Jornal de musica em novembro de 1976

-De repente, depois de mais de quarenta e cinco minutos de entrevista e muitas latas de cerveja

rolando vazias sobre a mesa, Raul Seixas estremece como se tivesse recebido um golpe pelas costas:

-Essa reportagem é completamente inconseqüente. Eu acho que nós três podíamos criar alguma coisa

juntos para substituir as perguntas e respostas. Não existem perguntas e respostas. Eu estou aqui

representando o papel de Raul Seixas, artista da Philips, e vocês representando o papel de jornalistas. Será

que não é possível sair desse esquema?

-Logo depois do apelo dramático, uma gargalhada.

-Eu sou um artista de Philips e vocês são jornalistas. As pessoas acham que eu sou um guru e eu tenho

que assumir isso tudo. Para os que pensam que eu sou um guru, eu tenho uma mensagem: O Novo (com

n maiúsculo) está diante de nós. Mas só vai enxergar o Novo quem tiver olho novo.

-Antes de contestar o próprio ato de ser entrevistado, Raul falou que vai se mandar de vez para os

Estados Unidos, falou dos seus discos velhos, falou do disco novo, falou de Paulo Coelho, de Belchior,

da Sombras, do rock brasileiro, de tudo que se poderia falar numa entrevista, com as emoções e

contradições de quem tem o hábito de dizer tudo o que passa na cabeça, como uma fórmula para que

ele mesmo possa saber o que acha.. Ele começou usando os seus dois últimos discos como ponto de

referência: Gita, o maior sucesso de vendagem, e Novo Aeon, a sua mais profunda egotrip:

-Em 1974, quando eu gravei Gita, tive problemas sérios aqui no Brasil e tive que me mandar pare os

States. Fui morar no Greenwich Village. quando o disco estourou e começou a vender horrores o

Consulado Brasileiro me chamou de volta. Eu voltei. porque estava com saudades da Bahia. O Novo

Aeon é o fruto de uma época diferente quando eu já estava sabendo que o tempo de sofrer havia passado.

Ser crucificado como Jesus Cristo é coisa do passado. O Novo Aeon foi um momento particularmente

meu e por isso tem aquela música, Eu sou Egoísta. Eu acho que o individualismo é muito mais sincero do

que as preocupações com a coletividade. Não existe outro Deus senão o próprio homem. Se eu

descobrisse que era bicha, ia sair por aí transando com todo mundo na maior e ia ser o maior barato. O

Novo Aeon é o disco que traz essa nova maneira de pensar. É o disco do caminho individual.

-E esse disco que você está gravando agora?

-Ele nasceu de um compacto, Há Dez Mil Anos Atrás que é uma retrospectiva de todo esse processo

histórico do qual todos nós somos testemunhas.

-Mas você ouviu aquela história da boca de um velho.

-Mas não é verdade. É que eu não quis assumir a barra de ser o narrador desse processo histórico. Eu

coloquei na boca de um profeta porque achei que seria mais comercial , ia motivar mais as pessoas. Eu

estou aqui para deixar a minha impressão digital sobre o planeta e é isso que eu estou fazendo nesse disco.

Eu estou vomitando 1976 em cima das pessoas.

-Quando você pintou, o que mais chamou a atenção foi a maneira direta de você dizer as coisas que

você pensa. Agora o Belchior está fazendo a mesma coisa com uma linguagem diferente. Você vê

alguma relação entre os dois trabalhos?

-Essa pergunta é uma sacanagem, mas eu respondo (gargalhadas): A diferença básica é que nos meus

discos eu não me queixo de nada. Eu não me queixo de nada porque eu não estou para enganar estudante.

Eu não estou dizendo que o Belchior pretenda enganar os estudantes. Também não acho que o pessoal do

Sombras. Com seus Egbertos Gismontis e Tons Jobins estão pretendendo conscientemente enganar os

estudantes. Mas eles mesmos não sacaram que a realidade de hoje mudou e que jogar com a ilusão dos

outros é ganhar dinheiro. Isso de ficar reclamando dos poderosos para empolgar os estudantes com

protesto é uma política desgastada do Velho Aeon. Já não existe qualquer diferença entre materialismo.

idealismo. Todos os ismos são iguais. Eu não estou me queixando de nada porque eu não sou um rapaz

latino americano. Esse regionalismo não está em mim. Eu sou uma pessoa que vive em 1976. Eu sou

Raul Seixas, o único. Eu não pertenço a qualquer grupo político ou regional. Eu sou fruto do pós guerra.

Sou um cara cheio de influências. Eu sou Raul Seixas.

-Como você vê o comércio de discos?

-Eu tenho tanta consciência do comércio de discos, desse círculo de Phonogram, Warner, André Midani,

rótulos de latino- americano e coisas do gênero, que eu acabo ficando tão Ana Maria Bahiana... tão Ana

Maria Bahiana... tão revista Rock. Que eu acabo me consumindo e me diluindo nessas coisas.

-Qual a resposta que você costuma receber do público, nas grandes cidades e no interior?

-A cultura brasileira é uma só e as respostas são iguais em todos os lugares. No interior, quando eles

fecham a 'zona' e dedicam uma noite a nós, como aconteceu no Paraná, a resposta é a mesma que de um

aplauso na cidade grande. Mas a verdadeira resposta que eu tenho do público é uma só: o medo. Todos

estão com medo de tudo e até de mim. Quando eu chego perto das pessoas, elas se calam. Quando eu

encaro alguém na platéia, eles viram a cara.

-Nesse ponto, o Paulo Ricardo lembra que em Saquarema o pessoal levantou e curtiu com ele a

Sociedade Alternativa.

-Saquarema estava muito chato. Tava muito Angela Rô Rô e eu acho aquela menina chatíssima. Quente

mesmo foi o concurso de miss transmitido de Brasília pela TV Tupi. Eu fui fazer o show do concurso e

me deram uma roupa igual às de Mick Jagger. Como eu não sou Mick Jagger, vesti um pijama e entrei no

palco escovando os dentes. A galera da geral vibrou, mas eu acabei preso durante cinco dias em Brasília.

- Em duas músicas feitas recentemente, Arrombou a Festa e Chamada Geral, você é citado como

elemento responsável e participante do movimento de rock brasileiro. Qual a tua visão do rock

brasileiro?

-Não existe rock brasileiro. Existem pessoas que são padrões da nova cultura brasileira. Raul Seixas é

Brasil hoje, Rita lee é Brasil hoje, Teixeirinha é Brasil hoje, Waldick Soriano é Brasil hoje. O pessoal do

Sombras também faz rock. Mas eta roquezinho sem vergonha. É um rock muito fresco, muito go back to

the past. É uma coisa que já morreu há muito tempo. Veja bem: depois da Tropicália é possível alguém

chegar pra você e dizer que música é uma coisa muito séria? Essa história de procurar raízes é uma

bobagem. As únicas raízes que eu conheço são de amendoim e mandioca. Essa história de música de

protesto também já era. O que é que se tem pra protestar? Quem é forte é forte e dá porrada. Você vai se

lamentar? Se você é mais fraco, dane se! Isso pode parecer nazismo, mas se você é fraco e não quer

levar porrada fique forte e passe a dar. É Hitler mesmo! E tem mais bicho: dar entrevista é uma coisa

muito perigosa. Tanto pra mim quanto pra você...

-Quais são seus planos pra depois desse disco?

-Vou me mandar para os States. Todas as vezes que fui, viajei contra a vontade. Dessa vez vou trabalhar

lá com convicção. Tenho contatos lá que me darão todo o apoio. A única coisa que ainda me prende aqui

são as mulheres do Brasil. Vai ser muito triste ficar longe delas.

-Você volta?

-Não sei.

-As cervejas continuaram chegando à mesa indefinidamente.

Quando o bar da Phonogram estava fechando, uma frase:

-Desculpe se eu não soube explicar direito o que vai ser o disco. Pra mim é difícil. Se eu fosse jornalista,

as coisas seriam mais fáceis.

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