Cimento de ionômero de vidro – resistência ao deslocamento com diferentes tipos de tratamento em dentina.
 
PAULILLO, Luís Alexandre M.S.**
LOVADINO, José Roberto*
MARTINS, Luís Roberto M.*
SERRA, Mônica Campos*
SARTINI FILHO, Raul***
 
RBO, 49(2):8-11,1992.
  Summary - Sinopse - Introdução - Mat.Métodos - Resultados - Discussão - Ref. Bibliog. 
SUMMARY

This study has verified the effectiveness of the dentin superficial pre-treatment by adhesion of three glass ionomer restorative cements. It was observed that a previous prophylaxis with pumice stone and water was already enough to have a surface suitable for adhesion with the tested cements.

Uniterms: Glass ionomer, cement, Dentin, Restorative Materials, Adhesion and Dental Cements.



 

SINOPSE

Esse estudo verificou a efetividade do pré-tratamento superficial da dentina na adesão de três cimentos de ionômero de vidro restauradores. Observou que uma profilaxia prévia com pedra-pomes e água já propicia uma superfície apta a realizar a adesão com os cimentos de ionômero de vidro testados.

Unitermos: Cimento de ionômero de vidro. Dentina, Materiais Restauradores, Adesão e Cimentos Dentários.



 

INTRODUÇÃO

Desde que o cimento de ionômero de vidro foi introduzido na Odontologia por Wilson & Kent12, muitos estudos têm sido empreendidos para melhorar a efetividade de uma de suas propriedades que é a adesão com a superfície dentária. Desta forma tem se tentato encontrar uma substância ideal para o condicionamento de superfície. Martins et alii8 em um artigo de divulgação tecem comentários sobre indicações, contra-indicações, bem como as técnicas utilizadas para aplicações clínicas dos materiais desta natureza existentes no mercado.

Já foram utilizadas as mais diversas substâncias com este intuito. Holtz et alii6 testaram o ácido cítrico e o ácido fosfórico, Levine et alii7 tentaram introduzir substâncias mineralizadoras. Em um extenso trabalho Powis et alii11 testaram as mais diversas substâncias para o condicionamento de superfície tanto em dentina como em esmalte, indicando o ácido poliacrílico, o ácido tânico e o dodicim como os mais eficientes. Autores como Aboush & Jenkis1 determinaram que apenas uma profilaxia já condicionava a superfície para uma boa adesão.



 

MATERIAL E MÉTODOS

Para a realização dos testes, foram confeccionadas cinco matrizes de nylon na forma de disco, de altura 2 mm, diâmetro externo de 20 mm e possuindo na sua porção central uma cavidade tronco-cônica com base maior de 5 mm de diâmetro interno e base menor de 3 mm de diâmetro interno. Lateralmente a esta cavidade foram realizadas duas perfurações para posicionamento na Máquina Universal de Testes, onde realizamos testes de resistência à tração.

Foram eleitos os dentes caninos para a realização dos testes e após a limpeza dos mesmos com um jato de bicarbonato de sódio, a coroa foi separada da raiz por meio de um disco de carburundum e então incluída em resina acrílica ativada quimicamente (RAAQ). A superfície vestibular foi preparada primeiramente com uma lixa de no 320 até a exposição da dentina e em seguida utilizou-se uma lixa d’água no 600 para o refinamento da superfície. Após este procedimento lavou-se abundantemente com água destilada e secou-se.

Foram realizados dois tratamentos de superfície. O primeiro tratamento consistia de uma profilaxia com uma pasta de pedra-pomes e água destilada, aplicada com taça de borracha por 10 segundos em baixa rotação, lavando-se posteriormente e secando-se. O segundo tratamento era constituído da mesma profilaxia seguida de um tratamento superficial com ácido poliacrílico a 40% (líquido do Durelon) durante 10 segundos, aplicado por meio de uma bolinha de algodão.

Após realizarmos um destes tratamentos a matriz de nylon foi justaposta à superfície dentinária e sua cavidade foi preenchida com cimento de ionômero de vidro, que foi protegido com uma tira de celulóide. Sobre o conjunto, colocou-se um peso 820 g (Powis, et alii11) por meio de um posicionador. Após a presa inicial do cimento de ionômero de vidro que corresponde ao tempo de 5 minutos, com excessão do Chelon-Fil que é de 7 minutos, o corpo de prova foi armazenado por 24 horas em ambiente com temperatura de 37o ± 1 com 100% de umidade relativa. Decorridas as 24 horas na estufa, o conjunto foi levado à Máquina Universal de Testes, ajustada para velocidade de 0,5 mm por minuto, onde foi submetido a testes de tração. Os resultados foram tabulados e analisados estatisticamente.

Os cimentos de ionômero de vidro tipo II para restauração e a proporção pó-líquido utilizados neste estudo estão listados no Quadro I. Foram confeccionados 10 corpos de prova para cada condição de teste, totalizando 60 corpos de prova.

 

 
TABELA I: TABELA DAS DIFERENÇAS INDIVIDUAIS (TESTE TURKEY - RESULTADOS EM MPa)

 
 
  Ceram-Fil(10) 

m = 1,278

Ceram-Fil + 

Poliacrílico (9) 

m = 1,457

Chelon-Fil + 

Poliacrílico(10) 

m = 1,765

Chelon-Fil (8) 

m = 1,991

Chem-Fil II + 

Poliacrílico(9) 

m = 2,886

Chem-Fil II (8) 

m = 3,118

Ceram-Fil(10) 

m = 1,278

 
0
 
0,179
ns
 
0,487
ns
 
0,713
ns
 
1,608
 
1,840
Ceram-Fil + 

Poliacrílico (9) 

m = 1,457

 
 
0
 
0,308
ns
 
0,534
ns
 
1,429
 
1,661
Chelon-Fil + 

Poliacrílico(10) 

m = 1,765

   
 
0
 
0,224
ns
 
1,121
 
1,353
Chelon-Fil (8) 

m = 1,991

     
 
0
 
 
0,859
ns
 
1,127
Chem-Fil II + 

Poliacrílico(9) 

m = 2,886

       
 
0
 
0,232
ns
Chem-Fil II (8) 

m = 3,118

         
 
0
 
desvio padrão = 0,712 ns = não significante
sublinhamento + significante entre parênteses = número de réplicas
m = média aritmética


 

RESULTADOS

As médias dos valores obtidos no teste de tração, para cada tratamento, foram submetidos à análise de variância (r = 0,05).

Os resultados do Teste Tukey (Tabela I e gráfico) nos revelaram que não houve diferença estatística significante entre os tratamentos de superfície com ácido poliacrílico a 40% por 10s ou profilaxia com pedra-pomes e água destilada. Os corpos de prova realizados com Chem-Fil II e Chem-Fil II/ácido poliacrílico foram superiores estatisticamente aos realizados com Ceram-Fil, Ceram-Fil/ácido poliacrílico e chelon-Fil/ácido poliacrílico; no entanto, somente os realizados com Chelom-Fil II foi superior aos realizados com Chelon-Fil. Também nos revelaram que não houve diferença estatística entre os corpos de prova realizados com Chelom-Fil, Chelom-Fil/ácido poliacrílico, Ceram-Fil e Ceram Fil/ácido poliacrílico.

 


DISCUSSÃO

Uma das indicações do cimento de ionômero de vidro é a sua utilização em restaurações classe V de lesões de erosão/abrasão, onde não é necessário o preparo biomecânico do dente9.

Para que haja uma troca iônica entre o cimento de ionômero de vidro e a dentina é necessário que a superfície não apresente nenhum contaminante. Embora lesões de erosão/abrasão não apresentem camada de Smear, a superfície poderá estar contaminada por saliva, película, placa bacteriana. Apesar de estarem presentes, estes contaminantes podem ser facilmente removidos com uma profilaxia por meio de taça de borracha com pedra-pomes e água.

Partindo-se do princípio de que o mínimo necessário para se realizar uma restauração de uma lesão de erosão/abrasão com cimento de ionômero de vidro é a realização de uma profilaxia prévia por meio de taça de borracha com pedra-pomes e água, para a eliminação dos agentes contaminantes, utilizamos este procedimento como controle.

A profilaxia prévia com pedra-pomes e água destilada por 10s realizada antes da aplicação do cimento proporcionou o aparecimento de uma superfície dentinária apta a realizar uma boa união química entre o cimento e a dentina, corroborando com os achados de Aboush & Jenkins1, que explica a diferença não significante entre a aplicação ou não do ácido poliacrílico.

Uma outra explicação para este fato é que, segundo Beech et alii4, o ácido tartárico presente no cimento do ionômero de vidro dissolve ou modifica a superfície dentinária eliminando desta maneira o efeito do tratamento de superfície.

Embora o resultado de estudos anteriores2,3,5,11 demonstre um aumento na força de adesão quando se utilizou ácido poliacrílico, o mesmo fato não ocorre em nosso estudo, o que nos leva a acreditar em Barakat et alii2, que sugere que não há um tratamento universal de superfície e que certos tratamentos podem aumentar significantemente a força de união para o esmalte e a dentina.

Segundo Mac Lean13, o ácido maleico contido no cimento Chelon-Fil possui duas vezes mais grupos carboxilicos que o ácido poliacrílico presente nos cimentos de ionômero de vidro Chem-Fil II e Ceram-Fil. Desta forma seria de se esperar que a adesão do Chelom-Fil à dentina fosse superior a dos outros cimentos, este fato porém, não foi observado neste estudo. O cimento Chem-Fil II possui média estatisticamente superior a do Chelom-Fil, entretanto a média deste não é diferente estatisticamente à média do Ceram -Fil. Desta forma a afirmação de Mac Lean13 de que nem todos os radicais carboxilicos (COOH) presentes no ácido polimaleico tornam-se grupos carboxilatos (COO-), fator essecial para a união química entre o cimento de ionômero de vidro e a dentina, fica demonstrada. Além deste fato, de acordo com Aboush & Jenkis1, a adesão depende da natureza do poliácido usado, isto é, cimentos à base de ácido poliacrílico parecem unir-se mais fortemente que aqueles baseados em copolímeros do ácido acrílico, tais como, o ácido itacônico ou maleico.

Apesar de Chem-Fil II e Ceram-Fil serem cimentos anidros, a média dos resultados do Chem-Fil II foi superior estatisticamente. Isto nos leva a crer que a deficiência do Ceram-Fil deve-se ao fato de que sua embalagem é nitidamente inadequada a este tipo de cimento, não permitindo um perfeito vedamento, e possibilitando ao cimento reagir com a umidade do ar, o que pode ser facilmente constatado pela presença de pequenos "flocos"de cimento dentro do frasco.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
01- ABOUSH, Y.E.Y. & JENKIN, C.B.G. An evaluation of the bonding of glass-ionomer restoratives to dentine and enamel. Br. Dent. J. 161: 179-84, 1986.
02- BARAKAT, M.M. et alii. In vitro bond strength of cements to treated teeth. Aust. Dent. J. 31(6): 415-9, 1986.
03- BARAKAT, M.M. et alii. Parameters that affect in vitro bonding of glass-ionomer limers to dentin. J. Dent. Res. 67(9): 1161-3, 1988.
04- BEECH, D.R. et alii. Bond strenght of polycarboxylic acid cements to treated dentine. Dent. Mater 1: 154-7, 1985.
05- HINOURA, K. et alii. Influence of dentin surface treatments on the bond strenghts to dentin-lining cements. Oper Dent. 11: 147-54, 1986.
06- HOLTZ, P. et alii. The bonding of glass-ionomer cements to metal and tooth substrats. Br. Dent. J. 142: 41-7, 1977.
07- LEVINE, R.S. et alii. Improvement the bond streght of the poliacrylate cements to dentine. A rapid technique. Br. dent. J. 143: 275-7, 1977.
08- MARTINS, L.R.M. et alii. Restaurações com cimentos ionoméricos. Rev. Odont. USP 1(2): 24-27, 1987.
09- MOUNT, G.J. Restorations of eroded areas. JADA 120: 31-5, 1990.
10- OILO, G. Bond strenght of new ionomer cement to dentine. Scand J. Dent., 89: 344, 1981.
11- POWIS, D.R. et alii. Improvided adhesion of a glass-ionomer cement to dentin and enamel. J. Dent. Res. 61: 1416-22, 1982.
12- WILSON, A.D. & KENT, B.E. The glas-ionomer cement, a new translucent dental filling materials. J. Appl Chem Biotechnol 21: 313, 1971.
13- WILSON, A.D. & MAC LEAN, J.W. Glass ionomer cement. 1a ed. Chicago. EUA, 1988. p.34, 46 e 47:
 

 

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