Unitermos: Resinas Compostas; Restauração Dentária Permanente.
Desde o advento das resinas compostas, o seu uso tem sido amplamente
difundido para restaurações de dentes anteriores, principalmente
após o desenvolvimento das resinas de micropartículas que
permitem um polimento satisfatório da superfície.
O mesmo entusiasmo que tomou conta dos profissionais em relação
ao seu uso em dentes anteriores, manifestou-se para aplicação
em dentes posteriores. No entanto, as primeiras resinas compostas lançadas
no mercado não apresentavam propriedades físicas e mecânicas
que garantissem o sucesso desse material em relação ao amálgama.
Embora as resinas compostas apresentem uma série de características
às do amálgama como resistência à compressão,
manifestam um desgaste superficial muito acentuado principalmente após
dois anos de vida clínica1,4,5,7,9,10,12,13.
Atualmente, muitos fabricantes têm concentrado os seus esforços
em desenvolver resinas compostas que pudessem ser usadas em restaurações
posteriores sem manifestar um desgaste oclusal muito acentuado.
Uma vez que o processo de desgaste ocorre sob a ação
das forças oclusais, ele manifesta-se mais acentuadamente nos molares
do que nos pré-molares, devido à diferença de incidência
dessas forças durante o ato mastigatório6.
Além do desgaste oclusal é preciso considerar a perda
da área de contato proximal em restaurações de classe
II devido à ação de abrasão.
Dentre as características desse material, as que têm sido
apontadas como responsáveis pelo seu desempenho clínico são
o método de polimerização, o tamanho e distribuição
das partículas de carga, a dureza dessas partículas e a sorpção
de água15.
As resinas foto-polimerizáveis comportam-se substancialmente
melhor que as auto-polimerizáveis, quando se leva em conta o desgaste
superficial17. Isso se deve à maior porosidade existente
nas foto-polimerizáveis, provavelmente por não requererem
a espatulação que permite por sua vez, a inclusão
de bolhas de ar e ao próprio método de polimerização
que só é iniciado após a acomodação
das porções do material na cavidade, podendo ainda, ser realizado
em etapas.
O tamanho e a dureza das partículas influem no processo de desgaste
superficial. Partículas menores e com menor dureza reduzem o potencial
de desgaste, pois quando sofrem o cisalhamento, deixam um espaço
vazio menor do que as de maior tamanho15.
Apesar dos aspectos negativos da resina composta, o seu uso em dentes
posteriores poderá ter um futuro, uma vez que pesquisas têm
sido realizadas para desenvolver uma resina que possa servir a esse fim.
Trabalhos como o de WIBBLESMAN16 realizado em 1969, época
em que estava se iniciando o uso das resinas compostas em dentes posteriores,
consideravam o sistema Adaptic satisfatório, tanto para restaurações
anteriores como posteriores em qualquer tipo de cavidade.
A essa conclusão muitos outros autores também chegaram,
todos analisando as restaurações por um período médio
de um ano. No entanto, essas afirmações não correspondem
à realidade quando as observações são realizadas
por um período mais prolongado. PHILLIPS et alii11,12,13
avaliaram restaurações de resina composta e amálgama
em cavidades de classe II por períodos de 1, 2 e 3 anos. Na primeira
avaliação observaram que houve um menor índice de
falhas marginais nas restaurações de resina quando comparadas
com as de amálgama, embora estas últimas apresentassem uma
melhor manutenção da forma anatômica. Nos anos seguintes
as observações foram basicamente as mesmas, salvo o registro
de um desgaste superficial mais acentuado das resinas compostas.
O mesmo pode ser observado no trabalho de OSBORNE et alii10
em 1973 comparando restaurações de resina composta e amálgama
com dois anos de vida clínica. Isso vem mostrar que nos períodos
iniciais de um a dois anos, as resinas compostas apresentam um comportamento
clínico bastante satisfatório, mas com o decorrer do tempo
há um acentuado desgaste oclusal.
Em 1977, KUSY & LEINFELDER5 procuraram explicações
para o desgaste oclusal e puderam observar, ao microscópio de varredura,
que a perda de material poderia estar associada a uma fadiga termo-mecânica
que originaria rachaduras quando dos esforços mastigatórios
e das tensões entre a matriz orgânica e as partículas
de carga devido à diferença do coeficiente de expansão
térmica.
Por outro lado, CORADAZZI et alii2 (1979), mostraram que
as restaurações com resina composta apresentavam um índice
de infiltração marginal superior às de amálgama.
A partir de 1980, surgiram estudos procurando avaliar com mais precisão
o problema do desgaste superficial. O’BRIEN & YEE9 examinando
restaurações de classe II de resina composta ao microscópio
de varredura, verificaram que as causas mais comuns do desgaste superficial
são o desgaste da matriz orgânica, a perda de partículas
de carga devido à falha de união com a matriz orgânica,
a perda de partículas por cisalhamento e exposição
de bolhas de ar inclusas durante a inserção do material na
cavidade.
LEINFELDER et alii7, nesse mesmo ano, avaliaram restaurações
após cinco anos de vida clínica e observaram que há
um desgaste generalizado das resinas compostas, enquanto que, sob as mesmas
condições clínicas, o desgaste do amálgama
é restrito e localizado em algumas áreas. Já a integridade
marginal é melhor nas resinas, pois com o desgaste oclusal, as margens
da restauração ficam protegidas das forças oclusais,
dando origem àquela concavidade característica das restaurações
de resina composta após alguns anos de vida clínica.
BAILEY & RICE1 em 1981 avaliaram in vitro restaurações
de amálgama e resina composta submetidas a uma força de contato.
Puderam observar que quando submetidas a uma força baixa, a resina
composta mostrava-se mais resistente ao desgaste, mas quando a força
era ligeiramente mais alta, o amálgama mostrava-se claramente superior.
WILDER et alii17,18 em 1981 e 1984 compararam o comportamento
de restaurações com resina composta foto e autopolimerizáveis
em dentes posteriores e observaram que após dois e cinco anos, a
porcentagem de restaurações de resina foto-polimerizáveis
sem desgaste foi em torno de 88%, enquanto que a de restaurações
autopolimerizáveis situou-se em torno de 45%.
HENDRIKS4 em 1985, discorrendo sobre restaurações
com resina composta em dentes posteriores, observou que as melhores resinas
compostas apresentavam somente 50% da produtividade dos melhores amálgamas.
Ela concluiu após uma avaliação clínica de
diversas resinas de dentes posteriores em cavidades de classe I e II por
um período de dois anos, que as resinas compostas convencionais
Adaptic e Profile não são adequadas para restaurações
em dentes posteriores devido ao acentuado desgaste superficial e que a
resina de micropartículas Estic MP preenche as exigências
da A.D.A. para aprovação temporária para restaurações
de classe I e II em pré-molares e molares. Concluiu, também,
que não é só a resina que influi sobre o comportamento
das restaurações, mas que o paciente, o tipo de dente e o
tamanho da cavidade também são importantes e que portanto,
a resina composta deveria ser somente indicada em pré-molares e
mesmo assim só quando o amálgama for contra-indicado por
razões estéticas.
Em 1985, SANTOS et alii14, em uma avaliação
clínica de restaurações posteriores com resinas de
carga mista ativadas fisicamente, observaram que após um ano ocorrem
modificações de cor, da forma anatômica e descoloração
marginal e que a presença de bisel em cavidades de classe II não
influi significativamente no comportamento da resina.
LEINFELDER et alii8 em 1986 consideraram a viabilidade do
emprego das resinas compostas em dentes posteriores comparando as propriedades
e o comportamento clínico desse material com o amálgama,
concluindo que apesar da estética vantajosa, a resina composta apresenta,
quando comparada ao amálgama, as desvantagens de requerer uma técnica
e um tempo de restauração maiores, de ser, na maioria das
vezes, radiolúcida dificultando o diagnóstico radiográfico
de reincidência de cárie, apresentar uma sensibilidade pós-operatória
maior e ter uma longevidade menor.
As resinas compostas apresentam uma série de problemas como baixa
resistência ao desgaste, alteração de cor e sensibilidade
pós-operatória mais acentuada do que outros materiais restauradores.
Um problema associado com a resina composta diz respeito a sua inserção
em cavidades de classe II. Como elas não são condensadas
dentro da cavidade, à semelhança do amálgama, deve-se
dar atenção especial à adaptação da
matriz, para que não ocorra contato proximal aberto. A deficiência
do contato proximal nesses casos ocorre devido à dificuldade em
se compensar a espessura da matriz. Uma maneira de evitar esse efeito é
o uso adequado de cunhas interproximais e um pré-contorno e brunimento
da matriz. Na inserção do material, deve-se dar atenção
especial à parede gengival da caixa proximal para que não
haja excesso, uma vez que eles são difíceis de serem removidos
após a polimerização da resina. Outro fator importante
é aguardar a completa polimerização do material antes
de retirar a matriz, pois caso contrário, poderá ocorrer
o seu deslocamento, interferindo na adaptação marginal da
restauração.
Por outro lado, a presença de bolhas ou porosidades é
muito prejudicial, constituindo um dos fatores responsáveis pelo
desgaste superficial9, principalmente quando ocorre ao longo
da parede cavitária, próximo à superfície da
restauração. A reincidência de cáries pode ser
facilmente atribuída a essa condição. A presença
dessas bolhas ou porosidades é de difícil eliminação.
No entanto, pode ser minimizada pela injeção lenta da resina
composta dentro da cavidade, como é feito com os materiais de moldagem.
É atribuída à resina composta uma sensibilidade
pós-operatória mais acentuada que a gerada por outros materiais
restauradores. Essa sensibilidade pode manifestar-se logo após a
colocação da restauração e persistir por um
período variável de uma, duas semanas, até váriosmeses.
Embora as causas da sensibilidade pós-operatória não
estejam claramente determinadas, ela pode ser atribuída a uma hiperemia
pulpar temporária causada pelo monômero que demoraria a ser
dissipado6. Também pode-se associar a sensibilidade com
uma microinfiltração, quando não há uma adaptação
adequada do material às paredes cavitárias. LEINFELDER et
alii8, sugerem que além desses fatores, a sensibilidade
pode estar associada à pressão originada pela contração
de polimerização que provocaria o tracionamento das cúspides
vestibular e lingual e a pressão seria transmitida através
dos prolongamentos odontoblásticos.
A sensibilidade pós-operatória pode ser diminuída,
mas não totalmente eliminada, realizando-se uma adequada proteção
do complexo dentina-polpa com uma base de cimento de hidróxido de
cálcio. Recentemente, EICK & WELCK3 relataram a possibilidade
de diminuir essa sensibilidade com uma proteção, prévia
ao condicionamento ácido, com uma fina camada de cimento ionoméico.
Segundo LEINFELDER6, a resina composta não deve ser
recomendada para restaurações de classe II por várias
razões. Em primeiro lugar elas permitem a mesialização
do dente adjacente pela perda do contato proximal, como também,
permitem a erupção dos dentes antagonistas devido ao desgaste.
No entanto, ele considera que a resina composta pode ser indicada em restaurações
conservativas de classe I em pré-molares, onde os esforços
mastigatórios são mínimos.
O estágio em que se encontram as resinas compostas atualmente,
não permite que elas sejam consideradas um material restaurador
substituto para o amálgama em dentes posteriores.
As resinas de micropartículas e foto-polimerizáveis são
as que melhor se comportam como restauradoras de dentes posteriores. Porém,
não se comparam ao amálgama em propriedade, para que sejam
preferidas nas restaurações de dentes posteriores.
Até o momento, as resinas compostas são consideradas
materiais restauradores temporários, com vida clínica bem
inferior ao amálgama, que por sua vez é considerado um material
restaurador permanente. Mas, nada impede que sendo indicada com bastante
critério, evitando aqueles casos em que os problemas associados
com a resina manifestam-se com mais intensidade, é possível
obter restaurações satisfatórias e com um período
de vida útil mais prolongado.
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