Os hooligans brasileiros

Paris – Você pagaria R$ 32 mil por um pacote para assistir a uma Copa do Mundo? Fora a comida? É o que custa o chamado "primeira classe".

Pois saiba que muita gente pagou. Casal sai por R$ 64 mil. Uau, oui!

São, portanto, brasileiros ricos. Muito ricos. Empresários, fazendeiros, banqueiros e até mesmo um rapaz que herdou R$ 800 mil de uma tia rica e acha que virou o homem mais poderoso do mundo. Compra tudo. Se ninguém segurar, compra a pirâmide do Louvre.

E o que é que esse pessoal faz entre um jogo e outro? Esporro. A palavra é chula, como chulo é o esporro.

Tem gente aí no Brasil que acha que eu não estou em Paris. Apesar de já ter ido ao Juca Kfouri e ao ESPN no programa do Trajano. E acham que eu invento. Realmente sou um ficcionista. Vivo disso. Mas, para escrever sobre a torcida brasileira numa Copa do Mundo, basta olhar em volta. E acreditar no que está se vendo.

Outro dia, por exemplo. Organizou-se uma excursão para fazer o chamado "circuito da champanha", pelo interior da França. De ônibus. Já imaginando o que poderia rolar, lá fui eu com o meu gravadorzinho.

A ida, tudo bem. Todo mundo ainda sóbrio, sereno, discutindo as possibilidades do próximo jogo. Acontece que em cada cidade, em cada fabricante, em cada adega, você recebe uma dose do champanha local. Uma taça. O circuito é meio longo, como longos iam ficando as taças e os tragos. Na Moët et Chandon, por exemplo, já tinha nego tomando no gargalo.

Tinha a volta. Numa descida, uma freada mais acentuada do seu Manuel, o espanhol motorista. Uma enxurrada veio lá detrás, molhando todo o corredor. Espirrou no ex-deputado que logo entendeu e, depois de se abaixar e cheirar a própria salpicada calça, encheu o peito e parecendo estar no Congresso Nacional, fez o j’acuse:

– Desaguaram! Desaguaram!

Sim, lá atrás, um nordestino que tem negócios até na Nigéria, moreno com mais de 60 anos, e um carioca com pouco mais de 30 tinham – como verbalizara o ex-nobre deputado – desaguado dentro do ônibus. Tinha toalete a bordo, sim. Mas fizeram no chão mesmo, no corredor. Vale tudo para ser um penta.

A deságua (ex-Moët et Chandon) foi indo, indo numa maré braba e acabou caindo nas costas do seu Manuel, o guapo motorista, cujo banco ficava um pouco abaixo do nível do corredor. Ele pára o ônibus e faz um discurso misturando espanhol, francês e português de Portugal:

– Mira, senhores! Se fueram franceses, yo mandaba descer. Pero me gusta mucho los brasilians. Después jogo uma água. Pero, prego, por favore! Se mais arguna persona estiver necessitada, yo pido que...

Foi interrompido. Lá atrás, o revendedor Citroën dormia e havia tirado suas botas (cada uma pesa cinco quilos, diria depois). Pois um dos desaguadores de plantão pegou a bota dele e arremessou contra o seu Manuel (de brincadeirinha, é claro). Errou o alvo que pegou a peruca (aquela redonda, azul e verde, sabe?) da senhora mineira. A peruca foi ao ar, rodopiou espetacularmente e foi ao chão, caindo em cima do malfadado e estranho líquido.

– Minha peruca! Minha peruca! (baixou ao nível da poça, disse todos os palavrões possíveis e imaginários) Foi feita pela Odete da Mangueira! Pela Odete! Olha só! Eu mato!, dizia ela levantando a crina com a pontinha de dois dedos ornados em ouro.

A guia, coitada da guia Dayse!, com o mocassim encharcado, tentava colocar ordem (e progresso) na turma. Os desaguadores nada anônimos negavam o jactado feito. Alegaram que era uma "aguinha do ar-refrigerado que estava vazando". O ex-deputado, também bêbado, descolou um apito, apitava e sacava, sei lá de onde, um cartão vermelho que brandia no ar.

Uma rápida reunião e resolveram parar no primeiro posto de gasolina e passar uma água na viatura.

O revendedor Citroën colocou a bota toda torta para secar ao lado da peruca da mineira num banquinho ao ar livre. Os mictantes juravam inocência. O mais bêbado deles ainda tentava contemporizar:

– Gente, não é. E, se for, é champanha francês puro! É pra dar sorte.

O outro, empresário ligado ao manganês, pedia para eu não escrever nada disso. Se a mulher dele soubesse...

De noite, o mesmo ônibus foi usado para nos levar ao decadentíssimo Moulin Rouge. Lavado e perfumado (mais perfumado do que lavado, como convém aqui na França). Que eu saiba, la vie en rose, foi tudo bem.

Fora aquele velhinho paulistano que saiu de braço dado com um travesti franco-atirador, crente que estava abafando. Dizem que foi avisado a tempo. Dizem.

Mario Prata

 

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