A Copa de 1966 come�ou com um fato curioso e inusitado. A FIFA havia escolhido a Inglaterra como a sede do Mundial. A Ta�a Jules Rimet fora recebida por Sir Stanley Rous das m�os do delegado brasileiro Lu�s Murgel (o Brasil conquistara o bicampeonato em 62). Logo em seguida, o cobi�ado trof�u foi colocado em exibi��o no Central Hall de Londres. Pois bem, em 20 de mar�o, sem que se quebrasse nenhum vidro de prote��o e muito menos fossem surrupiados outros objetos valiosos tamb�m expostos, a Ta�a misteriosamente desapareceu. O fato agitou o mundo do futebol, como seria de se esperar. Foram acionadas a Scotland Yard e a Metropolitan Police e nada de se encontrar o trof�u, apesar de a pol�cia virar Londres de cabe�a para baixo. N�o � que tempos depois foi ela casualmente localizada por um simples e desconhecido cachorrinho chamado "Pickles", em seu farejar habitual de todos os dias? Ela estava escondida num dos sub�rbios de Londres. A Casa de Windsor deve ter respirado aliviada, e desconfio que at� cogitou em nomear mais um Cavaleiro Real, Sir Pickles. O torneio ficou marcado, de in�cio, por este fato incomum e a seguir por outros, infelizmente mais comuns e pol�micos, protagonizados por "suas senhorias", os �rbitros escalados para o grande certame.
Na luta pela indica��o como pa�s-sede, a Inglaterra argumentava que a Copa sediada em seu pa�s seria o fecho de ouro nas comemora��es do centen�rio da funda��o da Football Association (na verdade, tal funda��o se dera em 1863). Os brit�nicos queriam provar ao mundo sua capacidade de organizar, sempre com sua grande influ�ncia pol�tica, uma Copa nos melhores moldes gerenciais poss�veis. Queriam, tamb�m, mostrar ao mundo esportivo que praticavam um excelente futebol e que o fariam com seu tradicional "fair-play". Realmente, foi uma Copa muito bem realizada, com est�dios capazes de receber mais de 50.000 espectadores e com seguran�a e acomoda��es de primeira qualidade para jogadores e imprensa. O �nico detalhe que n�o estava no programa, � que o English Team jogaria sempre em Wembley, ao passo que os outros seriam obrigados a deslocamentos para realizar suas partidas (como aconteceria com a Argentina, sede em 78). E, por que n�o falar na ajudazinha preciosa dos juizes, quando necess�rio? Mas sempre foram de praxe esses favorecimentos meio camuflados aos pa�ses-sede.
Quinze na��es africanas declaram-se fora da competi��o, em repres�lia aos crit�rios de qualifica��o impostos pela FIFA. Teria o time vencedor deste continente que enfrentar o time vencedor da �sia ou da Oceania para poder fazer jus a participar das finais na Inglaterra. Queriam os africanos ter o direito de voar direto a Londres j� classificados, sem mais delongas. O Brasil, bicampe�o na Copa anterior, e a anfitri� Inglaterra estavam previamente qualificados. A Su�cia, por sua vez, fora eliminada pela Alemanha. Portugal, surpreendentemente deixa de fora a Tchecoslov�quia, vice-campe� do Mundial anterior, gra�as em grande parte ao aparecimento do formid�vel atacante Eus�bio, do Benfica. A Espanha bate, com muito esfor�o, a Irlanda e tamb�m se classifica. Da Am�rica do Sul, entram, al�m do Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Chile, terceiro colocado em 62. Da Am�rica Norte, classifica-se o M�xico. E, pela primeira vez, um representante asi�tico surge no Aeroporto de Heathrow: a Cor�ia do Norte, que havia triunfado sobre a Austr�lia por 6x1 e 3x1. Quanto aos demais pa�ses, entraram os favoritos.
A Inglaterra havia sido duramente atingida alguns anos antes com a morte em um tr�gico acidente a�reo de oito integrantes do Manchester United, base da sele��o. Entre eles, estava o lateral Duncan Edwards, um dos maiores jogadores de que dispunham. Felizmente, sobreviveu � grande cat�strofe o ponta de lan�a Bobby Charlton, que se tornaria, junto com Eus�bio, as figuras m�ximas do Mundial. Mas ainda restava bem aceso o sonho ingl�s de conquistar seu primeiro campeonato mundial. Tinham, realmente, uma grande equipe. A base continuava sendo o Manchester United, que al�m de Charlton, contava com dois expoentes: o ponta-esquerda irland�s George Best, de estilo e comportamento irreverentes e que, por seus longos cabelos, era chamado de "Beatle" e o centroavante escoc�s Denis Law. Formavam um ataque infernal junto com Bobby Charlton. O t�cnico era Matt Busby, no cargo dos anos 50 at� 69. Entre as grandes conquistas do clube, cinco campeonatos ingl�ses (56, 57, 65, 67 e 68) e a Copa dos Campe�es da Europa (68).
O t�cnico da sele��o inglesa, Alf Ramsey, havia se iniciado no futebol como um jogador de meio-campo at� que razo�vel. Encerrou sua carreira em 1954. Come�ou como coach dirigindo o Ipswich Town, levando o modesto clube da 2a Divis�o a conquistar o Campeonato Ingl�s de 1962. Logo ap�s a Copa de 62, � indicado como t�cnico da sele��o, ocasi�o em que promete a todos muito trabalho, tenacidade e dedica��o para levar seu pa�s ao t�tulo mundial em 66. Declarou solenemente na �poca: "A Inglaterra vencer� em 1966". E ponto final. Prometeu e cumpriu. Permaneceu no cargo at� 74, quando n�o logrou classificar a Inglaterra para as finais desta Copa (provavelmente esqueceu-se de repetir a mesma promessa para 74 ). O saldo positivo de Alf Ramsey � dos melhores: disputou, como t�cnico de sua equipe nacional, 113 jogos, somando 69 vit�rias, 27 empates e apenas 17 derrotas.
Na 1a fase do Mundial, os ingleses n�o tiveram dificuldades para derrotar a Fran�a (2x0) e o M�xico (2x0). Empataram, a seguir, com o Uruguai (0x0), num jogo desinteressante e de baixa qualidade t�cnica. Na etapa seguinte, a Inglaterra se defrontaria com duas temidas equipes: Portugal, que havia eliminado o Brasil, e a Cor�ia do Norte (esta havia vencido a poderosa It�lia) e a Argentina. O �timo Portugal de ent�o derrotara a Cor�ia por 5x3, ap�s estar perdendo por 3x0, com quatro gols de Eus�bio. Inglaterra e Argentina fizeram um jogo que entrou para a hist�ria, gra�as ao personagem principal da partida: o incr�vel juiz alem�o Rudolf Kreitlein. Aconteceu simplesmente o seguinte: o argentino Rattin reclamou com bons modos, mas gesticulando muito para se fazer entender, que era necess�rio um int�rprete, pois ambos n�o se entendiam. Incontinente, Kreitlein o expulsou, sem compreender o que Rattin tentava dizer. Ap�s o jogo, o argentino declarou: "N�o entend�amos o que o �rbitro falava com nossos jogadores. O jogo corria violento e solto. Eu apenas pedia um int�rprete para ser entendido E acabei indo mais cedo para o vesti�rio, debaixo de uma chuva de latas de cervejas. E logo eu, que n�o gosto de cerveja inglesa". Na verdade, a rea��o irada contra Rattin come�ou porque ele, expulso, "inocentemente" foi assistir o restante da partida sentado no tapete vermelho da Tribuna Real (a Rainha n�o estava presente). Claro que teve que descer correndo arquibancada abaixo Resultado final: Inglaterra 1x0, com um gol de Hurst. Terminado o jogo, Ramsey gritou com seus jogadores: "N�o troquem camisa com eles. S�o uns animais!", levando em conta o comportamento dos platinos, justamente revoltados ao final da batalha. Numa das semi-finais, contra o Portugal de Eus�bio, tivemos, enfim, um grande jogo, em que o English Team superou os lusos por 2x1, com dois gols de Bobby Charlton e um de Eus�bio para os portugueses, que se apresentaram abaixo do esperado. Na outra semifinal, em mais um jogo violento, a Alemanha superou a URSS, tamb�m por 2x1.
Para a esperada decis�o sobraram, portanto, Inglaterra e Alemanha (sempre a Alemanha ). A Inglaterra era considerada favorita, por nunca haver perdido para os alem�es, por jogar em casa e por ter uma �tima defesa (haviam sofrido apenas um gol at� ent�o). O local: o enorme Est�dio de Wembley, originalmente chamado "The Empire Stadium", erigido para uma exibi��o internacional de ind�stria e com�rcio. O dia: 30 de julho. Campo molhado, 100.000 espectadores presentes e, como juiz, o sui�o Gottfried Dienst. A multid�o em vez de cantar o c�lebre "When the saints come marching in ", cantava "when the reds come ". O time da Inglaterra entrara em campo com camisas vermelhas. O jogo corria com ataques de lado a lado, at� que Wilson erra uma cabe�ada, do que se aproveita Haller para fazer Alemanha 1x0. Mas, logo ap�s, Hurst aproveita um passe r�pido de Bobby Moore num lance de falta e empata. Segundo tempo e mais chuva . At� que Peters, aos 33 minutos, ap�s um c�rner, marca Inglaterra 2x1. E, quando a fatura parecia liquidada para os ingleses, Weber, para desespero da multid�o, empata aos 44 minutos, tamb�m depois de uma cobran�a de falta. Haveria prorroga��o. Os times estavam fisica e emocionalmente no baga�o. Iniciado o tempo extra, Stiles serviu Hurst, que, dentro da �rea, chutou no travess�o. A bola desceu, tocou o gramado e Schulz a enviou para escanteio. Teria a bola entrado ou n�o? O juiz, ap�s consultar o bandeirinha, validou o gol, ante o protesto veemente dos alem�es. Ap�s a partida, o �rbitro declararou alto e bom som: "Dormirei tranquilo. Sei que a bola entrou". Em cima do t�rmino da partida, a Inglaterra assinalaria seu 4o gol: num passe de Moore, com a defesa alem� totalmente desguarnecida, Hurst recebeu a bola e, quase se arrastando em campo de cansa�o, fez seu 3o gol na final, selando os 4x2 finais. O artilheiro ingl�s conduziu a bola t�o lentamente em dire��o ao gol da Alemanha, que a garotada inglesa come�ou a invadir o gramado comemorando o t�tulo. Ficou famosa a c�mica observa��o do comentarista Kenneth Wolstenholme, referindo-se � invas�o de campo: "Eles acham que terminou o jogo" e, ato cont�nuo: "Terminou o jogo!". No dia seguinte � conquista do Mundial, ao ser abordado na porta de casa pelos jornalistas, �vidos por declara��es de j�bilo e vit�ria, Alf Ramsey tranq�ilamente disse: "Este � meu dia de folga, n�o tenho nada a declarar". Nada mais brit�nico, n�o?
Nesta memor�vel final, � bom recordarmos que coube a Beckenbauer a tarefa exclusiva de marcar em cima o tamb�m extraordin�rio Bobby Charlton. O fato � que o ataque alem�o sem d�vida sentiu muito a falta de sua forte presen�a ofensiva nesta partida. Moore disse que "fiquei vermelho como um tomate", referido-se a esta persegui��o sem tr�guas ao craque ingl�s. Anos depois, modestamente acrescentaria: "a Inglaterra nos venceu porque Bobby Charlton era um pouquinho s� melhor do que eu".
A Inglaterra alinhou na decis�o Banks; Cohen, Jack Charlton, Bobby Moore e Wilson; Stiles e Bobby Charlton; Ball, Hurst, Hunt e Peters. A Alemanha jogou com Tikowski; Hoettges, Schnellinger, Schutz e Weber; Beckenbauer e Overath; Haller, Seeler, Emmerich e Held.
O melhor jogador ingl�s, grande destaque da competi��o, foi o atacante Bobby Charlton. Sua calva acentuada e sua figura, segundo alguns algo chapliana, tornaram-no legend�rio. Participou de dois mundiais (66 e 70). Quase morreu no desastre a�reo que vitimou seu time, junto com seu irm�o Jack Charlton. Com o impacto, foi atirado para fora do avi�o, com poltrona, cinto afivelado e tudo. Tinha ent�o 21 anos. Jogou pelo Manchester United. Atuou em 106 partidas pela sele��o, assinalando 49 gols, sendo o recordista de gols da equipe inglesa. Despediu-se do futebol aos 36 anos. Foi o jogador do ano na Europa em 1966. Tr�s vezes campe�o ingl�s (57, 65 e 67), campe�o da Copa da Inglaterra (63), da Copa dos Campe�es da Europa (68) e Mundial (66).
Outra figura inesquec�vel foi o fant�stico Bobby Moore, centro-m�dio e l�bero, de f�sico forte, duro na marca��o e firme na cobertura � zaga. Diziam na �poca que Moore entrava em campo de "fraque e cartola", tal a eleg�ncia de seu futebol. Foi o capit�o da equipe inglesa nesta Copa. Pel� o considera um de seus melhores marcadores em todos os tempos. Jogou 108 vezes pela sele��o (em 90 jogos foi o capit�o), atuando em tr�s Mundiais (62, 66 e 70). Atuou pelo West Ham (Inglaterra) e pelo San Antonio Thunder e Seattle Sounders (EUA). Campe�o da Liga Inglesa (64), da Recopa (65 e Mundial (66). Sua lideran�a e influ�ncia moral foram fundamentais na grande conquista de 1966.
Citemos ainda o goleiro Gordon Banks, considerado um dos melhores de todos os tempos, de uma agilidade fenomenal. Ficou nos anais da hist�ria por uma defesa que fez na Copa de 70, numa cabe�ada a queima-roupa de Pel�. Banks, de in�cio, pulou para um lado, mas, desafiando as leis da F�sica, mudou, ainda em pleno v�o, a dire��o do pulo e fez a milagrosa defesa. Mais tarde, Pel� diria que " eu sei que fiz aquele gol. Banks � que sumiu com ele". Esta ainda � considerada a maior defesa de todos os tempos. Banks jogou pelo Chesterfield, Leicester, Stoke City e pelo Fort Lauderdale (EUA). Atuou em 73 partidas pela sele��o e participou de duas Copas (66 e 70). Campe�o da Liga Inglesa (66 e 72) e Mundial (66). Eleito jogador do ano na Inglaterra em 1972. Neste mesmo ano abandonou o futebol, devido a uma grave les�o no olho.
E ainda, Jack Charlton, irm�o de Bobby Charlton. Apelidado de "Girafa"; foi um not�vel defensor. Alan Ball, meio campista combativo e incans�vel. Norbert Stiles, tamb�m meio-campista, de futebol viril e muita garra, talvez at� em excesso. Era chamado de "Dr�cula". Por sua feiura, foi o melhor propagandista involunt�rio da casa funer�ria de seu pai. Jimmy Greaves, not�vel artilheiro, com 357 gols no campeonato ingl�s; disputou 57 jogos pela sele��o, com 44 gols. Finalmente, Geoffrey Hurst, centro-avante, que jogou 49 partidas pela sele��o, marcando 24 vezes.
A Campanha Inglesa na Copa
O ESQUEMA T�TICO O esquema t�tico ingl�s apresentava tr�s linhas de jogadores: a zaga, o meio-campo e a linha de frente. Mas, quando atacado, dois atacantes voltavam em aux�lio do sistema defensivo. Eles preferiam a marca��o homem-a-homem, como ocorria no velho esquema WM, ao contr�rio dos sul-americanos, que se sentem mais � vontade na marca��o por zona. Bobby Moore era uma esp�cie de l�bero, da estirpe de um Beckenbauer. Atr�s, a zaga estava muito bem orientada tamb�m por J. Charlton e no ataque havia dois grandes artilheiros, somando-se a B. Charlton. Eram eles Hunt (ou Greaves) e Hurst. O desenho ilustra a disposi��o b�sica do time em campo, uma variante do 4-2-4. ******
Foi gra�as a um planejamento s�rio e competente, levado a bom termo por Alf Ramsey � frente do English Team, que os ingl�ses puderam, enfim, ser os Campe�es do Mundo, com uma �tima equipe. N�o h� d�vida que foi uma Copa com alguns claros-escuros, principalmente no que se refere �s arbitragens. Al�m disso, foi marcada por jogos violentos e alguma pol�mica em torno de certos resultados. Mas, no final, prevaleceu a organiza��o t�tica da sele��o inglesa. O capit�o Bobby Moore, exemplo de atleta e de integridade humana, p�de afinal pisar triunfante o tapete vermelho da Rainha para receber o t�o desejado trof�u. O comentarista da BBC, Max Marquis, resumiu tudo muito bem dizendo que "poder�o dizer que ganhamos porque t�nhamos o p�blico a nosso favor, que a Alemanha era melhor, que Portugal merecia levar a Copa, que ganhamos da Argentina com a ajuda do �rbitro Admito qualquer opini�o, s� n�o aceito discuss�o alguma em torno do merecimento da conquista da Inglaterra, em fun��o dos esfor�os e dos sacrif�cios realizados". E assim, a hist�ria soube fazer sua homenagem aos pais do futebol, criadores que foram do "velho e violento esporte bret�o", no dizer de nossos antigos radialistas.
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