Recensão Crítica

Hispania

82 4 12 (1999): 786-787.


© 1999 Joseph Abraham Levi


Vives, Vera de. Descobertos e Extravios. História de Maria I e Mão de Luva. Rio de Janeiro: Editora Record, 1997. ISBN: 85-01-04603-5. 416 pp.

Obra precedida por Niterói de Badezir. Crônicas, (1970), um disco — o Folclore fluminense —, O homem fluminense, (1977), e três livros infantis, Descobertos e Extravios, seu primeiro romance, mostra o interesse da autora no folclore e, mormente, no ser humano, onde ficção e pura fantasia se unem, aliás feliz e talentosamente, a factos e eventos históricos a irmanar um país e a sua colónia, essa última à beira da independência, (1822; 1889). A narração começa in media res. Estamos perante as consequências da Conspiração dos Távoras, (3/9/1758), e o resultante atentado contra el-rei Dom José I, (1714-1777), a regressar dum encontro amoroso com Dona Teresa Távora; porém, mais do que um crime passional, o atentado parece ser um ataque ao despotismo do Marquês de Pombal, (1699-1782). Em 1759, um julgamento sumário incriminou nobres, Jesuítas e plebeus. Protagonista principal é Manuel Henriques, Marquês de Santo Tirso, alcunhado Mão de Luva, o qual, mesmo não querendo, atentou ao rei. Acusado de lesa-majestade o réu com certeza era destinado à morte. Porém, dada a forte atracção entre o jovem e a futura Dona Maria I, (1734-1816), a sua pena foi transmudada ao confino perpétuo in terra brasiliensis. Contudo, o preço a pagar era alto, não só a distância do seu amado Manuel, mas também — forçado-lhe pelo Marquês de Pombal —, o casamento, em 1760, com o seu tio, o príncipe Dom Pedro III, (1717-1786). No último adeus dos dois nunca-amantes Maria beijou-lhe a mão direita, daí a resolução da luva. Em 1777, por morte de Dom José I, (1714-1777), Dona Maria subiu ao trono. No entanto, desterrado no Brasil, Manuel Henriques conseguiu construir-se uma nova vida, onde respeito e fidelidade eram a base da sua comunidade bandoleira, constituída por um povo muito heterogéneo, uma "irmandade sem hierarquias [...] de peles acobreadas, negras ou brancas." (241). Entrelaçadas na narração encontramos inúmeras referências à situação político-histórica do período: o contrabando de ouro e pedras preciosas; a dependência económica luso-brasileira da Inglaterra; os ideais de liberdade — desde os modelos norte-americano e, em particular, brasileiro, nomeadamente a Inconfidência Mineira e Tirandentes, (1789), à revolução francesa, (1789-1798); a incipiente Maçonaria; as intrigas de Corte; a invasão napoleónica, (1807), e, por fim, a Coroa a ser trasladada além-mar, (1808). Aparecem alusões à escravidão, à invevitável mestiçagem das raças, aos quilombos, às várias Irmandades afro-brasileiras e, por fim, à quotidiana humilhação das pessoas de cor, as quais tinham como seu único escape a religião, obviamente em forma sincrética. Numa terra rica e promissora como o Brasil, era normal que muitos quisessem enriquecer, dando-se ao garimpo e a acções pouco lícitas. Além dos foragidos encontramos aqueles que foram lá de livre vontade, em busca de rápida fortuna. O desejo de Mão de Luva era reconquistar nome e prosperidade. Uma vez rico, sabia que o dinheiro o podia reabilitar aos olhos da sociedade e, mormente, da sua amada Maria. Todavia, com o passar dos anos Mão de Luva não queria voltar mais a Portugal, julgando que a sua Maria se tivesse esquecido dele. Na verdade, em 1781, a rainha ordenou a revisão do processo e o Manuel foi chamado de volta ao Reino, porém as expedições à sua procura resultaram negativas. A rainha nunca deixou de amá-lo. Aos poucos observamos os primeiros sinais da sua loucura: o facto de escutar vozes, os sempre crescentes pesadelos, a obsessão pelo seu adultério — se não in carne, pelo menos in pectore —, as alucinações e as muitas visões de demónios. Em 1785, durante a administração do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, (1779-1790), mineiros e cariocas juntaram-se para combater a banda de contrabandistas chefiada por Mão de Luva o qual, para evitar inúteis estragos de vida, se entregou às autoridades. Aprisionado, revelou, sem ser acreditado, a sua origem nobre. Finalmente, o ouro foi confiscado e três acampamentos foram destruídos. Porém mais de trinta membros conseguiram fugir. Infelizmente o Marquês de Santo Tirso, oficialmente considerado demente, morreu a bordo da Maria da Glória, um galeão negreiro que o transbordava à África ao degredo. Com as notícias da derrota de Napoleão e do seu desterro, (1815), lemos que, à Maria I, "em madrugada clara de outono," veio-lhe a morte. (409) Ironia da sorte, ambos os amantes morreram com a fama de loucura. Num estilo claro e numa prosa lúcida e cativante, o cálamo de Vera de Vives consegue oferecer-nos um quadro das duas sociedades atlânticas e, em particular, dá-nos uma excelente exposição da psique de Maria I e de Mão de Luva. O verdadeiro sucesso da autora é, portanto, a não fácil reprodução da crescente agonia da rainha e a descrição do lado mais recôndito do bandoleiro Manuel, ou seja, a sua sincera humanidade. Historicamente bem pesquisado, Descobertos e Extravios é, enfim, um óptimo e indispensável instrumento para as nossas aulas de cultura e civilização luso-brasileira.

Joseph Abraham Levi
University of Iowa

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