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Comunicarte
Tiro ao estilo
Helder Bastos, 16 de Outubro, 1999
Carrascal�o entra na sua casa de D�li destru�da. Chora. A c�mara suga-lhe as l�grimas. O homem segue para o s�tio onde o seu filho, morto na barb�rie, est� enterrado. A c�mara segue. Fria. Implac�vel. Carrascal�o ajoelha-se e, naturalmente, desfaz-se em sofrimento. A c�mara filma, a SIC passa. Grande momento de televis�o? N�o. Apenas mais um exemplo de que, tantas vezes, os profissionais da informa��o simplesmente n�o sabem quando devem desligar a m�quina. Ali estava um homem num momento privad�ssimo de dor, rapidamente desqualificado a �flash� t�pico de �talk show�, tipo �Ponto de Encontro�. Imagens destas s�o para ver em filmes. N�o nos telejornais. Nos Estados Unidos, a cadeia CBS, atacada pela sede cega de sensa��es fortes, n�o esteve com meias medidas. Conseguiu arranjar, � socapa, imagens de um tiroteio ocorrido numa escola de Denver, em Abril passado. Doze estudantes e um professor foram mortos. A CBS marimbou-se de alto para o efeito que aquelas imagens iriam causar nas pessoas, sobretudo nos familiares das v�timas. Transmitiu-as em pleno telejornal de hor�rio nobre. Segundo nos adianta o �P�blico�, v�em-se alunos escondendo-se debaixo de mesas depois dos primeiros disparos. V�-se um dos assassinos atirando sobre colegas. E pouco mais. Uma quest�o pertinente foi colocada: acrescentam estas imagens algo de novo ao que j� se sabia? N�o. Portanto, sobre o estrito ponto de vista jornal�stico, t�m um valor quase nulo. Garantem, pela sua espectacularidade, audi�ncias e sururu? Certamente. Transmita-se. Nada de novo aqui. A evolu��o das esta��es de TV comerciais calcorreia o mesmo caminho em quase todo o mundo. A informa��o n�o escapa ao diapas�o geral. Informar, mas com emo��o. Ousadia. Impacto. Imagem forte. Chocante. E por a� adiante. As �nicas esta��es com o m�nimo de chance de n�o ca�rem na banalidade previs�vel e, se calhar, incontorn�vel, desta l�gica de alicerces comerciais e concorrenciais s�o as p�blicas. A maior parte dos pa�ses europeus percebeu isso h� muito tempo. Por isso, espanta vermos ciclicamente cabe�as p�blicas pensantes, de Marcelo Rebelo de Sousa a, mais recentemente, Sousa Franco, defenderem, com pose de merceeiros, a privatiza��o da RTP. Na altura da entrevista concedida ao �Expresso�, estaria o ministro das Finan�as j� imbu�do do esp�rito da sua pr�pria privatiza��o p�s-eleitoral?
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