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Comunicarte

Golpe de Vista

Bastos Helder Bastos, 13 de Novembro, 1999

N�o deixa de ter a sua ponta de ironia. Um norte-americano entra de armas e guitarras por Cuba embargada adentro e desenterra do p� castrista verdadeiras p�rolas de m�sica. Ry Cooder deu, em boa hora, o Buena Vista Social Club ao mundo. O realizador Wim Wenders juntou-lhes as imagens.

Este sofisticado final de mil�nio ocidental parece pouco prop�cio a hist�rias parecidas com contos de fadas. Mas, de vez em quando, l� vamos tendo umas alegrias em vias de extin��o. Vermos um engraxador de sapatos, um pianista esquecido pela idade e pelo regime, um nonagen�rio amante de charutos e de mulheres serem vivamente aplaudidos em Nova Iorque, no Carnegie Hall, ao som desse verdadeiro hino � melodia que � o tema "Chan Chan", n�o � coisa de todos os dias.

O disco, tamb�m intitulado Buena Vista Social Club, � uma absoluta del�cia. N�o � por acaso que arrecadou um dos mais prestigiados pr�mios de m�sica internacionais, os "Grammy Awards". Tudo soa natural, genu�no e, ainda por cima, bem gravado.

O cuidado colocado na embalagem desta obra tamb�m � de assinalar. Um libreto vai dando-nos pistas sobre cada tema. H� fotos a preto e branco dos m�sicos, quase todos bem entradotes na idade, em plena grava��o. Enfim, este � um disco feito com o esmero e a paci�ncia de um bom charuto cubano. Se Baudelaire estivesse por c� para o ouvir refor�aria ainda mais a sua cren�a de que a m�sica tem por vezes uma for�a que nos arrasta como o mar.

O sucesso do Buena Vista a n�vel internacional veio promover uma verdadeira "cubamania". Sucedem-se os discos de m�sicos cubanos. H� "Cuban Allstars" por tudo quanto � lado nos escaparates das lojas. Esperemos � que este n�o seja mais um epifen�meno t�pico das sociedades de consumo, que sugam, r�pida e vorazmente, as novidades para as abandonar logo a seguir com a mesma velocidade.

O alem�o Wim Wenders ajudou, e bem, � festa do Buena Vista. O filme ainda corre, ao fim de v�rias semanas, nas salas de cinema portuguesas. � praticamente uma obra documental, na qual Wenders, � semelhan�a de experi�ncias anteriores, se distancia e deixa que a ac��o se desenrole. No caso, �s voltas por uma Havana que mostra aos visitantes, aqui e acol�, as tradicionais frases revolucion�rias de Castro.

Wenders n�o parece fazer do seu olhar pelas ruas, pelas casas, pelas pessoas, uma espada de reparo pol�tico. Mas deixa espa�o ao espectador para leituras que v�o para al�m dessas mesmas imagens. E uma interroga��o vai ganhando consist�ncia � medida que Havana desfila: por que raz�o estiveram j�ias destas embargadas durante tanto tempo?

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