RESINAS COMPOSTAS EM DENTES POSTERIORES
COMPOSITE RESINS IN POSTERIOR TEETH
 
Maria Teresa Atta Alves BASTOS*
José Roberto LOVADINO**
José Vanderlei de ALMEIDA***
Luis Roberto Marcondes MARTINS**
Maria Fidela de Lima NAVARRO****
Rev. Odont. USP, 1(2):42-45, abr.,/jun. 1987.
- Abstract - Resumo - Introdução - Considerações Clínicas - Conclusão - Ref. BiBliográficas


Abstract:
Clinical considerations of posterior restoration of composite resin are made involving its physical and mecanichal properties and the procedures that makes possible minimize the problems associated with material, as the occlusal wear, loss of material in the interproximal area and postoperative sensibility.
 
Uniterms: Composite resins; Dental restoration permanent.
 

Resumo:
O comportamento clínico das resinas compostas relacionado às propriedades físicas e mecânicas são apresentados. Os procedimentos que devem ser seguidos para diminuir os problemas mais comuns observados com esse material como o desgaste oclusal, perda de contato proximal e sensibilidade pós-operatória são descritos.

Unitermos: Resinas Compostas; Restauração Dentária Permanente.



INTRODUÇÃO

Desde o advento das resinas compostas, o seu uso tem sido amplamente difundido para restaurações de dentes anteriores, principalmente após o desenvolvimento das resinas de micropartículas que permitem um polimento satisfatório da superfície.
O mesmo entusiasmo que tomou conta dos profissionais em relação ao seu uso em dentes anteriores, manifestou-se para aplicação em dentes posteriores. No entanto, as primeiras resinas compostas lançadas no mercado não apresentavam propriedades físicas e mecânicas que garantissem o sucesso desse material em relação ao amálgama.
Embora as resinas compostas apresentem uma série de características às do amálgama como resistência à compressão, manifestam um desgaste superficial muito acentuado principalmente após dois anos de vida clínica1,4,5,7,9,10,12,13.
Atualmente, muitos fabricantes têm concentrado os seus esforços em desenvolver resinas compostas que pudessem ser usadas em restaurações posteriores sem manifestar um desgaste oclusal muito acentuado.
Uma vez que o processo de desgaste ocorre sob a ação das forças oclusais, ele manifesta-se mais acentuadamente nos molares do que nos pré-molares, devido à diferença de incidência dessas forças durante o ato mastigatório6.
Além do desgaste oclusal é preciso considerar a perda da área de contato proximal em restaurações de classe II devido à ação de abrasão.
Dentre as características desse material, as que têm sido apontadas como responsáveis pelo seu desempenho clínico são o método de polimerização, o tamanho e distribuição das partículas de carga, a dureza dessas partículas e a sorpção de água15.
As resinas foto-polimerizáveis comportam-se substancialmente melhor que as auto-polimerizáveis, quando se leva em conta o desgaste superficial17. Isso se deve à maior porosidade existente nas foto-polimerizáveis, provavelmente por não requererem a espatulação que permite por sua vez, a inclusão de bolhas de ar e ao próprio método de polimerização que só é iniciado após a acomodação das porções do material na cavidade, podendo ainda, ser realizado em etapas.
O tamanho e a dureza das partículas influem no processo de desgaste superficial. Partículas menores e com menor dureza reduzem o potencial de desgaste, pois quando sofrem o cisalhamento, deixam um espaço vazio menor do que as de maior tamanho15.
Apesar dos aspectos negativos da resina composta, o seu uso em dentes posteriores poderá ter um futuro, uma vez que pesquisas têm sido realizadas para desenvolver uma resina que possa servir a esse fim. Trabalhos como o de WIBBLESMAN16 realizado em 1969, época em que estava se iniciando o uso das resinas compostas em dentes posteriores, consideravam o sistema Adaptic satisfatório, tanto para restaurações anteriores como posteriores em qualquer tipo de cavidade.
A essa conclusão muitos outros autores também chegaram, todos analisando as restaurações por um período médio de um ano. No entanto, essas afirmações não correspondem à realidade quando as observações são realizadas por um período mais prolongado. PHILLIPS et alii11,12,13 avaliaram restaurações de resina composta e amálgama em cavidades de classe II por períodos de 1, 2 e 3 anos. Na primeira avaliação observaram que houve um menor índice de falhas marginais nas restaurações de resina quando comparadas com as de amálgama, embora estas últimas apresentassem uma melhor manutenção da forma anatômica. Nos anos seguintes as observações foram basicamente as mesmas, salvo o registro de um desgaste superficial mais acentuado das resinas compostas.
O mesmo pode ser observado no trabalho de OSBORNE et alii10 em 1973 comparando restaurações de resina composta e amálgama com dois anos de vida clínica. Isso vem mostrar que nos períodos iniciais de um a dois anos, as resinas compostas apresentam um comportamento clínico bastante satisfatório, mas com o decorrer do tempo há um acentuado desgaste oclusal.
Em 1977, KUSY & LEINFELDER5 procuraram explicações para o desgaste oclusal e puderam observar, ao microscópio de varredura, que a perda de material poderia estar associada a uma fadiga termo-mecânica que originaria rachaduras quando dos esforços mastigatórios e das tensões entre a matriz orgânica e as partículas de carga devido à diferença do coeficiente de expansão térmica.
Por outro lado, CORADAZZI et alii2 (1979), mostraram que as restaurações com resina composta apresentavam um índice de infiltração marginal superior às de amálgama.
A partir de 1980, surgiram estudos procurando avaliar com mais precisão o problema do desgaste superficial. O’BRIEN & YEE9 examinando restaurações de classe II de resina composta ao microscópio de varredura, verificaram que as causas mais comuns do desgaste superficial são o desgaste da matriz orgânica, a perda de partículas de carga devido à falha de união com a matriz orgânica, a perda de partículas por cisalhamento e exposição de bolhas de ar inclusas durante a inserção do material na cavidade.
LEINFELDER et alii7, nesse mesmo ano, avaliaram restaurações após cinco anos de vida clínica e observaram que há um desgaste generalizado das resinas compostas, enquanto que, sob as mesmas condições clínicas, o desgaste do amálgama é restrito e localizado em algumas áreas. Já a integridade marginal é melhor nas resinas, pois com o desgaste oclusal, as margens da restauração ficam protegidas das forças oclusais, dando origem àquela concavidade característica das restaurações de resina composta após alguns anos de vida clínica.
BAILEY & RICE1 em 1981 avaliaram in vitro restaurações de amálgama e resina composta submetidas a uma força de contato. Puderam observar que quando submetidas a uma força baixa, a resina composta mostrava-se mais resistente ao desgaste, mas quando a força era ligeiramente mais alta, o amálgama mostrava-se claramente superior.
WILDER et alii17,18 em 1981 e 1984 compararam o comportamento de restaurações com resina composta foto e autopolimerizáveis em dentes posteriores e observaram que após dois e cinco anos, a porcentagem de restaurações de resina foto-polimerizáveis sem desgaste foi em torno de 88%, enquanto que a de restaurações autopolimerizáveis situou-se em torno de 45%.
HENDRIKS4 em 1985, discorrendo sobre restaurações com resina composta em dentes posteriores, observou que as melhores resinas compostas apresentavam somente 50% da produtividade dos melhores amálgamas. Ela concluiu após uma avaliação clínica de diversas resinas de dentes posteriores em cavidades de classe I e II por um período de dois anos, que as resinas compostas convencionais Adaptic e Profile não são adequadas para restaurações em dentes posteriores devido ao acentuado desgaste superficial e que a resina de micropartículas Estic MP preenche as exigências da A.D.A. para aprovação temporária para restaurações de classe I e II em pré-molares e molares. Concluiu, também, que não é só a resina que influi sobre o comportamento das restaurações, mas que o paciente, o tipo de dente e o tamanho da cavidade também são importantes e que portanto, a resina composta deveria ser somente indicada em pré-molares e mesmo assim só quando o amálgama for contra-indicado por razões estéticas.
Em 1985, SANTOS et alii14, em uma avaliação clínica de restaurações posteriores com resinas de carga mista ativadas fisicamente, observaram que após um ano ocorrem modificações de cor, da forma anatômica e descoloração marginal e que a presença de bisel em cavidades de classe II não influi significativamente no comportamento da resina.
LEINFELDER et alii8 em 1986 consideraram a viabilidade do emprego das resinas compostas em dentes posteriores comparando as propriedades e o comportamento clínico desse material com o amálgama, concluindo que apesar da estética vantajosa, a resina composta apresenta, quando comparada ao amálgama, as desvantagens de requerer uma técnica e um tempo de restauração maiores, de ser, na maioria das vezes, radiolúcida dificultando o diagnóstico radiográfico de reincidência de cárie, apresentar uma sensibilidade pós-operatória maior e ter uma longevidade menor.
 



CONSIDERAÇÕES CLÍNICAS

As resinas compostas apresentam uma série de problemas como baixa resistência ao desgaste, alteração de cor e sensibilidade pós-operatória mais acentuada do que outros materiais restauradores.
Um problema associado com a resina composta diz respeito a sua inserção em cavidades de classe II. Como elas não são condensadas dentro da cavidade, à semelhança do amálgama, deve-se dar atenção especial à adaptação da matriz, para que não ocorra contato proximal aberto. A deficiência do contato proximal nesses casos ocorre devido à dificuldade em se compensar a espessura da matriz. Uma maneira de evitar esse efeito é o uso adequado de cunhas interproximais e um pré-contorno e brunimento da matriz. Na inserção do material, deve-se dar atenção especial à parede gengival da caixa proximal para que não haja excesso, uma vez que eles são difíceis de serem removidos após a polimerização da resina. Outro fator importante é aguardar a completa polimerização do material antes de retirar a matriz, pois caso contrário, poderá ocorrer o seu deslocamento, interferindo na adaptação marginal da restauração.
Por outro lado, a presença de bolhas ou porosidades é muito prejudicial, constituindo um dos fatores responsáveis pelo desgaste superficial9, principalmente quando ocorre ao longo da parede cavitária, próximo à superfície da restauração. A reincidência de cáries pode ser facilmente atribuída a essa condição. A presença dessas bolhas ou porosidades é de difícil eliminação. No entanto, pode ser minimizada pela injeção lenta da resina composta dentro da cavidade, como é feito com os materiais de moldagem.
É atribuída à resina composta uma sensibilidade pós-operatória mais acentuada que a gerada por outros materiais restauradores. Essa sensibilidade pode manifestar-se logo após a colocação da restauração e persistir por um período variável de uma, duas semanas, até váriosmeses.
Embora as causas da sensibilidade pós-operatória não estejam claramente determinadas, ela pode ser atribuída a uma hiperemia pulpar temporária causada pelo monômero que demoraria a ser dissipado6. Também pode-se associar a sensibilidade com uma microinfiltração, quando não há uma adaptação adequada do material às paredes cavitárias. LEINFELDER et alii8, sugerem que além desses fatores, a sensibilidade pode estar associada à pressão originada pela contração de polimerização que provocaria o tracionamento das cúspides vestibular e lingual e a pressão seria transmitida através dos prolongamentos odontoblásticos.
A sensibilidade pós-operatória pode ser diminuída, mas não totalmente eliminada, realizando-se uma adequada proteção do complexo dentina-polpa com uma base de cimento de hidróxido de cálcio. Recentemente, EICK & WELCK3 relataram a possibilidade de diminuir essa sensibilidade com uma proteção, prévia ao condicionamento ácido, com uma fina camada de cimento ionoméico.
Segundo LEINFELDER6, a resina composta não deve ser recomendada para restaurações de classe II por várias razões. Em primeiro lugar elas permitem a mesialização do dente adjacente pela perda do contato proximal, como também, permitem a erupção dos dentes antagonistas devido ao desgaste. No entanto, ele considera que a resina composta pode ser indicada em restaurações conservativas de classe I em pré-molares, onde os esforços mastigatórios são mínimos.
 



CONCLUSÕES

O estágio em que se encontram as resinas compostas atualmente, não permite que elas sejam consideradas um material restaurador substituto para o amálgama em dentes posteriores.
As resinas de micropartículas e foto-polimerizáveis são as que melhor se comportam como restauradoras de dentes posteriores. Porém, não se comparam ao amálgama em propriedade, para que sejam preferidas nas restaurações de dentes posteriores.
Até o momento, as resinas compostas são consideradas materiais restauradores temporários, com vida clínica bem inferior ao amálgama, que por sua vez é considerado um material restaurador permanente. Mas, nada impede que sendo indicada com bastante critério, evitando aqueles casos em que os problemas associados com a resina manifestam-se com mais intensidade, é possível obter restaurações satisfatórias e com um período de vida útil mais prolongado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

01- BAILEY, W.F. & RICE, S.L. Comparative slinding-wear behavior of a dental amalgam and a composite restorative as a function of contact stress. J. dent. Res., 60(3):731-2, Mar. 1981.

02- CORADAZZI, J.L. et alii. Microinfiltração marginal em restaurações de classe II a amálgama e resina composta com e sem pinos, submetidas à ciclagem térmica. Ars Cvrandi Odontol., 5(11): 5-14, Feb. 1979.

03- EICK, J.D. & WELCH, F.H. Polymerization shrinkage of posterior composite resins and its possible influence on postoperative sensitivity. Quintessence Int., 17(2): 1103-11, Feb. 1986.

04- HENDRIKS, F.H.J. Posterior composite restorations. Grafisch Bedrijf Outhuis Bv-Velp, 1985.

05- KUSY, R.P. & LEINFELDER, K.F. Pattern of wear in posterior composite restorations. J. dent. Res., 56(5):544, May 1977.

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10- OSBORNE, J.W. et alii. One-year and two-year clinical evaluation of a composite resin X amalgam. J. prosth. Dent., 30(5):795, Nov. 1973.

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12- PHILLIPS, R.W. et alii. Observations on a composite resin for class II restorations: two-year report. J. prosth. Dent., 28:164-9, Aug. 1972.

13- PHILLIPS, R.W. et alii. Observations on a composite resin for class II restorations: three-year report. J. prosth. Dent., 30(6):891-7, Dec. 1973.

14- SANTOS, R.A. dos et alii. Avaliação clínica de restaurações de classe II com resinas compostas: efeito do bisel na adaptação marginal. Estomat. Cult., 15(3):1-6, Jul./Set. 1985.

15- SANTOS, J.F.F. & LEINFELDER, K.F. O estágio atual das resinas compostas. Rev. Ass. paul. Cirurg. Dent., 36(3):322-5, Maio/Jun. 1982.

16- WIBBLESMAN, G. A new resin system restorative designed for universal anterior and posterior applications: report of a clinical study. Dent. dig., 75:492-5, 1969.

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18- WILDER, A.D. et alii. Five-year clinical study of U.V. - polymerized composites in posterior teeth. J. dent. Res., 63:377, 1984 (Abstract 1497).