Nortadas 2002


Nortadas

Nas margens de Agosto

Bastos Helder Bastos, 17 de Agosto, 2003

Um espanhol parado na Ribeira troca umas primeiras palavras de acolhimento com um portuense. �Isto � guapo�, gesticula interrogativamente com as m�os nuestro irm�o, �mas onde est� a m�sica, a anima��o?�. N�o estava.

Agosto, hora de jantar. Os restaurantes virados para o Douro aos p�s da Ponte Luiz I transbordam de turistas de sotaque franc�s, italiano, alem�o, sueco, brasileiro, castelhano. Os que ainda n�o arranjaram mesa deambulam de guia tur�stico do Oporto na m�o, por entre alguma maquinaria de obras estacionada na margem, aqui e ali terra batida, um trio desconsolado a tocar para a moedinha internacional e... carros. Carros por todo o lado! Pequenas pra�as por entre o casario t�pico da zona aparecem cheios at� � borda de quatro rodas. De t�o encavalitados, n�o se percebe como algu�m possa sair dali ao volante.

Turistas topo de gama estacionados no Carlton jantam na esplanada do hotel com um brinde muito especial: uma veda��o de BMW e Triumph a alindar-lhes as vistas para a pra�a do famoso cubo da Ribeira. Aquela gente d� garfadas a menos de 50 cent�metros das portas daquelas m�quinas. �Very tipical�. Melhor, s� mesmo a romana Piazza Navona.

Onde dantes existia um grupo alinhado de barracas a cortar o horizonte para o rio, agora enfileiram-se autom�veis, alguns deles com um ar de tal modo azeiteiro que deve chegar para provocar azia visual antes mesmo de o turista chegar � sobremesa.

O neg�cio dos arrumadores mant�m-se por ali, para dar cabo das estat�sticas do programa Porto Feliz do dr. Paulo Morais.

D�-se um salto para a outra margem, que esta n�o est� definitivamente em boa forma tur�stica. A travessia a p� da ponte � feita entre ferro e flores penduradas em canteiros, algo que o arquitecto dificilmente aprovaria. Entra-se na marginal de Gaia. O contraste n�o podia ser maior. Tudo muito certinho e arrumado. O tra�o perfeito dos planeadores, a relva bem desenhada, o estacionamento com s�tio pr�prio, as marcas, os edif�cios modernos, o chill out nos altifalantes, e arrumadores nem v�-los.

� como passar do fato-macaco para um Hugo Boss, que s� apanha com umas n�doas na gravata quando se levanta a vista para o casario da escarpa: est� cair de podre. O aspecto ruinoso contrasta flagrantemente com o ambiente fashion dos bares e restaurantes das 'docas de Gaia', cheias de gente gira pronta a pagar 500 paus por um caf�. Um ex-ministro da Ci�ncia sai do Bogani com ar muito s�rio. Seria do montante astron�mico da conta do jantar?

[email protected]

Hosted by www.Geocities.ws

1