Entrevista de Marcelo Nova após o lançamento do disco
"A Panela do Diabo"
P) Você se considera um herdeiro de Raul Seixas, vê conexões claras entre sua obra e a dele?
Eu vejo muitos pontos em comum, mesmo porque ele foi o único artista brasileiro que me influenciou.
Agora herdeiro de Raul Seixas, bicho... A capacidade que ele tinha de se comunicar com todas as classes
sociais, a dimensão de sua obra registrada em vinte e tantos LPs não deixam herdeiro. É o mesmo que
perguntar se Muddy Waters tem herdeiro. Jonny Winter tocou, produziu um disco com Muddy Waters,
foi guitarrista solo de sua banda, participou de turnê com ele, mas é outra coisa. Existem certos artistas
que, pelo tempo em que surgiram e agiram, se tornam únicos. Por exemplo, quem é o herdeiro de Luiz
Gonzaga? Não existe. Com os grandes não tem esse papo de herdeiro porque não é uma coisa genética. É
talento, e talento não se dimensiona. Tenho por Raul a maior admiração, o maior respeito e sinto que,
devido a influência que ele exerceu sobre mim, temos vários pontos em comum, embora eu seja um
existencialista e ele, um místico. Confesso que fiquei emocionado quando ele deu uma entrevista dizendo
que se identificava com o meu texto. Vindo de quem veio, é um elogio que não tem preço. E tem mais:
quem se declarar herdeiro de Raul Seixas é picareta, aproveitador e oportunista. Eu sempre vou gravar
músicas de Raul Seixas, é uma parte da minha vida. Eu tenho dez músicas em parceria com Raul Seixas,
tenho um LP gravado com ele. Estas afinidades e influências existem e vão continuar existindo enquanto
eu estiver vivo. Agora, essa coisa de querer aproveitar o momento para se declarar representante na Terra
de Raulzito no céu é muito oportunismo. Respeito Raul demais para cometer isso.
P)Você sempre foi fã de Raul, mas quando é que você se aproximou dele? O que este relacionamento
trouxe de enriquecedor para o seu trabalho?
Foi por etapas. Primeiro, eu ia aos shows dele na Bahia - na época de Raulzito e Seus Panteras - e, depois
das apresentações, ia até o palco apertar a mão dele. Ele nem me conhecia. Muito tempo depois, o
Camisa de Vênus estava tocando no Circo Voador e ele foi ver. Chamei Raul para o palco e nós tocamos,
na base do improviso, um medley de rock'n'roll, misturando "Long Tall Sally" com "Be-Bop-A-Lu-La" e
"Tutti Frutti". Eu estava tão emocionado que não conseguia cantar nada, só ficava olhando. Depois disso,
em 1984, fui ver o último espetáculo dele em São Paulo, numa danceteria chamada Raio Laser. Quando
terminou fui cumprimentá-lo, e nos aproximamos, trocando endereços. Para minha surpresa, num
domingo, às 11 horas da manhã, Raul, Tony Osanah e suas respectivas esposas batem na minha porta.
Eu fiquei assim, sem acreditar. Em 1986, o Camisa gravou "Ouro de Tolo". No ano seguinte, a gente
gravou "Muita Estrela, Pouca Constelação"- eu compus a letra e ele, a música. Aí não parou mais, até
chegar setembro do ano passado (1988), quando ele teve mais uma crise de saúde e estava em condições
financeiras muito ruins, pelo fato de estar há cinco anos sem trabalhar. Eu o convidei para fazer um
apresentação na Bahia. Ele gostou do resultado, eu também, e combinamos de fazer mais dois ou três
espetáculos, que acabaram virando cinqüenta.
P)Você diz que o disco é de rock'n'roll, mas Raul Seixas dizia que o estilo tinha acabado em 1959. Você
concorda?
Concordo, porque ele via rock'n'roll e rock como duas coisas distintas. Rock'n'roll era dança, gola de
camisa para cima, brilhantinha, topete; quer dizer, era um movimento comportamental dos anos 50,
aquela febre, as pessoas dançando ao som de Little Richard, Chuck Berry, etc. Com o aparecimento dos
Beatles, deixou de ser rock'n'roll, virou rock. Quando ele disse que o rock'n'roll acabava em 1959, talvez
quisesse se referir à entranda de Elvis Presley no exército... Era uma visão muito pessoal dele. E, sem
dúvida, entre essa moçada e a dos anos 60, há uma diferença muito grande.
P)Mas o que possibilitou a chegada do Camisa de Vênus à música foi o rock'n'roll, não?
Dentro desta visão, foi muito mais pelo rock. Eu, por ser o mais velho da banda, ouvia tudo isso: Little
Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry. Mas o Camisa veio musicalmente influenciado pelo rock inglês
dos anos 70 e era, na verdade, um mata-borrão sonoro com textos que fugiam à realidade musical de
Salvador naquela época. O impacto que o Camisa de Vênus causou em Salvador no anos 80 só tinha
paralelo àquele proporcionado por Raulzito e Seus Panteras nos anos 60. O que mudou foi o modo de
expressão: Raulzito falava de um modo e o Camisa, dez, doze anos depois, de outro, embora tivessem
elementos de rock muito parecidos.
P)A Panela do Diabo é uma exceção dentro de sua carreira ou faz parte de seu processo evolutivo?
É um disco absolutamente dentro da minha discografia. Ele é mais do que nunca um disco meu, embora
ele não tenha sido um disco só meu. É um trabalho de Marcelo Nova com alguém que muito determinou
em sua carreira musical. É um trabalho do qual estou super orgulhoso. Primeiro, pela concretização de
um sonho pessoal. Depois, porque Raul Seixas nunca gravou um disco com ninguém, tá certo? eu estou
falando de Raul Seixas... Me sinto super privilegiado.
P)Que diferenças existem entre este LP e o seu primeiro disco solo?
Este disco tem a intenção de sintonizar nossas influências em comum: rock'n'roll, country, balada. Foi
curtindo isso que nós crescemos e é disso que gostamos. Não fomos atraídos por um processo de
colonização cultural. Meu primeiro disco de rock'n'roll eu comprei aos oito anos de idade. Era um disco
de Little Richard, eu não entendia uma palavra sequer do que ele falava. Minha irmã só tinha discos de
Jõao Gilberto, eu não sabia o que era rock'n'roll. Foi por intuição, por algo que foge das categorias de
colonizado ou não-colonizado, é outra história. Eu estou com 37 anos e Raul tinha tinha 44. Quer dizer,
nós somos rockers mesmo, entendeu? A diferença em relação ao meu disco do ano passado é que ele foi
um disco de um indivíduo que tinha encerrado uma fase conturbada - no caso, com o Camisa de Vênus,
que foi uma banda que causou uma polêmica muito grande. Eu fiz um disco dentro da minha casa, com
um número maior de baladas do que rock'n'roll, falando muito mais de mim e da minha visão de mundo
do que propriamente de crítica política e social. Foi um disco para dentro, intimista, reflexivo
P)Este retorno ao rock'n'roll, esta coisa ingênua significa um negação da música de hoje que não tem
mais aquele espírito alegremente heróico?
Ah, sim. Nós somos pessoas absolutamente românticas e sonhadoras. Só o fato de termos percorrido esta
trajetória à margem... Não teve artista no enterro de Raul Seixas. Nós sempre estivemos à margem e
carregávamos isso com muito orgulho, por não fazer parte dessa corja, dessa panelinha, desse oba-oba,
desse puxa-saquismo, dessa coisa de "profissionalismo" institucionalizado, que obriga você a ser gentil,
cortês, educado para receber favores em troca de seu "bom comportamento". A gente nunca se submeteu
a este tipo de postura. Isso é romântico, caramba! Fizemos cinqüenta shows, fomos assistidos por
duzentas mil pessoas e não tivemos uma matéria na Rede Globo. Mas as casas, os auditórios estavam
sempre cheios de pessoas para ouvir o que tínhamos a dizer. Então, este orgulho romântico, ingênuo, se
justifica na medida em que nós conseguimos usar a espada de Ivanhoé contra o raio laser do sistema. A
gente não queria conquistar o mundo, sabíamos de nossas limitações e do nosso lugar. Isso também é
muito importante, porque a coisa do sucesso nunca embriagou Raul. Ele se embriagava, mas não de
sucesso... E nem embriagou a mim. Marcelo Nova e Raul Seixas eram dois cães vira-latas que se
divertiam urinando no pódio dos cães de pedigree, por puro prazer.
P)Vem dai essa ironia, esse cinismo?
É uma relação natural. Bicho, a gente comentava muito sobre isso. Eu e Raulzito estávamos
absolutamente desiludidos com este país. Por exemplo, nós fomos fazer um entrevista no Jô Soares Onze
e Meia e fui censurado pelo Sr. Jô Soares porque citei nomes de pessoas da Rede Globo que queriam
acabar com o Camisa de Vênus. Hoje, o Camisa é uma banda extinta, mas, naquela época, a gente estava
dando um pontapé na canela de um esquema que não estava habituado a levar sequer um beliscão. E a
gente quem era? Cinco baianos que foram de ônibus da viação São Geraldo para São Paulo e comiam
sanduíche no almoço! Eu falei na entrevista que o Camisa de Vênus era um nome proibido, que foi
proposta a mudança de nome da banda, que o Sr. Heleno de Oliveira e o Sr. João Araújo decidiram tirar
o nosso disco de catálogo e nos mandaram embora, e o Sr. Jô Soares me censurou. Esta parte da
entrevista não foi para a edição final. Então, eu pergunto: como é que um cara que faz esse papel de
liberal vem me censurar? Este é um país assim, em que as pessoas posam de liberais, mas censuram.
P)Então, quem não se deixar cooptar pelo sistema não tem chance?
São os anos 80, os anos da televisão, cara. Nos anos 60 e 70, a televisão era objeto de ironia dos
intelectuais. só que, naquela época, o perigo que ela representava era o de as donas de casa e os pais de
família ficarem alienados assistindo à novela. Hoje, a alienação televisiva é propositalmente ideológica.
Não é mais a Família Trapo, O Direito de Nascer ou os festivais da Record que davam às pessoas a
sensação de estarem participando de um movimento cultural absolutamente fantástico. Hoje, é o interesse
econômico que está por trás de tudo, malandro... Nós tocamos no Olympia, em São Paulo, que é a casa
mais chique do Brasil, e tiveram que fechar o portão porque não cabia mais ninguém lá dentro. Lotamos a
casa mesmo desamparados pela mídia. Então, nego sabe que está lidando com uma coisa perigosa.
Raulzito, um dia, disse para mim: "Marceleza, estou cansado, de saco cheio". Eu sabia que quando ele
dizia isso, por dentro, o coração dele estava magoado. Era uma maneira de ele dizer: "Bicho, eu não
agüento mais, deixa pra lá". E aí o meu lado Ivanhoé aflorava ainda mais. Em Goiânia, um cara perguntou
pra ele se não tinha mais nada de novo pra dizer. Raul disse: "De novo? Tudo o que eu tenho a dizer está
nos meus discos". E o cara: "Mas nos seus discos você está se repetindo, Raul..." Aí ele olhou para o cara
e falou: "O que é que você quer que eu diga de novo? Bob Dylan diz algo de novo? John Lennon dizia
alguma coisa de novo? Você quer que eu diga que o mar é cor-de-rosa? Ou o céu, vermelho, porra?!"
Bom, dai eu senti que o velho Raul queria dar um murro no cara, mas sua condição física o impedia. Eu
levantei e joguei o cara do outro lado. Ele não queria algo de novo? Taí algo de novo para ele levar para
casa... Depois, Raul me esculhambou, disse que que eu era o Rambo do rock... Ele estava cansado de
entrar nas rádios e ser ironizado por funcionários com piadinhas sobre o seu estado físico. Mas ele, muito
mais experiente que eu, dizia: "Você tem o pavio curto, relaxe". Mas, na verdade, eu até relaxava em
relação a mim, mas não em relação a ele. Era como se alguém estivesse ofendendo o meu ídolo. Aí, eu
caia de pau.
P)O rock no Brasil é uma farsa?
É um negócio. Desinformado, desestruturado, sem autenticidade, sem gana, sem garra, sem coração, sem
caráter também. Quem faz rock no Brasil, hoje, são as bandas que estão na garagem, aquelas que querem
se expressar e são totalmente bloqueadas pela mídia eletrônica. Se esses caras não conseguirem fazer
nada, não vão ser os Inimigos do Rei ou Nenhum de Nós que vão fazer, com toda certeza. A que ponto
chegou o rock brasileiro....