ENTREVISTA COM CARLSON GRACIE E VITOR BELFORT
Entrevista com Carlson Gracie e Vitor Belfort

Entrevista concedida por Carlson Gracie e por Vitor Belfort ao nosso amigo Marcelo Alonso, da revista "O Tatame". Nela, eles falaram sobre a reconciliação, sobre Rickson Gracie, Edson Carvalho e muito mais!!!

Tatame - Carlson, como é que rolou esse "reentendimento" entre vocês?
Carlson - Olha Marcelo, a verdade é que a maioria das pessoas achava que a gente tinha que fazer as pazes, ficava pedindo para eu perdoar o Vítor e acabou que ele veio pedir desculpas, até porque ele estava errado e eu acabei perdoando-o. Mas só porque foi ele, se fosse outro qualquer eu não ia querer nem ver mais, foi uma atitude minha de coração.

T - Vítor, o que mudou na sua vida após a briga com Carlson?
Vítor - A realidade é que eu já cometi tantos erros que já até perdi a noção exata de quantas besteiras fiz. A vida é assim mesmo, a gente comete muitos erros, a minha sorte é que tinha muitas pessoas do meu lado com quem eu podia conversar e que me ajudaram muito. O meu tio Carlos Alberto e minha mãe foram dois que falavam muito comigo e neles eu podia confiar. O fato é que sou muito cabeça-dura, sou teimoso mesmo, e com isso fui me afundando cada vez mais, mas eu acho que aprendi a lição e as coisas vão começar a se encaixar novamente.

T - Muitos acusam a sua ex-namorada, Marinara Costa, de ter te jogado contra a equipe, o que você diz disto?
V - Realmente ela me induziu a fazer certas coisas que não eram necessárias. Mas não gostaria de acusá-la por erros que cometi. Agora só me resta pedir desculpas às pessoas com quem agi errado.

T - Você não acha que o sucesso lhe subiu a cabeça?
V - O problema todo do sucesso é que na verdade ele traz muita falsidade. Na realidade de cem amigos que você tem, apenas um é de verdade; de cem meninas que você sai, só uma gosta realmente de você.

T - É verdade que você foi buscar ajuda religiosa para se encontrar?
V - É, eu estava muito sem direção na vida, sem saber o que fazer e minha mãe, que sempre foi muito cristã, nunca passou a mão na minha cabeça. Ela e meu pai me deram muito força e, com a ajuda de Deus, acabei abrindo minha cabeça. Na realidade, eu sei que ninguém mais vai confiar em mim 100%, mas eu entendo, a vida é assim, por isso pretendo cultivar ainda mais o meu relacionamento com o Carlson.

T - Soube que qunado você brigou com o Carlson tentou treinar em várias outras academias. Como foi recebido?
V - Olha, uma coisa que eu achei muito bonita foi a atitude do Renzo e do Carlinhos, que falaram comigo e me aconselharam a voltar para o Carlson, dizendo que o meu futuro é com ele. A nossa relação é como se fosse uma relação de pai para filho, eu sei que ele ficou muito magoado mas tenho certeza que daqui para frente nós vamos ficar ainda mais unidos. Voltando ao assunto anterior, eu queria dizer que o Carlinhos sempre me deu muita força, dizia que era para eu procurar o Carlson, que ele iria me perdoar e que tudo terminaria bem para mim. Enfim ele mostrou que gosta muito do irmão.

T - Depois de toda esta novela o que você aprendeu?
V - Eu acho que falta união dentro do Jiu-Jitsu. Existem atletas do Jiu-Jitsu que torcem para que outro lutador da mesma modalidade perca. Falo isso porque até eu já agi desta forma. O ideal seria que todo mundo fosse amigo e se respeitasse. Seria ótimo que atletas de diferentes academias pudessem, pelo menos uma vez por semana, treinar entre si, trocar conhecimento, posições. O comportamento das pessoas tem que mudar para que o esporte possa crescer.

T - Carlson, você não acha importante para o próprio esporte que haja uma união maior?
C - A rivalidade pode e deve existir, mas tem que ser sadia. Nào vejo nenhum problema em alguém de outra academia vir treinar aqui, um aluno do Carlinhos por exemplo.

T - Você é famoso por sempre criar confusões em campeonatos, mas nesse Mundial estava lá ajudando. Explica como foi isso.
C - O problema é que na maioria dos campeonatos, sempre imperou uma roubalheira danada por parte dos juízes, aí não dava para ficar calado. Nesse não, eu vi que o evento tava bem organizado, então fui dar uma "mãozinha", não custava nada.

T - Você não acha que foi você que mudou sua concepção de ver as coisas?
C - Não, não é isso. Eu sou um cara maleável, se eu vejo que um negócio está indo bem, sendo feito diretio, dou o meu apoio. Agora, se tá uma bagunça, é óbvio que eu não vou dar apoio nenhum. No Mundial, o Carlinhos me pediu uma ajuda, então eu fui lá e colaborei. Acho até que dei conta do recado, dessa vez eu não vi bagunça, ninguém invadindo o ringue toda hora.

T - Vítor, você acha importante que atletas de diferentes modalidades treinem entre si, como o Marco Ruas vem fazendo com o Kerr?
V - Eu acho válido, mas é claro que eu não vou procurar familiarizar meu treino, eu não vou treinar com um cara que pode ser meu adversário amanhã. Dentro do Jiu-Jisu tem muito treino, tem o cara grandão, o pequenininho, o bom de queda ruim de derrubar, o bom de guarda, enfim no Jiu-Jisu eu posso encontrar todo tipo de treino e situação para o Vale-Tudo. Agora, sem dúvida, o Boxe também é uma modalidade muito importante para o Vale-Tudo e graças a Deus eu tenho o meu treinador de Boxe, Al Stankie, um cara que sempre me deu muita força e que agora tá do meu lado no projeto de tentar a classificação para as Olimpíadas.

T - Fale um pouco sobre isso.
V - Bem, em dezembro vai ter o Brasileiro e se eu conseguir ficar entre os dois primeiros, vou para o Panamericano de 1999 e, no ano 2000 vai ter a disputa para as Olimpíadas no Sul Americano, aí so entra o campeão. Se Deus quiser vou estar lá. Não posso esquecer de agradecer a força que o Ulisses Pereira (treinador de Boxe da seleção brasileira) vem me dando. No ano que vem, se tudo correr bem e eu conseguir treinar bastante de quimono, também pretendo lutar o Mundial de Jiu-Jitsu.

T - E por falar em Vale-Tudo, teve uma época que você demonstrou até certa rivalidade com o Rickson. Como é que foi isso? Você teve algum contato com ele ultimamente?
V - Olha eu errei em falar mal dele, mas por outro lado, ele também já errou bastante, andou falando algumas besteiras em entrevistas que deu, só que um erro não justifica o outro. Eu acho que ele é um cara que tem que ser respeitado, seja pela idade que tem, pelo caminho que escolheu para si. E também porque ele e um excelente profissional, um cara que levanta o nome do Jiu-Jitsu e que portanto deveria ser admirado e respeitado por todos.

T - E a preparação para o seu retorno ao Vale-Tudo?
V - Eu venho dando mais ênfase à parte física através da ginástica natural do professor Álvaro Romano e acho que estou no caminho certo. Existem pessoas que têm me ajudado e eu espero corresponder dentro do ringue.

T - Carlson, o que você acha desse negócio do Vítor lutar até 90 kg?
C - Na realidade, o peso normal dele é esse, é o peso certo para ele lutar. Ele tá em forma. V (interrompendo) - Na verdade, eu aproveitei que tinha de descer até 91kg para lutar Boxe e resolvi perder mais um pouco, baixar até 90kg e lutar nesse peso no Vale-Tudo, inclusive eu quero ser campeão do Ultimate nessa categoria. Isso tudo sem esquecer meu principal objetivo, que é lutar a revanche contra o Randy Couture em janeiro do ano que vem, só que eu vou lutar com ele pesando no máximo 93, 94 kg, que é o certo. Com esse peso eu consigo manter minha força e ainda tenho vantagem de estar bem mais rápido e com o gás em cima. Não tem porque ser diferente.

T - E no Jiu-Jitsu Carlson? A sua equipe não está mais tendo os mesmos resultados de algum tempo atrás. Tem gente até dizendo que a Carlson faliu ..
C - Não, o problema é que tá todo mundo muito voltado para o Vale-Tudo, só que agora eu dei uma chamada na rapaziada e todos vão ter que entrar nos campeonatos. E além do mais quem foi que disse que treinar de quimono não é bom para o Vale-Tudo? O treino de quimono só ajuda, dá pegada, dá gás, agilidade. Enfim, não tem desculpa, quero todo mundo competindo, inclusive o Vítor.

T - Carlson, fale desse seu projeto de reeditar o antigo programa heróis do ringue fazendo programas de Vale-Tudo periódicos na TV?
C - É, eu e o Joinha queremos lançá-lo a paritr de janeiro na SporTV. Vai ser um programa de Vale-Tudo com todas as categorias de peso, inclusive peso galo, que vai até 57 kg. Vão ser onze categorias e eu tenho certeza que vai ser um grande sucesso. Já estamos com tudo em cima: patrocinador, organização, tudinho. No primeiro evento queremos botar o Wallid para lutar com o Mike Burnett, que ganhou do Eugênio. E talvez o Hugo contra o Rafael Carino, parece que eles querem lutar de qualquer jeito, isso já é birra antiga, então agente vai convidar os dois para fazer uma superfight de arrepiar.

T - Vítor, é verdade que seu antigo preparador, o fisiculturista Curtis Lufler, faleceu mês passado por overdose de bombas (esteróides) ?
V - Nào sei detalhes de sua morte. Quando ele morreu eu estava aqui no Brasil. Fiquei muito abalado, apesar de não estarmos mais treinando juntos, sempre o considerei um grande amigo.

T - Carlson, fui informado que o Edson Carvalho vai voltar a treinar na sua equipe, é verdade?
C - De jeito nenhum. O que acontece é que ele tá treinando lá na academia do meu faixa preta Rinaldo Santos (Fight Center) e com isso eu não tenho nada a ver, ele teina com quem quiser, mas não faz mais parte do Carlson Team.

T - Mais alguma coisa a dizer Vítor?
V - Estou com vários projetos. Um deles, idealizado pelo secretário de Esportes José Moraes, será uma fundação de lutas só para crianças carentes. Também estou abrindo duas academias, uma em São Paulo e outra em San Diego. No ano que vem pretendo fazer uma série de seminários pelo Brasil e quem tiver interesse pode ligar para (021) 512-5782. Também gostaria de agradecer aos meus patrocinadores, a Bad Boy, Prefeitura do Rio de Janeiro e ao apoio da Barra Grill, Rialto, Body Lab, Academia da Prai, o cirurgião Artur da Silva Neto e o amigo Carlos Azevedo. 1

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