Doa a quem doar?

Estou estarrecido. Durante a semana vi, pela televisão e pelos jornais, filas e mais filas de pessoas trocando de carteira de identidade:

– O fígado é meu e ninguém tasca!

– No coraçãozinho da mamãe ninguém mete a mão!

Meu Deus! Ou a coisa tá mal explicada ou o brasileiro, ao contrário do mineiro, não é solidário nem no câncer (obrigado, Nelson Rodrigues).

É simples, como disse Fernando Henriques: na minha carteira de identidade não diz que eu não quero doar meus órgãos. Portanto, se eu morrer, podem tirar tudo e transplantar para outra pessoa. Palavras firmes, decididas e sábias do presidente.

Agora pense o seguinte. O cara (Deus queira que não) morre e vem a dona Ruth: nesses olhinhos que sempre me fitaram, não! Meu Deus! Onde fica a solidariedade comunitária e humana?

Essas pessoas que estão trocando a carteira de identidade mereciam, em vida, um transplante de cérebro. O que é que elas pensam? Que doar, depois de morto, dói? Deixa cicatrizes? Sangra? Ou esperam, um dia, a ressurreição no dia do Juízo Final e vão se surpreender:

– Ué, cadê o meu pâncreas?

– Levaram a minha bexiga, senhor Deus! Juro que ela estava aqui.

Será que essas pessoas não percebem que, com a doação dos olhos, por exemplo, milhares e milhares de brasileiros vão enxergar pela primeira vez? Você que está me lendo e, portanto, enxerga: já pensou bem como é a vida de um cego? Já pensou ler esta coluna em braile? E você, meu querido, que detonou o seu fígado de tanto beber a vida inteira: já pensou um figadozinho novinho de uma adolescente de 20 aninhos? Pra começar tudo de novo?

Juro que não entendo a rejeição.

Qual é o medo? Como na música do Silvio Santos, você, corintiano, deixar seu coração para um palmeirense? Nem morta!!! Ou, pior ainda: não vou deixar o meu rim para um negro nem para judeu. Bicha, então, nem pensar. E pior ainda:

– Doutor, não me venha com coração de viado pra cima do meu filho!

Vender a alma para o diabo, tudo bem?

Desculpe, leitor, as brincadeiras. Mas não sei outro jeito de tratar o assunto.

O meu medo maior é de as famílias começarem a negociar os órgãos dos falecidos. Só isso, doutor, um rim de 28 anos? No hospital xis pagam bem melhor. E famílias saírem por aí carregando seus mortos. Feira livre de órgãos colhidos pela manhã, fresquinhos. Coração de moça. Nunca bebeu, o coitado. Pulmão de menino. Pênis novo, nunca usado. Clitóris intacto. Próstata testada e retestada.

Meu Deus, quanta besteira esses meus conterrâneos brasileiros estão me obrigando a escrever.

"Deixa pra lá..."

Outro assunto de doer:

O PT não toma mesmo jeito. O PT não aprende. O PT consegue se superar a cada eleição: fica cada vez mais inelegível. Parece que eles se esforçam para isso. Reúnem as bases e discutem:

– Como vamos fazer para perder esta?

Veja, minha amiga, o caso de São Paulo.

Tinha um candidato do interior com um por cento nas pesquisas. Colocaram a Marta Suplicy como candidata e ela teve, de cara e coragem, nove percentuais. Ou seja, candidata seriíssima para derrotar o Maluf, como já fez a Erundina. Tem tudo para crescer. Repito: tudo! Todos os órgãos em perfeito funcionamento.

E não é que agora surge um cidadão petista (deputado!) querendo fazer coligação com o PSDB (que, com Covas ou sem Covas, vai perder) e colocar a Marta de vice? Vice de quem, cara-pálida (ou seria pele-vermelha)? Do Serra, que a Marta já passou nas pesquisas? Juro, não entendo.

É burrice ou eu é que estou doido?

Ou será que é machismo simplesmente? Ah, se todos os homens do PT pudessem receber, de transplante, um pouco da cabeça, da coragem, do discernimento e dos olhos da Marta...

Mas eles também devem ser contra a doação de órgãos.

Não adianta. O PT aprendeu a ser contra.

Até mesmo contra ganhar o governo de São Paulo, que nunca esteve tão perto deles.

"Deixa pra lá..."

Mario Prata

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