Arquivo Comunicarte
Desde 1994


Comunicarte

Nas margens da rede

Bastos Helder Bastos, 06 de Setembro, 1999

O mundo em rede emergente está longe de se resumir à tagarelice na Internet, ao jogos de computador e aos vícios típicos do ciberespaço. Há todo um novo modelo económico em construção baseado na tecnologia de redes. Para baralhar ainda mais as regras do jogo financeiro global.

O sociólogo espanhol Manuel Castells tem estudado as transformações propiciadas pela expansão das tecnologias da informação e das telecomunicações, expansão essa que passa incontornavelmente pela Internet, cujo trigésimo aniversário foi assinalado esta semana.

Em entrevista ao diário espanhol «El País», publicada anteontem, Castells mostrou-se convencido de que o que abriu a porta à nova economia foi a tecnologia de redes.

O autor de obras como «A era da informação» e «A Sociedade em Rede» considera estarmos «perante um modelo económico novo e triunfante», que tem como epicentro o famoso Silicon Valley. O sociólogo está numa posição privilegiada para observar o que ali se passa, pois é professor na Universidade da Califórnia.

O novo modelo de funcionamento em rede começa no próprio interior das empresas. Para nos ajudar a percebê-lo melhor, Castells avança com o exemplo da Cisco Systems.

A Cisco tem uma «web» própria através da qual os seus clientes pedem o que querem. Os engenheiros da casa examinam o pedido e reenviam-no para os fornecedores, que fazem o trabalho material. «A Cisco não faz nada material: apenas transfere e organiza informação», assinala Castells. A relação entre clientes e fornecedores é, portanto, virtual: metade das transacções resultam de uma relação feita através da sua «web».

Economias organizadas em rede, empresas com «web» própria, comércio global através da Internet e outras modalidades da era digital é bodo para todos? Longe disso.

O novo modelo económico tem os seus próprios limites. Um dos mais significativos tem que ver com o facto de a maioria ficar à margem. «Sou pessimista em termos humanos e menos em termos capitalistas», diz o sociólogo.

A Europa e o Japão têm grandes probabilidades de se integrarem no novo sistema económico liderado pelos Estados Unidos. Mas quase sessenta por cento da população mundial ficará restrita a uma economia informal ou de sobrevivência. Pelo que Castells deixa uma pergunta no ar: «Será isto sustentável num mundo onde todos podemos ver o que se passa em toda a parte?»

[email protected]

Hosted by www.Geocities.ws

1