Dora (dez meses) e a queda da bolsa

O casal: Hélio e Patrícia. A filhinha: Dora, dez meses, fase de engatinhar. Patrícia, grávida de mais uma. Hélio jogou tudo o que tinha e o que não tinha na Bolsa de Valores. Jogou mal, errou, perdeu tudo. Devia até para o corretor. Patrícia, desempregada.

Sábado, três casais vão fazer uma visita. Dar uma força para a Patrícia e o Hélio, quebrados, falidos e mal pagos. Sentados em círculo, uísque na mão, unzinho rolando, tentando levantar o moral do casal. Dora, dez meses (sei que já disse), engatinhava de um lado para o outro. Às vezes, se agarrava numa perna, subia, babava, ria, dava uma geral nos velhos da galera e caía:

– Gracinha!...

O assunto dos adultos, é, claro, a Bolsa! A falta de grana, de perspectiva, o governo FHCesar (obrigado, Marcos Augusto), a doença do Serjão e, sempre, voltando à Bolsa. Dora engatinhando de um lado para o outro. De tanto falarem em Bolsa, Dora foi para um canto da sala onde jaziam quietas as bolsas das três amigas que visitavam o casal. Estavam no chão. Dora saiu arrastando uma delas, enorme, a maior delas, para o centro da roda, na sala. A dona, Arlete, fez questão de tomar alguma atitude, mas o marido, psicólogo, foi logo reprimindo a ação da esposa.

– Deixa a menina, Arlete. Está se divertindo. Olha o esforço que ela está fazendo para puxar a sua bolsa. Gracinha...

A partir daí, a atenção de todos ficou em Dora, realmente uma gracinha, loirinha, cheia de mordidas de pernilongos da noite anterior. Dora abre a bolsa, com muito esforço, mas com a torcida de todos para que ela conseguisse.

Mas que gracinha...

– Que menina esperta...

– Nem um ano, ainda!

Dora enfia a mãozinha dentro da enorme bolsa e saca, lá de dentro, o chaveiro da Arlete. E começa a balançar, balançar, balançar. Fica deliciada com o barulhinho. Quando se enche daquele brinquedo, vai, com a chave, engatinhando, e entrega para o pai.

– Obrigado, meu amor.

Dora volta para a bolsa. Enfia a mão lá dentro e tira, com certo esforço, digamos, um pênis de borracha. Enorme, na mãozinha dela. O constrangimento é geral. Todo mundo olha para Arlete com sorrisos falsos. Já o marido olha meio intrigado. A garotinha fica olhando para aquilo, acha engraçado, ri, olha para o pai que esboça um sorriso, dá uma mordida. Todo mundo sorrindo. Oito pessoas mais sem graça, impossível. Educação moderna: não se deve reprimir as crianças.

Dora sai engatinhando e entrega o pênis para quem? Para a mãe. Esta, com dois dedos quase trêmulos, pega e o coloca na mesinha. Nervosa, quase jogou dentro do balde de gelo.

– Obrigada, meu amor...

Ninguém fala mais nada. Dava para ouvir até o som do silêncio. Dora volta para a bolsa. Ninguém tira os olhos dela. O que virá agora? Dora quase que entra inteira lá dentro. Arlete enche o copo de uísque. O marido de Arlete faz o mesmo. Todo mundo sorrindo, é claro.

Dora tira umas camisinhas. E uma bolsinha de maquiagem. A mãe de Dora tenta interferir. Arlete:

– Deixa... Uma gracinha mesmo...

(Mas o que pensava era: agora que já mostrou o pau, deixa matar a cobra. O que queria: matar a gracinha da Dora.)

Dora tira o batom para fora, passa na cara toda, ri, lambuza as pernas das mulheres, risca as calças dos homens, o carpete. Depois, pinta o rosto dos oito da sala, um por um, ficando todo mundo com cara de palhaço.

– Que gracinha...

Dora volta para a bolsa, de marcha a ré. Pega a carteira de dinheiro. Abre, chacoalha, caem as notas – não se deve reprimir –, pega uma de 100, vai engatinhando e dá para quem o dinheiro? Para o pai, é claro.

– Gracinha do paizão...

Dora volta, vira a bolsa de ponta-cabeça. Tira tudo lá de dentro, a bolsa fica vazia, ela entra lá dentro, se ajeita e dorme o sono justo e inocente dos anjinhos brasileiros.

Mario Prata

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