Cadê o papelzinho?
Quem tem hoje mais de 30 anos deve lembrar-se do fim do papel. Não sei exatamente quando foi, uma década atrás talvez, talvez um pouco mais. De qualquer forma, editores, publishers e especialistas diversos avisaram naqueles tempos que num futuro próximo o papel perderia grande parte da utilidade. O mundo, previram, passaria a ser digital e o que, até então, fora feito com lápis, caneta, pincel e máquina de escrever, fotolitos, etc., seria elaborado na tela do computador e consumido mais ou menos da mesma forma. Os dígitos, em outras palavras, tomariam o lugar dos átomos.
Isto tudo pode não emocionar quem nunca trabalhou no ramo editorial, mas para os que ganhavam o leite das crianças com uma ou mais fases desse processo as notícias poderiam ser - e eram - alarmantes.
Muita gente perdeu o emprego com a chegada dos computadores, que simplificaram a feitura de jornais e revistas. Se bem que, antes da tecnologia digital, as publicações saíam no prazo do mesmo jeito.
Ao prever o fim do papel, os futurólogos de plantão, para usar uma daquelas expressões, estavam certos, pelo menos em parte. Ou seja, o mundo tornou-se digital, mas o papel não desapareceu, apenas diminuiu de tamanho. Basta pensar na quantidade de papeizinhos que um cidadão de classe média vai acumulando ao longo de um dia comum nas trincheiras do trabalho e do consumo para concluir que os dígitos não substituíram os átomos inteiramente.
Historicamente, o advento do papelzinho no Brasil precede o computador e pode ser atribuído às boates, creio. Ou seja, às casas noturnas que monitoravam o consumo de cada freguês por um cartão carregado pelo próprio.
Com o tempo, algumas padarias aderiram ao procedimento. Não são todas, mas muitas lhe dão uma folha de bloquinho logo na entrada, sem a qual você não consegue sair depois. Sim, aquela onde anotam os seus pedidos: um pão com manteiga, uma média, um suco de laranja...
Já perdi o tal do papel - mais de uma vez, aliás - e sei que as conseqüências não são assim tão graves. Basta enfrentar alguns olhares de reprovação e reiterar o que foi consumido. O ruim mesmo é ter de preocupar-se com o papelzinho. Durante um café da manhã comum numa padaria dessas, chego a me perguntar três ou quatro vezes: "Caramba, cadê o papelzinho?" Costumo achá-lo dentro do caderno Esportes ou, às quartas, no Caderno 2, perto da crônica de Mario Prata. Mas, às vezes, acaba-se extraviando mesmo.
Aí tem o papel do estacionamento. Não é o pior, mas preocupa bastante quando é recebido logo cedo. Se tomar um rumo desconhecido, o que não é impossível se cair nas mãos de um indivíduo torrético (como eu), o dia já se definiu.
Vai ser necessário explicar-se diante do gerente, apresentar o documento do veículo (que se encontra fechado na porta-luvas, provavelmente) e pagar uma multa altíssima. Tudo isso leva tempo, é claro, e tende a ser acompanhado de uma ligeira depressão por parte do proprietário do automóvel. Antigamente dava para apontar a chave, pendurada na parede entre outras, negociar o preço, pagar e sair na boa, como diria Fernanda Abreu. Não mais. Hoje em dia é preciso "dar baixa no computador".
Quem for almoçar no restaurante de comida por quilo, então... Vai encontrar outro papelzinho à sua espera, oriundo de uma balança digital. Acho, até, que a diferença básica entre "o quilo" e o serviço a la carte é que, naquele, você é obrigado a guardar o papelzinho; neste, o garçom fica com ele. E se você perder o papelzinho do quilo vão achar que comeu não sei quantas gramas de beterraba, cenoura ralada, arroz, feijão e lingüiça ressecada sem nem falar do número de refrigerantes dietéticos. Negociar a conta sem o papelzinho deve ser um pequeno pesadelo. Ou algum de vocês consegue lembrar com precisão quanto pesou o seu almoço?
E tem mais. O papelzinho do cartão de crédito, os comprovantes eletrônicos da loteria, o recibo dos depósitos feitos no caixa 24 horas, a já mencionada cartela de consumação no bar (explicar que a sua amiga chegou naquele estado de embriaguez após três cervejas, apenas, não é fácil). Sem falar dos recibos do estacionamento do banco e do supermercado, que sempre esqueço de carimbar.
Não sei por que os economistas não estudam esse tipo de coisa.
Reconheço que nem todos esses papeizinhos são fruto do computador. Mas todos resultam de uma mentalidade em que o consumidor passou a ser responsável pela contabilidade das empresas, ao invés do contrário. E, com isso, o cotidiano da economia vai-nos deixando um pouquinho mais louquinhos todos os dias. Daí a necessidade de Lexotan, Prozac, Viagra e outros do gênero. Ou sou só eu que não nasci para isso?
Matthew Shirts