Copyright© 1996, 1997, 1998, 1999 PPGS-UFPb. Todos os Direitos Reservados. Nenhuma cópia deste artigo pode ser distribuída eletronicamente, em todo ou em parte, sem a permissão estrita da revista Política & Trabalho. Este modo revolucionário de publicação depende da confiança mútua entre o usuário e o editor. O conteúdo dos artigos publicados é de inteira responsabilidade de seus autores.

Política e Trabalho 14 - Setembro / 1998 - pp. 210-212


A FOTOGRAFIA NA PARAÍBA ATRAVÉS DO RETRATO

Mauro Guilherme Pinheiro Koury (1)


LIRA, Bertrand de Souza. (1997). Fotografia na Paraíba. Um Inventário dos Fotógrafos através do Retrato (1850 a 1950). João Pessoa: Ed. Universitária.


A história da fotografia no Brasil ainda é uma história a ser contada. Existem, é verdade, trabalhos considerados clássicos sobre a questão. Os trabalhos de Kossoy, especialmente, A História da Fotografia no Brasil, são exemplos. Este último se debruça sobre a história com uma pesquisa vasta sobre o Brasil.

Apesar da tentativa de verticalização e aprofundamento das fontes, levantando pela primeira vez, de forma sistemática, o universo da fotografia no país, o trabalho de Kossoy, como não poderia deixar de ser em um trabalho pioneiro, consegue apreender os itinerários da fotografia e dos fotógrafos de uma maneira geral . Traça perspectivas, delimita fronteiras e estimula hipóteses para trabalhos e pesquisadores posteriores se debruçarem na história do país, buscando nas [fim da página 210] cores locais escrever etnografias capazes de trazer à luz o vasto acervo fotográfico que alimenta a história social da fotografia.

O trabalho de Bertrand Lira é um esforço neste sentido. Tem o Estado da Paraíba como universo de estudo e pesquisa. Como um pesquisador de fino faro, debruça-se sobre a história local da fotografia, recolhendo de uma maneira sistemática o enorme acervo existente - de forma desorganizada e nas mãos de particulares - nos principais municípios paraibanos, nos primeiros cem anos de registro fotográfico na Paraíba, ou seja, nos anos de 1850 a 1950.

O retrato encontrado nos álbuns de família e mais tarde nas colunas sociais é fonte principal de sua pesquisa. É nele, mais do que qualquer outro tipo de registro, que se insere a história da fotografia. É através dele, também, que se pode estabelecer um pouco o itinerário dos fotógrafos pelas terras do Brasil, e da Paraíba, nos primeiros anos da fotografia no país. É, ainda, através do retrato, que se pode elucidar as interrelações entre fotografia, fotógrafos e elites locais. Além do que, através da conservação em mãos de familiares, os álbuns de família não só trazem as marcas dos fotógrafos e da fotografia, mas também contam uma história da intimidade e uma história social das grandes famílias brasileiras e paraibanas, no livro de Bertrand, em particular.

Foi originalmente uma pesquisa com objetivo de aquisição de um grau de mestre, através do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba. Título conquistado em 1997 e logo depois o trabalho foi incorporado à coleção "Biblioteca Paraibana", em forma de livro. O trabalho de Bertrand Lira está organizado em seis capítulos, onde busca traçar através do retrato o rastro dos fotógrafos itinerantes no Estado, passando logo a seguir para uma pequena história dos primeiros fotógrafos paraibanos, ainda através do acompanhamento dos álbuns de família. Neste momento diagnostica uma transformação dos costumes das elites e também do registro fotográfico, sempre através do retrato. Esse sai dos álbuns de família e passa a ilustrar as colunas sociais, com uma imensa modificação da tradição, onde o retrato deixa de ser apenas de domínio privado e passa a ser de domínio público. Aumentando o seu poder de mostrar posições e diagnosticar prestigio aos retratados e suas famílias, através da publicização do poder ilustrado pela presença do retrato a todo o Estado.

Com esse divisor de águas, o retrato que sai do ambiente privado às colunas sociais, Bertrand investiga nas sua pesquisa a construção imagética da modernidade. Amplia seu leque para averiguar a fotografia documental, e a inserção dos fotógrafos e da fotografia na Paraíba, e em [fim da página 211] todo o Brasil, com os governos locais (estadual ou municipais).

Discute as reformas urbanas, a questão da modernidade, a euforia do progresso na Paraíba através da fotografia, e dos registros documentais deste progresso na imprensa local, que ao lado do retrato nas colunas sociais, constrói a modernidade na Paraíba dos anos 20 e 30 deste século.

Os dois capítulos finais buscam compreender os caminhos da fotografia e dos fotógrafos na Paraíba dos anos 40 e 50. O autor se debruça nos principais fotógrafos locais e seus herdeiros, sempre diagnosticando o papel do retrato como o principal indício documental da fotografia na Paraíba, e como principal fonte de sobrevivência dos fotógrafos profissionais locais, e aproveita para percorrer todo o estado contando, sempre através do retrato, a formação dos primeiros estúdios fotográficos no interior paraibano e seus principais fotógrafos.

Pesquisa importante, por dar cor local e organizar cem anos de fotografia no Estado, vinculando a História da fotografia a História social local e nacional. Estudo minucioso por desvendar registros insuspeitos até então da passagem de fotógrafos pelas terras paraibanas nos anos de 1850 a 1900, sistematizando fotografias e registros documentais orais de retratados, de familiares dos fotógrafos itinerantes ou residentes no Estado, ao lado de uma incursão na história social e econômica das elites locais e da manutenção do seu prestígio e poder através do álbum fotográfico e logo depois das colunas sociais, através do retrato como instrumento de captação de uma realidade social que imortalizava o prestígio através do registro do poder dos retratados.

O trabalho de Bertrand Lira, deste modo, vem dar um impulso a pesquisas no mesmo molde que terão que ser feitas, e já começam a aparecer enquanto interesse, por pesquisadores de todo o Brasil. Tem-se registro de esforços semelhantes em dissertações e teses defendidas em programas de pós-graduação nos Estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Estes trabalhos estão se esforçando para uma sistematização e visibilização da história da fotografia no Brasil.

Vale a pena ler o trabalho de Bertrand Lira, não só pela sistematização de fontes locais, mas sobretudo pela aventura contada através do registro fotográfico, o retrato, do fazer fotografia.

NOTA

1) Coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Imagem, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba.


Índice Principal  |  Normas Para Publicação
Número 12 - setembro de 1996  |  Número 13 - setembro de 1997  |   Número 14 - setembro de 1998  |  Número 15 - setembro de 1999
Universidade Federal da Paraíba  |  Programa de Pós-Graduação em Sociologia - UFPb


Este site foi modificado pela última vez em 18 de Outubro de 1999, por Carla Mary S. Oliveira.

This page hosted by

Get Your Own Free Home Page


Hosted by www.Geocities.ws

1