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Pensar a técnica

Bastos Helder Bastos, 2 de Outubro, 1999

A Sociedade da Informação está na ordem dos dias que correm. Há «livros verdes» a propósito em todos os países. Os governos empenham-se em dar um ar modernaço distribuindo multimédia pelas escolas. As empresas do sector esfregam as mãos de contentes. Os meios de comunicação vão atrás. Tudo no melhor dos mundos? Nem por isso. Falta pensar, mais e melhor, o que se está a passar.

O sociólogo francês Dominique Wolton, sabendo bem os riscos que correm todos os teóricos que se atrevam a discutir os prós e os contras da nova vaga digital, resolveu dedicar, no seu livro «Pensar a Comunicação», uma parte substancial às novas tecnologias.

Neste capítulo, Wolton mostra não se deixar embalar pelo canto das sereias da Sociedade da Informação. Mas também não cai no extremo oposto, isto é, no desancar a torto e a direito. Uma tarefa nada fácil.

Como diz o próprio, «manter as distâncias e o espírito crítico é tanto mais difícil quanto, intuitivamente, ninguém deseja deixar-se levar pelas promessas da modernidade e todos receamos que nos achem «resmungões» e «medrosos». E como será possível, pelo contrário, manter a distância em relação ao outro discurso, ultra-pessimista, que denuncia os desvios da comunicação nas múltiplas indústrias do mesmo nome e só vê, no tema da sociedade da informação, a marca de um novo domínio?» (pág. 296).

Um dos aspectos analisados pelo sociólogo é o da preponderância atribuída actualmente àquilo a que chama «ideologia técnica», que acompanha o lugar central que a informação e a comunicação ocupam na sociedade ocidental. Apesar de central, é, no entanto, considerada uma ideologia «modesta e instrumental».

Explica o autor que «a omnipresença de sistemas de informação não dá origem a uma sociedade da informação, muito simplesmente porque uma sociedade se organiza em torno de sistemas de valores e não de sistemas técnicos». Aqui está uma asserção que, certamente, alguns arautos da era digital gostarão de rebater.

Para mostrar que as inovações técnicas, por mais fortes que sejam, não implicam, mecanicamente, uma transformação profunda do conteúdo das actividades, Wolton dá o exemplo da imprensa. Aqui, a entrada na «revolução da informação» não provocou a revolução anunciada, ou seja, «uma nova concepção da informação e do jornalismo».

Afirma Wolton: «Hoje em dia, com uma omnipresença da informática e de todos os meios técnicos mais sofisticados, não me parece que a informação e a imprensa tenham mudado muito do ponto de vista do conteúdo, e do seu papel».

Escusado será dizer que, face a estes breves tópicos, o livro «Pensar a Comunicação», que vai muito para além da temática das novas tecnologias, é de leitura obrigatória.

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