Nortadas 2002


Nortadas

Crimes contra a raz�o

Bastos Helder Bastos, 30 de Mar�o, 2003

COCKTAIL. Uma das primeiras e maiores v�timas da guerra, de qualquer guerra, � a raz�o. As bombas cedo deitam por terra aquela ideia, afinal t�o b�sica, segundo a qual o homem se distingue do animal pela racionalidade. Os discursos p�blicos, com destaque para os medi�ticos, sobre os conflitos tamb�m se encarregam de deixar resmas de mortos no campo de batalha.

O fil�sofo Fernando Savater lembra-nos que o que � pr�prio da raz�o �� que nunca � exclusivamente a minha raz�o�. �Se uma das minhas cren�as se apoia em argumentos racionais, n�o podem ser racionais s� para mim.� Daqui prov�m o car�cter universal da raz�o. O homem racional procura, portanto, estabelecer a maior concord�ncia poss�vel entre aquilo em que acredita e o que efectivamente acontece na realidade. Citando Ant�nio Machado: �A tua verdade, n�o; a Verdade. Vem comigo busc�-la. A tua, guarda-a para ti.�

No esgrimir estridente de argumentos para saber quem tem raz�o sobre a guerra contra o Iraque, o que se tem visto � sobretudo entrincheiramento de posi��es extremadas. Ora se � feroz e incondicionalmente a favor do eixo Bush-Blair, ora se condena total e radicalmente o ataque a Saddam. Poucas ced�ncias m�tuas h�. E por a� adiante, em cocktails batidos � base de resqu�cios ideol�gicos, preconceitos, f�, fanatismo, ignor�ncia, emo��o, convencimento, forma��o.

A raz�o, a tal busca universal da �verdade� com os outros, ficar� por aqui algures em terra de ningu�m, � espera de aux�lio humanit�rio. Mas � na esfera dos partidos, da esquerda e da direita, que o manique�smo, travestido de �disciplina partid�ria� (express�o horrorosa), assume cargas tremendas de susto e pavor em Portugal. Os de direita s�o �s manadas a favor da guerra. Os de esquerda, quase em bloco, contra. Os do centro, s� muito raramente lhes foge o p� para uma autonomia radical do tipo Freitas do Amaral. Raz�o e cor partid�ria n�o se d�o l� muito bem. Apesar de tudo, h� resistentes ao monolitismo de bancada. A deputada Manuela Aguiar � um bom exemplo. Mas, afinal de contas, quem tem raz�o?

CARTA. Um dos mais bonitos exerc�cios de equil�brio entre raz�o e cora��o saiu da pena do escritor mo�ambicano Mia Couto. Aquela carta escrita a George W. Bush � uma portentosa arma de destrui��o maci�a lan�ada sobre a ignor�ncia. � uma pena Bush s� ler a B�blia de pernas para o ar.

CR�TICA. As Nortadas n�o deviam ser s� sobre a guerra. O Norte de Portugal n�o � importante?

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