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Pol�tica & Trabalho 16 - Setembro / 2000 - pp. 151-170


O RURAL E O URBANO:
CONSIDERA��ES TE�RICAS E IMPLICA��ES
NO UNIVERSO DOS GRUPOS DE COCO-DE-RODA

Henrique J. P. Sampaio (1)





Considera��es te�ricas sobre o limite do rural e do urbano

A cidade e seus respectivos fen�menos sociol�gicos foram alvo de preocupa��es de pensadores de primeira categoria como Georg Simmel, Karl Marx, Friedrich Engels e Max Weber, que tiveram forte influ�ncia na sociologia. Como o pensamento de Simmel foi, de certa forma, incorporado por Weber, trataremos a seguir de uma breve compara��o entre Marx / Engels e Weber na abordagem deste tema. �

Tanto para Weber quanto para Marx a cidade aparece como sendo o lugar do mercado. Entretanto, Weber, em seu ensaio �Conceito e categorias de cidades� (Velho, 1979), ao estudar a g�nese das cidades, coloca que a principal caracter�stica delas foi chegar a um n�vel muito elevado de autonomia pela constitui��o de um mercado (de bens, de capitais e de m�o-de-obra), de um ex�rcito, de tribunais, etc. Nesse sentido, as cidades foram pr�-condi��es para o surgimento do capitalismo, embora esse sistema intensificasse, em um momento diferenciado do tempo e do espa�o, o seu crescimento (Oliven, 1982: 15). A base da argumenta��o de Weber est� centrada em dois fatores: primeiro, em um estudo hist�rico da forma��o do capitalismo ocidental constitu�do de forma completamente diversa e nunca antes encontrado em parte alguma do mundo, pois estava fundado numa organiza��o racional assentada no trabalho livre; segundo, num racionalismo espec�fico racionalismo esse �determinado pela capacidade e disposi��o dos homens em adotar certos tipos de conduta racional� (Weber, 1992: 11) que teve como base uma �tica protestante, a qual valorizou o trabalho e criou as condi��es sociais necess�rias para a forma��o e expans�o da mentalidade econ�mica. Esta forma de abordagem que enfatiza a mentalidade e a��o racionais dos indiv�duos � eminentemente culturalista. �

Marx, embora tendo utilizado tamb�m um m�todo de estudo de cunho hist�rico, chegou a conclus�es bem diferentes. A sua �nfase repousa no surgimento da propriedade privada e na divis�o social do trabalho. A amplia��o das rela��es comerciais, a separa��o dos produtores dos bens de produ��o e a subseq�ente mercantiliza��o das rela��es, das pessoas e das coisas refletem um predom�nio do econ�mico e do pol�tico nas �rela��es entre pessoas, grupos e classes sociais� (Ianni, 1984: 07). Toda a argumenta��o de Marx est� fundada nas rela��es concretas que os homens mant�m entre si para a produ��o da vida material. Embora nessa abordagem estejam englobados valores, id�ias e concep��es de vida, tais elementos s�o determinados pela produ��o material. Portanto, h� duas formas totalmente diferentes de explicar o mesmo processo, o capitalismo. Enquanto para Weber o fundamental � um determinado esp�rito [fim da p�gina 151] capitalista formado em condi��es hist�ricas espec�ficas, para Marx as rela��es de produ��o formadas no curso da hist�ria ocidental � que s�o essenciais para a compreens�o e transforma��o desse sistema.�

No processo hist�rico do Ocidente a cidade, segundo Marx, proporcionou a libera��o do trabalhador dos v�nculos jur�dicos do feudalismo e a aparente liberdade que passou a vigorar na cidade, aliada ao parcelamento do trabalho, constitu�ram a base da aliena��o do homem. A necessidade de administra��o da cidade faz surgir, pela primeira vez na hist�ria, a divis�o em duas grandes classes, produto da divis�o do trabalho e do dom�nio sobre os bens de produ��o. (Marx & Engels, 1996: 78).�

N�o obstante a diferen�a teorico-metodol�gica dos dois pensadores, podemos apreender que em rela��o � cidade h� uma concord�ncia no sentido delas serem o lugar de fen�menos sociais caracter�sticos. A diferen�a est� em que, para Weber, a �nfase recai sobre a autonomia da cidade, pelos aspectos que mais a caracterizam, como a fortaleza, o mercado, o car�ter de associa��o e, para Marx, esses fatores somados � forma produtiva que nela se desenvolve fazem surgir e crescer a divis�o social do trabalho e d�o origem � forma��o de classes antag�nicas como resultado dessa nova base social, assentada nesse novo modelo de produ��o. A cidade com as caracter�sticas aqui apresentadas representa a consagra��o de um �modelo� social exclusivo ao Ocidente, pois que, segundo Weber, cidades existiram em diferentes �pocas e em diferentes lugares, mas s� no Ocidente elas alcan�aram esse estado de racionaliza��o t�o associado ao ethos capitalista ocidental (Weber, 1992: passim). Do mesmo modo, para Marx, o processo hist�rico que inicia o capitalismo somente pode ser visto no Ocidente.�

O argumento de Weber sobre a autonomia das cidades, bem como o de Simmel sobre o car�ter blas� existente no meio urbano, somados �s id�ias de Durkheim sobre a excessiva divis�o do trabalho que levava � anomia social influenciaram bastante a sociologia americana. Esta sociologia, que teve na Escola de Chicago a sua principal manifesta��o e entre os seus expoentes mais importantes Robert Ezra Park e Louis Wirth, encarou a cidade como sendo o locus de fen�menos sociais dela exclusivos, independente de quaisquer influ�ncias externas, desembocando numa teoria fundada apenas numa an�lise conjuntural. �

Para Oliven (1982: 24), a teoria de Wirth associa-se � teoria de continuum folk-urbano, desenvolvida pelo antrop�logo americano Robert Redfield e se encaixaria no modelo das teorias de contraste, tais como as de Durkheim (solidariedade mec�nica x org�nica) e de Weber (tradicional x racional). A principal cr�tica dirigida a esta teoria diz respeito ao pr�prio modo idealista que ela caracterizou a sociedade folk nas palavras de Redfield (apud Oliven, 1982: 24) �pequena, isolada, analfabeta e homog�nea� e a sociedade urbana - heterog�nea, complexa e com especializa��o exacerbada, tendendo assim para a patologia social. Entre esses dois extremos existiria um grande n�mero de grada��es com tra�os mais acentuados de um ou de outro conforme a proximidade dos p�los. De fato, ela n�o resistiu �s cr�ticas de Lewis em estudo desenvolvido na mesma regi�o que a originou, provando que a urbaniza��o n�o se processa de uma �nica forma, porque responde �s condi��es hist�ricas, [fim da p�gina 152] sociais e culturais em que est� inserida (1982:27). �

No outro lado da quest�o, o da pesquisa rural americana, Maria Isaura Pereira de Queiroz (1978: 51) apontou que ela tamb�m n�o fugiu muito ao modelo em quest�o, ou seja, incorreu no mesmo erro de se ater a uma an�lise a-hist�rica e concebida de forma t�o independente que a sociedade rural poderia ser pin�ada e apreendida em si mesma. Quer dizer, n�o h� um entendimento de que o conjunto das partes de uma sociedade � um importante elemento influenciador desta.�

Uma outra teoria, a da moderniza��o, muito popular entre os cientistas sociais americanos, pode ser enquadrada entre as teorias de contraste ou dualistas. Esta teoria est� voltada para a an�lise da mudan�a social, seja no �mbito da sociedade, seja na do indiv�duo, a partir de uma �nfase em fatores culturais e psicossociais. Dizendo de uma outra forma, a mudan�a no comportamento econ�mico e social seria decorrente desses fatores culturais e psicossociais. O ponto chave dessa teoria est� na forma como � operada a oposi��o entre os seus dois conceitos b�sicos: tradicional x moderno. Eles estariam dispostos em dois extremos de um continuum (Oliven, 1982: 32). As sociedades, os indiv�duos e os comportamentos de pessoas, grupos e classes seriam caracterizados de uma forma ou de outra, dependendo da aproxima��o de um dos dois p�los. Dessa forma, uma sociedade seria atrasada ou adiantada a depender do grau de moderniza��o ou tradicionalismo das atitudes, valores e comportamentos dos membros dessa sociedade. Para ficar mais claro o que isso significa, tomemos como exemplo o conceito de moderno nessa acep��o. O moderno, para os te�ricos da moderniza��o, caracterizado ao n�vel da sociedade, baseia-se nos pressupostos da urbaniza��o, de elevados n�veis educacionais, da industrializa��o, da mecaniza��o extensiva, etc. (Smith & Inkeles, apud Oliven, 1982: 31). Ao n�vel do indiv�duo, baseia-se na exist�ncia de um conjunto de atitudes e valores, modos de sentir e agir requeridos pela sociedade moderna. Por dedu��o, o tradicional, seja ao n�vel da sociedade ou do indiv�duo, representa exatamente o oposto. Com rela��o a essa teoria, Maria Isaura Pereira de Queiroz assim se posicionou:

�(...) a perspectiva adotada foi em geral a de considerar que se tratava de duas sociedades bastante d�spares, que podiam se interinfluenciar, por�m que constitu�am duas �coisas� de ess�ncia diversa, que n�o se misturavam. Ou ent�o, quando se misturavam, os elementos citadinos constitu�am �inova��es� no meio rural. Tinham-se sempre em mente o �atraso� da sociedade rural em rela��o � sociedade urbana, e este atraso era interpretado como um indicador seguro da diferen�a essencial existente entre ambas.� (1978: 265)

Tal abordagem permite que se comparem, nesses termos, o meio rural e o meio urbano, regi�es, pa�ses e continentes. Para tanto basta eleger os modelos t�picos ideais dos dois extremos. Em geral, o par�metro de sociedade moderna utilizada � a sociedade americana, considerada como o ponto m�ximo do continuum. � curioso notar os pontos de contato e de distanciamento dessa teoria com a desenvolvida pelos estudiosos da Escola de Chicago. Ambas as teorias est�o preocupadas com a explica��o das mudan�as sociais e com o [fim da p�gina 153] surgimento de novos comportamentos sociais nas sociedades urbano-industriais, por�m partem de problemas diferentes e chegam a conclus�es tamb�m diferentes. Os estudiosos desta Escola dedicaram-se a explicar o comportamento desviante nas grandes cidades industrializadas e chegam � conclus�o de que esse modelo de desenvolvimento levaria a um enfraquecimento das rela��es entre os indiv�duos, com um predom�nio de rela��es impessoais, promovendo um estado de anomia social. J� os te�ricos da moderniza��o, dedicando-se a uma explica��o do desenvolvimento econ�mico-social, apresentam um ponto de vista extremamente otimista com rela��o ao avan�o da sociedade urbano-industrial. Tal otimismo se d� pela forma positiva com que � encarada uma tend�ncia sist�mica de homogeneiza��o que trataria de igualar pessoas, grupos, classes e sociedades. Desta forma, Maria Isaura Pereira de Queiroz disse que:

�tanto a urbaniza��o do meio rural, quanto os processos de coloniza��o e de desenvolvimento, formariam um conjunto orientado para a homogeniza��o (sic) cada vez maior de todas as sociedades humanas ocidentais, convergindo para uma forma social semelhante. Na base dessa forma social semelhante, e como fator determinante, estariam o avan�o tecnol�gico cada vez maior, associado a rela��es de produ��o que tenderiam a ser id�nticas em todos os pa�ses capitalistas.� (1978: 266)

Esta teoria, segundo Oliven (1982:30-38), n�o passa de uma ideologia para justificar o estado de desenvolvimento dos pa�ses com hegemonia pol�tica e econ�mica. Aproxima-se muito das teorias raciais do s�culo passado, carregadas de etnocentrismo. Ela apenas higienizou um pouco o seu vocabul�rio, trocando termos como civiliza��o por modernidade, barb�rie por tradi��o (Tipps apud Oliven, 1982: 36). Al�m desse etnocentrismo, as cr�ticas desse autor podem ser resumidas da seguinte forma: a de ser um modelo a-hist�rico, mecanicista e linear de mudan�a social com forte vi�s evolucionista; a de ignorar que as sociedades estiveram em contato de forma desigual nos �ltimos s�culos, como � o caso das rela��es entre as metr�poles e suas col�nias, e que isso condicionou o estado de desenvolvimento dessas mesmas sociedades e sua posi��o no confronto de for�as no mundo atual; a de ser uma deturpa��o da abordagem cl�ssica de Weber em A �tica protestante e o esp�rito do capitalismo que, levada ao extremo do universalismo, caiu no que o autor chamou de �determinismo cultural� e, ironicamente, refutou um dos princ�pios b�sicos do seu pensamento - o relativismo; a de ignorar que comportamentos, institui��es e valores que normalmente s�o considerados tradicionais, longe de constituir disfun��es, est�o completamente ajustados � din�mica das sociedades industriais.�

A partir do conceito de sociedade global desenvolvido por Maria Isaura Pereira de Queiroz (1978), Oliven postula uma supera��o da dicotomia rural / urbano. Nessa abordagem, h� tr�s sociedades - a tribal, a agr�ria e a urbana - que podem coexistir no tempo e no espa�o, havendo, entretanto, no caso brasileiro, a prerrogativa da sociedade urbana sobre as demais. (Queiroz, 1978: 46-51).Essa abordagem n�o elimina a exist�ncia do meio rural, nem mesmo em regi�es como o continente europeu, onde h� apenas a sociedade urbana. Essa [fim da p�gina 154] perspectiva prop�e que o campo, na sociedade urbana, est� integrado ao seu sistema numa rela��o de domina��o-subordina��o. Tal rela��o coloca o campo e a cidade em posi��es rec�procas diferentes, de acordo com o lugar onde esteja centralizada a produ��o, seja no campo ou na cidade (1978: 268).�

� essa a concep��o de sociedade global que Oliven compartilha com Maria Isaura Pereira de Queiroz. Uma abordagem que prop�e uma an�lise hist�rica e articulada entre o particular e o geral, ou seja, a cidade deve ser analisada numa rela��o rec�proca com uma sociedade mais ampla. Desta forma, a supera��o das dicotomias rural/ urbano e tradicional/ moderno, referidas anteriormente, apresentou-se como uma necessidade para fugir dos perigos do etnocentrismo, do preconceito e, mais ainda, da ideologia que justifica a domina��o das sociedades hegem�nicas.�

Embora essa abordagem seja muito instigante, ela tamb�m n�o consegue enquadrar no seu corpo te�rico as rela��es tradicionais. No m�ximo consegue enxergar bols�es de resist�ncia nos lugares mais distantes. Maria Isaura at� fez refer�ncias � exist�ncia de culturas tradicionais encravadas nas camadas mais baixas da sociedade (1978: 306), pequenos agricultores e pecuaristas principalmente, por�m n�o h� uma reflex�o dessas rela��es tradicionais articuladas, seja por oposi��o, seja por complementaridade com a sociedade urbana da qual ela trata. Tampouco sua argumenta��o comporta rela��es tradicionais no �mbito urbano e em setores modernos de nossa economia, como Martins nos faz ver no trecho a seguir:

�Nessa din�mica (de um novo como desdobramento de um velho), � que pode ser encontrada a explica��o para o fato de que s�o os setores modernos e de ponta, na economia e na sociedade, que recriam ou, mesmo, criam, rela��es sociais arcaicas ou atrasadas, como a peonagem, a escravid�o por d�vida, nos anos recentes.� (1994:30)

Oliven (1982), por seu lado, tenta enquadrar esse ponto de vista chamando a aten��o para o fato de que, em determinadas ocasi�es, �comportamentos que parecem ser �tradicionais� s�o em verdade altamente racionais dadas as circunst�ncias� (1982: 38). Embora haja comportamentos conforme o indicado e que se ajustam � sociedade urbano-industrial, h� de fato comportamentos que, ajustados ou n�o � sua l�gica, continuam sendo tradicionais porque n�o seguem a l�gica racional da industrializa��o nem foram produzidos por ela. Este � um exemplo de contradi��o existente na nossa sociedade que, freq�entemente, � refor�ado pelo sistema que atualmente � dominante. O autor contrap�e-se totalmente a considerar a tradi��o fora dos quadros aqui mencionados. Recusa-se, inclusive, a aceitar aquela proposi��o de Weber de distinguir o tradicional do racional, pelo recurso da a��o tradicional - cuja realiza��o se deve a um costume ou a um h�bito enraizado - ou pelo recurso da a��o afetiva - motivada pelos sentimentos do agente pelo(s) seu(s) interlocutor(es), contrapostas a uma a��o racional com rela��o a fins - atitudes cujo planejamento � orientado pelos resultados a serem alcan�ados (1995: 417). Deste modo, perguntamos ent�o, como enquadrar�amos o estudo da cultura caipira realizado por Antonio Candido em Os parceiros do Rio Bonito (1964)? Faria parte dos estudos ligados �s teorias de contraste ou dualistas t�o criticados por este posicionamento te�rico? Na realidade, n�o � [fim da p�gina 155] esse o caso. Trata-se, no nosso entendimento, de uma lacuna no pensamento desses dois autores - Maria Isaura Pereira de Queiroz e George Oliven.�

A dificuldade em encaixar a tradi��o no quadro te�rico decorre, ao nosso ver, de que ela estaria, na vis�o desses autores, ligada ao universo da perman�ncia, obstaculizando a percep��o da mudan�a social. Pensamos, ao contr�rio, que a tradi��o deve ser entendida como um n�cleo estruturado que vai sendo preenchido pelos indiv�duos de acordo com as condi��es impostas pelo seu desenvolvimento. Dessa forma, a tradi��o se liga a uma identidade de uma comunidade, ou seja, � sua pr�pria cultura. Nesse sentido, acreditamos que, sem recorrer ao esquema do continuum folk-urbano ou da teoria dualista, n�o devemos esquecer do conceito de �tradi��o� somente porque foi associado a uma teoria desacreditada. Devemos, ao contr�rio, enquadr�-lo no referencial te�rico em quest�o at� mesmo porque, como ficou muito bem demonstrado no estudo de Candido, n�o � uma coisa incompat�vel com uma an�lise hist�rica e com os demais elementos constituintes dessa abordagem.�

Thompson (1998), procurando conceituar a �cultura pleb�ia� ou �tradicional�, demonstrou uma preocupa��o com o fato do termo �tradi��o� estar ligado � perman�ncia e prop�s apenas uma substitui��o, sem contudo, alterar o significado dele. Afirmou ele:

�Longe de exibir a perman�ncia sugerida pela palavra �tradi��o�, o costume era um campo para a mudan�a e a disputa, uma arena na qual interesses opostos apresentavam reivindica��es conflitantes.� (1998: 16-17)

Concordo com essa preocupa��o, mas n�o vejo a necessidade, no contexto brasileiro, de buscar uma outra palavra para designar o conceito de tradi��o, uma vez que essa palavra j� est� consagrada na literatura cient�fica brasileira. Outro aspecto relevante acentuado por Thompson � a dissocia��o existente entre a cultura da plebe e das classes hegem�nicas, a distin��o entre o modo de vida rural, onde os costumes s�o mais arraigados e o modo de vida da gentry(2)� ou dos nobres, ligados aos rituais da nobreza e pr�ximo daquilo que Maria Isaura Pereira de Queiroz chamou de �estilo de vida citadino burgu�s� (1978: 57). Como vemos, a distin��o entre campo e cidade, nessa �tica, passa obrigatoriamente pela oposi��o e pelos conflitos existentes entre as classes. Levar em considera��o essa contraposi��o, atualmente, torna-se cada vez mais importante, na medida em que o desenvolvimento urbano-industrial vai rompendo barreiras regionais e nacionais, aprimorando os processos t�cnicos e incrementando o fluxo de circula��o do capital com tal magnitude que o mundo, j� globalizado, torna-se a cada dia um pouco menor. Em virtude desse processo, a sociedade global brasileira caminha, por um lado, para uma homogeneiza��o dos padr�es de consumo e, por outro, vai acentuando cada vez mais as diferen�as sociais, na medida em que surgem novos sujeitos hist�ricos - movimentos ind�genas, negros, de mulheres, etc. A explica��o disso, para Oliven, reside no fato de que existe um duplo processo que �, ao mesmo tempo, simult�neo e [fim da p�gina 156] complementar, ou seja, a mesma intensifica��o da acumula��o capitalista que homogeneiza as classes situadas em �reas de press�o econ�mica mais forte, promove uma heterogeneiza��o dos indiv�duos de uma forma desigual e assim�trica (1982: 74).�

Este processo tornou-se mais evidente com a consolida��o e o incremento da industrializa��o ocorrida no final da d�cada de 1950 e in�cio da de 1960, promovendo uma invers�o tanto nos locais de resid�ncia da popula��o brasileira quanto na ocupa��o desta, passando da agricultura � ind�stria e ao com�rcio (Santos, 1993: 29). Esta mudan�a do campo para a cidade, do setor prim�rio para o setor secund�rio e terci�rio da economia � o m�bil da invers�o citada por Maria Isaura Pereira de Queiroz da equa��o rural / urbano no que se refere � domina��o. O que Oliven acentua, por um lado, � que a migra��o do campo para a cidade, impulsionada pelo desenvolvimento industrial aliada �s melhores condi��es sanit�rias, promove o crescimento populacional urbano que � mais marcante nas classes subalternas ao mesmo tempo que relega a estas uma menor participa��o nos benef�cios sociais, econ�micos e pol�ticos proporcionados por esse desenvolvimento. Desse modo, as diferen�as culturais se acentuar�o na propor��o inversa �s desigualdades econ�micas (1982: 79). Por outro lado, paralelo a esse processo, ocorre que a popula��o migrante, composta fundamentalmente pelos desafortunados, anexada aos aglomerados urbanos, fica mais sujeita �s influ�ncias ideol�gicas e, por isso, � pressionada a se ajustar aos novos padr�es de consumo que a faz tender � uma homogeneiza��o pela padroniza��o dos comportamentos individuais (1982: 76).�

O primeiro processo, da heterogeneiza��o, � exemplificado com o estudo de Antonio Candido (Os parceiros do rio bonito) quando ele se refere � incorpora��o da popula��o rural pela cidade. Nesse processo, Candido demonstrou que h� uma mudan�a de comportamento no sentido de substituir os antigos pelos novos enfatizando tr�s rea��es adaptativas: 1) aceita��o dos tra�os impostos e propostos; 2) aceita��o apenas dos tra�os impostos; 3) rejei��o de ambos (Oliven, 1982: 79; cf. tamb�m Candido, 1964: 133, 174, 175). Oliven enfatizou a necessidade de se considerar a defasagem como um processo heterogeneizador da homogeneiza��o. O segundo processo da homogeneiza��o � ilustrado com as observa��es de Maria Isaura Pereira de Queiroz quando de sua an�lise do processo hist�rico de forma��o das cidades brasileiras no ensaio �Do rural e do urbano no Brasil�. Segundo essa autora, a moda e todo o comportamento refinado adotado nas principais cidades, da �poca colonial at� o s�culo XIX, foram importados da Europa, provando que o g�nero de vida pode se difundir fora do ambiente e das condi��es materiais que o geravam (Oliven, 1982: 80; cf. tamb�m Queiroz, 1978: 57, 296-306). Do encontro desses dois processos, Oliven concluiu:

�Existe assim uma constante dial�tica entre heterogeneidade e homogeneidade em sociedades capitalistas. Quanto mais elas padronizam comportamentos, orienta��es e op��es, mais elas tendem a enfatizar uma individualidade e um raio de escolhas que em verdade podem ser bastante limitados; quanto mais estas sociedades se diferenciam internamente, aumentando dist�ncias sociais, tanto mais elas tendem a difundir a ideologia de que todos s�o iguais, criando [fim da p�gina 157] freq�entemente o que foi chamado de �o padr�o da igualdade manifesta e da desigualdade sutil�.� (1982: 82)

Entretanto, mesmo concordando com esse ponto de vista, devo ressalvar que entender a mudan�a social na cultura caipira demonstrada por Candido como uma defasagem significa dar �nfase � homogeneiza��o, decretar a morte da cultura tradicional, ou seja, significa escrever uma hist�ria previamente como se a hist�ria n�o fosse feita pelos pr�prios homens nas condi��es materiais em que eles est�o inseridos, conforme Marx exp�s. Ademais, a homogeneiza��o, enquanto tend�ncia, n�o � um fen�meno pronto e acabado, pelo contr�rio, est� submetida � din�mica social e, dessa maneira, no conflito de classes e culturas sujeita-se aos avan�os e recuos conforme o pr�prio deslocamento e desenvolvimento irregular do capital. Portanto, a resist�ncia empreendida pelos indiv�duos, grupos e classes que n�o compartilham dos valores culturais hegem�nicos n�o pode ser caracterizada apenas como um elemento fortuito de perman�ncia, mas como resultado de uma luta di�ria para a manuten��o dos seus costumes. Esta luta ganha em significado e import�ncia quando os indiv�duos portadores dessa cultura tradicional adquirem a consci�ncia do que as inova��es t�m representado na pr�tica para eles. A esse respeito, exp�s Thompson:

�A inova��o � mais evidente na camada superior da sociedade, mas como ela n�o � um processo tecnol�gico/social neutro e sem normas (�moderniza��o�, �racionaliza��o�), mas sim a inova��o do processo capitalista, � quase sempre experimentada pela plebe como uma explora��o, a expropria��o de direitos de uso costumeiros, ou a destrui��o violenta de padr�es valorizados de trabalho e lazer.� (1998: 19)

O ambiente urbano como s�mbolo e locus destas inova��es promove a desagrega��o da cultura tradicional, contudo, sem conseguir fechar totalmente o leque de op��es a ponto de determinar o seu fim. Oliven apontou uma necessidade dos indiv�duos das classes subalternas gerarem um �duplo mecanismo de sobreviv�ncia�(3)� que, no meu entendimento, cria condi��es para um estado de lat�ncia da cultura tradicional no meio urbano. Tal mecanismo � que permite aos indiv�duos, grupos ou classes recriarem juntos ou separadamente nesse meio a cultura tradicional. Esse pensamento fica revigorado quando lembramos do processo de �ruraliza��o das cidades� referido por Milton Santos em que numerosas correntes migrat�rias fez invadir as pr�ticas rurais no meio urbano. Nas palavras desse autor:

�(...) o grande n�mero de pobres urbanos cria o caldo de cultura para que nas cidades, sobretudo nas grandes cidades, vicejem formas econ�micas menos modernas, dotadas de menor dinamismo e com menor peso na contabilidade estat�stica do crescimento econ�mico.� (1993: 55) �

�(...) o fato de que os pobres venham para a cidade e abandonem o campo modernizado, leva a que no urbano se recriem condi��es [fim da p�gina 158] para a utiliza��o do velho econ�mico.� (1993: 56)

Embora, como j� frisamos antes, n�o se possa afirmar que a cultura tradicional esteja com seus dias contados, inclusive pelas possibilidades intermitentes que surgem para o seu �renascimento�, tamb�m n�o podemos fechar os olhos, num otimismo glorioso, diante desse processo de desterro das popula��es rurais, acreditando que n�o haja conseq��ncias danosas para elas. Num sistema capitalista como o nosso, profundamente predador, em que o moderno com suas m�quinas e t�cnicas renovadas invade o campo, repelindo os pobres (1993: 10); em que as popula��es migrantes, no seu percurso do campo para a cidade, deixam atr�s de si todas as refer�ncias de suas vidas para habitarem favelas em condi��es, muitas vezes, piores do que as de antes; em que os valores tradicionais e as pessoas s�o transformados em mercadorias para serem vendidos no mercado de bens de consumo ou de trabalho; n�o podemos pensar sen�o no que Ecl�a Bosi chama de �desenraizamento� (Bosi, E., 1992: 17-24). S�o m�ltiplas as causas do desenraizamento e diversos os grupos e pessoas que sofrem as suas conseq��ncias. Podemos citar entre as principais o racionalismo e a automa��o existentes, principalmente, na sociedade urbana. A primeira, provoca um choque nos �estrangeiros� pela imposi��o de novos padr�es de refer�ncia de mundo que os obriga a compreender e a respeitar. Assim, ocorre a exig�ncia do conhecimento da leitura para permitir os deslocamentos e o acesso aos servi�os da cidade, o conhecimento m�nimo de sua geografia para saber se localizar, etc.. A segunda, aliena o trabalhador nas f�bricas, seja pela total ignor�ncia a respeito do destino do produto do seu trabalho, seja pelo servi�o parcelado e pelo ritmo fren�tico das m�quinas que somente m�os �geis podem acompanhar. Ali�s, um automatismo t�o exacerbado que invade todos os lares atrav�s dos eletrodom�sticos e que domina inclusive o lazer. Desse modo, a �nica coisa que resta nessa situa��o para os migrantes � como afirmou Ecl�a Bosi: �N�o buscar o que se perdeu: as ra�zes j� foram arrancadas, mas procurar o que pode renascer nessa terra de eros�o� (1992: 17).�

A solu��o proposta para essa problem�tica n�o � um retorno ao campo, � antiga sociedade e cultura tradicional, pois eles mesmo, transformados que foram, j� n�o existem na forma que essas pessoas deixaram. Trata-se de buscar formas de enraizamento ou re-enraizamento numa reelabora��o dos elementos dispostos na sociedade: o culto, a m�sica, a educa��o baseada na liberdade e gratuidade do conhecimento e as demais coisas que conduzam as pessoas ao encontro (Bosi, E., 1992: 37-41). Portanto, a reinterpreta��o e a reelabora��o traduzidas em pr�ticas populares � o que garante a recupera��o da humanidade do migrante e � ao mesmo tempo a materialidade da resist�ncia.�

Implica��es te�ricas no universo da pesquisa:
os casos do Guruji e de Jacum� no munic�pio do Conde


A minha pesquisa est� centrada em duas comunidades de agricultores e pescadores dos distritos de Guruji e Jacum�, pertencentes ao munic�pio do Conde, distante sete quil�metros de Jo�o Pessoa, capital da Para�ba. Ela investiga, a partir de dois grupos localizados em cada comunidade, as mudan�as e adapta��es de uma manifesta��o cultural popular, o coco-de-roda ou simplesmente coco - designa��o dos pr�prios manifestantes -, muito freq�ente [fim da p�gina 159] no litoral nordestino.�

A proximidade das duas comunidades da cidade de Jo�o Pessoa por mim observadas e o avan�o da urbaniza��o sobre elas chamaram-me a aten��o para os impactos sociais que a moderniza��o tem provocado e aqueles que est�o por acontecer. Tal situa��o tem me feito refletir sobre a dualidade que aqui apresento e que pude, antes mesmo das leituras, perceber. �

O contexto que encontrei e que j� vinha acompanhando desde 1993 de forma incerta chamou minha aten��o para as transforma��es por que passavam os distritos em quest�o. O distrito de Jacum�, distando quinze quil�metros ao Sul da cidade do Conde, est� situado � beira mar, em um local privilegiado pelas belezas naturais. Ele � o ponto tur�stico, sem sombra de d�vidas, mais importante do munic�pio ao qual pertence e um dos mais importantes do Estado. Al�m disso, fica pr�ximo de outras praias, como Tabatinga e Coqueirinho, muito procuradas pelas pessoas residentes nas cidades pr�ximas nos fins de semana e, mais ainda, no ver�o. Atualmente, uma estrada nova est� sendo constru�da, ligando as praias de Jo�o Pessoa �s do Conde, de tal forma que o distrito vai se tornar tamb�m um ponto de passagem obrigat�rio para muitas praias ao Sul, ainda pouco exploradas pelo turismo, e para a praia mais conhecida do Estado, Tambaba - �nica praia oficial de nudismo do Nordeste. Ele recebe uma quantidade elevada de pessoas que faz de Jacum� o seu principal ponto de lazer nos finais de semana. A popula��o do distrito n�o � muito grande, embora n�o tenha dados estat�sticos ainda que me permitam precis�-la, mas para o momento, basta dizer que o distrito aparenta ser maior que o pr�prio munic�pio ao qual pertence. Ele � constitu�do de pescadores, pequenos funcion�rios p�blicos municipais, de pessoas que foram atra�das pelas oportunidades de trabalho nas casas, granjas e apartamentos, pelo trabalho nos restaurantes, bares e pequeno com�rcio locais, pelo trabalho nas constru��es de casas e pr�dios. H� ainda entre os seus moradores um n�mero ainda pequeno de pessoas da classe m�dia que, pela constitui��o de um patrim�nio, resolveu e p�de ali se instalar, fazendo do local de lazer a sua moradia.�

� um lugar que viveu e ainda vive uma especula��o imobili�ria fort�ssima e, a cada dia, os seus terrenos valem mais. Tem um alto �ndice de constru��es de casas e pequenos pr�dios de apartamentos. As oportunidades de trabalho s�o sazonais e dependem em muito do movimento tur�stico que pode ser maior ou menor a depender das condi��es clim�ticas. A pesca artesanal est� em decl�nio e a �nica atividade pesqueira que ainda exerce atrativo � a pesca da lagosta. Por isso, � muito comum no ver�o os pescadores e as pessoas mais pobres desocuparem suas casas, mudarem-se para a casa de parentes, ou ainda, mudarem-se para o quartinho dos fundos para alugar aos turistas com o objetivo de conseguir uma renda complementar nessa esta��o. Este � o contexto em que est� inserido um dos grupos de coco que estamos estudando, formado em sua maioria por pescadores e residentes da Vila de Pescadores de Jacum�, atualmente uma rua afastada umas cinco quadras da praia, com casas de ambos os lados.�

O outro grupo est� situado no distrito de Guruji(4), distante dez quil�metros [fim da p�gina 160] ao Sul da cidade do Conde e, atualmente, ponto obrigat�rio de passagem para Jacum� e demais praias. Este distrito, cujo percurso hist�rico ainda est� por ser tra�ado, surgiu, provavelmente, de uma evolu��o de um bairro rural e um adensamento populacional favorecido pela localiza��o geogr�fica, ou seja, ser o ponto de passagem de todo o fluxo de pessoas que se dirigem a Jacum�. Ele � muitas vezes menor que Jacum� no que se refere ao equipamento urbano, considerando a� ruas, cal�amento, eletrifica��o, fornecimento de �gua, etc., mas demonstra ser muito populoso no seu interior(5). Possui ainda poucas casas de alvenaria, a maioria sendo de pau-a-pique, e a eletrifica��o e o fornecimento de �gua restringe-se � parte central do distrito. A grande maioria de seus habitantes � de agricultores que trabalham em terras pr�prias, como posseiros ou assentados, ou em terras arrendadas, ou como alugados. H� ainda uma minoria constitu�da por pessoas que, possivelmente, vivem de emprego fora do distrito ou de um pequeno com�rcio nos bares e bodegas do lugar, mas dificilmente encontraremos entre os seus moradores algu�m que trabalhe num s� lugar com uma �nica atividade. Quase todos, com baixo e incerto rendimento, s�o obrigados, em dado momento, a fazer algum �bico� - vender frutas na beira da estrada; trabalhar de alugado; colher acerola uma fazenda das proximidades, sendo pagos por produtividade; vender os produtos da lavoura na feira em Jo�o Pessoa ou no pr�prio Conde; catar caranguejo no mangue; pescar; ou seja, realizar uma infinidade de trabalhos paralelos que complementem a renda familiar. Ali�s, � a fam�lia a principal unidade produtiva desse distrito. Dificilmente veremos algu�m trabalhar sozinho na ro�a, a principal atividade dos seus moradores. E os poucos momentos de separa��o d�o-se quando est�o realizando trabalhos paralelos em que a renda est� atrelada ao trabalho de uma s� pessoa (o alugado, por exemplo) ou quando o filho ou a filha passam a constituir uma nova unidade familiar atrav�s do casamento. A partir de ent�o v�o trabalhar para si, nas ro�as alheias ou ainda na dos pr�prios pais.�

Quando expomos nossas preocupa��es com os impactos da moderniza��o sobre as comunidades citadas, estamos nos referindo a um processo c�lere de desenvolvimento ocorrido nos dois distritos mencionados que data de n�o mais que vinte anos, ou seja, de 1980 para c�. Um desenvolvimento que est� estreitamente ligado aos processos econ�micos que ocorrem na regi�o que os engloba, liderada pela cidade de Jo�o Pessoa, capital do Estado. A crescente complexidade da capital gerada pela instala��o de ind�strias, pelo desenvolvimento do com�rcio e de servi�os, fez crescer as classes m�dias que procuraram cada vez mais oportunidades de lazer fora dos limites do munic�pio sem, contudo, afastarem-se muito dele. Paralelamente a isso, os movimentos ecol�gicos chamaram muito a aten��o das pessoas para as belezas naturais brasileiras e podemos dizer que o usufruto desses locais entrou na moda. Tal circunst�ncia proporcionou que as fazendas que dominavam completamente o territ�rio que compreende esses distritos fossem em grande parte transformadas [fim da p�gina 161] em loteamentos, principalmente aquelas �reas que ficavam na orla, pois eram as de maior valoriza��o e mais f�ceis de vender. �

A especula��o imobili�ria ganhou �mpeto quando da reforma e do asfaltamento da estrada que corta a cidade do Conde e liga os distritos do Guruji e Jacum�. Estrada e rede el�trica conseguida a partir de interfer�ncias pol�ticas locais junto ao governo do Estado, exercida pelos grandes propriet�rios das terras que seriam imediatamente beneficiadas com a expans�o dessa infra-estrutura. A partir de ent�o tudo mudou nesse lugar. Os pescadores de Jacum� foram convencidos a mudar de suas casas de taipa � beira mar para outras do mesmo tipo constru�das no lugar da atual Vila dos Pescadores. Deixaram a condi��o de posseiros de s�tios com medi��es em torno de 15 ou 20 de frente por 30 de comprimento, conquistada pela ocupa��o por gera��es e gera��es, para a de propriet�rios de terrenos com, no m�ximo, 10 de frente e 20 de comprimento. Houve, portanto, embora eles mesmos n�o expressem isso conscientemente, uma perda na mudan�a tanto de espa�o quanto das benfeitorias realizadas. O lugarejo constitu�do somente pelas casas dos pescadores, com espa�amentos razo�veis entre uma casa e outra, passa ent�o a ter um r�pido desenvolvimento com a ocupa��o dos espa�os pelas casas constru�das pelos mais aquinhoados da capital e de outras cidades pr�ximas. E o desenvolvimento inicial que proporciona uma maior divulga��o do lugar, aliado �s facilidades de acesso pelo incremento do transporte coletivo e asfaltamento, resulta numa valoriza��o ainda maior do espa�o e um n�vel de constru��o ainda maior para satisfazer uma demanda crescente por im�veis que estejam � disposi��o para aluguel na alta esta��o. Tal demanda, impulsionada pelo turismo circunscrito � regi�o litor�nea da Para�ba, somada a uma pol�tica de turismo do Estado, ainda que incipiente, faz com que a Praia de Jacum� seja inclu�da no roteiro tur�stico paraibano, refor�ando ainda mais o seu desenvolvimento.�

Outro processo que corre em paralelo a esse desenvolvimento e que o refor�a, ao mesmo tempo em que � refor�ado por ele, � o da constitui��o de �granjas de final de semana� ao longo da estrada que liga a cidade do Conde a Jacum�. Essa foi uma outra perspectiva que se abriu aos fazendeiros locais para concretizar a valoriza��o de suas terras sem, contudo, deixarem de ser propriet�rios, mantendo, assim, o prest�gio pol�tico local que elas lhes conferem. O loteamento para granjas foi a forma privilegiada nas partes perif�ricas do Guruji, afetando em muito os agricultores, que acabavam sendo expulsos da terra. Por�m, o processo de expuls�o dos agricultores de Guruji n�o come�ou assim nem ocorreu sem resist�ncia. Faz-se necess�rio agora uma descri��o, mesmo r�pida, dos conflitos de terra no Guruji, para compreender como esse processo ocorreu e quais as liga��es desse evento com o grupo de coco e qual a carga de influ�ncia que tem na problem�tica dos limites entre o rural e o urbano.�

O conflito iniciou-se por volta de 1979(6), com a venda da fazenda Guruji I, [fim da p�gina 162] e com a tentativa do novo propriet�rio, o fazendeiro Jo�o Gon�alves da Silva, de expulsar os moradores das terras que por muitas gera��es ali moravam e mantinham uma rela��o de parceria com o antigo propriet�rio. O projeto de pecu�ria extensiva que o novo dono queria implantar n�o comportava o regime de parcerias nem os arrendamentos que somados abrangiam mais de 40 fam�lias. Foi convocada uma reuni�o do novo propriet�rio com os parceiros e arrendat�rios e colocada uma proposta de mudarem de moradia e deixarem de utilizar os lotes que at� ent�o ocupavam para o plantio, passando a plantar em outros lotes. Essa mudan�a, por�m, significava perder todas as benfeitorias feitas nos s�tios que cada morador e/ou seus progenitores tinham contribu�do para realizar. A comunidade n�o aceitou e a partir de ent�o ocorreu uma s�rie de viol�ncias contra os moradores que tentavam resistir. As lavouras, por diversas vezes, foram arrasadas pelos tratores do propriet�rio. �rvores foram arrancadas e muitos agricultores foram perseguidos. A resist�ncia empreendida fez com que o propriet�rio desistisse das terras e as vendesse para o fazendeiro Luciano An�bal Pedrosa de Melo que j� tinha outro projeto em mente, que tamb�m n�o comportava os agricultores na terra. Seguiu-se, ent�o, uma s�rie de tentativas de expuls�o dos agricultores que resistiam, a ponto do propriet�rio utilizar m�todos ainda mais violentos. Somaram-se a todo esse problema as tentativas de igual ordem em fazendas vizinhas, como a fazenda Guruji II e Barra de Gramame, generalizando o conflito para quase todo o distrito. Entretanto, ap�s anos de luta e em meio a esses conflitos, algumas faixas de terra foram loteados em pequenos peda�os e vendidos para a forma��o de granjas; a falta de informa��o dos moradores n�o permitiu que o processo fosse impedido antes mesmo de tornar-se imposs�vel de ser revertido. Nessa mesma �poca, a faixa de terra litor�nea foi loteada para a constru��o de casas de veraneio. Como essa parte n�o tinha e ainda n�o tem infra-estrutura alguma, quase nada foi constru�do, mas j� foi desde essa �poca, aproximadamente 1992, toda vendida. O conflito da fazenda Guruji I somente foi resolvido com a desapropria��o das terras para fins de reforma agr�ria no in�cio da d�cada de 1990. O da fazenda Barra de Gramame foi resolvido da mesma forma j� em 1996 e at� agora n�o foram definidos os lotes de cada fam�lia assentada.�

A resist�ncia ferrenha dos agricultores, por mais de dez anos de luta, tem duas explica��es fundamentais, que tentarei resumir aqui. A primeira foi a atua��o da Pastoral Rural, que ajudou na organiza��o da resist�ncia, deu suporte jur�dico � luta, deu visibilidade ao conflito ao fazer circular na imprensa da capital not�cias sobre ele e conscientizou politicamente a popula��o local. A segunda foi o apego � cultura tradicional e seu respectivo modo de vida - viver da agricultura, plantando determinados produtos, segundo determinadas rela��es de trabalho. Somando-se isso a uma necessidade de se apegar ao que Antonio Candido chamou de �um m�nimo de f�rmulas tradicionais� (1964: 176) na tentativa desesperada de preservar sua identidade, sua cultura e seu grupo - m�nimo esse que n�o foi garantido em nenhuma das negocia��es para desocupar [fim da p�gina 163] as fazendas - tem-se como resultado uma resist�ncia de tal ordem que somente a morte passa a ser seu limite.�

Como afirmei anteriormente, preocupada com a defesa dos direitos dos agricultores, a Pastoral Rural organizou a resist�ncia. Promoveu sistematicamente reuni�es com os agricultores para discutir as a��es das horas, dias, noites e semanas seguintes, muitas delas transformadas em missas campais ou findadas com ora��es coletivas. A luta era intensa, e mesmo � noite era preciso fazer vig�lia para que os tratores n�o passassem por cima das ro�as. As lideran�as do movimento eram extremamente perseguidas e n�o podiam transitar livremente, pois estavam sempre na imin�ncia de sofrerem atentados ou mesmo serem obrigadas a acatar uma recente ordem de pris�o conseguida pela for�a pol�tica e econ�mica dos fazendeiros ou pela habilidade t�cnica de advogados muito bem remunerados. Nesse ambiente repleto de persegui��es, as reuni�es assumem uma posi��o de destaque na resist�ncia dos agricultores, n�o somente pelo planejamento das a��es, mas tamb�m pela carga de esperan�a no futuro que ela traz e, principalmente, pela capacidade de enraizamento que elas geram mediante os c�nticos lit�rgicos e as ora��es. � o que Ecl�a Bosi aponta a reuni�o como encontro, como ato pol�tico de milit�ncia que, segundo a estudiosa, � a �nica que �pode propor e propor de novo a totalidade passado-presente como um mesmo tecido de lutas e esperan�as� (1992: 30). Essa mesma reuni�o que proporciona esperan�a de um futuro melhor, associada a c�nticos religiosos, nos quais observa-se a redund�ncia de palavras e sons que assumem uma fun��o encantat�ria, forma um ambiente que cria o enraizamento que, por sua vez, d� for�a e subst�ncia � resist�ncia.�

Entendida desse modo, fica mais f�cil compreender por que essa forma de organiza��o foi transposta e adaptada � brincadeira do coco, ou seja, a forma��o de um grupo determinado em que cada membro tem uma fun��o, ainda que frouxamente determinada, e a realiza��o de reuni�es para qualquer decis�o a ser tomada, seja para a realiza��o de festas no lugar, seja para atender a um convite externo para participar em alguma festa comunit�ria, ou para a apresenta��o do coco. Outro elemento importante, que tamb�m faz parte da explica��o do surgimento do grupo configurado dessa forma, diz respeito � pr�pria circula��o dos seus participantes nos diversos acampamentos, onde quer que houvesse alguma luta pelos direitos dos camponeses no litoral paraibano. Nestes acampamentos, a brincadeira do coco sempre apareceu como uma forma de aproximar todas as pessoas presentes e isso suscitou os convites e a necessidade de uma maior organiza��o do grupo. A pr�pria conscientiza��o pol�tica conseguida nesse movimento proporcionou uma inser��o de conte�dos de cr�tica pol�tico-social nos cocos, mediante o surgimento de temas que denunciam o racismo e a explora��o dos poderosos sobre os trabalhadores pobres. Um exemplo caracter�stico disso pode ser encontrado no nome dado ao grupo, �Novo Quilombo�, que remete claramente para uma busca de identidade e filia-se a uma resist�ncia contra os poderes constitu�dos de uma sociedade opressora.�

Com o fim dos conflitos, resolvidos com a desapropria��o das fazendas, a configura��o entre espa�os urbanos e espa�os rurais ficou bastante complicada. O n�cleo central do Guruji ficou definido como �rea urbana e as suas adjac�ncias, [fim da p�gina 164] especialmente nos lugares onde est�o localizadas as ro�as, continuam sendo �rea rural, embora alguns loteamentos n�o tenham sido revertidos, constituindo tamb�m �rea urbana, como por exemplo toda a faixa de terra ainda n�o ocupada de Barra de Gramame. Este foi, de fato, o primeiro problema que a pesquisa nos colocou a respeito das fronteiras entre o rural e o urbano, que me impulsionou a tentar esclarecer no presente estudo. E os questionamentos suscitados foram: o que significa ser rural? Sob que crit�rios devemos defini-lo, segundo as defini��es espaciais apresentadas pela situa��o administrativa definida pelo setor p�blico ou segundo o modo de vida que percebemos naquela �rea? Que implica��es pode ter essa defini��o de urbano feita pelo poder p�blico para aquelas �reas? Depois de ter tratado o problema teoricamente, ainda que de forma panor�mica, me sinto mais a vontade para tentar responder a essas quest�es.�

Entendo, pois, que tanto o rural quanto o urbano n�o podem ser definidos segundo os crit�rios da administra��o p�blica, embora tais defini��es impliquem em conseq��ncias futuras no que se refere � tend�ncia, urbana ou rural, para a qual vai correr uma ou outra �rea. Queremos dizer com isso que o resguardo de uma �rea loteada para fins de urbaniza��o, mesmo que ainda n�o ocupada, resulta num afastamento das condi��es que poderiam configur�-la como rural, ou seja, dificilmente ela poderia ser ocupada para o estabelecimento de ro�ados, seja porque os propriet�rios n�o s�o agricultores e os lotes n�o possuem tamanhos adequados para essa atividade, seja porque torna-se muito dif�cil uma ocupa��o bem sucedida das terras loteadas por parte dos agricultores locais. �

Tal situa��o se ainda n�o se configura em um avan�o da cidade sobre o campo, aponta para esse processo, a depender exclusivamente dos rumos que os fluxos de capital v�o tomar na regi�o. Retornando ao primeiro argumento desse par�grafo, cremos que o rural seja melhor definido segundo a forma de ocupa��o do espa�o e o modo de vida existente. De modo que a mesma conviv�ncia que h� no meio urbano entre classes e culturas diferenciadas tamb�m haver� no meio rural. A mesma grada��o que acreditamos existir no meio urbano, dos espa�os mais racionais aos menos racionais, tamb�m dever� ser considerada no meio rural. Acredito que essa abordagem sugerida pela bibliografia especializada permite-me enxergar a cultura tradicional no meio rural e no meio urbano, tanto quanto � poss�vel tamb�m enxergar o avan�o da racionalidade e dos desenvolvimentos t�cnicos na cidade e no campo.�

Colocada a quest�o nestes termos e a partir da realidade encontrada no campo, posso caracterizar a �rea de Guruji como de baixo uso de equipamentos t�cnicos e de tecnologias no trabalho e na vida dos seus agricultores, o que Milton Santos denominou como sendo �espa�os opacos� (Santos, 1993: 47). Embora a popula��o, de uma maneira geral, n�o seja avessa completamente � introdu��o de equipamentos t�cnicos e de novas t�cnicas de plantio, apega-se com maior confian�a � forma de trabalho tradicional e ainda cultiva h�bitos e valores tradicionais. A experi�ncia ainda se sobrep�e � ci�ncia, apesar de n�o ser totalmente incompat�vel a conviv�ncia das duas. � um comportamento coerente com o que foi apresentado por Antonio Candido (1964) a respeito das rea��es adaptativas da cultura caipira frente �s moderniza��es em que ela aceita somente os dados impostos, rejeitando os propostos e, assim, mantendo todo o resto. � [fim da p�gina 165] isso que permite a coexist�ncia de um novo com um velho que podemos ver at� mesmo nos atos mais banais, como o de um preparo do caf� que, a t�tulo de exemplo, descrevemos a seguir: ainda � comum entre alguns agricultores o h�bito de misturar o caf� torrado e pilado por eles com o caf� industrializado. Inquiridos sobre o porqu� de tal mistura, responderam que serve, por um lado, como medida de economia porque o caf� rende mais e, por outro, porque mant�m o gosto do caf� que est�o acostumados a consumir. Inquiridos mais uma vez por que n�o usar somente o caf� preparado por eles, a resposta foi incisiva, ao afirmar que dava muito trabalho. A explica��o nos pareceu muito justa, considerando que as mulheres, de uma maneira geral, assumem uma dupla jornada de trabalho, com o cuidado da casa e dos filhos e compondo mais uma for�a de trabalho na ro�a. De forma que o servi�o dom�stico tem que ser simplificado sem, contudo, alterar por completo os h�bitos e gostos por longo tempo cultivados.�

Em Jacum�, pelos menos em rela��o aos pescadores, tamb�m h� o apego �s formas de vida tradicional, entretanto ela est� muito mais degradada. Os pescadores ainda praticam uma pesca artesanal(7), mas est� ficando cada vez mais dif�cil a manuten��o da fam�lia somente com a renda da pesca. O decl�nio da atividade pesqueira, em decorr�ncia da escassez do pescado, abala a organiza��o social dos pescadores porque obriga a mudan�a de atividade dos membros da fam�lia e conseq�entemente impede a sua reprodu��o enquanto grupo. As causas da falta de peixe nessa praia n�o s�o conhecidas por mim, nem mesmo pelos pescadores, mas pesquisas t�m mostrado que as causas mais freq�entes s�o a pesca predat�ria e a polui��o (Maldonado, 1986: 43-44), hip�tese a ser considerada em Jacum� em decorr�ncia do r�pido desenvolvimento nesse lugar, que sugere uma emiss�o elevada de poluentes no mar por esgotamento sanit�rio. Al�m disso, conforme nossas pr�prias observa��es, o manguezal foi totalmente destru�do, em parte por aterramento para servir para constru��o, em parte pela pr�pria polui��o dos esgotos das resid�ncias. A degrada��o do mangue com certeza reduz o aparecimento de peixe nessa �rea, embora n�o se possa precisar a dimens�o do impacto causado e, portanto, afirmar que � esse o motivo do desaparecimento dos peixes.�

A motoriza��o dos barcos, ocorrida h� aproximadamente tr�s anos, al�m da introdu��o de materiais de pesca feitos de fibras sint�ticas na composi��o das redes, tarrafas e outros utens�lios, h� mais tempo, aparece, segundo a denomina��o dos estudiosos, como mecanismo de �atualiza��o da pesca artesanal�(1986: 38) e deveria ser uma supera��o das barreiras naturais (ventos, correntezas, etc.), bem como solu��o para o problema da escassez do peixe. Entretanto, tal fato n�o ocorreu, porque os barcos foram fabricados com madeira verde, que n�o demorou a gerar problemas de flutua��o e inunda��o dos motores, causando defeitos e entravando a pescaria. A forma como os barcos [fim da p�gina 166] motorizados foram introduzidos representou uma altera��o substancial na organiza��o dos pescadores de Jacum�, porque foi mediante a funda��o de uma cooperativa que se conseguiu o empr�stimo banc�rio que viabilizou a compra dos barcos. A �moderniza��o� fez com que os pescadores se desfizessem dos barcos antigos e o problema dos novos significou ficar sem pescar at� se conseguir dinheiro para pagar o conserto deles. Al�m disso, ainda tinham que continuar pagando o financiamento. Tal fato gerou uma crise da pesca, agravada pela escassez do peixe e at� hoje n�o resolvida.�

Essa crise na atividade de subsist�ncia, conjugada com o crescimento da urbaniza��o em Jacum� tem proporcionado uma corros�o da cultura tradicional e, por conseguinte, um reflexo direto sobre a brincadeira do coco. O desmantelamento da comunidade dos pescadores ainda n�o foi completa, mas podemos dizer que afetou sobremaneira o grau de solidariedade existente no grupo. A conta dos barcos n�o � coletiva, mas individual. A fam�lia j� n�o est� envolvida como um todo na pesca artesanal, dividindo-se em outras atividades, na maioria das vezes desconectada da atividade tradicional, ou seja, a pesca. O crescimento urbano acentuado representou tamb�m um aumento das rela��es indiretas frente �s rela��es do tipo face a face, identificado pelos pr�prios pescadores nos casos de viol�ncia que j� aparecem no lugar e na dificuldade que hoje se tem para conseguir realizar um servi�o que necessite da ajuda dos companheiros de profiss�o. A mem�ria da comunidade aparece como a principal v�tima desse processo, pois, interrompida pelo distanciamento das pessoas e pela falta do completo envolvimento da fam�lia na atividade produtiva, conjugada a uma vida mais curta em conseq��ncia das duras condi��es de trabalho enfrentadas ao longo dos anos n�o consegue reproduzir-se como antes. O coco nesse contexto aparece sob dois �ngulos: primeiro como o �pice do afloramento da mem�ria coletiva; segundo como a representa��o da crise pela qual ela passa.�

O coco em Jacum�, que antes dos loteamentos e da transfer�ncia da comunidade dos pescadores ocorria com muita freq��ncia ao longo do ano, passou a manifestar-se somente no S�o Jo�o, S�o Pedro e casualmente um ou outro dia do ano. V�rios s�o os motivos que temos conseguido perceber em nossas investiga��es a respeito dessa redu��o. As condi��es anteriormente apontadas do decl�nio da atividade pesqueira e do recuo dos n�veis de solidariedade est�o entre eles. Isso ocorre porque a brincadeira do coco, por ser uma festa aberta a toda a comunidade, por ser regada com bebidas alco�licas (cacha�a e batidas de fruta) em quantidade e ser dependente da reuni�o de v�rias pessoas para montar o pavilh�o(8), torna-se uma festa muito �cara� segundo os padr�es de vida atuais dos pescadores de Jacum�. Outro motivo que se mistura com esse � o fato da festa atualmente estar muito atrelada aos �patrocinadores�, ou seja, aquela pessoa que paga ou fornece todo o material necess�rio, roupas, bebidas, comidas, madeiras, palhas, lonas para o pavilh�o, al�m dos instrumentos musicais necess�rios. Atualmente, duas pessoas da comunidade exercem essa fun��o, sem no entanto terem situa��o financeira [fim da p�gina 167] para tal, dependendo sempre de favores externos e realizando a festa de forma prec�ria. � exatamente essa depend�ncia externa que tem nos feito aventar a hip�tese de ter existido, ap�s a mudan�a da comunidade da beira da praia para o local atual, uma intromiss�o dos coron�is locais no financiamento da festa. Esta seria apenas mais um desdobramento do clientelismo pol�tico e das rela��es paternalistas que at� hoje s�o muito fortes entre os fazendeiros, os chefes pol�ticos e os pescadores do lugar. A depend�ncia de pessoas externas � comunidade para a realiza��o da festa desobrigou os seus integrantes de uma contribui��o material para a festa e atuou como mais um elemento desenraizador, por retirar uma no��o que lhes era muito cara, a no��o de pertencimento ao grupo, base de toda a solidariedade que lhe d� sustenta��o. Por fim, um �ltimo elemento a ser apontado � a forma como a comunidade se apropria do espa�o em que est� inserida. A configura��o urbana transformou o espa�o e a forma como a comunidade se relaciona com ele. A rua agora � p�blica, � passagem dos carros de pessoas estranhas � comunidade e do transporte p�blico, portanto alvo de interesses mais amplos e, inclusive, mais importantes para o poder p�blico municipal. Dessa forma, a comunidade n�o pode utiliz�-la a seu bel prazer, segundo seus pr�prios interesses e nas ocasi�es em que lhe aprouver. Portanto, depende de espa�os privados para a realiza��o de suas festas e deve obedecer �s limita��es que o meio urbano lhe coloca, hor�rio de sil�ncio, pedido de autoriza��o aos poderes constitu�dos para dispor de espa�o p�blico, etc.�

O r�pido hist�rico aqui tra�ado, dos distritos de Guruji e Jacum�, bem como o contexto apresentado das duas comunidades, permitem-me uma breve compara��o com o objetivo de evidenciar as diferen�as existentes quanto � organiza��o da brincadeira do coco e �s expectativas que cada grupo mant�m em rela��o ao futuro da brincadeira e da pr�pria vida. A princ�pio, uma compara��o entre agricultores e pescadores n�o parece v�lida porque o tipo de atividade para o sustento pr�prio e familiar parece t�o distinto que n�o haveria pontos de contato. No entanto, estou encarando ambas as comunidades como adeptas e produtoras de uma cultura tradicional. Cultura esta que � baseada em concep��es de tempo e espa�o, por ambas compartilhadas, diferenciados da nossa, ou seja, baseadas nos ciclos da natureza que conferem a agricultores e pescadores uma autonomia no trabalho e na vida que n�o � acess�vel aos assalariados.�

Ambas as comunidades sofrem com os problemas da urbaniza��o que avan�a sobre elas e com a nova configura��o do espa�o provocada por esse processo. Entretanto, podemos perceber que a diferen�a entre as duas, no que se refere aos impactos gerados pela �moderniza��o�, d�-se na igual medida da intensifica��o desse processo sofrido por cada uma e na resist�ncia implementada face a ele. Quer dizer, a desorganiza��o social e os problemas de solidariedade do grupo s�o maiores em Jacum� do que em Guruji. Nesse �ltimo, a resist�ncia e a luta empreendidas por anos foram sentidas nos cocos pela altera��o na sua forma de organiza��o e no conte�do de seus versos, que apontam para uma continuidade no futuro. Em Jacum� percebemos j� uma certa resigna��o quanto � dissolu��o das rela��es comunit�rias e da cultura tradicional. O futuro incerto da pesca aponta para uma vit�ria completa da �cultura urbana� sobre a cultura tradicional.�

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Considera��es finais

Tentei nesse ensaio discutir a distin��o entre o rural e o urbano a partir de uma oposi��o entre a cultura hegem�nica da nossa sociedade e a cultura tradicional, procurando identificar como isso ocorre no nosso universo de pesquisa. Pude perceber a import�ncia que assume uma an�lise processual como procedimento explicativo dos fen�menos sociais, bem como da necessidade de recorrer a uma vis�o mais ampla para compreender melhor as particularidades enfocadas. De certa forma, tentei seguir esses passos, muito embora o alcance tenha sido ainda muito t�mido.�

A vis�o do problema exposto por estudiosos experimentados no tratamento desse tema objetivou trazer � discuss�o as colabora��es que estiveram ao nosso alcance e que tinham posicionamentos mais aproximados ao que julgamos ser apropriado. Entretanto, n�o me furtei, naquilo que minha vis�o cr�tica p�de perceber, de fazer meus pr�prios julgamentos diante das id�ias expostas. Ademais, o tema em quest�o, embora esteja fora de moda atualmente, rendeu uma discuss�o muito prolongada entre estudiosos de v�rias partes do mundo que acaba com qualquer pretens�o de esgotar a discuss�o em um r�pido sobrev�o como o que realizamos sobre suas quest�es b�sicas. Espero ter cumprido a miss�o que me reservei a de, no enfrentamento entre duas vis�es de mundo distintas, evidenciar os problemas que os dados emp�ricos t�m me colocado e propor um caminho para sua investiga��o.�

Refer�ncias Bibliogr�ficas


Notas

1) Mestrando pelo Programa de P�s-Gradua��o em Sociologia da Universidade Federal da Para�ba, Pesquisador do Laborat�rio de Estudos da Oralidade (Campus I - Jo�o Pessoa).

2) O termo em quest�o, conforme nota do redator da edi��o brasileira, n�o encontra um similar em l�ngua portuguesa que garanta uma tradu��o fiel. A melhor tradu��o, no nosso entendimento, � pequena nobreza.

3) Sobre esse "duplo mecanismo de sobreviv�ncia" ver Oliven (1982: 56).

4) O distrito de Guruji, territorialmente, est� sendo considerado de uma forma bastante ampla, maior do que os pr�prios moradores o consideram, contendo n�o somente o complexo de casas que o comp�e, mas tamb�m o conjunto de casas, granjas, vilas e s�tios que o circundam. Essa forma de abord�-lo, pelo menos no momento, objetiva facilitar a exposi��o e decorre da dificuldade de precisar os seus limites, mesmo observando os depoimentos colhidos at� o momento.

5) Todos os dados estat�sticos ainda nos faltam, � uma etapa da pesquisa que ainda est� por vir.

6) A imprecis�o das datas afirmadas aqui decorre de que ainda estamos nos baseando somente nos depoimentos e, portanto, tal fato est� em conformidade com a pr�pria concep��o de tempo dos nossos colaboradores. Eles n�o regulam suas vidas pelo tempo linear com horas, dias e anos sucedendo-se e concebidos de forma precisa. Regulam-se conforme o tempo c�clico, de acordo com os ritmos biol�gicos da natureza. Portanto, n�o se preocupam com a idade que t�m e, muito menos, em precisar os eventos passados. Antes est�o preocupados com a import�ncia que tais eventos t�m em suas vidas. Para se ter uma id�ia clara da no��o de tempo c�clico, cf. Thompson ("Tempo, disciplina de trabalho e o capitalismo industrial", 1998).

7) Estamos considerando aqui a defini��o de pesca artesanal apresentada por Simone Maldonado em Pescadores do mar. Segundo a autora, a pesca divide-se em duas formas b�sicas, a artesanal e a industrial. A primeira � aquela praticada de forma simples, com baixa tecnologia e destinada ao consumo dom�stico e mercado interno. A segunda, mais complexa, envolve um assalariamento e uma mecaniza��o acentuada (Maldonado, 1986: 42-43).

8) A montagem do pavilh�o requer compra ou empr�stimo da madeira, da lona usada na cobertura e das comidas e bebidas que motivam os homens a oferecer a for�a de trabalho para o servi�o.

RESUMO
O RURAL E O URBANO:
CONSIDERA��ES TE�RICAS E IMPLICA��ES
NO UNIVERSO DOS GRUPOS DE COCO-DE-RODA


O acelerado movimento de expans�o do capitalismo expresso na globaliza��o vem encurtando as dist�ncias, ligando os mercados regionais e impulsionando a integra��o de todas as regi�es do mundo. O crescimento dos mercados e a maior intera��o entre eles � o m�bil de uma crescente urbaniza��o que se reflete no avan�o da cidade sobre o campo e na moderniza��o da agricultura. O avan�o da estrutura que d� suporte ao desenvolvimento econ�mico promove transforma��es no espa�o e mudan�as sociais agudas, modificando ou superando as culturas tradicionais. Esse processo tem sido tratado pelos cientistas sociais por dois �ngulos opostos. De um lado, aqueles que cr�em na homogeneiza��o cultural da sociedade; de outro, aqueles que acreditam na heterogeneiza��o pelo surgimento de novos sujeitos sociais em decorr�ncia da luta de classes. Em tais circunst�ncias estamos preocupados em descobrir quais s�o os mecanismos de ajustamento e quais as estrat�gias de resist�ncia utilizadas por dois grupos populares de coco-de-roda, situados no munic�pio do Conde para manter a sua cultura e identidade. Procuramos saber qual a expectativa e que tipo de rea��o esses dois grupos t�m desenvolvido frente �s interfer�ncias geradas por essa onda de urbaniza��o.
PALAVRAS-CHAVE: rural-urbano; resist�ncia cultural; coco-de-roda.

ABSTRACT
THE RURAL AND THE URBAN:
THEORICAL CONSIDERATIONS AND IMPLICATION
IN THE "COCO-DE-RODA" GROUPS


The fast movement of capitalism expansion expressed in the globalisation is shortening distances, linking regional markets and making the integration of parts of the world. The growth of markets as well as the biggest interactivity among them causes a great urbanisation that is reflected in the growth of cities towards the country and in the modernisation of the agriculture. The advance of the structure supports the economical development that provides transformations in the space and strong socials changes. These changes modify or overcome traditional cultures. This process has been considered by social scientists from two opposite angles. On one hand those who believe in making cultural society homogeneous; On the other hand, those who think that the cultural society is heterogeneous because new social subjects has been coming from classes struggle. In such circumstances we are interested in discovering which are the mechanisms to adjust them and which are the resistance strategies used by two different popular groups of "coco-de-roda", situated in Conde Suburb to maintains their cultural identity. We searched for the expectation and what kind of reaction these two groups has been developed in front of the interferences formed by a "wave" of urbanisation.
KEYWORDS: rural-urban; cultural resistance; "coco-de-roda" groups.



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N�mero 16 - set/2000  |   Universidade Federal da Para�ba  |  Programa de P�s-Gradua��o em Sociologia - UFPb


Este site foi criado em fevereiro de 1998 e
modificado pela �ltima vez em 01 de setembro de 2001, por Carla Mary S. Oliveira.

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