A televisão na idade da reforma

Hélder Bastos, JN, 28 de Junho, 1997
"A televisão é uma ferramenta de tiranos." George Gilder

Estamos de tal forma habituados à presença da televisão nas nossas casas que a pequena caixa parece de facto insubstituível. Mas, será mesmo?

Milhões e milhões de telespectadores em todo o mundo acabam o dia enterrados no sofá com os olhos enfiados em clones do João Baião. Em programas pimbóides promovidos a horário nobre. Em debates políticos inspirados no estardalhaço do desembarque da Normandia. Em novelas brasileiras e venezuelanas pejadas de mulatas sensuais, Cicciolinas com excesso de quilometragem e enredos bem engendrados.

Tudo é decidido por quem tem poder e influência suficiente para conseguir um canal de TV. O telespectador, esse, sujeita-se a ver, passivamente e a horas certas, material previamente programado por terceiros. Resta-lhe, apesar de tudo, essa emancipação, conseguida com o espremer constante do telecomando, chamada pomposamente "zapping". Saltitar de canal em canal é a vingança possível perante a vontade soberana dos programadores.

Tendo como principal fonte de sustento a publicidade, as televisões, em particular as comerciais, chacinam filmes e séries com pacotões indigestos de anúncios publicitários. É assim: para conseguir o máximo de audiências, que são para vender aos anunciantes, é preciso chegar ao maior número de pessoas possível. Para chegar ao maior número de pessoas possível, é preciso arranjar programas o mais populares possível. Resultado: filme com porrada de meia-noite à segunda, vídeos caseiros à terça e futebol de quarta a domingo duas a três vezes por dia, com paragem para a exibição de donzelas descascadas e lascivas à sexta-feira à noite.

A TV comercial tende a riscar do mapa pessoas cujos gostos não se identificam com os da maioria. As minorias não vendem. E quando as televisões públicas, como é o caso da RTP entre nós, se limitam a macaquear os tiques das privadas, o caso torna-se preocupantemente dramático.

Convirá registar, no entanto, as melhorias dos últimos tempos. A RTP2, por exemplo, tem feito um esforço notório no respeito pelos cidadãos que gostam de ouvir debates civilizados em vez de assistir a touradas entre interlocutores, que gostam de filmes sem murros e mamas por dá cá aquela palha, que admiram bailado e teatro depois do jantar, que gostam de poesia e de escritores, que preferem Dali ou Woody Allen a Jardel ou Pedrito de Portugal, que escutam Mahler com agrado e consideram Ágata uma broca para os tímpanos. Para os canais da publicidade, esta gente só existe de vez em quando. Às duas da tarde ou às três da manhã.

A TV, como diz George Gilder, autor de vários livros, entre os quais "Life after television" (A vida depois da televisão), desafia o facto mais óbvio em relação aos seus consumidores: a sua crescente diversidade. Tendo como alvo o menor denominador comum, piora de ano para ano.

Gilder considera que as pessoas não terão de aturar tudo isto por muito mais tempo. Para ele, a TV tem os dias contados. "A TV era uma tecnologia soberba no seu tempo. De facto, a sua presença e características definiam o tempo. Mas agora a sua era acabou. A idade da televisão está a dar lugar às mais ricas e interactivas tecnologias da era do computador."

Os homens da TV trepam paredes quando ouvem falar das ideias de Gilder. Mas o certo é que começam a aparecer os primeiros estudos que acabam por lhe dar razão. Nos lares onde existe um computador ligado à Internet, meio interactivo, hiperdiversificado, acessível a qualquer hora à medida dos gostos e necessidades do utilizador, verifica-se uma tendência para a diminuição das horas passadas em frente ao televisor.

Agora só falta mesmo casar a televisão com o computador. Para vermos nascer de vez o teleputador.

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