Copyright© 1996, 1997, 1998, 1999 PPGS-UFPb. Todos os Direitos Reservados. Nenhuma cópia deste artigo pode ser distribuída eletronicamente, em todo ou em parte, sem a permissão estrita da revista Política & Trabalho. Este modo revolucionário de publicação depende da confiança mútua entre o usuário e o editor. O conteúdo dos artigos publicados é de inteira responsabilidade de seus autores.

Política e Trabalho 14 - Setembro / 1998 - pp. 213-218


A RENASCENÇA E SEU IMAGINÁRIO

Ariosvaldo da Silva Diniz(1)


Dubois, Claude-Gilbert. (1995). O imaginário da Renascença. Brasília: Ed. UnB, 1995. 257 p.


A imaginação é como o Sol, cuja luz não é tangível mas pode incendiar uma casa. A imaginação dirige a vida do homem; se ele pensa na guerra, fará a guerra. Tudo depende do desejo do homem de ser Sol, isto é, de ser totalmente o que quer ser.
Paracelso

Fortis imaginatio generat casum, dizem os eruditos. Sou dos que sentem a grande força da imaginação. Todos são tocados por ela, mas alguns ela derruba. Suas impressões penetram-me, e a minha arte consiste em escapar dela, não em resisti-la.
Montaigne


Paracelso e Montaigne, dois grandes representantes do pensamento renascentista, cultores da razão como princípio instituinte do conhecimento e do social, são, paradoxalmente, evocados por Dubois para dar uma idéia do poder que se atribuía à imaginação no século XVI. Mas, para Dubois, o paradoxo é apenas aparente, porque razão e imaginação não são termos antitéticos: fazem parte de um mesmo processo de atribuir sentido às coisas e ao mundo. Nesta perspectiva, o impulso de conhecer e criar se unem numa cooperação mítica, e o imaginário é a operação que promove essa cooperação, criando uma teia de sentidos que propicia a construção dos referentes sociais e individuais. A tese do autor é, portanto, a de que tudo é imaginação na Renascença: a ciência, a razão, o homem, a natureza, o tempo, a cidade. A sua tarefa consiste assim em desvelar as imagens que enformam a cultura desse período.

O livro está dividido em uma introdução e três partes. Na introdução, há um esforço bastante elucidativo para enfrentar alguns problemas relacionados às dificuldades teóricas de definição do conceito de imaginário. A primeira dificuldade do empreendimento de Dubois consiste na delimitação do corpus, i.é., o campo ou o registro do imaginário. No seu entendimento, o imaginário recobre tanto a criatividade extrapolada dos limites realistas como os ensaios realistas para apreender um objeto impossível. Suas manifestações poderiam ser apreendidas a partir da infusão de fantasmas dentro do discurso. Essa operação de intrusão de fantasmas dentro do discurso resultaria da inversão dos referenciais: no lugar das estruturas imaginárias de um sujeito cultural, cultiva-se a função referencial a objetos.

Nesta perspectiva, o imaginário manifesta-se tanto nos raciocínios que exaltam as virtudes da "razão" e do "realismo", ou seja no quadro estrito do pensamento [fim da página 213] codificado segundo normas reconhecidas, como na produção cultivada nos ambientes populares, ou por hereges e marginais, cuja perda de contato com o real foram tidas como utópicas ou inviáveis. Nas produções que se pretendem racionais, metódicas, científicas, objetivas, o imaginário manifesta-se em surdina, recitado por uma segunda voz além da que discorre e é reconhecida como tal. Essa segunda voz, segundo o autor, brota do anjo das trevas, do demônio da estranheza que todos levamos em nossas palavras e rompe com todas as regras do discurso conduzido de acordo com a razão. Reivindicando a pretensão de serem restituições autênticas do real e expressão da verdade, os discursos "realistas" não passam de delírios a que a ordem atribui a aparência de razão. Trata-se - diz o autor - na verdade de "sintomas paranóicos, isto é, um raciocínio que substitui pela identificação o ato arbitrário ou convencional de designação, sobrepondo o signo e o referente"(p.13). Teríamos aqui a ilusão especular ou narcísica, de origem inconsciente, que consiste na substituição dos mecanismos de designação pelos de identificação. Como decorrência de um tratamento fetichista do objeto a ilusão realista é também uma das modalidades do imaginário.

A segunda dificuldade que o autor enfrenta no seu livro é de como caracterizar o imaginário. Qual é sua lógica, se é que ela existe? Como defini-lo, se ele parece recobrir praticamente toda produção do espírito humano? Grosso modo, Dubois propõe denominar de "imaginário" "o resultado visível de uma energia psíquica formalizada individual e coletivamente" que se expressaria sobre a forma da representação (eidos) e da simbolização (logos). No primeiro modo, essa formalização estaria relacionada com a gestão mimética (o conhecimento ou a criação não passa de uma reprodução de uma produção primordial, ao mesmo tempo realidade e modelo). Aqui é o domínio do realismo, do naturalismo, da harmonia, ou seja, da investigação que tem a pretensão de encontrar a verdade e a perfeição. É o campo do imaginário "especular" (speculum, espelho) - a busca que persegue uma relação narcisística de isomorfia com relação ao objeto. O seu traço definidor: a ilusão mimética que repousa sobre os efeitos prolongados do "estado de espelho" e da identificação. Na imaginação especular, teríamos assim a formulação de uma teoria da representação que toma a imagem pelo real, por identificação intempestiva do objeto. Sem dúvida, uma teoria ilusória - nos assegura o autor - pois por definição a imagem não é o real; nunca é um reflexo do objeto, mas a de um sujeito que se projeta narcisicamente. Ocorre que essa projeção narcísica do pensamento "realista" no objeto jamais é reconhecida [fim da página 214] por ele. É por isso que o imaginário especular rejeita seu modo de representar como imaginário e apresenta-se sempre como o único acesso autêntico ao real.

O imaginário simbólico, ao contrário, é o resultado da constatação da impossibilidade de acesso ao real. Na impossibilidade de acesso às substâncias, pode-se estabelecer um modo de significação. Assim, para Dubois, os objetos nada têm de objetivo, existem apenas dada a sua situação, o seu sentido num universo de signos. Disso resulta que a função do imaginário simbólico é atribuir sentido a partir de imagens significantes.

O imaginário simbólico é assim o resultado de uma falha do real, de uma ausência que produz um desvio da angústia por meio de um jogo simbólico. Jogo, aliás, que ele reconhece (eis a diferença essencial da ilusão especular) e ao qual se refere incessantemente.

A mimesis, imaginário especular, de origem narcísica, busca reproduzir o real como objeto isomórfico e leva à imagem de Narciso afogado. Quanto ao imaginário fantástico, que recusa todo efeito mimético, coloca deliberadamente como objeto do discurso o que é fictício. Contudo, tanto a via mimética quanto a fantástica são formas de atribuir sentido à relação do sujeito com seu universo de objetos.

Uma vez delimitado o campo do imaginário e estabelecida a distinção entre imaginário especular e simbólico, o autor nos convida a acompanha-lo até o século XVIII francês, dominado por um magna de significações imaginárias denominado de Renascença. A Renascença, segundo Dubois, é um momento privilegiado para estudar o imaginário mimético e fantástico. Trata-se de um momento em que as noções de linguagem, cosmo, espaço, tempo, cidade e do próprio homem são intensamente discutidas e reelaboradas.

A linguagem no século XVI, nos diz o autor, é ao mesmo tempo coisa e forma. Como forma, no sentido aristotélico do termo, ela participa ativamente da atribuição de sentido ao universo. A palavra é o ato fundador do mundo: o Verbo é Deus, a palavra de Deus superpõe-se à função platônica do Demiurgo criador do universo. O verbo divino criou as coisas.

As utopias do Renascimento basearam-se na crença de que um discurso coerente era garantia do sucesso material. Os utopistas queriam fazer acreditar que a ordem do discurso assegurava a ordem das realidades. O racional garantia o real. O erro do racionalismo dessa época era o de confundir a retórica com a razão. A palavra não é a razão, pois sua utilização também serve para acender paixões, para inculcar contraverdades.

[fim da página 215]

Quanto ao Cosmo, duas são as ordens de metáforas que organizam as representações do Universo no século XVI: a do mundo-corpo e a do mundo-livro. A primeira se associa a um mimetismo antropomórfico ou teomórfico: o mundo é a imagem do homem - é o seu universo-corpo, o universo-habitat ou o mundo é a imagem de Deus. A segunda, faz do universo um instrumento de significação: "o universo é uma canção, um poema, uma peça teatral", ou seja universo-imagem ou universo mensagem. Um terceiro grupo de metáforas, entretanto, se insinua, e representa o cosmo como uma máquina: universo-objeto, universo-relógio. Esta é basicamente a representação do imaginário "científico". Neste momento o pensamento "científico" parece preocupado em encontrar um modo de expressão que elimine a ilusão especular registrada em alegorias corporais e domiciliares ingênuas. O que se tentava era criar uma idéia da natureza entendida fundamentalmente como um objeto de fabricação manual, seguindo um plano de funcionamento associado à mecânica e transcritível no vocabulário da matemática. Esta operação terminava por criar um novo modelo segundo o qual o universo era tido como um engenho mecânico cujas regras de funcionamento deveriam coincidir com as regras de raciocínio de um espírito bem esclarecido. A mecânica celeste era a expressão mais acabada desse modelo pois, mediante uma lógica racional, expulsava o antropomorfismo e o simbolismo de toda cosmovisão.

Nessa nova racionalidade, o discurso "científico" consistia em tratar o outro como objeto, e com ele estabelecer uma relação de domínio entre uma razão completamente ativa e um objeto de conhecimento totalmente passivo. Psicanalizando esse modo de se estruturar do discurso "científico", Dubois sugere que ele remete a uma fase anal do desenvolvimento do imaginário, caracterizado por relações entre senhor e objeto fundadas numa ética da dominação, da purificação e da disciplina.

A noção de tempo na Renascença, segundo Dubois, é construída dentro da mesma lógica . Ela se orienta por três eixos principais. O tempo é, em primeiro lugar, a medida do movimento, algo que pode ser regulado como um relógio. Essa concepção mecanicista funda-se numa mecânica astronômica e expressa-se em fórmulas e esquemas matemáticos. Como figura do mundo, percebido na sua sucessividade, o tempo é medido em unidades matemáticas. É o tempo impessoal, coletivo, no entanto regulado pelos grandes arquétipos culturais: a criação, a queda e a redenção.

Um segundo eixo, estabelece o tempo natural, o da vida cotidiana. Nessa dimensão, a ordem que [fim da página 216] fundamenta o tempo é perturbada pelos caprichos da fortuna e o desregramento dos elementos nos quais reina uma desordem variável. Os desígnios da fortuna interferem com as leis da natureza para determinar histórias "particulares", em que o acaso encontra a necessidade.

Finalmente, um terceiro eixo define a percepção individual do tempo existencial: "o tempo é inseparável da intuição vital e da percepção instantânea. Ele se torna instantâneo, e subjetivo, mas o que perde em ordem e extensão ganha em profundidade e plenitude existencial"(p.148).

Segundo Dubois, a prática do imaginário renascentista prestou uma enorme atenção às noções de phisys e polis. Elas são as categorias que permitem pensar o sentido da própria história da humanidade.

Assim, a história mítica da humanidade apresenta-se na Renascença como uma trajetória que vai do Jardim do Éden (um estado de natureza do qual foi excluído o casal original, com seus descendentes), passando por um estágio intermediário de dissociação e conflito (rivalidade entre Abel e Caim) até o ponto de chegada a uma cidade, a Jerusalém celeste. Essa alegoria é rica de significações imaginárias. Ela sugere o itinerário que a humanidade percorre do estado natural a um estado social, da natureza à cidade, da physis à polis. A cidade aparece aí como a meta final e apresenta-se como um lugar finalmente feliz onde as pessoas se encontram reconciliadas consigo mesmas e com a coletividade.

Contudo, essa imagem da cidade radiosa foi permeada por uma representação oposta onde a cidade é vista como espaço da perversão e maldição. Tal é a representação que se faz de Sodoma, Babel, Tróia, Roma. Em torno desses antípodas, outras imagens se insinuaram sobre a cidade. No Renascimento, a cidade aparece também como um corpo - quer adote deliberadamente a forma do corpo humano, quer esteja o corpo nela representado como metáfora. Ha também a imagem da cidade como figura geométrica, lugar da ordem, da orientação, do previsível e do racional. É a cidade vista pelos projetos de arquitetos e urbanistas utópicos que se esforçarão por elaborar uma outra representação da polis pretensamente neutra e funcional, modelando-se sobre esquemas mecânicos, medidas e proporções aritméticas. Estas formas abstratas e depuradas investem-se de uma pretensão de retirar o corpo da cidade de qualquer contato com o corpo fisiológico e carnal da terra e do homem. O projeto utópico inaugura, assim, a tirania da razão, ao pretender dobrar a realidade às suas leis. Nessa operação, suprime uma dimensão essencial: o tempo e a história.

[fim da página 217]

Há ainda o entendimento da cidade como uma rede de signos, devido ao papel que lhe é dado como meio e termo do itinerário humano através da história. Nesse sentido, a cidade é vista como um texto a ser decifrado. Como corpo, a cidade é vivida; como figura, pode ser descrita; como texto, é lida.

O texto de Dubois termina por concluir que o imaginário renascentista é predominantemente "diurno", tende para o lado da luz, representa-se na hora dos inícios: nascimento, auroras, primavera, infância e juventude. Nele, a razão não é mais um rosário de razões que se desfia, é uma dança do espírito discursivo que se coloca em êxtase divino, "juntando os modelos do ideal às figuras terrestres". Entende o homem como um indivíduo, responsável e capaz de agir sobre o mundo. O ato de conhecer no Renascimento resulta do reconhecimento de que desconhecer implica um erro do saber. "A relação dos homens com os objetos passa pela denominação e integração da "imagem" do mundo num sistema simbólico de representação. A objetividade renascentista afirma que a representação é, de fato, a ante-sala da designação. O acesso ao real passa pelo signo. A ausência de acesso direto ao real é a condição básica dos sistemas de representação, ao mesmo tempo que ocorre a desmitificação da ilusão especular que pretende criar o real tomando a sombra por uma vítima"(p. 242).

O belo texto de Dubois é um instigante convite para todos aqueles que desejam aventurar-se pelos caminhos ainda insondáveis da aventura da imaginação histórica. Questiona a lógica identitária, segundo a qual o logos é uma representação do eidos. Demonstra, enfim, como a racionalidade "científica" está permeada por manifestações fantasmáticas de um sujeito que se projeta no objeto.

NOTA

1) Professor do Departamento de Ciências Sociais Universidade Federal da Paraíba.


Índice Principal  |  Normas Para Publicação
Número 12 - setembro de 1996  |  Número 13 - setembro de 1997  |   Número 14 - setembro de 1998  |  Número 15 - setembro de 1999
Universidade Federal da Paraíba  |  Programa de Pós-Graduação em Sociologia - UFPb


Este site foi modificado pela última vez em 18 de Outubro de 1999, por Carla Mary S. Oliveira.

This page hosted by

Get Your Own Free Home Page


Hosted by www.Geocities.ws

1