O Dia Oficial da Amante?
De carro, terça-feira, à procura de uma agência dos Correios, ouvi do locutor do rádio, uma frase que me soou insólita. Devo ter entendido errado, pensei na hora, e deixei a questão para lá, mais preocupado que estava com a postagem da minha correspondência.
Confesso que gosto de ir ao correio, perguntar quanto custa mandar uma carta deste ou daquele jeito, conversar com as moças, olhar um ou outro selo. Existe um ritmo um tanto quanto antigo e gostoso nessa forma de comunicação pré-digital, pré-telefone, fax, bip, celular. Um conforto em ver as próprias palavras e preocupações manuseadas por mãos de gente.
A carta iria para os Estados Unidos. Via Sedex custaria R$ 21,00; pela via normal, R$ 1,05. Escolhi a segunda opção, já que a Miriam me garantiu que chegaria ao seu destino em apenas uma semana. Uma demora até agradável, pensando bem. Não sei por que tudo precisa ser instantâneo e simultâneo nos dias de hoje - fenômeno este que, estranhamente, passou a ser chamado de "real time". A impressão que se dá é a de que todo mundo quer falar tudo ao mesmo tempo. Haja ouvidos... E assuntos.
Já de volta ao carro, liguei o rádio outra vez e lá estava a frase novamente: "Hoje - terça, no caso - é o Dia Oficial da Amante". Isso mesmo, da amante, aquela com quem se comete o adultério, entre outras "cositas más". Desta vez, não havia dúvida. Tinha entendido direitinho. O locutor até gracinha fez, dedicando uma música à Monica do Clinton.
O Brasil não cessa de me surpreender nunca, pensei em inglês. Sou da terra que inventou, se não me engano, o Dia dos Pais, das Mães e das Secretárias - que, com o politicamente correto, passaram a ser chamadas de assistentes administrativas e talvez tenham perdido o seu dia, sei lá.
De qualquer forma, conheço bem o costume de homenagear tipos de relações e profissões por meio de datas, que é, diga-se de passagem, comercial na sua origem.
Mas o Dia Oficial da Amante? Mais uma vez o Primeiro Mundo curva-se diante do Brasil. Duvido que exista em qualquer outro lugar do mundo. Só este país para misturar o formal e o informal - para não dizer ilícito - de uma forma tão explícita.
Explicar a data aos americanos seria uma tarefa quase impossível, ponderei, parado ali na Heitor Penteado. Só mesmo num curso de brasilianismo avançado nas melhores universidades...
Eu mesmo - e, olha, moro aqui há mais de 15 anos - tenho as minhas dúvidas a respeito da data. Em primeiro lugar: quem decide essas coisas? O Congresso Nacional que não é, muito menos o presidente da República. Cai sempre na mesma data? Ou é observado na penúltima terça-feira do mês (já que deve ser mais complicado sair para comemorá-lo aos fins de semana, imagino)? Alguém pensou nesta questão ao "oficializar" a data? Quem será, caramba?
Pelo jeito, a data "pegou". Não se falava em outro assunto no rádio, com direito a ligações telefônicas dos ouvintes e tudo! Como é que "pega" uma coisa do gênero - qual é o mecanismo cultural que torna viável uma iniciativa dessas? Corre o risco de virar feriado ou, ao menos, ponto facultativo?
Os maridos não levantam suspeitas ao dizer que chegarão em casa mais tarde que de costume, justo no Dia Oficial da Amante? Vale para os amantes, também? Ou: "Você será sempre a única"? E quem tem mais de uma, como é que faz?
Reconheço que tais indagações podem soar um tanto ingênuas. Mas a cultura brasileira nunca é, nem nunca será, inteiramente compreensível para quem vem de fora ou até para quem é daqui, desconfio.
Na mesma terça-feira, batia um papo com Gilberto Vasconcellos, amigo meu e grande sociólogo, que insistia na tese de que o País é extremamente moralista. Discordo dele nesse ponto. E tive, confesso, um certo prazer em informar-lhe que estávamos conversando durante a tarde do Dia "Oficial" da Amante. Momentaneamente desarmado, só lhe restou dar uma risada, encerrada com a frase: "Genial, o Brasil é genial."
Matthew Shirts