Nortadas 2002


Nortadas

O pa�s n�o est� de tanga

Bastos Helder Bastos, 26 de Outubro, 2003

STRIP. O pa�s, ao contr�rio do que por a� se diz e desdiz com extrema abund�ncia medi�tica, n�o est� de tanga: vai nu. Nuzinho. Completamente. Tal e qual como veio ao mundo. O verniz da normalidade estala por todos os lados, mesmo em s�tios insuspeitos, nas mais altas nuvens do Estado.

Todos os dias, a v�rias horas, a na��o d� espect�culos gratuitos de striptease na televis�o. Despe-se do fardo da vergonha, desembara�a-se da timidez, assume-se, sem complexos, bisbilhoteira, voraz, voyeuse, violadora, violenta, malcriada, mentirosa, abusadora, trapaceira, intrusa. Depois, assusta-se, em desprevenido sobressalto, consigo pr�pria. Excessos da �sociedade aberta e seus inimigos�?

Como uma velha dan�arina de bo�te, Portugal olha-se, sem maquilhagem, a um espelho deformado e descobre, para seu desespero, que o tempo e o uso deixam marcas profundas no corpo.

TEASE. Quem comprou bilhete para o espect�culo de dan�a de Joaqu�n Cort�s no Coliseu do Porto teve oportunidade de assistir de borla a um show paralelo.

Enquanto no palco Cort�s exibia os seus ineg�veis dotes f�sicos para um flamenco de estremecer o estrado e abanar com a libido de meninas que lhe iam atirando piropos da tribuna, entre a assist�ncia podia assistir-se a uma verdadeira demonstra��o de tecnologia m�vel de ponta. A �gera��o telel� presente, movida a combust�vel de an�ncios televisivos com m�sica �l�, la, l�, l�, l�, meninas em biquini e betinhos surfistas, dando provas da sua depend�ncia absoluta de brinquedos Nokia e Ericsson, ia levantando aqui e ali os seus topos de gama para fotografar a dan�a e depois, cr�-se, enviar aos amigos. Outras divertiam-se enviando mensagens umas �s outras, estando elas na mesma sala, ali mesmo. Do g�nero: �Diz l� se ele n�o � um belo naco de carne!� J� n�o h� espect�culos como antigamente.

O Coliseu teve um ambiente misto de sof� de telenovela e chat room da Internet.

E das duas uma: ou os promotores arranjam maneira de evitar que, com estas e com outras modas sociol�gicas, a juntar � pura imbecilidade e falta de respeito em rela��o aos artistas e �s pessoas que realmente os querem apreciar ao vivo, os eventos que promovem acabem por se transformar num circo de galhofa insuport�vel, tipo cinema com pipoca-hamburguer-Cola � americana, ou os espect�culos passar�o a ser frequentados apenas por grunhos ou semialienados com capacidade para aturar farras histri�nicas durante duas horas.

Agora escolham.

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