Há pouco mais de quinze anos, Elihu Katz escrevia um interessante ensaio no qual punha em relevo, precisamente, a ênfase dada pelos meios de comunicação social ocidentais aos acontecimentos negativos.
Assim, enquanto que nos países do leste europeu, por exemplo, a abertura de uma fábrica era notícia, no Ocidente é o encerramento de uma unidade fabril que merece destaque noticioso. A condenação de um político em tribunal por corrupção merece altas parangonas. A sua absolvição é enterrada nas catacumbas das páginas dos jornais. E por aí adiante.
O jornalismo do mundo livre, dizia Katz, gira em torno do conflito: nação contra nação, homem contra homem, homem contra a natureza. «Um acontecimento noticioso típico é a «estória» de um conflito».
O conflito pode estar institucionalizado, como no Parlamento, com as recentes lutas entre os partidos por causa da regionalização, ou pode ser espontâneo, como no caso do estúpido homicídio do adepto do Sporting no Estádio do Jamor.
A exploração mediática deste género de acontecimentos foi visivelmente exacerbada, nos últimos anos, em grande parte devido a factores relacionados com a concorrência desenfreada que se estabeleceu entre jornais, revistas, rádios e canais de televisão. Mas resultou também da manifesta incapacidade de auto-regulação deontológica por parte das empresas jornalísticas.
Portugal não foge à regra e, em certos casos, nomeadamente televisivos, a abordagem dos acontecimentos atinge o nível da histeria, em espaços reservados à informação.
O realizador norte-americano Oliver Stone tem no seu filme «Assassinos Natos», exibido na passada segunda-feira, na SIC, uma oportuna caricatura deste tipo de estridência jornalística, encarnada por um ambicioso repórter de televisão que não olha a meios para conquistar fama e audiências.
Aliás, «Assassinos Natos» é, antes de mais, uma sátira crua, incómoda, à sede de violência por parte dos «media» do seu país e ao modo como acabam por transformar assassinos psicopatas em heróis nacionais com direito a horário nobre. Pode-se detestar o filme, mas isso é outra história.
O panorama mediático ocidental mudou muito desde que Katz escreveu aquele ensaio. Os «media» já não se limitam a explorar o lado negativo das coisas. Lutam ferozmente para conseguirem espremer o negativo até ao tutano.
Já não chega o lado negro dos acontecimentos. É preciso buscar o superlativo, a parte negríssima, o aberrante absoluto.
Por este andar, a perda de credibilidade perante o público é o futuro mais certo para os meios de comunicação social, em geral, e para os jornalistas, em particular. Corre-se o risco de estes, apanhados na onda da chamada informação-espectáculo, deixarem de ser levados a sério pelos leitores, ouvintes e telespectadores, o que já começa a verificar-se nalguns países desenvolvidos.
O leitor poderá agora argumentar: mas, afinal, este Comunicarte também só fala do lado negativo do problema. É muito sintético e talvez redutor. É verdade. Mas não há espaço para muito mais. E esse é um dos maiores dramas do jornalismo.