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Hipertexto
O conflito com a raz�o
Helder Bastos, 29 de Outubro, 2001
Quatro dias depois do ataque a�reo �s torres g�meas em Nova Iorque, um dos livros mais vendidos na Internet era Nostradamus: As Profecias Completas. Por essa altura, circulavam j� pela rede as mais estramb�ticas teses sobre o atentado. Uma vez mais, a lei da oferta e da procura confirmou-se de forma m�stica: quanto mais descabelado o boato sobre a cat�strofe, maior o seu sucesso.
Milh�es de caixas de correio electr�nico em todo o mundo foram bombardeadas desde ent�o com mensagens sa�das de cr�nios com queda para o fant�stico. Por exemplo: Nostradamus, figura cujo passamento ocorreu no ano da gra�a de 1566, teria antecipado de forma cristalina o ataque ao World Trade Center. E o par�grafo da "prova" circula pelo ciberespa�o, rezando assim: "Na cidade de York haver� um grande colapso, dois irm�os g�meos destru�dos pelo caos (...) A terceira grande guerra come�ar� quando a grande cidade arder. Nostradamus, 1654".
Alguns jornalistas s�rios fizeram o trabalho de casa e acabaram por descobrir que, por um lado, � tecnicamente imposs�vel fazer futurologia quando se est� morto e, por outro lado, que o verso "prof�tico" fora inventado em 1997 por um estudante canadiano empenhado em parodiar a linguagem obscura dos textos originais do c�lebre m�dico e astr�logo franc�s.
O problema � que ningu�m parece ter ligado a m�nima a esta desmontagem.
Em vez de sacar de dois dedos de raz�o, muito boa gente tratou foi de correr em busca de material ainda mais mirabolante na Web, confirmando a triste m�xima propagand�stica segundo a qual quanto maior for a mentira maior a probabilidade de as pessoas acreditarem nela.
Como refere Stephen O'Leary, professor na Annenberg School for Communication, nos EUA, a novidade da vaga de rumores espalhados pela rede sobre o ataque terrorista reside no facto de eles terem sido consumidos por um p�blico vasto. Desta vez, o apetite pelo exagero n�o se restringiu aos te�ricos da conspira��o da praxe ou aos paran�icos do costume.
A Internet, acrescenta O'Leary, "transformou-se numa nova arena do conflito, num ambiente ideal para a dissemina��o de propaganda, desinforma��o e mitologias colectivas que fornecem suporte ideol�gico, tanto para religiosos fan�ticos como para nacionalistas seculares. Os jornalistas podem escrever sobre os rumores de forma a dissip�-los, mas nem mesmo os rep�rteres mais c�pticos podem evitar espalhar est�rias falsas a pessoas cr�dulas".
A raz�o est� em apuros.
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