvimento da
formação e espiritualidade próprias, e organizam sua
presença na Igreja. Em outras dioceses estão sendo
organizados também Conselhos ou Equipes paroquiais de
leigos.
PARA CONTINUAR O DIÁLOGO
- A intenção deste documento é
compartilhar com os cristãos e cristãs da Igreja no
Brasil algumas das preocupações e esperanças que
nascem do desejo de sermos mais fiéis à missão que
recebemos de Cristo: anunciar o seu nome, caminho da
vida e da esperança.
- Desejamos que as análises da
realidade, as reflexões teológicas e as orientações
práticas contribuam para iluminar melhor os caminhos da
evangelização em nosso País.
- Sabemos que nossos irmãos e
irmãs generosamente se dedicam ao serviço da vida e da
esperança - na solidariedade com os sofredores e
excluídos e na partilha da experiência do encontro com
o Cristo vivo - em situações muito diversas e a partir
das mais variadas vocações, todas dignas e
necessárias. Por isso, a leitura desse documento poderá
suscitar reações diferentes e enriquecedoras.
- Pedimos que as Assembléias e
os Conselhos Pastorais - comunitários, paroquiais e
diocesanos - bem como as comunidades, associações,
movimentos, pastorais, ou simplesmente grupos de
cristãos e cristãs, reflitam sobre este texto e nos
comuniquem suas impressões e reações: situações não
levadas em conta, questionamentos não resolvidos,
sugestões de esclarecimentos, propostas de ação.
- Essas contribuições podem
ser encaminhadas à Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil através dos Conselhos de Leigos (diocesanos,
regionais e nacional) ou através dos Bispos diocesanos.
- Que os cristãos e cristãs
das comunidades de todo o Brasil possam narrar e
partilhar entre si e conosco "os acontecimentos do
caminho", como fizeram os discípulos de Emaús
depois de terem reconhecido o Senhor Ressuscitado na
fração do pão!
- Que o Espírito Santo, em quem
a Igreja concentra suas atenções no ano de 1998 na
preparação para o Grande Jubileu, infunda o seu fogo no
coração de todos aqueles que abraçaram a missão de
evangelizar e multiplique neles os seus dons. E que Maria
Santíssima, modelo de Esperança, mantenha viva em nós
a docilidade ao Espírito e nos ajude a discernir na
caminhada os sinais do Deus que "está realmente no
meio de nós".
-
- ANEXO 1
ROTEIRO
PARA ESTUDO DO TEXTO E QUESTIONÁRIO
|
I. DESAFIOS E SINAIS DOS
TEMPOS
- Lendo os nºs 10 a 31 do texto, responder:
- Quais os desafios mais importantes para
nossa sociedade?
- O que acrescentar e o que
excluir desse trecho do documento?
- Lendo os nºs 32 a 41 do texto, responder:
- Quais desses sinais (forças e fraquezas)
você considera mais importantes? Por quê?
- Quais outros sinais não foram
mencionados aqui?
II A MISSÃO DO POVO
DE DEUS
Fundamentos teológicos
1. A MISSÃO
- Lendo os nºs 42 a 57 do texto, responder:
- O que há de comum entre sua missão de
leigo(a) e a dos diáconos, padres e bispo de sua
diocese? Em que elas são diferentes?
- Estar presente no mundo exige de
você uma missão diferente da dos padres e bispos? Em
que se diferencia?
2. O POVO DE DEUS
- Lendo os nºs. 58 a 91, responder:
- O que mais lhe chamou a atenção desta
reflexão?
- Qual o ponto de maior união
entre padres, bispos e leigos(as)?
- O que mais dificulta o
relacionamento entre bispo, padre e diáconos de um lado
e leigos(as) de outro?
- Como você vê o relacionamento
da comunidade com os carismas e ministérios? E
vice-versa?
- Dentre os carismas e
ministérios apresentados pelo texto, quais você
considera mais necessários? Quais faltaram?
- Até que ponto a visão da
Igreja como Povo de Deus penetrou nas consciências e
práticas de nossas comunidades?
III - COMUNIDADE EM MISSÃO
Diretrizes para a
evangelização
- Lendo os nºs. 92 a 106, responder:
- Qual das características da identidade da
comunidade cristã é prioritária? Por quê?
- Além das que foram indicadas
pelo texto, quais atitudes seriam necessárias às nossas
comunidades cristãs?
- Lendo os nºs. 107 a 112, responder:
- Você está realmente comprometido com a
causa dos pobres?
- Quais experiências
significativas você encontra nessa dimensão da
presença da Igreja na sociedade?
- Lendo os nºs. 113 a 120, responder:
- Como trabalhar em comum com outras Igrejas
cristãs?
- Como relacionar-se com irmãos e
irmãs de outras religiões?
- Como relacionar-se com as
culturas (jeito de ser, pensar e agir de índios, negros,
pobres...)?
- Lendo os nºs. 121 a 130, responder:
- Você está realmente convencido das
razões apresentadas pelo documento no sentido de
comprometê-lo, assim como sua comunidade ou grupo, na
ação evangelizadora?
- A urbanização criou outros
"areópagos" para a evangelização? Como
estão atuando os novos apóstolos (leigos e leigas)?
- Lendo os nºs. 131 a 149, constata-se que
uma grande maioria de leigo(a)s estão empenhados quase
que exclusivamente na vida comunitária, reforçando
desta maneira, uma tendência intra-eclesial da ação
pastoral. Diante disso, responder:
- O que fazer para que a vida paroquial ou
comunitária não fique fechada sobre si mesma e se torne
testemunha de comunhão para a sociedade?
- Como transformar a vida interna
das paróquias e comunidades em ambiente gerador e
sustentador da presença da Igreja na sociedade através
da ação dos leigos(a)s?
- Quais os maiores desafios
encontrados pelas quatro exigências da ação
evangelizadora em sua comunidade? Como enfrentá-los?
- Lendo os nºs. 150 a 158, responder:
- O que têm a ver espiritualidade cristã e
transformação da sociedade?
- Como relacionar o texto de Lucas
24, 29-33 com a atuação do leigo(a) na transformação
da sociedade?
- Quais textos bíblicos ou outros
você utilizaria para enriquecer a ação missionária
dos leigos e leigas?
- Lendo os nºs. 159 a 165, responder:
- O que você entende por "formação
integral"?
- Como trabalhar a formação de
nossos evangelizadores leigos e leigas para capacitá-los
para a ação pastoral e para o exercício pleno da
cidadania?
- Cite alguma experiência sobre
formação integral.
- Como articular as diversas
escolas e experiências de formação criadas por
movimentos leigos e espalhadas pelo Brasil?
- Como organizar leigos e leigas
no Brasil para que tenham voz na sociedade?
- Você tem mais alguma sugestão para o
estudo, a divulgação e a aplicação prática desse
documento?
-
- ENCAMINHAMENTO DE ESTUDO DO DOCUMENTO
- PUBLICAÇÃO: na coleção
"Estudos da CNBB" (cadernos verdes), até
31 de maio de 1998.
- ENVIO: - um exemplar a cada Bispo
Diocesano;
- um exemplar a cada organismo
nacional (Pastoral, Movimento, Conselho...).
- ESTUDO (com o objetivo de propor
sugestões e emendas):
- nas Dioceses: o Bispo solicita o
estudo e o parecer do Conselho Pastoral Diocesano ou do
Conselho Diocesano de Leigos ou de uma Assembléia ou de
uma Equipe;
- na Assembléia Nacional do
CNL (11-14/6/1998);
- na Assembléia dos Organismos
do Povo de Deus (10-12/10/1998);
- através da Consulta à SOTER
e a alguns teólogos;
- através da divulgação de
artigos e folhetos populares.
- PRAZO DE ENTREGA das sugestões e
emendas ao Secretariado Geral da CNBB: 15 de outubro de
1998.
- NOVA REDAÇÃO do documento, entre
15 de outubro e 15 de novembro de 1998, integrando as
sugestões recebidas.
- CONSELHO PERMANENTE: apresentação
da nova redação (24 a 27/11/1998) .
- ENVIO DA NOVA REDAÇÃO aos
senhores Bispos, logo após 27/11/98, para estudo e envio
de emendas ao Secretariado Geral da CNBB até 15/03/99.
- 37ª ASSEMBLÉIA GERAL da CNBB (14 a
23/04/99): apresentação do texto emendado,
votação de destaques e votação final.
INDICE
apresentação
Introdução
I. DESAFIOS E SINAIS DOS TEMPOS
- Desafios econômicos, sociais e políticos
- Desafios culturais e religiosos
- Força e fraquezas dos cristãos
II. A MISSÃO DO POVO DE DEUS
Fundamentos teológicos
1. A missão
A Missão, Obra de Deus
A Missão, Serviço do Reino
Missão e Diálogo
Missão é Evangelização
A Nova Evangelização
A Evangelização nas Diretrizes da Igreja No
Brasil
Anúncio do Evangelho E Sinais de Solidariedade
A Competência dos Leigos
2. O Povo de Deus
Igreja da Trindade Santa
Comunhão em Povo de Deus
Povo livre e fraterno
Povo que abre caminhos para o serviço
O mais importante é o que nos une: a
condição cristã
Sacerdócio comum - um sacerdócio existencial
Com três dimensões inseparáveis
Ministério ordenado - um serviço à comunhão
e à missão
Uma só missão assumida por todos
Com diferentes carismas e ministérios
Carisma e ministério: distinguindo e unindo
Que se entende por ministério?
Tipologia dos ministérios
"Hierarquia
e laicato" ou
"comunidade-carismas
e ministérios"?
III - COMUNIDADE EM MISSÃO
Diretrizes para a evangelização
1. Por uma comunidade profética, missionária,
acolhedora, participativa e misericordiosa
2. Serviço e participação na transformação
da sociedade pelo bem dos pobres
3. Diálogo com as culturas e outras religiões
4. Anúncio do evangelho
5. Vivência e testemunho da comunhão eclesial
6. Formação, espiritualidade e organização
Espiritualidade do cristão
Formação e organização
Para continuar o diálogo
ANEXO 1 - Roteiro para estudo do texto e
questionário
ANEXO 2 - Encaminhamento de estudo do
documento