Cinema

Foi em Betim, ali, perto de Belo Horizonte, que o fato se deu. Foi na sexta-feira e, no sábado, estava nos telejornais. Com destaque.

Um bandido foge da polícia, a pé. Os policiais atiram. Uma bala acerta a barriga do fugitivo. Sangue, muito sangue. Reunindo suas últimas forças, ele invade uma casa. Estamos num bairro pobre da cidade industrial. Dentro, a mãe de quatro filhos, com os quatro. Todos pequenos. Um de colo, um de um ano e meio. A mais velha - a garota de Betim - tem 6, 7.

Os policiais cercam a casa. Armas pesadas, helicópteros. Chega a imprensa, a televisão. Luzes, negociações. Negociações que iriam durar cinco horas. Cinco!

O bandido libera a mãe e os filhos maiores. Mas fica, usando como refém e escudo, com o caçula de um ano e meio.

Pára o bairro, pára a cidade. Belo Horizonte acompanha, ao vivo, o desenrolar do filme brasileiro. Dentro da casa, longe das câmeras, o bandido está com uma arma encostada na barriga da criança. A criança a gritar "mamãe, mamãe". Fora, mamãe chora, prevendo o pior. Fora, mesmo na agonia, a mãe nota a ausência da filha mais velha, aquela de 6, 7 anos. Dentro, o sangue desliza pela cama e pinga no chão de cimento.

O que ninguém sabia: a garota de Betim estava também dentro da casa.

Mais precisamente debaixo da cama. Da mesma cama onde o bandido, apontando a arma para o irmãozinho, discutia com a polícia. A garota de Betim mal respirava, diria depois.

O sangue jorra da barriga do bandido. Entra um policial disfarçado de enfermeiro e aplica uma injeção nele. Era um sonífero, o bandido cai, dormindo, na cama. A polícia entra, salva o pequeno refém. O bandido estaria morto, logo depois.

E a garota de Betim entra em cena saindo do seu esconderijo. Durante cinco infindáveis horas, ela ficou lá quieta. Nem um pio, como se diz em Minas, uai.

Luzes nela. É a heroína. Dá entrevistas. Conta as cinco horas de pavor imóvel. E diz: "Não fiz nenhum barulho porque tinha medo que ele me descobrisse e matasse o meu irmão."

O medo não era dela ser morta. Mas o irmão.

Essa garota, a garota de Betim, me emocionou. Sozinho em casa, sábado de noite, surpreendo-me com aquelas gotas paralelas a escorrer no meu rosto. O Brasil tem jeito, pensaria, logo depois, ouvindo a campanha do Duda Mendonça para governador.

A garota de Betim, nesta semana que antecede o segundo turno, tenho certeza, não sabe quem são azeredos ou itamares ou itapiores, como diriam os irmãos Caruso. A garota de Betim não sabe quem de quem são aquelas covas e muito menos quem é o novo governador de São Paulo, o Duda Mendonça.

A garota de Betim não sabe nada do jogo da política. Ela só conhece o jogo da vida. E da morte.

O que será que não se passou na cabeça dela durante aquelas cinco horas de horror? Imagine-se, você, no lugar dela. A gritaria que ela ouvia lá debaixo. O homem dizendo que ia matar o bebê. Ela, quieta. Não por ela, mas pelo irmão. Não por ela, mas por alguém que ela ama.

É, parece que vem por aí uma nova geração de brasileiros, porque a atual não deu jeito mesmo. A atual está viciada. A atual acha normal a corrupção, o voto útil, a sonegação. Na atual, irmão entrega irmão para a capa da Veja. A atual suborna, trai, está vendida.

Ali, debaixo daquela cama de Betim, pra mim, nasceu um novo Brasil. Um Brasil honesto, humano, solidário. Esperto, inteligente. Sem grana, mas com a maior dignidade.

No momento que escrevo isso aqui, a garota de Betim deve estar na escola, no primeiro ano primário, contando a sua aventura para as colegas, pobres como ela. Mas virgens, puras, novas. Elas sabem que bem perto delas, está o bandido. E elas sabem enfrentar o bandido.

Pena que ela não seja candidata a nada. Ou melhor, ela é candidata, sim. Ela é candidata a ser uma brasileira maravilhosa. Pobre, corajosa e com um coração imenso. Como, aliás, a grande maioria das mineiras e das brasileiras.

Ali, debaixo daquela cama, tinha uma pessoa extraordinária.

Choro por ela e pelo meu Brasil que, um dia vai sair de debaixo da cama. Preocupado com seus irmãos e não com o próprio umbigo.

Mario Prata

volta

 

Hosted by www.Geocities.ws

1