Por favor, apertem seus cintos

Que estranho e irresistível fascínio é este que as aeromoças exercem sobre nós homens e mortais passageiros?

Ou vai me dizer que você também não tem uma certa tara, uma vontade quase que incontrolável de ter um caso com essas profissionais do ar?

Qual é o homem que nunca deixou o cotovelo propositadamente no corredor do avião, na sutil esperança de urna leve raspadinha na apressada moça? Qual é o homem que, lá nas alturas, fingindo ler o jornal, não fica de olho torto para elas? Qual é o homem que não sonha acordado imaginando tenazmente que ela, junto com a última cervejinha, coloque dentro do guardanapo um cartão de visitas? Qual è o homem que não sonha um dia contar para um amigo: transei com urna aeromoça! Qual?

Que fascínio é este? Preocupadas com o possível assédio masculino, as companhias aéreas - de todo o mundo - fazem de tudo para transformar aqueles aviões em seres normais. Colocam uma saia escura onde as curvas se perdem e o joelho some, vestem uma blusa meio fofa onde seios desaparecem, amarram os cabelos para cirna e, ainda por cima, colocam um crachá com um nome falso no peito. Mas nós, homens, temos certeza de que, por trás daquele uniforme de guerra, esconde-se urna grande guerreira de terra, mar e ar. A gente sabe - ou imagina - que elas são gostosas. Toda aeromoça é gostosa, por principio, meio e fim. Até o fato de elas usarem outro nome - corno as freiras e as prostitutas - é excitante.

E não são apenas as aeromoças brasileiras que nos fazem viajar com a imaginação. Também as azapatas (aeromoças em espanhol) ou as hospedeiras (aeromoças em Portugal). Não seria bonito dizer que anda saindo com urna azapata de salto delicadamente alto ou que levou para o hotel urna hospedeira? Mesmo as americanas, sempre carrancudas, levam o seu charme na bandeja da esperança. E as francesas dizendo pardon, monsieur? E aquelas da Lufthansa que dá vontade da gente pedir que pisem nos nossos pés com seus um metro e oitenta e cinco?

Qualquer psicólogo de esquina poderia dizer que esta fascinação é porque nós nos sentimos - durante as poucas horas de vôo - nas mãos delas, dependemos delas para tudo. Seriam nossas mães, digamos assim. Mas não é como mãe que as vemos, e, sim, como possíveis amantes. Como deslizam fácil pelo carpete central dentro das nossas turbulências mentais!

São estranhas essas moças. Não sei de ninguém que conheça urna aeromoça fora do ar. O máximo que a gente sabe delas é que se arrastam em duplas pelos aeroportos, puxando as suas malinhas - sempre cinza - sobre rodinhas. Depois entram num táxi e somem. Sim, somem. Ou você sabe de alguém que é vizinho de uma aeromoça? Ninguém sabe onde moram essas meninas. Ninguém nunca viu uma hospedeira numa festa, numa peça de teatro ou mesmo fazendo compra num shopping. Fora do ar, elas evaporam. Você, por exemplo, já viu alguma azapata no seu, digamos, convívio social? Tenho certeza que não. Chego a desconfiar que elas não existem. São alucinações causadas talvez pelo ar despressurizado.

Devo ser um privilegiado, pois já vi duas aeromoças. A primeira quando estava hospedado no Hotel Miramar, em Recife, fazendo um trabalho profissional junto com mais 40 pessoas. Um amigo me disse que as aeromoças da VASP estavam hospedadas no hotel. Fui um frisson entre os homens. No mesmo dia, um colega disse que aquela mais alta, loira tinha uma tatuagem na virilha. Ele tinha visto na piscina. Comprei óculos de natação e fui conferir num vôo aquático. Tinha. Tinha um Boing tatuado na virilha dela e, enquanto ela ficava a fazer movimentos com as pernas para se manter à tona, parecia que o Boing batia asas e voava na minha direção. Só o Boing. O avião, não. Quase morri afogado.

E a outra vez fui no bingo. Estávamos quatro homens na mesa e urna moça. Uma moça normal, nem feia nem bonita, nem magra nem gorda, nem baixa nem alta. Urna moca absolutamente normal que não suscitava nem um olhar de esguelha de nenhum de nós. De repente, chegou uma amiga dela. Nos primeiros diálogos, ficamos os quatro sabendo que eram aeromoças. Como a moça cresceu, como ficou bonita, gostosa, simpática. Que pernas, que seios, que pele, que narizinho arrebitado, que voz, meu Deus! Os quatro homens ficaram transtornados com a presença de duas - duas! - aeromoças ali, tão perto. Mas, assim como na piscina, ninguém teve a coragem de puxar papo, pedir mais um uísque ou perguntar a temperatura local. Não se conversa com urna aeromoça fora do ar, admira-se boquiaberto. E mais: ela fez um bingo, provando, definitivamente, que são seres sobrenaturais, acima de nós, sempre a 10 mil metros de distância de nós, pobres terráqueos.

Que estranho e irresistível fascínio é este que as aeromoças exercem sobre nos, homens e mortais passageiros?

Mario Prata

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