© 2000 Joseph Abraham Levi
Dantas, Francisco José Costa. Cartilha do Silêncio. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. ISBN: 85-7164-634-1. 345 pp.
Com a Cortilha do Silêncio Dantas continua aquilo começado nos seus dois romances precedentes, Coivara da memória e Os desvalidos, ou seja, a exploração do ambiente em forma de metáfora: a do espaço físico-geográfico como chão regional, tipicamente nordestino, e a do terreno literário brasileiro em senso lato, onde a voz popular local se mistura à experta mão narrativa do escritor. O romance divide-se em cinco partes — Dona Senhora, Arcanja, Remígio, Mané Piaba e Cassiano Barroso —, postas em ordem cronológica crescente, levando-nos por um espaço de cinquenta e nove anos: 1915, 1951, 1955, 1964 e 1974. Estamos em Vila Nova a Penedo, Sergipe. Primeira protagonista é dona Senhora, Rosário, filha de Rodrigo Ordoñez de Almeria, casada há quinze anos com Romeu Barroso, homem introvertido e com pouca paixão. Inúmeros são os casos a demonstrar o seu desinteresse de dona Senhora, resultados de outras tantas tentativas de despertar um certo interesse nela. Daí o seu desconsolo e as suas humilhações. Cassiano, filho único, era o seu "rival," a roubar-lhe o amor do marido. Aos poucos, através de angústias e silêncios penosos, experimentamos esse sentido de abandono, solidão, a invadir os personagens assim como o ambiente ao seu redor. No meio de tudo isto, há uma viagem, longa e incómoda, para Palmeira dos Índios, Alagoas, onde moram os pais de Senhora. Os anos passam: encontramos Arcanja, sobrinha de Senhora por parte do marido, casada com Cassiano e com um filho, Remígio, a morarem em Aracaju. Arcanja, a morrer de tuberculose, teme pelo futuro de Remígio e Cassiano e que, à sua morte, Remígio cresça com o pai. Arcanja relembra a história: em 1915 Romeu foi à Palmeira dos Índios com tia Senhora, a qual a preferia entre todos os parentes do marido. Os pais de Cassiano morreram de peste bubónica que apanharam em Palmeira dos Índios. Após a morte do Romeu, Arcanja foi viver com dona Senhora. Belisário, irmão do Romeu, ajudou dona Senhora, porém o preço a pagar foi alto: a sua virtude. Foi o começo da sua loucura. Senhora, em camisa-de-força, finalmente foi enviada a um hospício no Recife. Cassiano, órfão desde os catorze anos de idade, foi mandado para o Rio de Janeiro a viver com o tio Leôncio, onde passou pouco mais de doze anos. Belisário, procurador a nome de Cassiano, gastava mais do que ganhava e perdeu quase tudo. Cassiano voltou do Rio em 1928, não acostumado ao ambiente e sem uma qualificação. Depois de quatro anos Cassiano perdeu mais propriedade. Arcanja interveio. De menina, foi ofendida pelo primo Porfírio. Desde então, odiava os homens e fizera planos de nunca se casar. Porém, vista a condição do Cassiano, quis ajudá-lo e ofereceu-se-lhe em casamento, renunciando, assim, "às cadeiras de professora." (179). Com o nascimento do filho, Remígio, as coisas melhoraram e Cassiano ficou mais responsável. A narração vira de rumo para o casal proletário Avelina/Mané Piaba, juntos na velhice, onde a extrema pobreza contribui às brigas e aos sentimentos de insatisfação. Dantas oferece-nos aqui um excelente retracto da vida popular, de pessoas que nunca possuíram nada. A "insubordinação" intelectual exprime-se grandemente nos ideais de liberdade e igualdade de Mané Piaba: "Só peço ao Pai Eterno que o comunismo revenha [...] entregue terra à pobreza [...] há de ter corregimento!" (267). O romance termina com Cassiano Barroso, a parte mais interessante da narração, quer pela sua introspecção quer pela mansagem humana, ambas ímpares. Viúvo há mais de vinte anos, Cassiano escreve as próprias memórias, para "repor a legítima verdade." (282). A única solução é escrever, livrar-se, com o potente cálamo, de todas as barreiras — palavras, acções e memória lábil do momento; em outras palavras: scripta manent. O ressentimento do Cassiano era de não ter tido a oportunidade de dizer a sua história, as suas razões para os "imbroglios" nos quais se metia. Arrependido por nunca ter dito ao filho que o amara, Cassiano oferece-lhe a propriedade. Depois de alguns dias, porém, a frieza do Remígio voltou. A culpa, aos olhos do pai, é da sociedade. O estilo de Dantas ajusta-se lindamente à situação e às personagens: do português padrão ao regionalismo com coloquialismos mais típicos, que nos fazem lembrar de Guimarães Rosa e Faulkner, a reflectir paisagem e linguagem dum povo sem voz, imperceptível se não nos identificarmos no contexto etno-sociológico. Apesar de algumas partes serem sexualmente explícitas e por isso não aconselháveis para uma leitura integral do romance, porções dele podem ser seleccionadas para ser examinadas em aulas de composição — graças à pletora de vocábulos e expressões locais — assim como de literatura brasileira. A cartilha é um livro para "aprender a ler," no nosso caso, no acto de ser composto, onde aqueles que o escrevem, quer com a pena quer nos longos pensamentos de uma vida a escorrer, "aprendem a viver" no silêncio do passado.
Joseph Abraham Levi
University of Iowa
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