© 2000 Joseph Abraham Levi
Souza, Márcio. Lealdade. Romance. Livro I da Tetralogia "Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro." São Paulo: Marco Zero, 1997. ISBN: 85-279-0294. 226 pp.
Escritor prolífico, Márcio Souza vem-nos aqui com o primeiro de quatro romances concentrados em alguns aspectos da história da antiga capitania do Maranhão e Grão-Pará, (1621-1751), a qual passou a ser a do Grão-Pará e Maranhão, (1751-1775), para depois as duas regiões separar-se definitivamente. As três secções do romance colocam os acontecimentos entre o período colonial, (1500-1822), e o começo do I Império, (1822-1831), nomeadamente: 1783-1810, 1810-1821 e 1823. O narrador, Fernando Simões Correia, é um fugitivo. Aos poucos a narração retrocede até aos eventos que o levaram a tal situação. A ficção enreda-se, muito habilmente, nos acontecimentos que precederam os movimentos liberais do Porto, (1821). Os paraenses, devido aos seus sentimentos nacionalistas e aos sempre crescentes ideais anti-lusitanos, decidiram encostar-se aos seus "compatriotas" metropolitanos e extinguir o poder absoluto do rei. Fernando finalmente chega a Oriximiná, amparado pelo doutor Belarmino Bentes, parente do pai. A história retrocede ao 1770 quando Fernando foi estudar em Coimbra, seguindo inicialmente a carreira eclesiástica porém, entusiasmado com as reformas pombalinas, (1750-1777), passou a cursar leis, filosofia natural e matemática. Em 1807 Fernando estava a terminar os seus estudos de engenharia militar. As tropas napoleónicas estavam prestes a chegar. O 29 de Novembro a família real partiu para o vice-Reino do Brasil. Em Lisboa, o 6º marquês de Fronteira — D. João José Luís Mascarenhas Barreto — encarregou-o duma missão: voltar ao Grão-Pará e comandar um grupo de milicianos favoráveis à causa nacional. O 10 de Junho de 1808 o príncipe regente D. João — futuro D. João VI (1816-1826) — declarou guerra à França e o governador do Grão-Pará percebeu que era hora de contra atacar os Franceses. Com seiscentos homens, voluntários e mercenários, Fernando participa na invasão da Guiana Francesa. Caiena, defendida por dois mil homens — europeus, escravos e libertos — resistiu por duas semanas, rendendo-se no dia 12 de Fevereiro de 1809. Na capital guianesa Fernando encontrou Jean-Pierre, artista amigo do cónego Batista Campos, de Belém, e Simone, filha do médico particular do comissário imperial da Guiana. Fernando apaixonou-se dela imediatamente. Com o tempo a paixão foi mútua porém nunca completamente correspondida. Afinal, Simone regressará à França com Jean-Pierre. Em Caiena Fernando aprendeu os ideais de liberdade, lendo sobre "a monstruosidade das desigualdades" humanas e, mormente, percebeu que o "bárbaro absolutismo português não admitia a nossa [entenda-se, brasileira] existência plena." (104) O 28 de Outubro de 1810 Fernando recebeu ordens de escoltar os prisioneiros até Belé onde foram recebidos com festa. Seguiu-o Simone a qual foi morar com a mãe enquanto o pai continuava a ficar detido nas mãos coloniais. Simone e o cónego, um iluminista, cultor da razão — forjado sobre a personagem histórica do arcebispo da Bahia, Romualdo António de Seixas, conde e marquês de Santa Cruz, (1787-1860), favorável à independência do Brasil —, serão os dois eixos na vida do Fernando. O 5 de Abril de 1817 houve a insurreição pela independência do Grão-Pará, envento premonitório de maiores insatisfações. Houve oito mortos e mais de vinte feridos. Ao mesmo tempo chegou a notícia que, no Recife, por volta do 16 de Março, "o primeiro governo inteiramente brasileiro [estava] no poder em três províncias do nordeste." (121) Obviamente os revolucionários escolheram um sistema de governo republicano. O espírito revolucionário nos países limítrofes do Grão-Pará causou preocupações aos Portugueses, deixando-os inquietos. Temia-se que as "mortíferas ideias de Caiena" pudessem induzir pessoas a conspirar "solertes ambições" em Belém. Natal de 1821: o grupo intelectual de Belém queria enviar representantes a Portugal para apoiar o movimento e, ao mesmo tempo, queria que homens de negócios locais também os apoiassem. Desejava-se que a pluralidade dos cidadãos do Pará quisesse a união com Portugal para gozar de uma constituição, para "melhorar as condições políticas e morais da nação portuguesa." (165) O 1 de Janeiro de 1821, o povo do Pará proclamou a constituição portuguesa, convocando a eleição para uma junta constitucional. Belém foi tomada por uma imensa euforia. Infelizmente, os comissários do Grão-Pará na metrópole não foram acolhidos favoravelmente. De facto, queria-se "a volta imediata do rei e dar início a um processo de recolonização." (167) Os Grão-Paraenses trouxeram de Portugal uma tipografia. Foi o começo da independência. Lutava-se para que o Grão-Pará e o Rio Negro não fossem nem um pedaço do império do Brasil nem um Canadá lusitano. O dilema era aderir ou continuar a fazer parte duma monarquia e não uma república! Afinal, uma expedição enviada por D. Pedro IV de Portugal e I Imperador do Brasil, (1821-1831), e comandada pelo capitão João Pascoe Grenfell, (1800-1869), chegou à Bahia em Agosto de 1823, derrotando os dissidentes, forçando-os a apoiarem o Imperador do Brasil. Brilhantemente escrito e historicamente bem fundado, este romanec oferece-nos um olhar particular no "instante em que um país entrou em agonia e morreu," (182) no nosso caso, o Grão-Pará/Rio Negro, para o Brasil nascer.
Joseph Abraham Levi
University of Iowa
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