O QUE É O AMOR?

             José Eduardo "Pitbull" parecia confuso naquele Domingo. Superanimado, desde que viera morar em minha república (o que não é muito fácil numa casa onde moram 11 pessoas), naquela noite ele parecia estar numa dúvida cruel.
           
Ouvindo a conversa entre ele e outros dois colegas de república enquanto eu assistia a uma conhecida figura da TV revelar o segredo de uma mágica, soube que meu amigo iria a um jantar do Dia dos Namorados com uma moça da igreja na semana seguinte. Resolvi, então, entrar na conversa.
           
No diálogo que se seguiu, percebi sua seriedade na situação. Ele tinha vontade de namorar, mas não queria naquele momento (a clássica luta Razão x Emoção). De qualquer forma, ele não parecia ter respostas claras sobre o que queria.

      -         Está disposto a aprender a melhor hora para namorar? - perguntei.
-         Estou.

Dono de um verdadeiro arsenal de livros a respeito de relacionamentos, fui até minha escrivaninha e peguei, instintivamente, o livro "Amar a Si Mesmo" de Walter Trobisch. Pitbull ficou assustado:

-         Mas este livro é para quem sofre de depressão. Eu não tenho dessas coisas...

Confesso que não tive uma resposta satisfatória naquele momento, porém, após alguma reflexão, posso explicar melhor.
            Nos evangelhos, podemos perceber o quanto Jesus vinculou a idéia de amor a Deus, com o amor ao próximo. Além do resumo dos mandamentos em Amar a Deus de todo entendimento, e Amar o próximo como a ti mesmo, podemos perceber em Mateus 5:23-25 quando Jesus declara ser mais urgente uma reconciliação do que uma oferta.
            Por aí, entendemos que o amor "vertical" (com Deus) depende muito do amor "horizontal" (comunhão e amor ao próximo). Mas há um lado pouco explorado (até ignorado) na igreja hoje em dia: o "como a ti mesmo".
            Pressupõe-se que amar a si mesmo é algo corriqueiro (o que explica a reação de meu amigo) e até pecaminoso (associado a ganância, soberba, arrogância, etc.). Porém, afirmo que, tudo isso, não passa de FALTA de amor próprio!
            Aposto que muita gente achou que falei uma heresia agora. Entretanto não quero dizer que nosso erro é afirmar que amar a si mesmo é mau, mas que, na verdade, parodiando nosso amado Mestre, pecamos em não conhecer as escrituras.
            Como assim? Minha proposta é dizer O QUE é o amor. Vejamos o que é o amor segundo I Coríntios 13:4-7:

1.      PACIENTE (ter pressa e furar fila NÃO É AMOR PRÓPRIO);

2.      BENIGNO (arriscar a vida NÃO É AMOR PRÓPRIO);

3.      NÃO ARDE EM CIÚMES (inveja NÃO É AMOR PRÓPRIO);

4.      NÃO SE TRATA COM LEVIANDADE (vício NÃO É AMOR PRÓPRIO);

5.      NÃO SE ENSOBERBECE (arrogância NÃO É AMOR PRÓPRIO);

6.      NÃO PROCURA SEUS INTERESSES (pisar nos outros para subir na vida NÃO É AMOR PRÓPRIO);

7.      NÃO SE CONDUZ INCONVENIENTEMENTE (fazer tudo que lhe falam para ter boa imagem com os amigos NÃO É AMOR PRÓPRIO);

8.      NÃO SE IRRITA (sair quebrando tudo ou gritando NÃO É AMOR PRÓPRIO);

9.      NÃO SE RESSENTE DO MAL (lamentar a vida toda por ter algum defeito ou doença NÃO É AMOR PRÓPRIO);

10.  NÃO SE ALEGRA COM A INJUSTIÇA (brincadeira de mau-gosto NÃO É AMOR PRÓPRIO);

11.  REGOZIJA-SE COM A VERDADE (ignorar seus pecados e deficiências NÃO É AMOR PRÓPRIO);

12.  TUDO SOFRE, TUDO CRÊ, TUDO ESPERA, TUDO SUPORTA (aceitar a si mesmo, procurar desenvolver-se, esperar em Jesus restauração e crescimento É AMOR PRÓPRIO);

Um argumento bastante usado à crítica do amor próprio está em Romanos 12:1-2 que diz que devemos oferecer nossas vidas como sacrifício a Deus. Usando o mesmo argumento, provo exatamente o contrário. Em Êxodo 29:1, Deus deixa claro que só aceita oferta de animais perfeitos, ou seja, que realmente tenham valor para o dono. Assim, seria bastante conveniente recrutar um suicida para ser missionário num país onde os cristãos correm risco de vida, mas sua morte teria pouco valor como sacrifício.
            A pregação do amor ao próximo tem sido substituída por "ame a teu próximo MAIS do que a ti mesmo", o que tem gerado culpa, falta de auto-estima, além de outras patologias não tão visíveis, como depressão e fardo pesado.
  
         Porém, ao tomarmos literalmente "ame a teu próximo como a ti mesmo", colocamos em perigo todas as pessoas próximas a seres humanos de pouca auto-estima (um bom exemplo são alguns desvios sexuais onde um dos parceiros num casal submete o outro parceiro a um tratamento de mesma baixa auto-estima). Logo, pregar o amor ao próximo só se torna lógico se não ignorarmos o amor próprio.
           
"Então é só me amar que estou pronto para amar!". De fato, essa é a resposta. Colocar um sino na coleira do gato para avisar que ele está próximo também é a resposta para um camundongo, mas isso não significa que o camundongo vai conseguir fazer isso...
           
O que quero dizer com isso? Certa vez, numa conversa com um amigo, ele lamentava por não ser conhecido como pessoa, mas pela sua formação e por sua família. Perguntei-lhe se tinha amor próprio e ele respondeu que sim, mas não gostava disso pois se sentia arrogante com relação à sua formação.
           
Nosso erro é confundir amor com paixão. A paixão é cega, não vê defeitos (o arrogante só é arrogante pois está apaixonado por suas qualidades), porém, o amor é diferente: ele está perfeitamente a par das limitações de sua atenção (o verdadeiro humilde conhece suas qualidades, mas reconhece seus defeitos). E é aí a grande dificuldade do amor próprio: auto-conhecimento!
           
No filme "A História Sem Fim", o herói deve passar por algumas provas para conseguir obter uma informação. Uma delas é passar pelo espelho da alma, que mostra à pessoa quem ela realmente é. Quando esta prova é mencionada, uma das personagens nem se preocupa, porém, outro, que conhecia a tarefa, mencionou que todos que passavam por esta prova saíam correndo apavorados.
           
Certamente, se conhecer é uma das tarefas mais difíceis do homem. Geralmente, tentamos nos esconder atrás de todo tipo de máscaras, como aluno esforçado, como bom cristão, como bom filho, etc. Mas a coisa que mais machuca num bate boca é ouvir uma dura verdade sobre nós. Desde a Queda, o esporte preferido do homem é se esconder e, consegue fazer isso tão bem, que consegue até esconder-se de si mesmo.
           
Enfim, quanto mais nos conhecemos, menos nos toleramos. É IMPOSSÍVEL O HOMEM AMAR A SI MESMO!
           
Então não há solução? Claro que há! Raul, um obreiro da ABU na região Sul do Brasil, durante uma oficina no Instituto de Preparação de Líderes, respondeu bem a essa questão com Mateus 3:17. Pela ocasião do batismo de Jesus, Deus declarou: Este é meu Filho, a quem amo, e nele, tenho prazer!
           
Graças à reconciliação através de Jesus, somos filhos de Deus, por quem somos amados e, em nós, Deus tem prazer!

            Lembro-me que houve um bom momento de silêncio após ouvirmos isso.

            De fato, só temos condições de nos amarmos pois Deus nos amou primeiro! A conseqüência mais imediata disto é que, uma vez restaurados, amamos com muito mais intensidade ao nosso restaurador (o que não entra em contradição com o primeiro mandamento de Cristo). A conseqüência seguinte é que, conhecendo nossas limitações e aceitando-as (o que não nos faz estagnar: por querermos o nosso bem, queremos nos aperfeiçoar), ao olharmos para o nosso próximo, acabamos por nos identificar com ele, o que gera um amor e uma comunhão que só o cristão pode ter (entrando em perfeita concordância com o segundo mandamento de Cristo).
           
Amor, realmente, não surge de uma hora para outra. Ele é cultivado dia após dia na caminhada com Jesus. Através da Bíblia e de uma vida de oração, você poderá se conhecer cada vez mais e, nesse diálogo com Deus, amá-lo ainda mais e, uma vez se conhecendo e a vontade de Deus, amar também a seu próximo.
           
O mais importante nesta caminhada que se inicia agora é: Deus te ama! Nunca tenha dúvidas disso, pois esta é sua arma mais importante, e a razão por Jesus morrer por você. Você está prestes a entrar num deserto, por onde passaram Moisés, João Batista e o próprio Jesus, deserto esse onde você irá crescer e conhecerá a Deus mais intimamente. Nunca tenha dúvidas da soberania de Deus pois tudo colabora para o bem dos que amam o Senhor.

            A lição mais importante deste capítulo é: 

            Ama a Deus acima de todas as coisas, pois Ele é Deus e lhe restaurou sua capacidade de amar e;
           
Ame a teu próximo como a ti mesmo, pois agora você pode fazer isso.


            Nos capítulos seguintes abordo as necessidades de crescimento. Chamo a atenção às dificuldades no processo e dou dicas de como enfrenta-las. Também falo sobre eventuais desânimos e como não devemos desistir.
            Se gostaria de conversar comigo mais a respeito do assunto, estou aberto a sugestões, críticas e conselhos (tanto para dar quanto para receber). Que fique registrado aqui: prometo sigilo. Mande-me um email!

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A Última Atualização foi feita segunda-feira, 28 de agosto de 2000 por Marcelo Sant'Ana

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