Brasil, este imenso mictório
Fico a me perguntar: por que é que todos os banheiros de bares, padarias, rodoviárias, botecos, estradas, postos de gasolina são imundos? E bota imundo nisso. Já notou?
Não se pode querer ser de Primeiro Mundo fazendo as nossas principais e primeiras necessidades no Terceiro. Nem no terreiro.
Só no Brasil ainda se usa (ou se usam?) aquelas caixas de descarga penduradas lá em cima, sempre pingando, mesmo antes de a gente puxar a cordinha de náilon vermelha (de vergonha), com um nozinho na ponta, geralmente muito ao alto.
Se bem que nem precisava. São raros os que costumam dar descarga. Nada mais desagradável do que você levantar a tampa (quando tem, é claro) e dar de cara com a cara do outro lá dentro.
O chão está sempre molhado. Sempre. Aqui, não temos exceções. Nunca saberemos se é a urina de terceiros ou algum vazamento. Sim, porque você vai cedo num banheiro e a água já está lá. Um mistério. Ninguém sabe de onde vem. Mas ela não falta ao serviço.
E tampa, então? Um luxo. Nunca tem. Quando tem, está molhada, se está limpa (milagre) você senta e leva uma mordida na bunda. E a pia, pingando, como a rir da sua cara.
(Desculpe se estou sendo meio escatológico, mas, se você veio até aqui, agora vá até o fim. Não se deve cortar um assunto como este pela metade.)
E o papel higiênico (veja o nome: higiênico)? Não tem. Às vezes, há uns pedaços de jornal picado, mas quem é que se atreve a passar a cara do Sergio Motta em nossas íntimas partes. Fora que sai tinta. Quando tem (papel), ou é daqueles cor-de-rosa que são uma verdadeira lixa ou daqueles tão fininhos que, literalmente, derretem na mão da gente. Que trabalho, que obra que dá. E há uns cidadãos tão simpáticos e engraçadinhos que ainda nos fazem o favor de urinar no rolo. Isso quando o rolo não está lá em cima, na janela (quando tem janela). E você, desavisado, pega o rolo e aí o rolo está formado.
Para você enfrentar um banheiro público (ou privada) no Brasil, na saída deveria tomar uma ducha. E uma boa lavanderia.
O Brasil é mesmo um imenso mictório.
Um povo que não pode fazer suas necessidades básicas nunca será um povo básico. Isso é básico.
Bidê, então, nem pensar.
Exijo respeito com a minha bundinha.
O pior é que eles vão piorando conforme o dia ou a noite avançam. De madrugada, você ainda tem que conviver com o regorjito de alguém. Não sei por que, mas nos banheiros aos quais eu estou me referindo o cidadão prefere vomitar na pia. Notou? Freud talvez explicasse.
E os símbolos nas portas de entrada? Homem-Mulher, Cavalheiros-Damas (como é que um cavalheiro ou uma dama vão adentrar ali?), Ele-Ela. Há uns mais sofisticados que colocam um bigode e um lábio com batom. Outros, um salto e uma botinha. Só que, depois do terceiro uísque, o cara já não sabe distinguir mais o que é bota ou o que é salto alto.
Há as exceções. São os restaurantes caros. Mas você tem que, primeiro, gastar R$ 200 para, depois, vir aquele velhinho a lhe oferecer chicletes, camisinhas, balas, pente, pílulas, engov, sonrisal, desodorante, pasta de dentes, modess, o escambau. Ele é tão submisso que, se você pedir, ele te limpa.
E as frases e os desenhos? Meu Deus. Olho aqueles órgãos todos e fico imaginando o tamanho do pênis dos camioneiros. Negócio pra mais de 50 centímetros. Sinto-me humilhado. Claro que ninguém consegue escrever na porta do banheiro nada que não seja escatológico.
Quanto ao cheiro eu não vou entrar em detalhes. Vou poupá-lo, mesmo porque você conhece muito bem o odor daquilo.
Será que a sujeira e o mau cheiro que encontramos ali é mesmo um retrato do Brasil?
O Luis Carlos Paraná, o meu querido e inesquecível Paraná, quando inaugurou o Jogral da Avanhandava, resolveu entregar o banheiro já com as frases escritas. Pediu a minha colaboração. E eu dei. O sujeito entrava, levantava a tampa e, na parte interna, estava escrito:
- O futuro do Brasil está em suas mãos!
E continua, até hoje.
Vamos começar a passar o Brasil a limpo pelas américas latrinas?
Mario Prata