E o Bebé, quem diria, parou de beber…

(para João Ubaldo Ribeiro)

A notícia correu o dia e a noite. O Bebé, o cinquentão Bebé, parou de beber! Uns diziam que foi uma tal de vacina. Outros, a namorada de 25 anos. Outros, os filhos. Justo o Bebé, que bebia "mais que nós", como diriam os donos do bar Vou Vivendo. Os garçons, incrédulos. Amigos bêbados choravam abandonados. Amantes suspiravam. Dizem que até na Bolsa o fato repercutiu. Mas o Bebé, gente, logo o Bebé? A noite nunca mais será a mesma, todos vaticinavam.

Vai ficar um chato, perder o velho e bom humor. Vai broxar. Vai falar que foi Cristo quem o chamou. E as piadas, quem é que vai contar aquelas piadas quando o sol já des(a)pontava? Vai acabar dando...

Sim, era verdade. O Bebé parara de beber. Mas continuou a frequentar os mesmos bares, os mesmos amigos, as mesmas noitadas, o mesmo pôquer. Não bebia mais. E nem ficara aquele chato a fazer apologias de sua nova condição de extrema lucidez. "A lucidez também dá barato", era a nova frase do sempre bom frasista. Não mudou em nada, todos garantiam.

Sim, parou de beber, mas não deixou os copos. O segurar o copo, o balançar com tilintar dos gelinhos. Agora bebia tônica com muito gelo e uma fatia de limão. Partiu para a cerveja sem álcool contra o rosto virado dos velhos amigos. Primeiro, a nacional. Depois, descobriu a Becks, a Lowenbrauer. Sem falar na Tourtel, a francesinha da Brigitte Bardot. Todas estupidamente sem álcool. Depois o suco de tomate da Campbel americana. Vinho sem álcool, sabia? Mandou vir da Espanha uma caixa de uísque igualmente sem álcool, para desespero dos escoceses. O que dá barato, dizia, é o lugar (bar) e a companhia (bêbado).

E era assim que o Bebé saía para a boemia. Um saco cheio de garrafas e latas sem álcool lá dentro. Era assim que ele ia para as festas de aniversário, para jantares em família e mesmo para o bar. Chegava, ia até a geladeira e colocava tudo lá dentro.

Pouco a pouco os amigos resolviam experimentar "uma do Bebé". É, dá para enganar, diziam. Ou, quando já estavam pra lá da Vila Madalena, resolviam partir para a pequena adega do Bebé. Foi assim que o saco do Bebé virou uma mala. Quando ele chegava, era uma festa. Sempre tinha novidades. Recebi um vinho francês (sem álcool, é claro) que é uma maravilha.

Os donos dos bares, percebendo a concorrência, entraram num acordo com o Bebé. Ele podia trazer as bebidas dele, mas todo mundo tinha que pagar uma espécie de pedágio, uma rolha, para beber as "do Bebé". Teve bar que começou a separar mesas para os "sem álcool". Bebé comprou uma Besta para poder se locomover de bar em bar. Bebé começou a ganhar dinheiro com aquilo.

Bebé comprou metade do bar que frequentava há anos. Começou a faturar mais que o antigo dono do bar, que também foi cooptado. Viciado em Kronenbier nacional.

Os velhos bêbados da noite paulistana começaram a perceber, para valer, que o porre da lucidez era muito mais interessante. Que o sexo a seco era muito mais produtivo, saudável e, principalmente, inesquecível. Gente que nunca usou a camisa para dentro da calça começou a descobrir a auto-estima. Pararam de roer unhas. Em casa, os quadros foram emoldurados e dependurados. A descarga foi consertada, a lâmpada trocada, o sapato engraxado.

Foi quando o Bebé apareceu na televisão fazendo propaganda do lançamento de uma nova cerveja sem álcool. Cerveja Bebé, "a cerveja para quem gosta de bebê".

Perdeu a barriga, a olheira, dizem até que comprou um terno. Mandou lavar o carro, aplicou na Bolsa, levou os netos para a Disney.

Só não mudou numa coisa: continua derrubando copos. E escrevendo as mesmas besteiras de sempre.

E, depois de várias latinhas, com um simpático sorriso de lagarto no rosto, levanta as mãos para o alto e diz, num excesso de lucidez, para os amigos bêbados:

– Viva o povo brasileiro!!!

Mario Prata

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