Quero matar o Bob Wolfenson

Morro de inveja do Bob Wolfenson. Quem sabe quem é o Bob sabe do que eu estou falando. O Bob é, seguramente, um dos maiores fotógrafos do Brasil. Talvez do mundo. Fotografa tudo e bem. Mas ele é bom mesmo nos nus. Chamados artísticos. Sabe aquelas fotos todas da Playboy? Aquelas mulheres todas? Todas, eu disse. Imagine a brasileira mais bonita, mais gostosa. Imaginou? Pois é. O Bob fotografou.

Daí a inveja. Minha e, se me permite, sua.

Ah, Bob, você nasceu com a câmara virada para a lua.

Esse negócio de mulher nua me lembrou de uma história passada há uns 30 anos. A minha comadre e atriz Ítala Nandi, dentro dos seus 20 anos, fazia um filme na praia. Na cena, ela saía do mar e vinha se sentar na areia completamente nua. Gravaram a cena umas dez vezes. De repente, o motorista da kombi (todo filme tem uma kombi e um motorista), que estava trabalhando em seu primeiro filme, desatou a gritar feito um doido, rolando na areia. E gritava:

– Porra, aqui só tem viado? É todo mundo viado? A moça tá aí pelada desde as seis da manhã e ninguém come?

E, excitado, demitiu-se.

Voltemos ao meu amigo Bob que de viado não tem nada. Aliás, muito bem casado com a minha adorável Marisa. Mas que eu tinha inveja dele, tinha. Ficava imaginando ele ajeitando as meninas, levanta mais o peitinho, arrebita mais a bundinha, isso, sorri, olha para mim. Sorri para mim. Vira um pouco a bundinha pra lá. Assim.

Sei que o Bob é um profissional e nunca deve ter abusado de sua condição, viu Marisa? Mas que eu ficava imaginando, ficava.

Eis que o mundo gira, a lusitana roda e eu começo a namorar uma modelo. Um e oitenta e dois de modelo. Um dia, aconteceu o que eu temia.

– O Bob me convidou para posar para ele.

Tóim! Me mantive sereno, disfarcei, mas o que eu queria mesmo era matar o Bob. Tanta modelo e atriz por aí…

– O que você acha?

Nessa hora ou a gente engrossa de vez ou é moderno. Sei que pro resto da vida o Bob iria olhar para a minha cara e sei que ele estaria pensando dentro dos seus cativantes olhos azuis: eu já vi! eu já vi!

Maldito Bob! E agora? Fui moderno, com o colégio salesiano me mordendo lá por dentro. Imaginei a namorada na capa da Playboy. Todo mundo comprando a revista… Sim, eu gosto da Playboy. Como você. Tem belas entrevistas, bons artigos de fundo (e de frente), contistas excelentes. Realmente uma revista para leitura.

– É para a Playboy?

– Não, um livro que ele vai fazer. Chama Tubo de ensaio.

Tubo de ensaio, é?

– É, ele fez um tubo de acrílico e vai colocar as pessoas lá dentro e fotografar. Homens e mulheres. Um de cada vez, é claro.

– Nuas?

– Claro, amor.

Fiquei imaginando a minha namorada pelada (o termo é esse) dentro de um patético tubo e todos os meus amigos folheando o livro. Fora os vizinhos. E aqueles comentários que você sabe quais são.

Nesta noite não dormi. Ela ali, deitada ao meu lado, nua. Dias depois, estaria nua na frente do Bob. E do mundo. Isso não estava certo.

– Então vamos fazer o seguinte. Homem também, não é? Então fala para o Bob que eu também quero posar para ele.

Ela começou a rir.

– Tá rindo do quê?

O pior é que o Bob topou. Foi quando eu caí em mim. E essa barriga, onde é que eu vou enfiar? Fiquei olhando a minha bunda no espelho. Meu Deus, o que a minha mãe não vai pensar disso? E a minha filha? Alguém vai mostrar a foto para ela, apesar de ela morar lá em Londres. Encolhi a barriga diante do espelho. Quase perdi a respiração. A namorada ria, desgraçada.

A essa altura eu já queria matar o Bob. Por que ele não vai fotografar a mulher dele? Tinha que ser a minha? E eu, tenho que ser moderno assim? Colocando uma cueca samba-canção ridícula, olhei para o meu envergonhado, com o perdão da palavra, pênis. Lá estava ele, encolhidíssimo, tímido, assustado. Quem sabe se, na hora, eu der uns tapinhas nele...

– Seguinte, fala para o Bob que eu não vou fotografar porra nenhuma!

– Agora vai pegar mal. Tá todo mundo sabendo que você ia fotografar. Vai todo mundo dizer que você não vai fotografar nu porque...

– Por quê? Me diz. Por quê?

Maldito Bob! A única solução, a essa altura do campeonato, é matar o Bob. Mas eu quero matar ele nu (não eu, ele). E depois fotografar.

Meu Deus, tantos problemas para resolver e eu aqui preocupado com o Bob Wolfenson. O pior é que eu adoro ele. Mas que ele tá de sacanagem comigo, tá.

Por que você não fotografa a mulher do Mateus, do Reinaldo, do Dênio, do Tenório, do Jabor? Logo a minha, Bob?

Mario Prata

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