Em busca do Brasil legal
Era quinta-feira e eu tentava voltar do Rio, onde fora participar do novo programa de TV da Regina Casé, Muvuca, que deve estrear no fim do mês. Ficara lisonjeado com a possibilidade de ser entrevistado pela atriz, cujo trabalho admiro - principalmente seu papel à frente do Brasil Legal. Em meio a tantos escândalos e atos de violência, todos aparentemente endêmicos e atribuídos, sempre, ao caráter do País, Regina havia encarado uma questão difícil e, por isso mesmo, freqüentemente ignorada pelos intelectuais e pela imprensa. Qual seja: se o Brasil é tão horroroso, se não tem mesmo jeito, por que é que a gente gosta tanto daqui? E não adianta espernear tentanto negar tal afirmação porque, de um jeito ou de outro, a gente gosta desta terra "abençoada por Deus".
Sei que certos cenários e momentos da vida brasileira geram dúvidas e sentimentos de revolta profundos. Também sei - "please" - que a crítica constante e contundente é necessária e fundamental à nação. Mas existe uma certa unanimidade a respeito do "atraso" do País que nem sempre me parece muito inteligente e que Brasil Legal questionava de uma forma gostosa. O que não é lá tão fácil de se fazer. Ao falar bem da sociedade brasileira corre-se sempre o risco de soar ridículo e poliano.
Pensava nisso, como vinha dizendo, na quinta-feira, no saguão do ainda simpático Aeroporto Santos Dumont. Após dois dias e uma noite de espera no Rio, minha entrevista, que seria feita ao ar livre, fora suspensa em razão das condições climáticas. Chovia. O meu vôo, o de número 444, estava igualmente suspenso ou, para usar o eufemismo dos monitores do aeroporto, "atrasado". Os aviões não chegavam, nem saíam e o saguão se encontrava num estado de semicaos. Executivos falavam pelos celulares, a imprensa entrevistava bandas de rock (como viajam os músicos) e formavam-se filas para tomar café, telefonar e chegar aos balcões das companhias aéreas.
Eu fazia a minha parte, vigiando com afinco os monitores, mas o 444 não saía do antepenúltimo lugar na fila de partidas e, após algumas horas de aflição, resolvi relaxar. Almocei demoradamente, quando, de repente, me dei conta de que havia abandonado o posto por um período prolongado demais. Corri até o primeiro monitor onde vi o que mais temia: o 444 sumira. Partira? Fora cancelado?
Entrei em pânico. Esperar seis horas no aeroporto para perder o vôo era uma hipótese impensável, mas possível no meu caso, como bem sabe quem me conhece. Perguntar no balcão da Varig era impraticável: estava lotado de gente. Comecei a pedir informações a quem estivesse de uniforme: seguranças, faxineiros, até chegar a uma funcionária da linha aérea que me sossegou. "Calma", dizia, com arrastado sotaque carioca. "O senhor não perdeu o vôo; basta ir até a sala de embarque que vamos atender os passageiros por ordem de chegada."
Em outras palavras, era salve-se quem puder. Será que não valiam nada as minhas seis horas de espera!? Tive uma súbita vontade de insultar o País, mas a reprimi por motivos de ordem ideológica. Para dizer a verdade, acredito que peguei o primeiro vôo daquela tarde. Tantos passageiros haviam abandonado o aeroporto que o novo esquema acabou funcionando com certa justiça. O Brasil, lembrei-me, era bom em matéria de improviso.
Sentei-me entre uma moça parecida com a Sandra Bullock e o gerente de Marketing da Ballantines no Brasil que, enquanto o avião não saía (o aeroporto permanecia fechado), explicou que a segurança dos milhões de litros da marca escocesa de uísque era feita exclusivamente por gansos. Como não acreditei na história - parecia ter saído da literatura hispano-americana -, ele me deu um broche em formato de ave. "Este é o símbolo da empresa."
Cheguei a Congonhas na hora do rush e com uma vontade louca de fumar. Fiz um sinal para um táxi e apontei o cigarro aceso na minha mão, como quem dizia, só se puder fumar. O taxista respondeu levantando a mão e apontando para um cigarro aceso também. A vida começava a melhorar.
O motorista se chama Sumida. É nissei e falava japonês pelo celular. Divertiu-me com histórias dos japoneses que leva a feijoadas e jogos de futebol, até chegar à minha casa após uma viagem de quase uma hora. Lembrei-me de uma comparação entre Estados Unidos e Brasil, feita por Tom Jobim: "Lá é bom, mas é uma m... Aqui é uma m..., mas é bom."
Matthew Shirts