A ror de Ur

A imagem do meu pai, para mim, foi, é e continuará sendo a de um homem sentado, compenetrado, fazendo palavra-cruzada. Gosto de olhar para ele quando ele está fazendo palavra-cruzada. Tinha uns 8 anos quando pedi que me ensinasse a fazer. Aquilo devia ser bom. Todo dia. Sagrado.

- Você não vai entender. Tem de saber palavras difíceis.

Acabei crescendo, aprendendo e conhecendo quase todas as palavras difíceis. Confesso, sou viciado. Também em paciência. Adoro joguinhos, já tendo, até, inventado alguns (teve um que eu quase patenteei). E o que mais me atrai (e intriga, ao mesmo tempo) nas palavras-cruzadas são certas palavras. Palavras que você só encontra lá. Rios e cidades. Definições definitivas. Palavras e coisas que ficaram paradas dentro dos quadradinhos da brincadeira.

Você conhece alguém que já foi a Ur, cidade da Caldeia? Que passou a lua-de-mel lá? E você nem imagina que a Caldeia é uma região da Suméria, na baixa Mesopotâmia. Os caldeus estiveram lá no século sexto. Antes de Cristo. Tenho a impressão de que, se a Stella Barros organizar umas excursão para Ur, vai lotar de cruzadistas.

E ror, pode? Ror é multidão. Já pensou os locutores esportivos? Aqui no Maracanã está uma ror incrível. Se a ror se revoltar pode se transformar, rapidamente, numa turba. E, no meio de uma turba dessas, é bem provável que você encontre pessoas com aca, mau cheiro. Já pensou: hoje no metrô tava a maior aca!

Omã é uma cidade do sultanato do Golfo Pérsico. Parece nome de remédio para azia: sultanato pérsico. Fica na Ásia e sua capital é Mascate, que deve vender muito petróleo.

Está gostando do teor, conteúdo do texto?

Tem dois rios que me intrigam e só mesmo nos mapas das cruzadas. Um é o Apa, rio na divisa do Brasil com o Paraguai. Nunca soube de alguém que tivessem atravessado esse rio, com contrabando ou sem contrabando. Outro riozinho doído é o Aar, rio da Suíça. Também, nunca cruzei com ele na Suíça. Também nunca estive na Suíça, acabo de lembrar. Vai ver é manjado paca.

Por que será que dão tanta bola para o aru, sapo amazônico, e o apar, tatu-bola? Eu nem sei o que é tatu-bola, quanto mais apar. Você já viu algum apar na sua vida? Assim, passeando pela Avenida Paulista?

Escumilha é ló. E escumilha pode ser um tecido ou pode ser aquele chumbinho pra espingarda de pressão. Isso, é claro, nas cruzadas. Nunca pus ló na minha espingardinha.

Pra mim, mulher de elefante é elefanta. Não é, não. É alia. Com acento no i. Mas parece que é só no Sri Lanka. E por que é que você tem de saber isso? Será porque a KGB (ainda?) é rival da Cia? Ou porque toda Madame é Min? Me parece tal, análogo. Será? Afinal, toda tribo é nômade e Raymond Aron é um sociológo francês. Aliás, muito mais filófoso que sociólogo.

Duvido que você, quando criancinha, tenho tido uma aia. Muito menos aio. Não conheço ninguém que tenha começado uma frase assim: aí, então, o meu aio disse.

Notou que eles adoram afirmar que máquina de tecelagem é tear? Tanta máquina nova por aí e os caras continuam adorando um tear.

Qual é exatamente a peça que é o elo, argola de cadeia? Onde fica? Será ele o tanto procurado elo perdido? O quase único osso do nosso corpo é o úmero. Às vezes pinta um fêmur, diria um vate, profeta.

Qual é exatamente a peça que é o outro elo, parte de uma corrente? É a que ata, amarra?

Se você decifrou o texto até aqui, é porque você leu. Decifrar é só isso, aqui: ler. Cuidado com o miura, touro feroz. Isso, se você caiu na minha isca, engodo para pesca. Será por que toda a índole do samaritano é boa?

E por que que toda-poderosa é rica?

E o prazer de todo intelectual não é só ler, não. É fazer palavra-cruzada. E crônica.

Mario Prata

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