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Matar o tempo
H�lder Bastos, 20 de Fevereiro, 1999Dantes, o homem jogava �s cartas ou � malha para matar o tempo. Agora, prefere matar-se a matar o tempo. O tempo, contado aos competitivos segundos da economia global, tornou-se a mais recente v�tima dos desvarios da ra�a humana. O tempo � o que dele fazemos, dizia-se naquele velho an�ncio da TV sobre uma marca de rel�gios. Naquela marca, o tempo fazia-se belo. (A marca era a Citizen). Ora, o que hoje o �homem moderno� faz ao tempo nem aos bichos se faz. Hoje, faz-se um tempo feio. Os rel�gios j� n�o s�o o que eram. D� impress�o que os fabricantes de contadores de horas come�aram, ali por alturas da queda do Muro de Berlim, a equipar as suas m�quinas com um compressor turbo, como aconteceu nos autom�veis. Quando os carros turbo-alimentados atingem uma certa velocidade, d�o um salto em frente, projectando o condutor para tr�s devido � for�a do aumento brusco de velocidade. O turbo dos rel�gios modernos costuma accionar-se logo que se d� � igni��o. �s sete da manh�, para uns. Mais cedo, para outros. Constantemente, para l�deres como Fidel Castro ou Marcelo Rebelo de Sousa, candidato, em Outubro, � presid�ncia da associa��o Desempregados Alegres, formada, h� pouco tempo, em Berlim. Cada vez menos h� tempo para ter tempo. Para degust�-lo, convenientemente. Voc�bulos como �frui��o�, �contempla��o� ou �reflex�o� soam t�o distantes, no tempo e no espa�o, como D. Sebasti�o, D. Duarte ou os telem�veis de 600 contos. A prop�sito da nova escravatura temporal, o �Expresso� publicou, h� tempos, um belo artigo na sua revista, assinado por Rui Trindade. Nele se diz, precisamente, que os homens se tornaram escravos do tempo. Seus prisioneiros. Quanto mais progridem (a no��o de progresso � discut�vel), menos espa�o reservam � solidariedade e afectividade humanas. Trabalha-se mais horas em escrit�rios, empresas e f�bricas. Passa-se menos tempo em casa. Por este andar, o �spot� televisivo que diz �v� para fora c� dentro�, apelando ao turismo, corre o risco de ser considerado uma tanga a quem trabalha. Qualquer dia, o tempo vai ser obrigado a passar � clandestinidade. A organizar-se em resist�ncia. Quem quiser dar-se ao luxo de ter tempo, � preso e torturado. Can��es como �Somewhere�, de �West Side Story�, ser�o proibidas pela PT (Pol�cia do Tempo). Porqu�? Por serem reaccion�rias e terem letras subversivas como: �H� um tempo para n�s/um dia, um tempo para n�s/tempo juntos e tempo para aproveitar/tempo para olhar, tempo para cuidar/�.
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