Copyright© 1996, 1997, 1998, 1999 PPGS-UFPb. Todos os Direitos Reservados. Nenhuma cópia deste artigo pode ser distribuída eletronicamente, em todo ou em parte, sem a permissão estrita da revista Política & Trabalho. Este modo revolucionário de publicação depende da confiança mútua entre o usuário e o editor. O conteúdo dos artigos publicados é de inteira responsabilidade de seus autores.

Política e Trabalho 14 - Setembro / 1998 - pp. 209-210


OS LIMITES DA GLOBALIZAÇÃO

Gilvando Sá Leitão Rios(1)


BOYER, Robert & DRACHE, Daniel (ed.) et alii. (1997). States against markets - The limits of globalization. London/ New York: Routledge.


O triunfo ideológico nas décadas 80/90 do neoliberalismo foi magistralmente denominado por Ignatio Ramonet (Le Monde Diplomatique, jan/ 1995), de o pensamento único. Isto é, um conjunto de postulados que, repetidos à exaustão pela mídia, "repetição valendo por demonstração", terminam por se impor como realidades indiscutíveis. Nesse contexto então, termos como "globalização", "mercado", "bolsa de valores", tornaram-se termos banais embora ameaçadores, diante dos quais ao simples cidadão ("cidadão"?) assalariado, consumidor etc. caberia apenas se adaptar e sofrer (no duplo sentido do termo) as exigências e os sacrifícios das políticas de "austeridade", cujos efeitos (e é o mínimo que se pode dizer) se distribuem bem desigualmente em termos de classe.

A coletânea Estados Contra mercados - Os Limites da Globalização é de grande utilidade como instrumental de análise de economia política. Organizada por R. Boyer (CNRS - Conselho Nacional da Pesquisa Científica, Paris) e D. Drache (York University - Toronto), a coletânea contendo 19 capítulos é dividida em seis partes:

xxxxxxxxxxxxxxxxxI - Globalização como processo histórico de desatrelamento de mercados;

xxxxxxxxxxxxxxxxxII - Os limites do modelo japonês;

xxxxxxxxxxxxxxxxxIII - Finanças e comércio: a erosão da soberania nacional;

xxxxxxxxxxxxxxxxxIV - Globalização e trabalho;

xxxxxxxxxxxxxxxxxV - Dilemas e estratégias para políticas econômicas;

xxxxxxxxxxxxxxxxxVI - Novas políticas num mundo incerto.

A globalização é tratada, não como mito, mas como a "intensa triadização dos mercados financeiros", (p. 2) isto é, da concentração do fluxo de investimentos estrangeiros (85%) entre as regiões que compõem o núcleo industrializado (Estados Unidos, Europa e Japão). Nessa perspectiva a globalização, ao contrário do que pretende dizer o termo, não é globalizante, "sendo errôneo concluir que o capitalismo se tornou global, desde que métodos de produção, relações industriais, impostos e estilos de política econômica permanecem específicos a cada estado-nação" (p.13). Nesse contexto, revela o processo real de internacionalização a persistência de "sistemas nacionais de inovação" (p. 14) que estão profundamente envolvidos em uma rede de instituições políticas, educacionais e financeiras que não podem ser facilmente copiadas ou adaptadas.

Um dos autores, Manfred Bienefeld (Carleton University - [fim da página 209] Ottawa) observa com pertinência que o progresso da transferência eletrônica de dados (ao contrário do senso comum midiático) não pode ser apresentada como justificativa da desregulamentação financeira. Seria a mesma coisa que atribuir à invenção do revólver a legalização do assassinato. Este autor frisa no seu texto "É uma economia nacional forte uma utopia neste final do século XX?" que a principal força por trás da liberalização dos mercados financeiros mundiais é de ordem política e não tecnológica. Tecnologia foi a desculpa usada para justificar, com uma espécie de determinismo tecnológico, as operações de débito e crédito que propiciaram o surgimento de fortunas monumentais sobretudo nos chamados paraísos fiscais. Para esse autor a globalização não corresponde nem a uma necessidade tecnológica nem a uma necessidade histórica, mas se trata de um processo politicamente dirigido e cuja aparente irreversibilidade deriva do fato que seus ganhos foram crescentemente institucionalizados e protegidos por novas regras internacionais as quais ameaçam os desviantes com retaliações coletivas.

A coletânea é pois uma obra de leitura atualíssima, onde o processo econômico, ao contrário do que é habitualmente divulgado e legitimado pela mídia, é contextualizado histórica e políticamente, fugindo ao determinismo economicista tecnocrático dominante.

NOTA

1) Professor Aposentado da Universidade Federal da Paraíba.


Índice Principal  |  Normas Para Publicação
Número 12 - setembro de 1996  |  Número 13 - setembro de 1997  |   Número 14 - setembro de 1998  |  Número 15 - setembro de 1999
Universidade Federal da Paraíba  |  Programa de Pós-Graduação em Sociologia - UFPb


Este site foi modificado pela última vez em 18 de Outubro de 1999, por Carla Mary S. Oliveira.

This page hosted by

Get Your Own Free Home Page


Hosted by www.Geocities.ws

1