caver.gif (1742 bytes)         Teoria do conhecimento na Idade Moderna e Contemporânea        caver.gif (1742 bytes)

"Primeiramente, considero haver em nós certas noções primitivas, as quais são como originais, sob cujo padrão formamos todos os nossos outros conhecimentos."

( Descartes )

O século XVII representa, na história do homem, a culminação de um processo em que se subverteu a imagem que ele tinha de si próprio e do mundo. A emergência da nova classe do burgueses determina a produção de uma nova realidade cultural, a ciência física, que se exprime matematicamente. A atividade filosófica, a partir daí, reinicia um novo trajeto: ela se desdobra como uma reflexão cujo pano de fundo é a existência dessa ciência.

A revolução científica determinou a quebra do modelo de inteligibilidade apresentado pelo aristotelismo, o que provocou, nos novos pensadores, o receio de enganar-se novamente.

A procura da maneira de evitar o erro faz surgir a principal característica do pensamento moderno: a questão do método.

Essa preocupação centraliza as reflexões não somente do conhecimento do ser ( metafísica ), mas sobretudo o problema do conhecimento             ( epistemologia ).

Até então a filosofia tem uma atitude realista, no sentido de não colocar em questão a existência do objeto, a realidade do mundo. A Idade Moderna inverte o pólo de atenção, centralizado no sujeito a questão do conhecimento.

O Racionalismo Cartesiano

René Descartes ( 1596 – 1650 ), cujo nome latino era Cartesius ( daí seu pensamento ser conhecido como "cartesiano" ), é considerado o pai da filosofia moderna. Dentre suas obras, o Discurso do método e Meditações metafísicas expressam a tendência de preocupação com o problema do conhecimento a que já nos referimos. O ponto de partida é a busca de uma verdade primeira que não possa ser posta em dúvida. Por isso, converte a dúvida em método. Começa duvidando de tudo, das afirmações do senso comum, dos argumentos da autoridade, do testemunho dos sentidos, das informações da consciência, das verdades deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade do seu próprio corpo.

O Cogito

Descartes só interrompe essa cadeia de dúvidas diante do seu próprio ser que duvida. Se duvido, penso; se penso, existo: "Cogito, ergo sum", "Penso logo existo". Eis aí o fundamento, o ponto de partida para a construção de todo o seu pensamento. Mas este "eu" cartesiano é puro pensamento, uma res cogitans ( um ser pensante ), pois, no caminho da dúvida, a realidade do corpo foi colocada em questão.

Descartes distingue os diversos tipos de idéias, percebendo que algumas são duvidosas e confusas e outras são claras e distintas.

A idéias claras e distintas são idéias gerais que não derivam do particular, mas já se encontram no espírito, como instrumentos de fundamentação para a apreensão de outras verdades. São as idéias inatas, que não estão sujeitas a erro, pois vêm da razão, independentes das idéias que "vêm de fora", formada pela ação dos sentidos, e das outras que nós formamos pela imaginação. São inatas, não no sentido de o homem já nascer com elas, mas como resultantes exclusivas da capacidade de pensar. São idéias verdadeiras. Nessa classe estão da substância infinita de Deus e a idéia da substância finita, com seus dois grandes grupos – a res cogitans e a res extensa.

Deus

Para isso, Descartes lança mão, entre outras provas, da famosa prova ontológica da existência de Deus. O pensamento deste objeto – Deus – é a idéia de um ser perfeito; se um ser é perfeito, deve ter a perfeição da existência, senão lhe faltaria algo para ser perfeito. Portanto, ele existe.

O mundo

Se Deus existe e é infinitamente perfeito, não me engana. A existência de Deus é a garantia de que os objetos pensados por idéias claras e distintas são reais. Portanto, o mundo tem realidade. E dentre as coisas do mundo, o meu próprio corpo existe. O que caracteriza a natureza do mundo é a matéria e o movimento, em oposição à natureza espiritual do pensamento.

Podemos perceber, nesse rápido relato, uma tendência forte e absoluta de valorização da razão, do entendimento, do intelecto.

Conseqüências do Cogito

Estabelece-se o caráter originário do cogito como autoevidência do sujeito pensante e princípio de todas as evidências.

Acentua-se o caráter absoluto e universal da razão que, partindo do cogito, só com suas próprias, forças pode chegar a descobrir todas as verdades possíveis.

Matemática Universal passa-se a buscar o ideal matemático, mas isso não significa aplicar a matemática no conhecimento do mundo, mas usar o seu tipo de conhecimento, que é completo, inteiramente dominado pela inteligência e baseado na ordem e na medida, permitindo estabelecer as cadeias de razões.

Dualismo psicofísico, segundo o qual o homem é um ser duplo, composto de uma substância pensante e uma substância extensa. A conciliação das duas substâncias dificulta a reflexão de Descartes e gera antagonismos. Isso porque o corpo é uma física e fisiológica e, como tal, possui massa, extensão no espaço e movimento, bem como desenvolve atividades de alimentação, digestão, etc., estando, portanto, sujeito às leis deterministas da natureza. Por outro lado, os fenômenos mentais não têm extensão no espaço nem localização. As principais atividades da mente são recordar, raciocinar, conhecer e querer; portanto, não se submetem às leis físicas, mas são o lugar da liberdade.

Estabelecem-se, então, dois domínios diferentes: o corpo, objeto de estudo da ciência, e a mente, objeto apenas da reflexão filosófica.

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