PRECISÃO CERVICAL DE INFRA-ESTRUTURAS PARA METALOCERÂMICAS, SEGUNDO REVESTIMENTOS E TÉCNICAS DE EXPANSÃO
(PRECISION CASTING OF COPPINGS MADE BY VARIANTIONS OF INVESTMENT TYPES AND EXPANSION TECHNIQUES)
José Roberto Lovadino
José Mondelli
Revista da FOB,2(1):58-62, 1994.
- Abstract - Resumo - Introdução - Mat. Método - Resultados -Discussão - Conclusão - Ref. Bibl.

ABSTRACT :

The purpose of this study was to evaluate the cervical precision of Ni-Cr coppings, when types and techniques of casting investment were modified.
The casting investment used showed different performances. Immersion im water at 38oC and under pressure of 2,81 kg/cm2 was the best technique for Hi-Temp casting investment. Acquavest, the other casting investment used, showed better adjustment than Hi-Temp with no differences among the techniques used.

Uniterms: Casting investments; Dental alloy, casting.


RESUMO

Os autores avaliaram o desajuste cervical de infra-estruturas para metalocerâmicas confeccionadas com uma liga de Níquel-Cromo, quando variaram o tipo de revestimento e técnicas de inclusão. Verificaram que os revestimentos utilizados apresentaram performances diferentes; que o fato de imergir o revestimento Hi-Temp em água à 38oC e sob pressão de 2,81 kg/cm2 promoveu menores desajustes para este revestimento. Também verificaram que o revestimento Acquavest apresentou os menores desajustes, não tendo demonstrado diferenças dentro das técnicas utilizadas.
 
Unitermos: Revestimentos; Ligas odontológicas, fundição.


 INTRODUÇÃO

Desde os primórdios a arte médica, de maneira global, tem procurado aliviar o sofrimento humano, desenvolvendo técnicas terapêuticas e substitutos artificiais para elementos funcionais humanos perdidos. Foi com Taggart16 que a Odontologia, em 1907, ganhou um novo impulso na substituição de elementos ou parte de elementos dentais perdidos. Com o decorrer do tempo, foram desenvolvidas ligas para fundição odontológica com baixo ter de ouro e de outros metais nobres, no sentido de atender ao apelo social de diminuição de custos sem preterir à qualidade. Este novo conceito foi marcado por Roebuck11 em 1915. Também evoluíram as técnicas de confecção, bem como a estética das restaurações indiretas, de modo muito especial as metalocerâmicas. Assim hoje existem sistemas que utilizando ligas não nobres respondem de modo muito satisfatório à estética dos pacientes além de oferecerem qualidade funcional às reabilitações dentais protéticas.
Técnicas de compensação da contração de fundição das ligas também estão sendo constantemente aprimoradas. Muito autores, como Craig & Peyton3, têm estudado o comportamento de revestimentos para fundições odontológicas, frente à técnicas diversas, no sentido de adequá-las ao tipo de composição da liga utilizada.
O objetivo do presente trabalho foi verificar a adaptação cervical de infra-estruturas metálicas para coroas de metalocerâmicas confeccionadas com uma liga do sistema Ni-Cr, desenvolvida por Mondelli, J. e equipe, segundo tipos e técnicas de expansão dos revestimentos.
  


MATERIAIS E MÉTODO
 
Para a realização deste trabalho, utilizaram-se os revestimentos caracterizados no Quadro 1 e uma liga de Ni-Cr. Esta liga possui 65% de Ni, 20% de Cr, 8% de Mb, e elementos de liga Ni, Mn, Fe e Ti num total de 7%. Apresenta 2,14% de contração de fundição, dureza Rockwell de 75,6, resistência à tração de 5.350 kg/cm2, temperatura de fusão de 1350oC e temperatura para o anel de fundição em 850oC.

Quadro I - Revestimentos utilizados.
 
HI-TEMP
AQUAVEST
Fabricante
Wip-Mix Corporation
Polidental Com. Imp. Ltda.
nº do lote
66085
870180
Expansão de presa
1,05%
1,00%
Expansão térmica 

(700-1000 0C)ooooooo 

 
1,20%
 
1,35%
Expansão higroscópica
1,20%
1,20%
Consistência
16 ml de líquido/100g de pó
14 ml de líquido/100g de pó
 

Para a obtenção das infra-estruturas metálicas, foram realizados enceramentos padronizados por uma matriz, sobre um troquel metálico, confeccionado em liga de Cr-Co. Este troquel obedeceu as recomendações de Janson et al8 de preparo para uma coroa total em pré-molares. Concluído o enceramento, realizou-se a inclusão do padrão para a fundição. Para isto, o padrão de cera foi fixado na base formadora de cadinho por meio de um "sprue" com 2 mm de diâmetro, sem canal de ventilação, conforme sugestão de Wight17. Colocado sobre a base formadora de cadinho, o padrão estava 6 mm distante da borda superior, de acordo com Consani & Ruhnke4 e Asgar et al1. Neste momento os revestimentos foram proporcionados, manipulados em espatulador mecânico (Whip-Mix Corporation), conforme a recomendação dos respectivos fabricantes e vertidos dentro do anel de fundição, aplicando-se então os seguintes tratamentos:

 
GRUPO A: Possuía anel de fundição metálico revestido com uma única tira de amianto, umedecida com água destilada.
GRUPO B: Possuía anel de fundição metálico revestido com duas tiras de amianto, umedecidas com água destilada.
GRUPO C: Possuía anel de PVC com fenda longitudinal que foi imerso, após o vazamento do revestimento, em água à 38oC por quarenta minutos.
GRUPO D: Possía anel de PVC com fenda longitudinal que foi imerso, após o vazamento do revestimento, em água à 38oC, sob 2,81 kg/cm2 de pressão, por cinco minutos e por mais trinta e cinco minutos de imersão sem pressão, dentro de uma polimerizadora de resina acrílica (EDG-Equipamentos e Controles Ltda).
 

Decorrido o tempo de presa dos revestimentos, os corpos de prova foram armazenados por 60 minutos em temperatura ambiente, conforme orientação de Lacy et al9. Após este tempo foram realizadas as fundições, levando-se antes os anéis de fundição ao forno para o devido pré-aquecimento.
Sempre se utilizaram ligas novas para a fundição, que foi realizada com maçarico gás/oxigênio. As infra-estruturas já fundidas foram removidas do revestimento e imediatamente tiveram o término cervical protegido com cera no 7. Em seguida estas foram limpas do revestimento com jatos de óxido de alumínio e não foram usinadas.
O desajuste foi determinado posicionando-se a infra-estrutura metálica no troquel de Ni-Cr, onde se realizou o enceramento. Quando posicionada, a infra-estrutura recebeu uma carga axial de ajuste no valor de 9 kgf, durante um minuto, atendendo a recomendação de Grieve6. Após este procedimento o conjunto troquel/infra-estrutura foi levado ao microscópio comparador (Mitutoyo, Japan) para a medida do desajuste cervical. Foram realizadas 3 medidas em 4 pontos do término cervical, totalizando 384 medições.


RESULTADOS

Os resultados, expressos em média de desajuste, estão estabelecidos no quadro 2.

Quadro 2- Média dos desajustes, em mm, das infra-estruturas metálicas.
MARCA GRUPO A GRUPO B GRUPO C GRUPO D
Acquavest 0,173 0,140 1,137 0,084
Hi-Temp 0,442 0,504 0,277 0,195
 



 

DISCUSSÃO

Os resultados das medições foram submetidos ao tratamento estatístico ANOVA com dois critérios de classificação e ao teste de Tukey-Kramer com a = 5%.

TABELA 1 - Análise de variância das médias de desajustes das infra-estruturas metálicas.
CAUSAS DE VARIAÇÃO GL SQ QM F
Grupos 3 0,178 0,059 19,66*
Marcas 1 0,391 0,391 130,33*
Interação 3 0,83 0,028 9,33*
Resíduo 24 0,061 0,003 -
TOTAL 31      
*Significante para a = 5%         F(3,24) Þ 3,01         F(1,24) Þ 4,26
 

TABELA II - Análise de variância das médias de desajustes das infra-estruturas metálicas, com desdobramento da interação.
CAUSAS DE VARIAÇÃO GL SQ QM F
MARCAS 1 0,391 0,391 130,33*
GRUPOS dt marca R1   

3

  

0,16

  

0,005

  

1,66

GRUPOS dt marca R2   

3

  

0,245

  

0,082

  

27,33*

Resíduo 24 0,061 0,003  
TOTAL 31      
*Significante para a = 5%         F(3,24) Þ 3,01         F(1,24) Þ 4,26

 
TABELA III - Comparações individuais entre grupos dentro da marca R2.
Teste de Tukey-Kramer
COMPARAÇÕES
DIFERENÇA
A X B
0,062
A X C
0,165*
A X D
0,247*
B X C
0,227*
B X D
0,309*
C X D
0,082
Diferença mínima significante para a = 5% Þ 0,096
*Significante
 

Pela análise das tabelas I, II e III, pôde-se notar que o revestimento Hi-Temp apresentou fundições com desajustes maiores que aqueles apresentados pelas fundições realizadas com o revestimento Acquavest. Este fato pôde ser notado em qualquer uma das técnicas de compensação utilizadas por ocasião da inclusão. Realmente, já era de se esperar este fato, pois Byrne et al2 mostraram que a densidade do revestimento Hi-Temp pode causar problemas de fundição e variações de comportamento frente a determinada situação. Assim, o revestimento Acquavest, indicando para a técnica de compensação de cotnração via expansão higroscópica, proporcionou a obtenção de peças fundidas com uma precisão superior àquelas obtidas com o revestimento Hi-Temp.
A técnica de compensação de contração obtida na expansão higroscópica, grupos C e D, foi a que apresentou fundições com as melhores adaptações, ratificando os achados de Scheu12,13,14 Hollemback7 e Fusayama5.
Verificamos os resultados de adaptação da fundição obtida pela técnica da expansão higroscópica via imersão em água aquecida à 38oC e sob pressão atmosférica de 2,81 kg/cm2, notou-se que os valores foram os melhores e se aproximaram daqueles obtidos por outros autores5,10,15.
Provavelmente isto se deva a uma expansão maior e mais regular do molde de revestimento promovida pelo aquecimento e pela pressão, porque o fato da expansão ocorrer sob pressão acarreta um aumento da densidade do revestimento melhorando a textura superficial e a lisura das fundições.
Os piores resultados foram os obtidos a partir de corpos de prova confeccionados em anel de fundição revestido com 2 tiras de amianto embebidas em água destilada.


CONCLUSÕES
 
Deste trabalho, após a devida análise estatística dos resultados, pôde-se concluir que:
 
As infra-estruturas para metalocerâmica melhor adaptadas foram obtidas com o revestimento Acquavest, independentemente da técnica de expansão realizada. 
As melhores técnicas de expansão do revestimento foram as técnicas higroscópicas com e sem pressão, seguidas pelas técnicas térmicas. 
A expansão higroscópica sob pressão de 2,18 kg/cm2 produziu peças fundidas com melhor textura superficial. 
 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 
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02- BYRNE, G. et al. Casting accuracy of high-paladium alloys. J. prosth. Dent.,v.55, n.3, p.297-301, Mar. 1980.   
03- CRAIG, R.G.; PEYTON, F.A. Restorative dental materials, 5a ed., Saint Louis, Mosby, 1975.   
04- CONSANI, S.; RUHNKE, L.A. An explanation for the water distribution in a hygroscopic technique. J. dent. Res., v.50, n.6, p.1048-54, June, 1980.   
05- FUSAYAMA, T. Synthetic study on precision dental casting. Bull. Tokyo med. dent. Univ., v.11, n.2, p.165-205, June 1964.   
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09- LACY, A.M. et al. Three factors affecting investments setting expansion and casting size. J. prosth. Dent., v.40, n.1, p.52-8, Jan. 1983.   
10- LANDGREN, N.; PEYTON, F.A. Hygroscopic expansion of some casting investments. J. dent. Res., v.29, n.4, p.469-81, Aug. 1950.   
11- ROEBUCK, L.N. Cast aluminium inlays. Amer. Dent. J., v.13, p.527-9, 1915.   
12- SCHEU, C.H. A new precision casting technic. J. Am. dent. Ass., v.19, p.30-3, Apr. 1932.   
13- _______. Precision casting utilizing the hygroscopyc action of plaster in investment making expanded molds. J. Am. dent. Ass., v.20, p.1205-15, July 1933.   
14- _______. Controlled hygroscopyc expansion of investment to compensate for shrinkage in inlays casting. J. Amer. dent. Ass., v.22, p.452-55, Mar. 1935.   
15- SCHWARTZ, I.S. A review of method and techniques to improve the fit of cast restorations. J. prosth. Dent., v.56, n.3, p.279-83, Sept. 1986.
16- TAGGART, W.H. A new accurate method of making gold inlays. Dental Cosmos., v.49, n.11, p.1117-21, Nov. 1907.  
17- WIGHT, T.A. et al. Evaluation of three variables affecting the casting of base metal alloys. J. prosth. Dent., v.43, n.4, 415-18, Apr. 1980. 
 

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