Key Words: glass ionomer cement, staining, esthetic restorations.
RESUMO:
A maioria dos estudos sobre alteração de cor de materiais
estéticos realiza uma avaliação qualitativa dos resultados,
sem especificar a quantidade de corante depositada na amostra. O propósito
desse estudo foi quantificar a alteração de cor dos cimentos
de ionômero de vidro Chelon-Fil e Vidrion R 15 minutos, 1 hora e
24 horas após o início da presa. Entre os materiais testados,
o Chelon-Fil apresentou os melhores resultados.
Unitermos: ionômero de vidro, alteração de
cor, restauração estética.
A preocupação com as propriedades estéticas dos materiais restauradores é uma realidade que se acentua a cada dia na clínica odontológica.
O compósito odontológico é o material restaurador direto de eleição quando há envolvimento estético, mas este material tem demonstrado uma tendência a alterar sua cor inicial. Esse fato tem sido comprovado em trabalhos "in vitro" (1, 2, 8, 9, 10) e "in vivo" (4, 15).
Hoje em dia, quando um enfoque maior está sendo dado à prevenção o cimento de ionômero de vidro, introduzido na Odontologia por WILSON & KENT (20), assume um papel de grande importância. Devido a sua propriedade de liberar íons flúor para o meio oral, inclusive em situações que simulam um alto desafio cariogênico (6), o cimento ionomérico deve ser particularmente indicado para paciente de alto risco de cárie. Considerando um material restaurador estético, há necessidade de se verificar a alteração de cor deste cimento devido aos conceitos atuais de estética e à pouca quantidade de estudos neste sentido (3, 14, 17).
O propósito deste estudo foi verificar a alteração
de cor de dois cimentos de ionômero de vidro, através de espectrofotometria,
quando submetidos à ação de um corante.
Para a realização dos ensaios foram selecionados os cimentos de ionômero de vidro restauradores Chelon-Fil (Espe), à base de ácido polimaleico, e Vidrion R (SSW), à base de ácido poliacrílico.
Os corpos de prova foram confeccionados através de anéis plásticos, com 4mm de diâmetro interno e 2mm de espessura. Esses anéis foram fixados sobre uma lâmina de vidro para microscopia, por meio de uma fita adesiva de dupla face (3M).
Depois da aglutinação, seguindo-se as recomendações dos fabricantes, cada material foi inserido nos anéis plásticos, com ponta LCCV para seringa Centrix (DFL), com 0,5mm de diâmetro. Sobre os anéis, uma segunda lâmina para microscopia foi posicionada e em cima deste conjunto foi colocada uma carga de 500g, durante 12 minutos. Manipulou-se uma porção suficiente para a confecção de 4 corpos de prova de cada vez.
Foram confeccionados 24 corpos de prova para cada cimento de ionômero de vidro, divididos em 3 grupos: o primeiro grupo foi corado 15 minutos após o início da espatulação; o segundo grupo, 1 hora e o terceiro, 24 horas após. Durante cada um dos períodos de presa, o cimento de ionômero de vidro ficou protegido da sinérese pelas lâminas de vidro para microscopia.
O método usado para quantificação a deposição superficial de corante foi adaptado de DOUGLAS e ZACARIASENNE, como descrito por RIGGSBY (16). Para serem corados, os conjuntos matriz/cimento foram imersos em azul de metileno a 2%, durante 3 minutos (14). Em seguida, os conjuntos foram lavados por 10 segundos, com água destilada, e secos com papel absorvente. Depois de permanecer por 1 hora à temperatura ambiente, os corpos de prova foram removidos dos anéis plásticos e triturados em gral e pistilo de vidro. O pó resultante da trituração foi colocado em tubo de ensaio contendo 3ml de ácido nítrico a 65%, onde permaneceu por 24 horas. Ao final desse período, os tubos de ensaio foram centrifugados por 3 minutos e o sobrenadante utilizado para leitura em espectrofotômetro (BECKMAN DU 65).
Antes de se realizar a leitura das amostras, fez-se uma curva de calibração com solução padrão de azul de metileno a 2%, em 3ml de ácido nítrico a 65%, com concentrações que variaram de 0 a 10m m/ml. Através desta curva, verificou-se que o pico de absorbância se dava a 593nm, logo esse comprimento de onda foi utilizado nas leituras.
Os resultados obtidos foram anotados e submetidos à análise de variância multifatorial, considerando-se delineamento inteiramente ao acaso.
O coeficiente de correlação (r) entre a concentração de corante e a densidade ótica das soluções padrão foi calculado e o valor de r encontrado foi de 0,99. Para estimar a concentração de corante nas amostras experimentais, uma regressão linear foi obtida e expressa na equação:
Y = 0,0087 + 0,09355x
onde y é a densidade ótica de corante e x é concentração.
Através dessa equação, a concentração de corante de cada amostra foi obtida e a média dos resultados de cada grupo foi calculada, sendo expressa em microgramas de corante por mililitro (m m/ml).
A análise de variância multifatorial encontrou F = 20,68, significante ao nível de 5%. Para as comparações individuais, aplicou-se o teste Tukey-Kramer.
A tabela I apresenta as médias, o desvio padrão (DP) e as diferenças estatisticamente significantes.
O resultado do teste de Tukey-Kramer demonstrou que Chelon-Fil exibiu uma deposição superficial de corante significativamente menor que o Vidrion R. Além disso, Chelon-Fil apresentou diferença estatística significativa entre os períodos de tempo, não ocorrendo o mesmo para Vidrion R, que não apresentou diferença significativa entre os períodos de tempo de 1 hora e 24 horas.
Tabela I: Médias das concentrações de corante
em amostra e cimento de ionômero de vidro.
| GRUPO m g corante/ml | MÉDIA (D.P.) |
| Chelon-Fil 24h
Chelon-Fil 1h Chelon-Fil 15min Vidrion R 1h Vidrion R 24h Vidrion R 15min |
0,49 (0,21)
0,86 (034) 1,79 (045) 4,90 (1,35) (3,17) 5,08 8,72 (2,93) |
Entre os fatores que determinam a durabilidade de um material restaurador
estético está sua capacidade de manter a cor original quando
em função na cavidade oral.
Os compósitos odontológicos atuais possuem grandes recursos
estéticos, mas esses materiais tendem a alterar a sua cor inicial,
através da pigmentação de corantes existentes nos
diversos alimentos ingeridos, como podemos constatar através de
estudos clínicos (4, 15). Como conseqüência, a vida útil
do material é comprometida.
Assim como os compósitos, o cimento de ionômero de vidro
quando empregado como material restaurador também deve manter suas
propriedades estéticas inalteradas.
A grande maioria dos trabalhos "in vitro" que analisam a alteração
de cor dos materiais restauradores estéticos o fazem de maneira
qualitativa (1, 2, 8, 9, 10, 17), isto é, de forma subjetiva. Entretanto,
a análise espectrofotométrica parece ser um método
mais real, uma vez que através dessa análise obtemos a quantidade
exata de corante presente no material (14). Assim teremos "in vitro" uma
noção mais exata das características estéticas
do material a ser testado, além da possibilidade do uso de testes
estatísticos mais potentes.
Quando se utiliza esta metodologia, devem-se realizar as leituras das
amostras no prazo de 24 horas, pelo fato de ocorrer uma reação
química secundária entre o corante e o ácido nítrico,
levando a uma alteração de cor da solução após
este período.
De acordo com os resultados deste trabalho, o cimento ionomérico
Chelon-Fil, formulado a base de ácido polimaleico, apresentou menor
alteração de cor que Vidrion R, à base de ácido
poliacrílico. Esses achados estão de acordo com os de ROSEN
et alii (17), que relatam que este fato ocorreria devido à maior
solubilidade de ácido polimaleico (19). Entretanto, em nosso estudo
as amostras permaneceram por apenas 3 minutos no corante, período
insuficiente para que ocorresse uma dissolução significante
que influenciasse a alteração de cor do cimento. A diferença
observada entre esses cimentos pode ser explicada através da reação
de presa. Segundo WILSON e McLEAN (21), o ácido polimaleico contém
duas vezes mais grupos carboxílicos que o ácido poliacrílico.
Assim, é esperado que seja mais reativo. O fato acima citado é
enfatizado por LINGARD et alii (5), que diz que a reatividade superficial
depende especificamente do material e que a alteração de
cor pode ser resultante do grau de união química entre suas
moléculas, e não de mera deposição superficial
do corante.
Nossos resultados sugerem que, clinicamente, o cimento Chelon-Fil tende
a apresentar menor variação de cor quando submetido aos diversos
corantes ingeridos, tais como chá, café etc., o que resultaria
em melhores propriedades estéticas.
Uma vez que todo o cimento ionomérico deve ser protegido de
sinérese ou embebição (11), o mesmo protetor poderia
ser também utilizado para prevenir a alteração de
cor nas primeiras 24 horas (18), já que nossos resultados indicam
que após esse período a alteração de cor não
é significativa. Embora MOUNT e MAKINSON (12) preconizem um período
de 1 hora de proteção superficial para se obter ótimos
resultados estéticos, nosso estudo apresentou diferença significativa
para o cimento Chelon-Fil entre os 3 períodos de tempo. Considerando
que a presa do cimento se conclui em 24 horas (21), seria ideal que o protetor
permanecesse por este período, ao menos para esse cimento, uma vez
que o Vidrion R não apresentou diferença estatística
significativa entre os períodos de presa de 1 hora e 24 horas.
De acordo com WILSON e McLEAN (21), a resistência à alteração
de cor depende da obtenção de um bom acabamento superficial.
Considerando que o acabamento superficial. Considerando que o acabamento
do cimento de ionômero de vidro deve ser realizado 24 horas após
o início de sua presa (11), indica-se a utilização
de um protetor eficiente, que permaneça em contato com o ionômero
de vidro pelo maior tempo possível. Caso seja realizado um correto
acabamento superficial, pode-se esperar bons resultados estéticos
deste material, uma vez que em trabalhos clínicos (7, 13) esse fato
vem sendo comprovado.
1- A avaliação quantitativa, através de espectrofotometria, demonstrou ser um método efetivo para avaliar a alteração de cor do cimento de ionômero de vidro.
2- Dentre os materiais testados, o cimento de ionômero de vidro Chelon-Fil apresentou os melhores resultados, nos três períodos de presa estudados.
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