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Comunicarte
Virtuais afectos
Helder Bastos, 28 de Agosto, 1999
Computadores com sentimentos próprios, capazes de reconhecer emoções alheias, estão para breve. É o que dizem os técnicos da especialidade. Curiosamente, o anúncio surge numa altura em que toda a gente fala da galopante desumanização da sociedade. Sobretudo nas grandes urbes. A situação é, no mínimo, paradoxal. O mundo das máquinas de cálculo e processamento não pára de se aperfeiçoar, evoluindo agora em direcção à sua hipotética «humanização». A ideia de fundo parece ser esta: se as pessoas passam cada vez mais tempo ao computador, caixa fria e pouco acolhedora, deficitária em termos de reconhecimento e afectividade, algo estúpida, portanto, então o melhor é mesmo torná-lo mais parecido com o homem, mais «user friendly», como dizem os anglo-saxões. O sonho dos investigadores das ciências da computação é chegar aos calcanhares do «Hal 9000», um super-computador da ficção científica saído da imaginação de Arthur C. Clark e celebrizado no grande ecrã pelo talento do cineasta Stanley Kubrick em «2001: Odisseia no Espaço». «Hal» toma decisões autonomamente, desabafa com os humanos, joga xadrez com eles. Tem «personalidade» própria. Ora, ao mesmo tempo que os humanos tentam chegar ao Marte dos computadores, almejando ver em cada um destes amontoados de plásticos e «chips» um amigo, um familiar, os sinais de declínio da afectividade, tanto nas suas manifestações públicas como privadas, vão-se tornando mais ruidosos. Sociólogos e outros cientistas sociais têm vindo a mostrar-nos a forma como as sociedades industrial e economicamente mais desenvolvidas se estão a degradar sob o ponto de vista dos vínculos afectivos e sociais. A família tradicional esboroa-se, o número de divórcios dispara, o diálogo geracional e interpessoal complica-se (ou complexifica-se), o isolamento urbano assume aspectos tenebrosos, as mais diversas intolerâncias agudizam-se. Outros, do típico urbano deprimido ao tímido adolescente com dificuldades em conversar face a face, arranjaram entretanto um escape virtual, mergulhando, horas a fio, no conforto do ciberespaço. Muitos dos que nestas profundidades não conseguem nadar, por falta de conhecimentos ou de posses, entregam-se à conversa, tantas vezes fiada, das crenças e igrejas «fast food» que por aí pululam. Iremos nós construir, nas próximas décadas, em cenário de metamorfose kafkiana, máquinas «humanas» e humanos «virtuais»?
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