|
|
Comunicarte
A nossa selec��o
Helder Bastos, 11 de Janeiro, 1997
No s�culo passado, o jornalismo resolvia um problema das pessoas: a falta de informa��o. Agora, �s portas de um novo mil�nio, tem de resolver outro. O do excesso informativo. O quebra-cabe�as do jornalista de hoje n�o � saber onde ir buscar not�cias. As fontes s�o numerosas, diversificadas e, por vezes, particularmente interessadas em vestir a pele de "garganta funda". O principal desafio reside em decidir o que � importante, significativo ou relevante para o leitor, ouvinte ou telespectador. O exerc�cio de selec��o torna-se cada vez mais complicado. O que deitar ao caixote do lixo? Porque raz�o? Como saber ao certo se aquela not�cia interessa ou n�o ao p�blico? A resposta a estas perguntas j� foi mais f�cil. O excesso de informa��o produzida e veiculada pelos meios de comunica��o social deu origem a novos problemas, que vieram apanhar de surpresa muitos jornalistas. Neil Postman, da Universidade de Nova Iorque, defende mesmo que aqueles profissionais ainda n�o se adaptaram ao mundo que ajudaram a criar. Muito do trabalho jornal�stico elaborado nas redac��es � pura e simplesmente ignorado pelos consumidores. E este ponto ser� tanto mais agravado quanto maior for o div�rcio entre os jornalistas e as audi�ncias. O cidad�o comum tem cada vez mais op��es em termos informativos. Ter� muitas mais num futuro pr�ximo devido, entre outras coisas, ao desenvolvimento das redes de computadores e das inova��es ligadas � televis�o. Al�m disso, ser-lhe-� oferecida a possibilidade de fazer, diariamente, uma selec��o rigorosa do notici�rio que lhe interessa. Se optar por receber em casa apenas e s� not�cias sobre rem�dios de escaravelhos ou instrumentos arqueol�gicos ser� apenas isso que obter�. Neste contexto, a quest�o que se poder� colocar � a seguinte: para que ser�o necess�rios os jornalistas no futuro? A resposta �: ser�o mais necess�rios que nunca num mundo atolado em informa��es. A sua capacidade de s�ntese e de selec��o, a que se dever� juntar a de orienta��o, ser� um trunfo valioso. Mas isso n�o basta. Por um lado, o jornalista ter� de passar a pensar primeiro nas necessidades de quem o l� ou v�, em vez de privilegiar os seus pr�prios interesses profissionais. � natural que a ideia do g�nero "o cliente tem sempre raz�o" n�o seja l� muito popular. Mas o jornalismo de umbigo tamb�m n�o tem dado grandes resultados. O debate est� longe de ser pac�fico. Por outro lado, a qualidade do jornalismo ter� de ser substancialmente melhorada. Os rituais do corta-e-cola, da conferenciazinha de imprensa elevada ao estatuto de missa di�ria, do despachar de "press-releases", da reprodu��o dos despachos das ag�ncias, do diz que disse, ter�o dias dif�ceis. Por enquanto, em Portugal (e n�o s�, infelizmente) reinam e triunfam. Actualmente, a abund�ncia de not�cias, tal como refere Postman, mascara a escassez proporcional de reportagens de qualidade e de interpreta��o, que ajudem as pessoas a entenderem melhor o mundo que as rodeia. S�o diversificados e complexos os desafios que espreitam o jornalismo, em particular aquele que � feito todos os dias nas redac��es dos jornais. Num mundo cada vez mais interligado, interactivo e multim�dia, n�o poder� continuar a tentar resolver os problemas dos cidad�os do s�culo passado.
|