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Uma imagem triste

Bastos H�lder Bastos, 6 de Janeiro, 1999

� uma boa fotografia. Mas � uma imagem triste. Por v�rias raz�es. Ant�nio Guterres est� s�, de costas, cabisbaixo, ao longe, vestido de negro, num cemit�rio de Lisboa.

Segundo nos relata, pormenorizadamente, � maneira das revistas fr�volas, o �Tal & Qual�, o primeiro-ministro resolvera interromper a sua agenda oficial para se recolher junto � campa de Lu�sa Guterres, falecida h� um ano. O rep�rter estava l�, como costuma dizer-se, e disparou o obturador. Afinal, era o chefe do Governo. Tal e qual, � not�cia. Coisa de primeira p�gina. Clic! Ser� mesmo?

H� duas maneiras de olharmos para esta fotografia (do texto que a acompanha � melhor nem falar): como ilustra��o leg�tima de um acto a que todos podem ter acesso por estar em causa uma figura p�blica de relevo; ou como pura e simples viola��o de um momento privado, �ntimo e, em �ltima inst�ncia, doloroso para o cidad�o Ant�nio Guterres.

Ora, parece pouco razo�vel defender que, s� por se tratar do primeiro-ministro de Portugal, se justifica roubar-lhe aquele momento para o expor � curiosidade, qui�� m�rbida, do p�blico. N�o seria necess�rio evocar, nem c�digos deontol�gicos, nem auto-regula��es, para se concluir da falta de razoabilidade desta intromiss�o. Bastaria um m�nimo de senso. Aquele cidad�o deveria, naquela altura particular, ter sido deixado em paz. Ponto final.

O direito � informa��o tem limites. Um deles deriva, precisamente, do respeito pela privacidade, seja de figuras p�blicas, seja de homens e mulheres que dormem todos os dias na rua. O problema � que, nas nossas sociedades, crescentemente competitivas e exageradamente mediatizadas, se arranjam cada vez mais desculpas para se entrar pela vida �ntima dos outros adentro sem pedir qualquer licen�a. Dispara-se primeiro e s� depois se pergunta se algu�m tem alguma coisa a dizer.

Por altura da morte da princesa Diana, sucederam-se, nas televis�es, os document�rios sobre os limites �ticos do jornalismo. Em foco esteve tamb�m a estranha forma de vida dos �paparazzi�.

Aparentemente com remorsos, um destes ratos da fotografia contou perante as c�maras que, um dia, conseguira fotografar Diana � varanda da casa de f�rias na neve. A princesa estava com um ar completamente destro�ado. Era, com certeza, uma bela foto para deliciar o �voyeurismo� de milh�es de leitores de revistas da especialidade bisbilhoteira.

O �paparazzi� em causa veio a saber, mais tarde, que Diana acabara de receber a not�cia da morte do pai.

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