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Política e Trabalho 14 - Setembro / 1998 - pp. 177-182


A METAFÍSICA DA MORTE (1) 

Georg Simmel




Nos seus aspectos mais íntimos, em cada época da civilização, a vida está em estreita interação com o sentido que se atribui à morte. A nossa concepção da vida, a nossa concepção da morte, nada mais são do que dois aspectos de um só e único comportamento fundamental. Se bem que as reflexões aqui propostas se proponham a deduzir seus resultados a partir dos mais diversos conceitos de morte, bem podem, pelo método empregado, ilustrar o modo como uma forma de pensamento nascido numa dada situação cultural se situa em relação a este problema.  

O que antes de tudo distingue o corpo não-orgânico do corpo vivo, é que a forma que o limita é determinada de fora - seja no sentido mais exterior, de que ele pára onde um outro começa vindo opor-se à sua extensão, seja de que ele obedece a influências moleculares, químicas ou físicas: assim a forma do rochedo é constituída pela erosão, a da lava pela solidificação. O corpo orgânico dá a si mesmo a sua forma de dentro para fora; deixa de crescer quando as forças inatas que o determinam tenham atingido o seu limite; e estas forças determinam constantemente o modo particular da sua extensão. As condições do seu ser também são as da forma em que este se manifesta, enquanto para o objeto não-orgânico, estas últimas residem fora dele.  

O segredo da forma é que ela é limite e é ao mesmo tempo o objeto e a cessação do objeto, o lugar onde o ser e o não-mais-ser do objeto são um só. E para fixar este limite, o ser orgânico, ao contrário do ser inanimado, não tem necessidade de um terceiro.  

Ora, o seu limite não é somente espacial; é igualmente temporal. Como o ser vivo morre e a morte se coloca ao mesmo tempo que a sua própria natureza, pouco importando que a necessidade esteja já compreendida ou não, a sua vida assume uma forma na qual a combinação do sentido qualitativo e quantitativo se dá diferentemente do que no espaço.  

Para compreender a significação da morte, tudo depende da medida em que nos liberarmos da idéia das "Parcas" que exprime o aspecto sob o qual a vemos habitualmente: como se, num momento dado, o fio da vida fosse bruscamente "cortado", como se a morte impusesse um limite à vida no mesmo sentido em que o corpo não- [fim da página 177] orgânico pára no espaço porque um outro corpo, com o qual em si nada tem a ver, o empurra e determina a sua nova forma - quer dizer, a própria cessação do seu ser. Assim a maior parte das pessoas visualiza a morte como uma profecia sombria que sobrevoa a vida, mas que só tem a ver com ela no instante da sua realização, assim como sobrevoou a vida de Édipo a profecia de que num dado momento haveria de matar seu pai. Na realidade, no entanto, a morte está, de saída, intimamente ligada à vida.  

Deixo de lado a querela biológica sobre se os seres unicelulares são imortais, pois só fazem dividir-se em vários seres vivos e nunca deixam corpos mortos atrás de si (e isto sem a intervenção de uma força exterior), sendo a morte nada mais que um fenômeno que se acrescenta à vida dos organismos pluricelulares - ou ainda se toda a sua substância física ou parte dela também perece. Estamos tratando aqui seres que morrem, quer dizer, cuja vida está intimamente ligada à morte, mesmo que outros seres apresentem uma forma de vida que por seu lado não esteja desde sempre submetida àquela condição.  

Mesmo assim, o fato de que a nossa vida esteja orquestrada com a morte e constantemente determinada por ela, também não está em contradição com o desenvolvimento da vida normal que segue um movimento ascendente durante um certo período em que vai sempre crescendo tornando-se por assim dizer mais viva, e só começa a apresentar os primeiros sinais da descida, depois de haver chegado a um ponto culminante no seu desenvolvimento - tendo estado aparentemente mais distanciada da morte do que em todos os momentos precedentes. No entanto esta vida que se torna mais plena e mais forte se situa num contexto de conjunto cujo eixo está na morte. Assim como a causa não precisa perdurar no resultado, com a sua substância e sua forma próprias, uma primeira criação pode, ao contrário, ter por efeito a determinação de uma segunda completamente diferente de um ponto de vista qualitativo, acontecendo o mesmo no sentido inverso; a morte pode habitar a vida, desde o início, sem que para isso seja constatável a qualquer momento, ela ou uma partícula sua, enquanto realidade. Mas a cada instante da vida nós somos seres que vamos morrer e o momento presente seria tudo, se este não fosse o nosso destino inato e atuante. Assim como não estamos verdadeiramente aí desde o instante do nascimento, mas que há continuamente um pouquinho de nós nascendo, não é só no instante derradeiro que morremos.  

Pode-se ver claramente a significação da morte como criadora de forma. Ela não se contenta com limitar nossa vida, quer dizer, dar-lhe forma à hora do desenlace ; ao contrário, a morte é para a nossa vida um [fim da página 178] fator de forma, que vai matizar todos os seus conteúdos, fixando-lhe inclusive os limites. A morte exerce a sua ação sobre cada um dos seus conteúdos e dos seus momentos; a qualidade e a forma de cada um deles seriam outras se lhes fosse possível sobrepor-se a esse limite imanente.  

Um dos maiores paradoxos do cristianismo é o de retirar da morte esta significação apriorística, colocando a vida sob o ângulo da sua própria eternidade. E isto não só porque promete uma continuidade após o último instante de vida na terra; mas também porque coloca o destino eterno da alma sob os conteúdos da vida: cada um mantém ao infinito a sua significação ética como causa determinante do nosso futuro transcendente, quebrando assim a sua própria limitação intrínseca. Nestes termos, a morte parece suplantada: primeiro porque a vida, esta linha que se estende no tempo, ultrapassa o limite formal do seu fim; mas também porque ela nega a morte, que opera através de todos os momentos da vida e os limita do interior; ela a nega precisamente em virtude das conseqüências eternas desses momentos singulares.  

E quando olhamos na direção oposta, a morte aparece de novo como aquilo que dá forma à vida. Para todo organismo, a situação dada no seio do seu próprio universo é a seguinte: para manter-se em vida, a cada instante é preciso de certo modo adaptar-se - no sentido mais amplo do termo. O fracasso desta adaptação significa a morte. Assim como todo movimento automático ou voluntário pode ser interpretado como pulsão vital, pode sê-lo igualmente como fuga diante da morte. Com relação a isso, cada um dos nossos movimentos pode ser apresentado simbolicamente em um número aritmético que se obtém seja por adição, seja por subtração. Talvez ainda a nossa atividade consista, pela sua essência, numa unidade misteriosa aos nossos próprios olhos, que não podemos alcançar como tantas outras unidades, a não ser decompondo-a, na busca de vida e na fuga da morte. Não somente cada passo da vida nos aproximaria da hora da morte, mas seria, positivamente e a priori modelado por ela, que é um elemento real da vida. E esta modelagem é então determinada ao mesmo tempo pela evitação da morte: na verdade, pena e prazer, trabalho e repouso e todos os nossos comportamentos considerados naturais, são uma fuga instintiva ou consciente da morte. Esta vida que ao passar nos aproxima da morte, nós a passamos fugindo dela. Somos como homens andando sobre um barco no sentido oposto ao seu curso: avançamos para o sul, mas o lastro que pisamos é levado junto conosco para o norte. O acoplamento destas duas direções em que nos movemos determina a todo instante a nossa situação no espaço.  

[fim da página 179]  

Esta modelagem da vida pela morte em todo o seu decurso, permaneceu até aqui de certo modo uma expressão que em si não conduz a conclusões: tratou-se apenas de substituir a representação habitual - a morte considerada simplesmente, por assim dizer inorganicamente, como o golpe de tesoura da Parca que põe fim à existência - pela sua representação ccomo um fator de forma no curso contínuo da vida; se a morte não existisse, se não existisse além da sua visibilidade total na hora derradeira, a vida seria absolutamente, inconcebivelmente outra. Quer se considere a sua difusão embiótica (sic) seja como um começo de sombra advindo do acontecimento que constitui a morte singular, seja como uma modelagem e uma coloração autóctones próprias a cada momento da vida, de todo modo é somente ela que, ao mesmo tempo que a acuidade da morte, serve de fundamento para certas representações metafísicas sobre a essência e o destino da alma. Nas reflexões que se seguem, não dissociarei expressamente as modificações introduzidas por uma ou por outra acepção da morte: seria fácil isolar a parte de cada uma destas representações.  

A formulação hegeliana - de que toda coisa atrai o seu contr&aaacute;rio e forma com ele uma síntese superior, à qual está certamente subsumida, mas onde precisamente ela vem assim a "si"- em nenhum outro lugar revela mais o seu sentido profundo do que na relação entre a vida e a morte. A vida em si atrai a morte enquanto contrário, enquanto o "Outro" em que se transforma a coisa e sem o qual essa coisa não possuiria absolutamente o seu sentido e a sua forma específicos. Conseqüentemente a vida e a morte se encontram no mesmo degrau do ser como tese e antítese. Assim se eleva acima de ambas alguma coisa de superior, os valores e as tensões da nossa existência situados além da vida e da morte não são mais atingidos pela sua oposição e só nessa coisa a vida chega a ela mesma, ao seu sentido supremo.  

O fundamento deste pensamento é de que a vida, segundo os seus dados imediatos, desenrola o seu processo na indivisão completa dos seus conteúdos. Esta unidade efetiva só pode ser vivida, pois enquanto tal ela não se deixa dominar intelectualmente. É o entendimento que pela sua análise a recorta nestes dois elementos, e a linha assim traçada deve igualmente corresponder a uma estrutura objetiva do objeto que corresponda a unidade do vivido nos seus dados afetivos - certamente a outro nível da realidade.  

Tanto sobre o plano objetivo como sobre o plano psicológico, a possibilidade desta separação não está dada, me parece, e em particular com relação a certos valores superiores, dado que o seu suporte, o seu processo, estão submetidos à morte. Se vivêssemos eternamente, a vida [fim da página 180] se misturaria indiferenciadamente aos seus valores e aos seus conteúdos; não haveria incitação nenhuma a pensá-los fora da forma única onde os conhecemos e poderíamos vivê-los inúmeras vezes. No entanto nós morremos, e assim sentimos a vida como alguma coisa de contingente, de passageiro, que também poderia ser diferente. Nasceu assim, sem dúvida, o pensamento de que os conteúdos da vida não têm qualquer necessidade de partilhar o destino do seu processo; assim se terá imposto à atenção a significação de certos conteúdos, válida além da vida e da morte, independentemente do seu caráter passageiro e finito. Só a experiência da morte terá podido desfazer esta fusão estreita, esta solidariedade entre a vida e os seus conteúdos.  

Mas são precisamente estes conteúdos de significação intemporal que permitem à vida terrestre atingir seus píncaros mais puros: absorvendo em si estes conteúdos que são mais do que ela mesma, seja derramando-se neles, a vida ultrapassa a si mesma, sem se perder. Na verdade ela se ganha, pois o seu curso toma sentido e adquire valor enquanto processo e de certo modo vem a consciência da sua razão de ser.. É preciso primeiro que a vida possa destacar dela mesma, idealmente, estes conteúdos, para elevar-se conscientemente até eles; e esta separação se realiza na perspectiva da morte que certamente pode anular o processo da vida mas não a significação dos seus conteúdos.  

Quando esta separação entre a vida e o seu conteúdo que sobrevêm com a morte deixa sobreviver os conteúdos, o mesmo acento recai sobre a outra corrente, sobre a linha que os separa. O processo da vida psíquica na sua totalidade faz surgir cada vez mais, clara e forte, num ritmo sempre crescente, esta construção a que se pode chamar o eu. Trata-se da essência do valor, do ritmo e por assim dizer do sentido íntimo que voltam à nossa existência, este fragmento particular do universo; trata-se de estarmos na verdade como que entrando num jogo, mas sem por isso o sermos no sentido pleno. Este eu se situa numa categoria específica pedindo uma descrição ainda mais precisa: uma terceira que está além ao mesmo tempo da realidade dada e da idéia axiológica, uma categoria irreal e unicamente postulada.  

Ora o eu, no começo do seu desenvolvimento, tanto na consciência subjetiva quanto no seu ser objetivo, está estreitamente ligado aos conteúdos particulares do processo da vida. E assim como este processo de vida aparta de si os seus próprios conteúdos, assim como eles assumem uma significação além da realidade dinâmica na qual são vividos, do mesmo modo o processo de vida recai igualmente sobre a sua outra corrente, por assim dizer, o eu; este se destaca e se diferencia , num certo sentido uno actu dos conteúdos e, enquanto significação particular, enquanto valor, existência e exigência, ele se [fim da página 181] destaca ao mesmo tempo também dos conteúdos que em primeira instância se encontram exclusivamente na consciência ingênua. Quanto mais vivemos, mais o eu se assinala como a unidade e a continuidade no interior de todas as oscilações pendulares do destino e da representação do mundo; e isso não só no sentido psicológico, em que a percepção do mesmo e do durável, em fenômenos diferentes, é facilitada e garantida pelo seu crescimento numérico; o eu se deixa ver também no sentido objetivo, em tal medida que ele se junta mais puramente em si, se destaca de todo o fluxo das contingências que circundam os conteúdos vividos, se desenvolve cada vez com maior segurança, cada vez mais independente daqueles, a caminho do seu próprio sentido e do seu próprio conceito.  

Aqui intervém o pensamento da eternidade. Assim como no caso anterior a morte submerge a vida como para liberar a intemporalidade dos seus conteúdos, vista a coisa sob outro ângulo, ela põe termo à série dos conteúdos vividos, sem que para isso seja interrompida a exigência do eu: aperfeiçoar-se eternamente ou continuar a existir, que é o durante dessa intemporalidade. A imortalidade, esta nostalgia ancorada no mais fundo de muitos humanos, significa que o eu poderia conseguir separar-se inteiramente da contingência dos conteúdos particulares.  

Do ponto de vista religioso, a imortalidade costuma ter outro sentido. Mais freqüentemente ela diz respeito a um ter: a alma deseja a felicidade ou a contemplação de Deus, ou simplesmente quer continuar a existir; ou ainda, num grau mais intenso de sublimação ética, ela deseja uma qualidade que é sua: ser liberada, justificada, ou purificada. Mas tudo isso não fica em jogo em relação ao sentido que damos aqui à imortalidade: um estado da alma em que ela não vive mais, onde o seu ser não se realiza mais num conteúdo que tenha qualquer sentido ou existência fora dela. Enquanto vivemos, vivemos objetos. Certamente com o passar dos anos e com o seu aprofundamento, o eu se destaca cada vez mais como processo puro, como o invariável e o sólido no fluxo múltiplo dos conteúdos, permanecendo, de um modo ou outro, estreitamente ligado; a alma que se desprende, se autonomiza; significa só que ela se aproxima assintoticamente de um eu que por nada existiria a não ser por si mesmo. Sempre que a crença na imortalidade existe numa recusa de todo conteúdo material que a tomasse por finalidade - seja por ausência de profundidade ética ou simplesmente em nome do incognoscível - sempre que se procure a imortalidade na sua forma pura, a morte haverá de aparecer como o limite além do qual os conteúdos singulares da vida ainda enunciáveis deixam o eu, e onde o seu ser, o seu processo nada mais são do que puro pertencimento a si, pura autodeterminação.  


1909  

NOTA 


1)Traduzido pela professora Simone Carneiro Maldonado (DCS/PPGS-UFPb).


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