O Bebé, quem diria, fez o pé!

Lembra do Bebé, o que parou de beber? Aquele que arrendou metade do balcão e hoje vive advertindo que a lucidez não faz mal à saúde?

Encontro com ele no bar. Pede a garrafa particular de uísque, me serve e toma o seu gim tônica com gelo, muito limão e sem gim. Sem gim importado, garante ele. Perspicaz, cotovelo no balcão, me sentencia, ao pé do ouvido.

– Você não vai acreditar. Fiz os pés!

É que você não conhece bem o Bebé. O Bebé antigo, eu quero dizer. Frasista de primeira (ou de saideira) dizia:

– Macho que é macho não toma vinho branco, não admite brinco (nem no filho) e não faz os pés. Fora ouvir música clássica, é claro!

Eu, de soslaio, com o pé atrás:

– Como é que foi isso, Bebé? Os prédios caindo, a cidade na escuridão, as ruas alagadas, o Bill Pênis Clinton com mais uma boquiaberta americana no pedaço, o governo comprando votos, o Zagalolá ("Deus, ó Deus, onde estás que não respondes, em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus?") e você fazendo os pés? Isso não é coisa de viado, não?

– Há muito tempo que eu pensava uma ousadia dessa. Uma vez vi uma peça com a Marisa Orth, no bar do Celsinho Curi, escrita pela Marta Góes (já ouvi falar nesse nome...), que se chamava Prepare seus pés para o verão. Não me lembro bem do enredo porque estava meio de pilequinho (como diria Samuel Wainer), mas confesso que fiquei a me imaginar entregando meus pés, ao pé da letra, para a Marisa Orth. Mas o álcool, como sempre, me fez reagir a tempo. Já pensou o que a turma não iria pensar? Logo eu, o Bebé que bebia?

– E a turma está sabendo disso?

– O João Ubaldo já marcou hora. Diz que vai fazer um Pé Completo.

– Pé Completo? Como é que é isso, cara?

Tira um papelzinho (cor-de-rosa, juro!) do bolso:

– Impressão pedígrafa, corte e lixamento das unhas, extração de unhas encravadas, lixamento de calcanhares, remoção de calosidades e afins, remoção de cutícula instrumentada, hidratação, massagem manual, massagem com vibrador...

– Vibrador, Bebé? Tou te estranhando.

– Tou falando sério, cara! Bebe mais, bebe! Massagem com vibrador infravermelho, hidroterapia e massagem sueca, sauna localizada nos pés. Fora a hidratação-profunda com parafina. Tudo isso ao sonoríssimo som da Suite número 1, em sol maior, do Mozart! Orgasmo perde!

– Bebé, se eu fosse você, voltava a beber. Onde é que isso não vai parar?

– Sabe que eu nunca tinha parado para pensar nos meus pés?

Para falar a verdade, ignorava completamente a existência deles. Nem lavar direito eu lavava. No chuveiro, não conseguia mais abaixar até eles para lavar. E fazer o quatro, levantando um deles, você sabe como é... Pensando bem, o máximo que eles recebiam era a água suja que escorria do meu corpo. Mais de 50 anos, coitados.

– Você está falando sério ou está gozando com a minha cara?

– A unha do dedão, por exemplo, parecia a grade de uma prisão. Negras colunas paralelas. Colunas escamosas, prestes a ruírem, a implodirem – será que o Sérgio Naya (sem partido-MG) já fez os pés?. Ela foi passando o motor e a coisa foi ficando branquinha, lisinha. E o calcanhar, meu? Ficou um calcanhar daqueles. Olha aqui, passa a mão nele, vê como ele está lisinho.

– Que é isso, cara? Tou te estranhando... Tem certeza de que não quer uma dose? Uma dosinha não faz mal a ninguém.

– Fico me perguntando como é que eu pude viver mais de 50 anos com os meus dois pés – com os dois! – sem nunca ter dado nem mesmo uma olhadinha para eles. Nenhum carinho, nenhuma palavra de apoio. Nada. Acordei a tempo!

– Bebé, se você não reagir a tempo, vai acabar dizendo que Jesus é a salvação e...

– Bem lembrado. O que fez Madalena com ele? Fez os pés dele. Está na Bíblia! Grande pedicure, a Madalena! Aliás, hoje, este trabalho se chama podologia!

– Você já pensou na proximidade da podologia com a pedofilia?

– Tá vendo? Não dá para conversar com você. Parece que bebe, cara! E te digo mais. Semana que vem vou fazer uma limpeza de pele. Vou dar um trato dos pés à cabeça. E você vai parar de pegar no meu pé. Ou melhor, vai pegar no meu pé sim e agora. Pega! Vem cá, cara! Foge não. Deu no pé. Não adianta: pé quente, coração frio...

PS – Me desculpe o assunto, mas o registro é histórico. Fugi, pé ante pé. Será que até o João Ubaldo Ribeiro vai entrar nessa? O João Ubaldo, quem diria... Viva o Pé Brasileiro!

É com ele que a gente chega lá.

Mario Prata

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