A pequena torcedora do governador
Entre as notícias da semana que chamaram a minha atenção, uma me comoveu particularmente. Não, não foi a classificação do Corinthians, embora esta tenha me deixado contente. Fiquei emocionado mesmo foi com uma historinha que li primeiro aqui no Estado, depois na Folha, e ouvi relatada, também, no rádio. O motivo de tanta comoção ficará claro mais para frente.
De acordo com o noticiário da imprensa, uma menina de 8 anos, identificada como M.A. ou Maria de Almeida, internada no Incor para uma cirurgia no coração, preocupou-se com o estado de ânimo de Mario Covas, seu vizinho de andar no hospital, e escreveu-lhe um bilhete desejando boas melhoras. Disse ter "votado" no governador na última eleição e sublinhou a necessidade de uma rápida recuperação para que Covas voltasse a comandar o Estado.
Comovido com o gesto, o governador fez uma visita ao quarto da garota (604), agradeceu o carinho e, segundo os relatos, chegou a mostrar as cicatrizes de uma cirurgia de coração que ele próprio sofrera há coisa de alguns anos.
Sei que a história parece coisa de Hollywood, da Rede Globo ou de um filme de campanha, meio piegas e, por isso mesmo, um tanto quanto suspeita. Afinal, crianças de 8 anos dificilmente votam e não são todas que, diante de uma cirurgia cardíaca, encontrariam a coragem e a iniciativa necessárias para mandar um recado a uma autoridade pública.
Mas foi isso mesmo que aconteceu, posso garantir. Eu estava lá e acompanhei o desenrolar dos acontecimentos desde o início. Não prentendia escrever nada sobre o caso, mas já que a história vazou para a imprensa, faço questão de contar a minha versão.
Logo que foi internada no sexto andar do Incor, M.A., de 7 anos, soube que Mario Covas, sofrendo de graves problemas de saúde, se encontrava num apartamento do outro lado do corredor. Covista convicta, daquelas que torcem com garra durante todos os debates, Maria ignorou os protestos veementes da sua avó Ivone e, na primeira oportunidade, saltou da cama e saiu em busca do governador. Foi barrada na porta do apartamento, com jeito, por um segurança, que lhe explicou a impossibilidade de falar com o chefe naquele momento.
Diante da negativa, Maria não se deu por vencida. Voltou para o seu quarto, chamou a enfermagem, solicitou papel e uma caneta e escreveu do próprio punho (se a memória não me falha): "Dr. Mario Covas, também sou paciente aqui no Incor. Eu soube do seu problema. Votei no senhor. Estou rezando para o senhor melhorar rápido porque precisa voltar a governar o estado. Eu moro no 604. Boas melhoras, beijos, Maria. Vire o papel para ver os desenhos do outro lado."
Do outro lado da folha, Maria desenhou uma estrela, um coração e um beijo, acompanhado da palavra "smak". Logo depois, deixou a cama novamente, correu até o segurança e pediu que ele entregasse a carta a Mario Covas. Alguns minutos mais tarde, um assessor chegou ao 604 para dizer que o governador ficara comovido com a correspondência e viria até ali agradecer a Maria pessoalmente.
E para o espanto da criança (que se diz "ultrajovem") foi o que aconteceu. Ela ficou tímida, quase sem saber o que dizer. Mas conseguiu explicar ao governador que seria submetida a uma cirurgia de coração no dia seguinte. Covas, por sua vez, procurou confortá-la.
Contou que ele mesmo havia sofrido uma operação de coração, que era uma coisa tranqüila: ela não precisava preocupar-se, enfim. Fez, ainda, um gesto de quem iria mostrar as suas cicatrizes, mas desistiu de abrir o roupão no último momento, com receio, imagino, de impressionar a criança. Mais do que sensível, o governador foi um amor mesmo.
O encontro dos dois ocorreu na terça-feira. Desde então, Covas solicita informações sobre o estado de saúde da Maria, que está ótima, em franca recuperação, graças a Deus e aos maravilhosos médicos e enfermeiros do Incor. Torço muito para que o governador tenha a mesma sorte.
Só mais uma coisinha. M.A. é, na verdade, Maria de Almeida Shirts, a minha linda filha caçula.
Matthew Shirts