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Comunicarte
Seres e pareceres
H�lder Bastos, 13 de Fevereiro, 1999O jornalista da TV insiste com M�rio de Almeida. Pergunta-lhe, algo inconformado, se o engenheiro acha bem que se construam filas de casas mesmo em cima das dunas, em Vila do Conde. O autarca, � m�ngua de argumentos convincentes, tira da cartola a almofada suprema: os �pareceres t�cnicos�. Todos os �pareceres t�cnicos�, entidades metaf�sicas sa�das de laboriosos gabinetes pejados de ainda mais laboriosos t�cnicos, dizem que est� tudo nos conformes, explica o presidente da C�mara local. Por outras palavras, os �pareceres t�cnicos� garantem que montar caixotes residenciais de cimento em cima do mar � bonito, racional, amigo do ambiente, esteticamente irreprov�vel e, n�o menos importante, um bom investimento. A argumenta��o tipicamente tecnocr�tica avan�ada pelo autarca faz lembrar algumas ideias de Neil Postman explanadas em �Tecnopolia�, livro abordado num recente Comunicarte. Postman diz que, em nome de muita burocracia e tecnocracia, o homem tem feito os maiores disparates. Baseando-se, cada vez mais, em coisas como �pareceres t�cnicos�, remete para segundo plano valores emanados da pr�pria cultura e tradi��o dos povos. Assim, �o perigo que enfrentamos ao confiar os assuntos sociais, morais e pol�ticos � burocracia pode ser percebido se nos recordarmos daquilo que um burocrata faz. Como a hist�ria da palavra sugere, ele � um pouco menos que um balc�o glorificado.� O burocrata, acrescenta o autor, �� uma pessoa que, por prepara��o, dedica��o ou mesmo temperamento, � indiferente tanto ao conte�do como � totalidade de um problema humano.� Os protestos de alguns vilacondenses contra a constru��o de casas nas dunas foi uma manifesta��o t�pica contra a cegueira da burocracia. Escondidos atr�s dos inestim�veis �pareceres� paridos por si, embalados pela cultura do cimento nacional, os t�cnicos estiveram-se, uma vez mais, nas tintas para as mais b�sicas no��es de est�tica, urbanismo, equil�brio ambiental e impacto social. � custa deste tipo de cegueira, temos hoje, do Minho ao Algarve, um pa�s ambientalmente vesgo e paisagisticamente manco. E as facadas burocr�ticas no ambiente n�o d�o sinais de abrandamento. Antes pelo contr�rio. No �ltimo s�bado, veio a p�blico mais uma daquelas not�cias de p�r os cabelos em p�. Os ministros da Agricultura e da Economia, por certo baseados em inatac�veis �pareceres t�cnicos�, assinaram um despacho que poder� autorizar uma empresa a dar cabo de 2600 sobreiros protegidos para instalar dois campos de golfe nos arredores de Benavente. Est� tudo louco?
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