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Pol�tica e Trabalho 13 - Setembro / 1997 - pp. 165-177


A ANTROPOLOGIA E OS NOVOS DESAFIOS NOS ESTUDOS DE CULTURA E POL�TICA(1)

Guita Grin Debert(2)


Falar de tend�ncias atuais de uma disciplina como a antropologia - cujo fasc�nio est� especialmente no fato de nunca ter se prendido a fronteiras geogr�ficas, tem�ticas e metodol�gicas - � correr o risco de privilegiar locais, m�todos e temas para a pesquisa antropol�gica. Por isso, dizer de onde se fala de novas tend�ncias e dos nossos desafios � uma das formas de evitar dissolver o charme de indisciplina que caracteriza a reflex�o antropol�gica. A �rea em que estou envolvida � a que, de maneira pioneira no Brasil, tem sido chamada de estudos da Cultura e Pol�tica. Esses estudos se institucionalizaram com os grupos de trabalho na ABA e na ANPOCS e constitu�ram-se em uma �rea de ensino e pesquisa no Programa de Doutorado em Ci�ncias Sociais da UNICAMP.

Posso resumir o argumento que venho defendendo na maior parte dos debates que tenho empreendido nessa �rea nos seguintes termos: os estudos e pesquisas na �rea de Cultura e Pol�tica no Brasil trouxeram frutos extremamente interessantes quando, analisando nossa pr�pria sociedade, constitu�mos os pobres, os desprivilegiados e as minorias �tnicas discriminadas em nosso objeto privilegiado de pesquisa, em nosso "outro". Com estudos minuciosos mostramos como esses grupos desafiavam as formas de domina��o de maneira inusitada pelas teorias sociol�gicas, que enfatizavam a fun��o homogeneizadora e opressora das tecnologia de poder. Atualmente, contudo, o desafio mais instigante da antropologia brasileira � a busca de acessos privilegiados para a compreens�o deste "n�s" que t�o prontamente opomos aos "outros", de forma a problematizar a familiaridade com que eles t�m sido tratados pelos antrop�logos e outros cientistas sociais. [fim da p�gina 165]

Considero que as discuss�es em torno da p�s-modernidade fizeram deste desafio um convite irrecus�vel para a antropologia, mesmo que ele j� tivesse sido colocado para a nossa disciplina muito antes do que o que se convencionou chamar de antropologia p�s-moderna ganhasse visibilidade.

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Quando penso em novas tend�ncias da antropologia tenho sempre como refer�ncia um artigo de Laura Nader, publicado em 1969, numa colet�nea organizada por Dell Hymes, intitulada Reinventing Anthropology (3). Nesse artigo � feito um apelo aos antrop�logos norte-americanos para que se voltem ao estudo de sua pr�pria sociedade, especialmente para a compreens�o de como o poder e a responsabilidade s�o exercidos nos EUA. Tr�s raz�es s�o alegadas pela autora para justificar a import�ncia desse novo programa de pesquisas: o programa teria um "efeito energizador" da disciplina; a antropologia estaria "cientificamente adequada" para tal empreendimento; e tratar-se-ia de um empreendimento que tem "relev�ncia democr�tica". Vale a pena retomar cada uma dessas raz�es que considero centrais na avalia��o de novas tend�ncias da disciplina, de novos programas de pesquisa ou de novos temas para a investiga��o.

Com a express�o "efeito energizador", Nader procurava chamar a aten��o para a import�ncia da indigna��o como um motivo na definic�o dos temas da pesquisa antropol�gica, lembrando que desde os primeiros estudos dos sistemas de parentesco e organiza��o social - como em Morgan, por exemplo - n�o esteve ausente a indigna��o com a forma pela qual os �ndios americanos eram tratados e expulsos de seus territ�rios. Entretanto, os jovens estudantes de antropologia norte-americanos n�o se voltam para pesquisas que provocam seus sentimentos de indigna��o. Os jovens antrop�logos sabem que existem problemas fundamentais que afetam o futuro do Homo Sapiens, mas ainda est�o presos a uma agenda de pesquisas que, depois dos anos 50, deixou de provocar esse tipo de emo��o.

A antropologia, de acordo com Nader, estaria especialmente qualificada para refletir sobre a forma como poder e responsabilidade s�o exercidos. Suas pesquisas sempre tiveram que ser ecl�ticas nos [fim da p�gina 166] m�todos utilizados, e sua abordagem do que est� envolvido na compreens�o da humanidade � ampla, posto que os antrop�logos se especializaram na compreens�o de culturas em contextos transculturais. Os antrop�logos aprenderam ainda a encontrar e analisar redes de poder, descrever costumes, valores e pr�ticas sociais que n�o est�o registrados em linguagem escrita. A leitura da quantidade avassaladora de material escrito, que institui��es poderosas produzem, ajuda pouco na compreens�o de como decis�es s�o tomadas no Congresso ou em uma empresa, de como determinadas pol�ticas s�o implementadas ou temas para pesquisa s�o definidos como priorit�rios, recebendo assim financiamentos espec�ficos. Para entender essas quest�es � preciso se debru�ar sobre redes de rela��es, valores e pr�ticas que dificilmente s�o identificadas no papel. Essa compreens�o exige o treino e a familiaridade com que o antrop�logo trabalha com o princ�pio de reciprocidade e com a dimens�o cultural, quando analisa pr�ticas que n�o podem ser explicadas como frutos de c�lculos racionais.

A "relev�ncia democr�tica" de tal programa de pesquisas, ainda de acordo com essa autora, estaria no fato de que o povo americano n�o conhece suas pr�prias leis e n�o sabe como funcionam as organiza��es burocr�ticas que usa. N�o podemos deixar que o aprendizado de nossos direitos fique inteiramente a cargo da m�dia. A antropologia pode e deve ampliar o escopo do seu p�blico, e est� bem equipada para descrever um sistema que se conhece vagamente e que tem um peso fundamental no direcionamento da nossa vida.

Esse tipo de proposta, no contexto norte-americano, causa ainda uma s�rie de obje��es, relacionadas com a id�ia de que o trabalho de campo - de modo a garantir o estranhamento - deve ser feito em uma outra cultura, de prefer�ncia n�o-ocidental. Nader considera, entretanto, que a pesquisa num banco, numa firma americana, num laborat�rio ou no Congresso pode ser para o antrop�logo uma experi�ncia mais bizarra do que uma aldeia mexicana.

Esse n�o � um problema s�rio para o antrop�logo brasileiro porque sempre por diferentes raz�es estudamos nossa pr�pria sociedade. No artigo "A pesquisa antropol�gica com popula��es urbanas: problemas e perspectivas", Eunice Durham, mostrou que, apesar de nossos "deslizes sem�nticos", fomos capazes de produzir uma nova e instigante antropologia de n�s mesmos, especialmente quando os grupos pesquisados pelos antrop�logos, e que eram vistos como marginais, ganharam centralidade na cena pol�tica emergindo como os [fim da p�gina 167] novos atores pol�ticos (4). Os estudos detalhados da vida nos bairros de periferia, dos novos movimentos sociais, da umbanda, das comunidades eclesiais de base, do pentecostalismo, feminismo e sexualidade ofereceram um novo panorama da vida pol�tica brasileira. O estilo quase desprovido de termos t�cnicos, com o qual apresentamos nossos dados, favoreceu o acesso a um p�blico que ultrapassa antrop�logos ou cientistas sociais; nossas discuss�es se ampliaram para al�m dos muros da universidade, com o consequente sucesso de uma disciplina que antes era vista como marginal ou menor nas Ci�ncias Sociais.

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Entretanto, o efeito energizador da antropologia norte-americana n�o veio do texto escrito por Laura Nader em 69, e sim do que mais tarde se convencionou chamar de antropologia p�s-moderna. Efeito energizador, talvez n�o no sentido que Nader tinha proposto; mas no sentido de que revitalizou a disciplina, dando espa�o para que uma gera��o mais nova de antrop�logos colocasse suas id�ias, criasse novos conte�dos para as pol�micas no interior da disciplina, elaborasse uma cr�tica � forma tradicional de fazer antropologia. Mostrou-se assim como a autoridade do antrop�logo � constru�da, operou-se uma revis�o definitiva da id�ia das culturas como totalidades aut�nomas e integradas e, sobretudo recolocou-se no cora��o da disciplina a import�ncia da cr�tica cultural. Mas houve uma despropor��o entre a paix�o vinda � tona na cr�tica do fazer antropol�gico tradicional e as alternativas encontradas (5). A alternativa foi basicamente textual: como criar uma nova maneira de escrever sobre culturas, incorporando no texto a consci�ncia de seus pr�prios procedimentos como, por exemplo, a polifonia e a rela��o dial�gica entre observador e observado. A cr�tica cultural foi uma promessa n�o realizada; n�o foi al�m de men��es vagas ao colonialismo e �s rela��es de poder que se estabelecem entre observador e observado.

Considero que a dificuldade de ir mais fundo na cr�tica cultural est� relacionada com o tipo de conhecimento que o antrop�logo tem da sua pr�pria sociedade. Os debates em torno da id�ia de p�s-modernidade mostraram definitivamente o quanto esse conhecimento � vago. [fim da p�gina 168]

Em outras palavras,todos n�s sabemos que:

Entretanto, o que talvez seja menos evidente � o quanto somos nativos das nossos pr�prias culturas e sociedades, quanto os nossos conceitos sobre elas s�o o que Geertz chama de "experience near concepts" (6), principalmente nos contextos em que a antropologia se desenvolve de maneira distanciada da sociologia, da ci�ncia pol�tica e da economia.

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No caso brasileiro, como estudamos nossa pr�pria sociedade, as no��es de totalidade e de cr�tica cultural se colocaram de maneira distinta. O nosso "outro" foram os grupos marginalizados, discriminados, explorados e por isso mesmo nunca perdemos de vista que eles eram parte de um sistema maior, o sistema capitalista, em um mundo globalizado e mundializado que perpetuava sua condi��o de dominados. Em certos momentos enfatiz�vamos os elementos que nas pr�ticas cotidianas reproduziam a domina��o, em outros privilegi�vamos as formas de resist�ncia � domina��o. Nossos dados permitiam n�o apenas o debate nas ci�ncias sociais, mas exigiam uma sofisticac�o dos grandes conceitos utilizados pelas teorias da Sociologia e da Ci�ncia Pol�tica, encarregadas das vis�es totalizadoras, das teorias acabadas da vida social.

Entretanto, meu argumento � que � preciso energizar a antropologia brasileira e que esse impulso energizador vem dos trabalhos que procuram, mais do que fazer uma antropologia p�s- [fim da p�gina 169] moderna, fazer uma antropologia da p�s-modernidade (7). O pr�prio desta nova tend�ncia � explorar o convite que a id�ia de p�s-modernidade faz a um novo programa de pesquisas emp�ricas, na medida em que chama nossa aten��o para a fragilidade dos conceitos que usamos para dar conta das mudan�as em curso, as quais caracterizam a vida social contempor�nea.

Em outras palavras, o pr�prio da no��o de p�s-modernidade �, por um lado, o questionamento da autoridade das meta-narrativas que orientavam a a��o sobre o mundo e a proposta de novas formas de representa��o de realidades e de novas maneiras de escrever sobre as culturas. Entretanto, por outro lado, � pr�prio tamb�m deste conceito o esfor�o de caracteriza��o das descontinuidades entre as institui��es e os processos sociais que marcariam uma ruptura com a modernidade. Na caracteriza��o destas descontinuidades n�o h� um acordo entre os autores: grande parte do debate est� centrado na quest�o de se saber se vivemos uma nova etapa do capitalismo; se passamos do capitalismo industrial para o capitalismo de consumo; da sociedade industrial para a sociedade informacional; se � correto falar de p�s-modernidade ou se seria mais apropriado entendermos a fase atual como de alta modernidade. �, no entanto, parte deste debate - em torno de saber se vivemos ou n�o uma fase suficientemente distintiva, merecedora de nova conceitua��o - o convite para um trabalho mais cuidadoso na caracteriza��o de processos de mudan�a, na identifica��o do que � novo na experi�ncia contempor�nea.

Ou seja, o conceito de p�s-modernidade tem exigido da parte dos cientistas sociais n�o apenas uma s�rie de reformula��es te�rico-metodol�gicas, mas tamb�m tem dirigido nossa aten��o e agu�ado nossa sensibilidade para um trabalho mais cuidadoso na caracteriza��o da experi�ncia cotidiana.

A antropologia, pelas raz�es mencionadas por Laura Nader, est� especialmente bem colocada para fazer face a esse convite, que envolve um conhecimento mais elaborado do "n�s" e das formas espec�ficas que a domina��o assume contemporaneamente. Contudo, atender a esse convite exige reformula��es na forma em que o trabalho antropol�gico vem sendo tradicionalmente realizado; demanda tamb�m revis�es nos instrumentos metodol�gicos e nos pressupostos �ticos com os quais temos trabalhado.

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[fim da p�gina 170]

Este convite requer, em primeiro lugar, uma refocaliza��o dos objetos tradicionalmente estudados pela antropologia urbana brasileira. Em um mundo em que globaliza��o e fragmenta��o se combinam de maneira inusitada, em que as fronteiras entre os grupos n�o s�o n�tidas, mas exaltam-se as particularidades e o conhecimento local, fica cada vez mais claro que n�o podemos nos limitar ao estudo de grupos que se definem como estando mais ou menos isolados.

O estudo de cada parte revela pouco sobre processos mais gerais que combinam integra��o e fragmenta��o. � preciso privilegiar as formas de interlocu��o entre esses grupos. Um bom come�o para isso, como tem mostrado Featherstone, � olhar com mais cuidado para o que ele chama de "intermedi�rios culturais". A massifica��o do ensino superior criou um sem-n�mero de profissionais com alto n�vel educacional, que t�m se especializado na produc�o de bens e de servi�os, e cuja marca fundamental � exigir a participa��o de agentes que gosto de chamar de "interpretativistas culturais". Entre esses agentes est�o desde os assistentes sociais, passando pelos criadores na m�dia e publicit�rios, at� os assessores do grande capital, cujos servi�os de consultoria implicam imaginar e definir qual ser� o comportamento de indiv�duos do outro lado do mundo, na Cor�ia ou no Jap�o, diante dos derivativos colocados no mercado financeiro. S�o especializados, portanto, na promo��o de uma interlocu��o entre os fragmentos, a qual, por sua vez, d� uma din�mica espec�fica a cada um deles. Para Featherstone, os intermedi�rios culturais s�o por excel�ncia os produtores, disseminadores e consumidores do simulacro e do conjunto de bens identificados com a experi�ncia p�s-moderna. Meu interesse � ressaltar essa caracter�stica de "interpretativistas culturais", a qual marca a atua��o destes profissionais nas empresas, em org�os do governo ou em associa��es da sociedade civil como as ONG's (8). Entender a l�gica pela qual eles estabelecem uma interlocu��o entre fragmentos aparentemente desconexos � um novo desafio para a antropologia.

A pesquisa sobre meninos de rua, grupos de idosos, minorias �tnicas ou moradores da periferia n�o pode se limitar a uma an�lise de representa��es ou a uma descri��o de estilos de vida destes grupos. Exige tamb�m que se leve em conta a trama institucional envolvida nos [fim da p�gina 171] espa�os percorridos por esses grupos (9). Os diferentes �rg�os do poder p�blico e as organiza��es n�o-governamentais, que atuam em cada um destes espa�os, competem por recursos materiais e pol�ticos para fazer valer sua agenda. As ONGs e as diferentes institui��es governamentais s�o compostas e t�m sua din�mica pr�pria dada por funcion�rios que n�o apenas v�m dos mesmos estratos s�cio-econ�micos, mas tamb�m fazem parte da mesma gera��o; e operam com o mesmo corpo conceitual e ideol�gico, pr�prio de um contexto em que houve uma massifica��o do ensino superior e a abertura de espa�os para novos tipos de profissionais. A competi��o por recursos que estes profissionais mant�m - na medida em que estes est�o alocados em diferentes instituic�es (governamentais ou privadas), que disputam o monop�lio sobre quest�es envolvendo as popula��es-alvo de suas a��es - � fundamental para entendermos a din�mica das representa��es e estilos de vida dos grupos tradicionalmente estudados pela antropologia.

Em segundo lugar, � preciso repensar na centralidade que a observa��o participante tem na definic�o dos projetos de pesquisa em antropologia; mais do que compreender o ponto de vista do nativo, � importante ver a forma espec�fica em que se d� a interlocu��o entre grupos, em um contexto em que as fronteiras perdem nitidez, enquanto a afirma��o das particularidades locais � exacerbada.

A defini��o dos temas de pesquisa n�o pode se prender � possibilidade de delimita��o de um lugar, em que a observa��o participante poder� ser realizada de acordo com os c�nones tradicionais do fazer etnogr�fico.

Os trabalhos antropol�gicos sobre a m�dia, ao elegerem os estudos da recep��o, fazem observa��es minuciosas sobre a reinterpreta��o das imagens televisivas por grupos sociais espec�ficos; neste aspecto, estes trabalhos foram fundamentais para rever a id�ia de que a ind�stria cultural produz uma cultura de massa homog�nea que p�e em risco a individualidade e a criatividade do receptor. O estudo da recep��o mostrou o papel ativo dos receptores na cria��o de novos [fim da p�gina 172] significados (10). N�o podemos supor, no entanto, que qualquer mensagem se presta a qualquer interpreta��o.

Esther Hamburguer, no estudo que empreende sobre a produ��o da mensagem televisiva, aponta o processo de interlocu��o entre emissores e receptores na produ��o da novela, atrav�s da an�lise de cartas, dados do IBOPE e especialmente da din�mica dos focus groups, criados para avaliar a recep��o das mensagens televisivas. Conta que no in�cio de sua pesquisa achou que haveria grande resist�ncia, por parte dos produtores da novela, para que pudesse assistir � grava��o dos programas, mas logo percebeu que o acesso �s grava��es era aberto ao pesquisador externo. O dif�cil era observar a realiza��o das pesquisas qualitativas de opini�o e a consulta de seus resultados, que � a forma em que se d� a interlocu��o entre os criadores da novela e seu p�blico consumidor. O acesso a esse material tornou poss�vel uma compreens�o mais completa de como o ponto de vista dos receptores da novela � nela incorporada; e como valores pr�prios do ide�rio feminista, por exemplo, combinam-se com a propaganda de produtos que s�o apresentados como maneiras ideais de liberar a mulher de seus afazeres dom�sticos (11).

Ou seja, quando o interesse � a interlocu��o entre os fragmentos � preciso procurar novos acessos para a pesquisa, e nem sempre esses acessos s�o aqueles que possibilitam a realiza��o da observa��o participante nos moldes tradicionalmente propostos pela pesquisa antropol�gica. Mais do que um lugar, precisamos de uma agilidade mais pr�xima daquela dos "intermedi�rios culturais" que tiveram em n�s, antrop�logos, os respons�veis por boa parte de sua forma��o profissional.

Em terceiro lugar, � preciso abandonar a id�ia de que � necess�ria uma identifica��o emp�tica com os nossos informantes, com a popula��o estudada, para apreender as categorias culturais atrav�s das quais ela articula sua experi�ncia social e ordena pr�ticas coletivas.

� necess�rio explorar o potencial da pesquisa antropol�gica para entender a l�gica a partir da qual os grupos mais poderosos operam, mesmo quando eles provocam nossos sentimentos mais fortes de indigna��o. Pode-se dizer que � nessa dire��o que Geertz aponta quando considera que uma etnografia do pensamento moderno � um [fim da p�gina 173] "projeto imperativo", mostrando o interesse do instrumental antropol�gico no estudo dos cientistas e acad�micos (12).

O potencial da pesquisa antropol�gica n�o pode, entretanto, limitar-se a mostrar como os cientistas ou os acad�micos organizam seu mundo de significados ou simplemente descrever o mundo em que esses significados ganham sentido. � especialmente importante analisar como esses significados afetam de maneiras distintas a nossa vida cotidiana e dos grupos tradicionalmente pesquisados pelos antrop�logos, politizando o debate em dom�nios que reagem veementemente a qualquer tentativa de politiza��o.

Minha pesquisa sobre a velhice teve in�cio com a descri��o de como os idosos representavam sua experi�ncia de envelhecimento, com a busca de locais como pra�as e jardins p�blicos, asilos e programas para a terceira idade. Entretanto, em um segundo momento, era preciso: refletir sobre o que tenho chamado de "Formas de Gest�o do Envelhecimento"; analisar como um saber, respaldado na autoridade da ci�ncia se constitui e transforma a experi�ncia da velhice em um assunto de experts, encarregados de definir n�o apenas quais s�o as necessidades dos idosos, os problemas que eles enfrentam na atualidade, mas que tamb�m se incumbem da forma��o de outros especialistas para atender a essas necessidades e resolver esses problemas; reconhecer que existiam for�as din�micas situadas fora dos grupos de idosos pesquisados - como os geront�logos, de um lado, e a m�dia, de outro - em um processo din�mico de interlocu��o que exige redefini��es constantes em seus respectivos discursos, ao mesmo tempo que disp�em de aparatos extremamente eficazes para divulg�-los. Esses discursos impregnavam a reflex�o de cada idoso sobre o que � a velhice e a sua experi�ncia pessoal (13).

Falar da velhice como um problema social n�o � apenas propor um combate aos preconceitos, ao isolamento e � solid�o, nem apenas sugerir formas de melhorar as condi��es de vida do velho pobre. � tamb�m fazer c�lculos dos custos financeiros que o crescimento da [fim da p�gina 174] popula��o idosa traz para a sociedade, transformando o envelhecimento em um perigo, em uma amea�a para a perpetua��o da vida social.

O discurso gerontol�gico � um dos elementos fundamentais no trabalho de racionaliza��o e de justifica��o de decis�es pol�tico-administrativas e do car�ter das atividades voltadas para um contato direto com os idosos. Mesmo quando o poder de decis�o n�o � do geront�logo, ele � o agente que, em �ltima inst�ncia, tem a autoridade leg�tima de definir as categorias de classifica��o dos indiv�duos e de neles reconhecer os sintomas e os �ndices correspondentes �s categorias criadas.

Institui��es sociais como a aposentadoria, criadas para gerir riscos, s�o transformadas em fontes de produ��o de outros riscos, considerados inviabilizadores do sistema. Da� a urg�ncia na compreens�o da l�gica que organiza suas concep��es do que � a boa vida e a dignidade humana, e na politiza��o desse campo que se apresenta como sendo de pura neutralidade cont�bil.

Tratar do envelhecimento, num contexto em que ele se transforma em um novo mercado de consumo �, tamb�m, perceber a cria��o de uma s�rie de etapas intermedi�rias que separam a vida adulta da velhice, como a menopausa, a terceira idade, a aposentadoria ativa. Neste contexto a juventude deixa de ser algo que se possui ou n�o, uma etapa no desenvolvimento de cada um, e se transforma em um bem, um valor que pode ser conquistado em qualquer momento da vida, independentemente da idade cronol�gica, atrav�s da ado��o de estilos de vida e formas de consumo adequadas.

A velhice pode assim ser transformada em amea�a � perpetua��o da vida social ou em uma responsabilidade individual, um problema dos indiv�duos que n�o souberam permanecer jovens, consumindo as tecnologias capazes de adiar indefinidamente os problemas do envelhecimento.

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No estudo dos grupos e institui��es mais poderosas, o potencial da pesquisa antropol�gica tem sido pouco explorado na an�lise dos conflitos e das disputas entre grupos dominantes, com o intuito de monopolizar e estabilizar hierarquias, e de como esses conflitos afetam a nossa pr�pria vida e a dos grupos tradicionalmente estudados pela antropologia. [fim da p�gina 175]

Esse novo desafio coloca quest�es que exigem uma revis�o dos pressupostos �ticos com os quais os antrop�logos tradicionalmente trabalharam. O problema n�o se reduz a tornar esse novo "outro" menos enigm�tico, como quer Geertz, mas politizar os campos em que eles atuam. Al�m disso, n�o se trata apenas de mostrar que os cientistas n�o t�m a neutralidade cient�fica pretendida, mas de analisar como os significados por eles produzidos afetam de maneiras distintas a nossa vida cotidiana e dos grupos tradicionalmente pesquisados pelos antrop�logos, redefinindo v�nculos sociais, projetos e expectativas.

A antropologia, explorando sua compet�ncia no desvendamento das l�gicas atrav�s das quais o "outro" opera, tem sua relev�ncia democr�tica na medida em que pode politizar o debate em dom�nios pouco constitu�dos politicamente, os quais t�m servido de oportunidade para o exerc�cio de magistraturas que se pretendem meta-pol�ticas.

Boa parte da discuss�o empenhada em caracterizar a experi�ncia contempor�nea se concentra na revoluc�o tecnol�gica que, a partir dos anos, 70 d� uma nova configura��o � produ��o de bens e �s formas de comunica��o: a massifica��o do acesso � m�dia eletr�nica, as novas tecnologias de comunica��o, a informatiza��o dos locais de trabalho e de outros espa�os.

Menos �nfase tem sido dada �s biotecnologias e �s formas como elas redefinem nossa vida. N�o se trata de dizer que essas tecnologias que envolvem a vida, o corpo, a sexualidade sejam monoliticamente demon�acas nem que tenham potencial como for�as libert�rias. Quando se fala em biotecnologias � sempre prefer�vel ser o mais concreto poss�vel.

Entretanto, quando olhamos para as novas tecnologias de informa��o, � poss�vel pensar em uma amplia��o e democratiza��o do acesso � informa��o. � poss�vel descrever um processo atrav�s do qual grupos exclu�dos passam a ser ativamente incorporados e t�m sua participa��o na pol�tica ampliada. As biotecnologias, entretanto, s�o um reino privilegiado para o exerc�cio de poderes que se pretendem politicamente neutros - da� a urg�ncia na compreens�o de como nesse campo o poder � instaurado e monopolizado - e do tipo de l�gica que organiza as concep��es de seus produtores sobre o que � a boa vida e a dignidade humana.

H� alguns anos era f�cil, nas associa��es de gerontologia, identificar a oposi��o entre m�dicos geriatras e geront�logos, cientistas sociais que, contra o determinismo biol�gico dos primeiros, [fim da p�gina 176] empenhavam-se em mostrar que a velhice � uma constru��o s�cio-cultural e hist�rica. Hoje essa afirma��o significa arrombar portas abertas, pois os m�dicos geriatras, os que praticam a medicina ortomolecular e especialidades afins radicalizaram a id�ia da constru��o cultural. Para eles a juventude, h� muito tempo, n�o � mais uma etapa da vida, um momento de passagem em um cont�nuo que caracteriza o desenvolvimento biol�gico universal e de cada um, como os cientistas sociais sempre se apressaram em mostrar. Na pr�tica, eles s�o hoje agentes ativos em propor uma parafern�lia de receitas de consumo e estilos de vida, que indicam que a eterna juventude � um bem, um valor que ningu�m pode pensar em desprezar.

Politizar os campos de saber, especializados em pr�ticas que reconfiguram o destino do Homo Sapiens, requer uma revis�o dos pressupostos �ticos da pesquisa antropol�gica, os quais tiveram como base o estudo de grupos discriminados e desprivilegiados. O C�digo de �tica dos Antrop�logos, elaborado pela Associa��o Brasileira de Antropologia, considera que as popula��es pesquisadas t�m direitos, tais como:

A relev�ncia democr�tica da antropologia exige que possamos denunciar pr�ticas que afetam e podem ser nefastas ao destino do Homo Sapiens. Para fazer a pesquisa com esses experts, n�o podemos dizer com clareza o que de fato estamos pesquisando, qual o objetivo e as hip�teses que organizam o nosso trabalho. Politizar as quest�es por eles tratadas � prejudicar a neutralidade pretendida dos dom�nios que eles controlam.

Em suma, acredito que a contribui��o da antropologia, no estudo dos processos de globaliza��o e mundializa��o, foi descrever as formas espec�ficas em que se operam as rearticula��es locais. O desafio mais instigante para os estudos de Cultura e Pol�tica, na atualidade, � procurar entender como se d� a interlocu��o entre os fragmentos em uma sociedade que tem, como condi��o de sua pr�pria reprodu��o e integrac�o, o acirramento das particularidades e a fragmenta��o do p�blico de consumidores. Se esse novo desafio exige a revis�o de alguns dos procedimentos cl�ssicos que marcaram a disciplina, a antropologia encontra-se especialmente adequada para responder a ele.

Notas

1) Texto apresentado na Mesa-Redonda Tend�ncias Atuais da Antropologia IV Reuni�o de Antropologia - Norte e Nordeste -Universidade Federal da Para�ba (Jo�o Pessoa - 28 a 31 de maio de 1995).

2) Professora do Departamento de Antropologia - IFCH/UNICAMP.

3) NADER, L. . (1969). "Up the Anthropologist - Perspectives Gained from Studying Up". In: HYMES, D. (ed.). Reinventing Anthropology. New York, Vintage Books.

4) DURHAM, E. R. . (1986). "A pesquisa antropol�gica com Popula��es urbanas: Problemas e Perspectivas". In: CARDOSO, R. (org.). A Aventura Antropol�gica. Rio de Janeiro Paz e Terra, 1986.

5) Ver tamb�m, sobre as cr�ticas � antropologia p�s-moderna, OLIVEIRA, R. Cardoso de (1988); PEIRANO, M. G. S. (1992); TRAJANO, W. (1988); CALDEIRA, T. (1988).

6) GEERTZ, C. . (1983). Local Knowledge. Further essays in interpretative anthropology. New York, Basic Books.

7) Ver a esse respeito FEATHERSTONE, M. (1995). A Cultura do Consumidor e o P�s-Modernismo. S�o Paulo, Studio Nobel.

8) Sobre o tipo de controle emocional que caracteriza esses profissionais ver LASH, S. e URRY, J. . (1994). Economies of Signs and Spaces. London, Sage.

9) Empresto a id�ia de "trama institucional" do trabalho de GREGORI Maria Filomena. (1994), "A Imprensa e os Meninos de rua", ANPOCS, em que � mostrada a competi��o entre diferentes institui��es p�blicas e privadas, que atuam nesta �rea, para fazer valer sua agenda, e como essa competi��o marca as representa��es e modos de vida dos meninos de rua.

10) Ver como exemplo LEAL, O. F. . (1986). A Leitura Social da Novela das Oito. Petr�polis, Vozes.

11) HAMBURGUER, E. . (1994). "Telenovelas, G�nero e Pol�tica no Brasil", ANPOCS.

12) GEERTZ, C. . (1983). Local Knowledge. Further essays in interpretative anthropology. New York, Basic Books. Ver, nessa linha de pesquisas, a tese de doutorado de PONTES, Heloisa Andr� . (1996). Destinos Mistos: o grupo Clima no sistema cultural paulista (1940-1968). USP/FFLCH; e a de CARVALHO, Cintia Avila de. (1995). Os Psiconautas do Atl�ntico Sul: uma etnografia da psican�lise. IFCH/UNICAMP.

13) Discuto essa quest�o em "O Discurso Gerontol�gico e as Novas Imagens do Envelhecimento". S�o Paulo em Perspectiva, Revista da Funda��o SEADE. S�o Paulo, outubro/dezembro de 1993, vol 7, n.4.

14) Cf. o C�digo de �tica da ABA.


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